Opinião geleia.

O Flow – um dos maiores grupos de podcasts do país – se viu numa confusão daquelas ontem (08/02) quando um de seus sócios e comentaristas mais populares, o Monark, disse que o Brasil deveria ter um partido nazista. A internet e a mídia entraram em modo de cancelamento, o Flow perdeu boa parte dos seus patrocinadores e Monark já foi mandado embora. Curiosamente, de onde menos se esperava, veio uma mensagem de suporte: do partido mais comunista do Brasil.

Eu sei que muita gente vai querer falar sobre o caso em si, sobre o mérito da fala de Monark e sobre a liberdade de expressão no Brasil, mas o Desfavor encontrou seu nicho desviando da histeria que virou a política brasileira. Pra ver gente querendo matar o cidadão por ter falado uma besteira e para ver gente defendendo-o como se fosse um mártir, tem o resto da internet. Para conversar sobre o cenário que cria essas polêmicas, temos o texto de hoje.

Os tweets do PCO durante o cancelamento em praça pública me chamaram atenção pela consistência de mentalidade dos comunistas mais radicais do país: não estavam nem aí para a “opinião esperada” naquele momento, especialmente a da esquerda. O PCO é o partido que concordou com o Bolsonaro com a facilitação da compra e registro de armas de fogo no país. E agora é o partido que se posicionou claramente a favor de alguém que disse que o Brasil deveria ter um partido nazista.

O PCO é maluco? Sim, o PCO é muito maluco. Eles querem instaurar o comunismo no Brasil, e sem vaselina. Mas olha a lógica blindada deles: se eles querem derrubar o sistema, não podem ser a favor da supressão de nenhuma ideologia. Quem proíbe partido nazista pode proibir partido comunista. E sobre aquela questão das armas, é mais simples ainda: eles defendem que o proletariado se revolte contra a burguesia, e querem estar armados no dia da revolução.

Claro, se eles tomassem o poder, proibiriam dissidência e desarmariam o povão como sempre se fez em regimes comunistas. Antes disso, precisam dessa tolerância. Eu tenho quase certeza que já escrevi sobre isso antes, então apenas um reforço: apesar de não concordar com os objetivos desses partidos comunistas, sempre que eu estou na dúvida em quem votar, voto neles. Não quero que ganhem, mas eu acho excelente que pelo menos alguém tenha alguma opinião consistente no cenário político nacional.

Ninguém mais sabe o que PSDB, PT, PMDB e todos esses partidos brasileiros querem ou não querem. São todas massas amorfas de interesses momentâneos. Esquerda e direita, progressismo e conservadorismo… apenas linhas na areia. Fazem qualquer negócio, se associam com quem for mais útil, defendem apenas o que pode gerar mais votos. Posso não concordar com o que o PCO diz, mas eu respeito o fato de que eu sei o que ele diz e que vai assumir posições consistentes com o discurso.

Porque isso faz falta numa democracia jovem como a brasileira: precisamos saber quem quer o quê para podermos decidir os rumos do país escolhendo nossos representantes. Não tem muita escolha no Brasil, quem é eleito se transforma mais ou menos na mesma coisa que seu antecessor, com alguns defeitos diferentes. A opinião política brasileira é uma geleia, que se molda ao formato do poder no qual se encontra. Política deveria ser uma ferramenta para mexer no sistema, mas na prática são apenas cores diferentes da mesma geleia ideológica se adaptando ao que for mais lucrativo e conveniente no momento.

E é aqui que eu trago essa relação para a polêmica recente com o Flow. Quase todo mundo reagiu ao caso nesse modo geleia: o discurso padrão foi de repúdio ao nazismo, o que é uma das coisas mais óbvias que uma civilização do século XXI pode fazer. Ser contra o nazismo não é errado, muito pelo contrário, mas havia alguma dúvida sobre a opinião média das pessoas? Quem estava com medo do renascimento do nazismo no Brasil?

Se você analisar a fala do tal de Monark, até eu que nunca ouvi nada do Flow percebo que ele se empolgou com um ponto de vista libertário de liberdade de expressão irrestrita. Ponto que apesar de não concordar mais, eu consigo compreender. Foi de uma burrice imensa expor essa ideia como expôs, mas basta ter meio neurônio para perceber que não era uma apologia à instalação do nazismo no Brasil. Pra piorar, a desculpa dele foi estar bêbado.

Se eu fosse patrocinador dele, até daria uma chance dele se desculpar antes disso, mas depois de saber que a pessoa estava bêbada no programa, eu com certeza cancelaria o contrato. Amador é pouco para o que ele fez. Mas, de volta ao foco: se você quiser, consegue entender a situação como apenas algo mal expressado que não coloca em xeque a segurança do país. Mas, se você faz parte do time da opinião geleia, cancelamento é a única opção.

Os partidos políticos não são assim à toa: são representantes da população tupiniquim. Temos uma população que estuda pouco, por falta de oportunidades e por falta de cultura de estudo. E populações assim tendem a não ter nada muito bem estabelecido na mente. Suas visões e opiniões são geleias que se moldam ao que está acontecendo a cada momento. Evidente: se você é pego de surpresa a cada coisa que escuta, você vai se posicionar da forma mais segura em relação ao bando.

Se você escuta nazismo numa frase, tem algo muito fácil para derramar sua geleia ideológica: nazismo é ruim, sou contra o nazismo. Se a pessoa estava dizendo que era fã do Hitler ou se estava dizendo que foi um dos maiores crimes contra a humanidade, não importa, o que registra é uma opinião fácil de ter e que nunca vai te colocar em dificuldades. Quando o cidadão médio entra em contato com a frase de Monark, a geleia se assenta imediatamente no modo cancelamento.

E esse é um buraco tão perfeito pra geleia que pouca gente resistiu à tentação: só mesmo os libertários mais radicais disseram entender o ângulo da liberdade de expressão irrestrita. Quase ninguém quis arriscar ser considerado simpatizante do nazismo e ser engolido junto pela histeria punitiva do brasileiro. É muito por isso que eu respeito o PCO: não teve geleia ali. A opinião deles estava definida e não teve negociação com o que o público esperava. É saudável para uma democracia saber o que um partido quer ou não quer.

Assim como seria saudável para o povo brasileiro que opiniões não fossem essa meleca toda, sempre se adaptando ao que for mais popular a cada momento. Como você vai saber com quem se unir para alcançar um país melhor? As pessoas sequer entendem o que estão lendo ou ouvindo, reagem quase que por instinto a qualquer informação. E mesmo quem tem condição de fazer diferente parece refém desse modo de pensar: as grandes marcas que pularam fora do Flow imediatamente com certeza tem pelo menos uma pessoa capaz de analisar a situação de forma mais racional. Mas ninguém quer ficar com a batata quente na mão.

Eu estou chamando de opinião geleia, mas pode chamar de empurrar com a barriga também. Quem não se compromete com no mínimo uma certa consistência no que pensa e faz não consegue sair do lugar. Uma sociedade precisa de planos de longo prazo, é muita gente e muito recurso para movimentar. Se não houver uma consistência interna na mente das pessoas, ficamos nesse festival de construir e destruir as mesmas coisas a cada quatro anos (ou menos).

Nem direita nem esquerda parecem consistentes. É sobre a hashtag do momento e nada mais. São contra a corrupção se não estão levando vantagem, são contra extremismo só quando a opinião difere da sua, são de direita quando tem dinheiro, são de esquerda quando não tem… a geleia é confortável no dia a dia, você sempre se acha certo, mas décadas e décadas de geleia garantem que o país fique sempre girando em falso no mesmo ponto.

Toda decisão tem uma consequência, não dá para agradar todo mundo, não dá para eliminar a chance de problemas. E digo mais, não dá para prever perfeitamente o que vai dar errado. A sanha de ter “a opinião certa” nesse mundo de comunicação instantânea faz com que todo mundo tenha opiniões de aluguel, inconsistentes entre si.

Aqui no Desfavor a gente nunca foi contra mudar de opinião, eu já fui muito mais anarquista do que sou agora, por exemplo. Talvez nos primeiros anos de blog eu tivesse feito uma defesa raivosa do Monark pelo seu direito de se expressar livremente. Hoje em dia eu sou mais moderado: o direito de se expressar é equivalente aos outros direitos. Se ele gerar a violação de outros direitos fundamentais, encontra o seu limite. Não enxergo mais como uma sociedade pode funcionar de forma diferente.

Mas mudar de opinião não é igual ter opinião geleia, porque mudar de opinião presume que você tenha linhas para se guiar. A minha linha guia é que a adoção de direitos humanos foi o que realmente tirou o ser humano da selvageria. É o ponto que não pode ter volta. Talvez eu comece a ver outras coisas diferente com o passar dos anos, mas eu vou me esforçar para manter minha linha guia estável. Eu quero ser previsível nesse sentido: quem estiver conversando comigo ou mesmo lendo o que escrevo deveria começar a prever que minhas análises e opiniões partem do princípio da importância de garantir direitos básicos para todos os seres humanos, e que a melhor forma de me confrontar é apontar inconsistências entre o que digo ou escrevo e essa visão fundamental das coisas.

É por isso que eu me sinto capaz de criticar essa noção de opinião geleia: porque gostando ou não do que eu penso, acredito que consiga mostrar para você que tenho uma base sobre a qual construo as ideias que desenvolvo. E por consistência também, acredito que isso seja possível de cobrar do outro. Pode errar, pode falar besteira, mas pelo menos que faça isso pensando.

PCO, eu nunca quero que você chegue ao poder, mas até segunda ordem, eu respeito muito como você oferece alguma base para o que expressa. Adoraria que tivesse mais exemplos para usar nesse texto, seria o sinal de que as discussões no país poderiam ir pra frente.

Enquanto isso, vamos de cancelamento, histeria e esquecimento dois dias depois… atolados nessa geleia ideológica.

Para dizer que nunca achou que estaria do mesmo lado dos comunistas, para dizer que quem pensa muito é nazista, ou mesmo para dizer que só curtiu as memes mesmo: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • O sentimento anti-ciência é completamente compatível ao modo geléia, basicamente por que a ciência segue o modus operandi totalmente oposto.

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  • O PCO é o único caso de Partido que existe só pela ideologia, já que há muito tempo não recebe mais fundo partidário, eleitoral ou tempo de TV (ainda acho que sua sede nacional é a casa do Rui Costa Pimenta, seu presidente e futuro líder supremo do Brasil numa revolução comunista).

    Justamente por isso eles se dão no direito de falar o que quiser: porque não tem rabo preso, nem intenção de ter um. Quanto mais partidos existirem como a Causa Operária melhor, para todo mundo.

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  • Achei que a essa altura do campeonato pelo menos algumas pessoas já tivessem percebido que “cancelamento” tem prazo de validade e não atinge tanto a pessoa como fazem parecer, não sei como ainda levam a sério. A pessoa vai continuar rica, ainda vai ter seguidores, ainda vai ter namorados, vai arrumar trabalhos e patrocinadores novos. Teve uma época que umas empresas bem grandes como a Johnson&Johnson e a Coca Cola pararam de patrocinar o Youtube por causa do extremismo e conteúdo impróprio que estavam sendo promovidos no site. Essa atitude super benevolente não durou semanas, e o extremismo e conteúdo impróprio continuam por lá.

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    • E a gigantesca maioria não tem tratamento de esgoto (pois a canalização não quer dizer tratamento), um salário que o permite pagar o mínimo para subsistência (quiçá uma existência digna)…

      Concordo que temos questões mais básicas e urgentes, mas isso não impede nenhum outro discurso. Seria o mesmo que dizer que um sem teto não possa dizer qual carro acha mais bonito (ainda que não vá comprar).

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