Telegonia

Última postagem do mês, então é a minha vez de pegar uma sugestão dos leitores para transformar em tema: a Sissy sugeriu falar sobre Telegonia, e o assunto é tão horrível que eu me empolguei na hora! Você sabe o que é Telegonia? Não? Azar seu, vai aprender agora.

Telegonia é uma teoria que diz que as características de um parceiro anterior da fêmea podem ser herdadas pela sua prole. A fêmea se reproduz com um macho, mas o filho acaba tendo elementos de outros machos com os quais ela fez sexo anteriormente. Ou, em termos mais toscos: mãe só tem uma, pai são todos que transaram com ela.

E não tem nada de moderno nisso. Isso vem desde o tempo de Aristóteles, na Grécia antiga. Naquele tempo, ninguém sabia muito bem como se dava o processo de gerar uma nova vida, só tinham a noção que precisava do sêmen de um macho dentro de uma fêmea. O que acontecia dentro do corpo da mulher depois disso estava aberto a interpretações.

E por muito tempo, a Telegonia sequer foi questionada. Na mitologia grega, a ideia de dois ou mais pais da mesma criança era a explicação para semideuses: um ser humano normal e um dos deuses fez sexo com uma mulher, a criança saiu um misto dos dois, não importa quem tenha transado por último com a mulher. As pessoas realmente achavam que isso acontecia. Com humanos e com animais.

Quer dizer… embora seja injusto cobrar de pessoas da antiguidade o conhecimento sobre biologia nesse nível, não parece meio conveniente demais que essa ideia reforce o “valor da mulher virgem”? Antes dos testes de DNA, ninguém tinha certeza de quem era filho de quem. Eu diria até que a crença na Telegonia tinha mais funções utilitárias do que propriamente moralistas: não eram tempos de muito amor não, viu? Casamentos eram muito mais práticos do que românticos, e filhos eram muito mais investimento que sonho. Homens não queriam criar filhos dos outros, e na sua cabecinha, o jeito mais seguro era pegar uma mulher que nunca tivesse feito sexo com outro homem.

Sim, tem papo religioso e moral nisso de virgindade feminina (mas nunca masculina), só que essas coisas não surgem num vácuo, cada babaquice religiosa moderna teve alguma função mais prática no passado. Infelizmente, nossos antepassados tinham a sutileza de um elefante numa loja de cristais e queriam apedrejar pessoas por qualquer deslize. Por isso acabamos com uma maioria de regras sociais de fundo religioso que nem fazem mais sentido nos dias atuais.

E toda essa conversa de importância da mulher casar virgem foi crescendo com o passar dos milênios, cada vez mais inegociável pelas religiões do Oriente Médio. Ninguém mais precisava dar muita explicação para a ideia de exigir virgindade da mulher, era só a regra do ser mágico dos céus. Pseudociência é uma praga mesmo: quase todas as do passado viraram regras religiosas porque ninguém era capaz de combater.

A Telegonia nunca foi embora, ela só foi ficando para escanteio, surgindo vez ou outra na boca de médicos e filósofos, mesmo sem nenhuma prova concreta da sua existência. Não precisava: a Telegonia tinha passado pra frente em várias religiões e mesmo sem essa base pseudocientífica, a “obrigação da virgindade feminina” seguia século após século. Não precisamos de estudos científicos para comprovar algo que todo mundo já acredita, não?

Mas o tempo passa, o tempo passa e o conhecimento humano sobre a concepção cresce exponencialmente. Enxergam o espermatozoide, o óvulo. Enxergam com os próprios olhos como funciona a concepção. Opa… se é só um espermatozoide que entra, se eles não vivem mais que alguns dias dentro da mulher… a Telegonia não faz mais sentido. Alguém precisou sair nas ruas dizendo que Telegonia estava errada? Não, ninguém nem sabia mais que existia algo chamado Telegonia. A religião estava segurando a farsa da virgindade como única certeza de paternidade. Fazia parte da moral da sociedade.

Revolução sexual. Camisinha, pílula, globalização, direitos femininos… a farsa da virgindade estava caindo, rapidamente. A religião e os conservadores não estavam mais conseguindo manter esse nível de controle sobre as mulheres. Elas estavam fazendo sexo sem medo de serem rejeitadas pelo resto da vida. A porteira estava aberta. E por um tempo, isso foi bom: dos anos 1960 para frente, a relação da humanidade com o sexo mudou consideravelmente, menos culpa e mais liberdade. Telegonia? Que mané Telegonia! Ninguém nunca ouviu falar disso.

Só que junto com a parte boa de parar de se preocupar tanto com um pedaço de pele na vagina das mulheres, veio o lado ruim da subversão do feminismo na cultura politicamente correta e sequencialmente a da lacração. O pêndulo avançou com força rumo à liberação feminina, mas assim que alguns expoentes do movimento perderam a mão e começaram a demonizar homens, deram energia para o desenvolvimento da contraparte insana masculina. MGTOWs, Incels e uma série de homens radicalizaram em resposta.

Alheios a tudo isso, em 2014, um grupo de pesquisadores estavam interessados em descobrir se havia alguma lógica em Telegonia em um tipo de mosca. Fizeram um experimento e encontraram evidências de que os filhotes da mosca-da-fruta parecem receber características de outros machos que cruzaram com a fêmea. A hipótese deles era de que esperma de machos anteriores poderia ter entrado em óvulos imaturos da fêmea, que quando foram realmente ativados pelo esperma de outro macho, influenciaram o desenvolvimento do feto.

O ano era 2014, então várias notícias saíram sobre a pesquisa, todas naquele padrão “estagiário lendo artigo científico”, colocando palavras na boca dos cientistas e dizendo que “a ciência diz que é verdade”. Os pesquisadores nem sonhavam em dizer que isso poderia acontecer em humanos, sequer tinham tentado em mamíferos. Mas, é claro que as matérias da internet usavam chamadas como “Seu filho não se parece com você? A ciência explica”. Pouca gente deu atenção na época.

Mas recentemente… a guerra cultural estava tão forte que o tema voltou com força: homens querendo argumentos para sugerir mais repressão sexual sobre as mulheres foram buscar a Telegonia de volta. Como a versão religiosa tinha perdido fôlego, a versão pseudocientífica virou a bola da vez. Os defensores atuais da Telegonia usam o estudo de 2014 como “prova” de que é isso que acontece. Um estudo diz que viu evidências de Telegonia em moscas-da-fruta, mas esse estudo já recebeu muitas críticas e o consenso científico atual é que Telegonia é uma teoria pseudocientífica.

Eu não estou escrevendo essa história toda para discutir com você a validade científica da teoria, por incrível que pareça. Se tem que estudar melhor, tem que estudar melhor. Talvez no futuro encontrem alguma prova que a Telegonia tem mérito em seres humanos. Não estou fechando a porta para isso ou escolhendo o resultado que eu quero, estou só dizendo para quem está lendo em que pé a parte científica está agora. Tudo pode mudar.

O ponto mais importante nessa discussão, creio eu, está na conclusão de que a virgindade da mulher tenha muita importância. Se você quer defender por um ângulo moral, religioso ou até mesmo científico, fique à vontade, mas chegar a uma conclusão não significa que ela tenha utilidade em outras discussões.

Telegonia é um espantalho nessa discussão. Porque a teoria só tem utilidade para tirar o foco do problema essencial de seus defensores: o incômodo com a liberdade sexual feminina. Sou o primeiro a dizer que não acho motivo de orgulho para ninguém ser promíscuo(a), mas também não precisamos sair correndo para a outra direção em busca de valor no ser humano. Na cabeça do público que usa Telegonia como argumento para criticar a sexualidade feminina, existe uma dor muito mais profunda.

O MGTOW, o Incel e o tipo de conservador de rede social/chan que fica repetindo isso normalmente é alguém inseguro na sua relação com as mulheres. Não estou nem dizendo que são incapazes de conseguir sexo (embora alguns sejam), mas que tem algo de muito mal resolvido nessa relação com as mulheres. Um medo primal de ser passado para trás, de ser traído, ferido. Uma desconfiança terrível que precisa de “provas de valor” como virgindade.

Mas a verdade que não é sobre o hímen, é sobre a suposta pureza dessa mulher. O homem que morre de medo da mulher e o poder que ela pode exercer sobre ele quer achar uma inofensiva. Inexperiente, dependente, medrosa… uma criança com a qual pode fazer sexo, usando termos bem diretos. Quem enche a boca para chamar todo mundo de otário por não saber sobre Telegonia tende a ser uma pessoa que está se borrando de medo de ter o coração partido por uma mulher, seja por rejeição ou traição.

Um medo que é normal de se ter em algum nível, ninguém quer ter o coração partido, mas que não é normal nesse nível de isolamento de uma vida sexual e/ou amorosa. Querer a mulher virgem e pura é uma excelente desculpa para não se jogar numa relação e enfrentar os riscos que vem com ela. Se quase todas as mulheres não prestam, não é culpa dele não conseguir chegar em uma, ou mesmo manter um relacionamento minimamente saudável. A culpa é dela, não dele.

Mesmo se Telegonia for a mais pura verdade e uma criança nascer com características de outros homens que já fizeram sexo com a mulher, obviamente nem é algo muito impactante. Tem motivo para exame de DNA comprovar paternidade, não? É algo que acontece todos os dias sem parar, em casais infelizes, mas em casais muito felizes também. Gente que trai e gente que é fiel. Gente que fica junta seis meses e gente que fica junta por seis décadas.

Essa maluquice sobre virgindade da mulher ser tão importante é ranço de um passado completamente diferente do mundo no qual vivemos hoje, e nem mesmo naquela época tinha relação com a qualidade de vida do casal. Não é um pedaço de pele, são as pessoas. Pessoas que estão interessadas em dividir uma vida ou um momento. Se você tem medo de se relacionar, você vai se relacionar com o medo.

Não dá para engolir esse papo furado de homem dizendo que só quer mulher virgem porque são as únicas que prestam. É que nem escolher mulher pela cor do cabelo ou pelo tamanho do peito: pode até ter algo que te interesse, mas não é garantia de nada. Mulher que chega virgem no casamento pode te chifrar do mesmo jeito. Mulher que já teve vários namorados pode estar morrendo de vontade de ficar com só um homem e tratar ele muito bem.

E no fundo, todo mundo sabe disso. Até parece que toda mulher casava virgem no passado… e até parece que era isso que segurava os casais juntos por muito tempo. Não podia nem divorciar até poucas décadas atrás. Telegonia e qualquer outro tipo de desculpa de homem histérico pelo medo de sofrer por um relacionamento nada adiantam para encontrar alguém de quem você goste e que goste de você de volta. Porque essa é a base. O resto é conversa mole de gente querendo justificar seus problemas pessoais.

Homem não presta até você achar um que preste; mulher não presta até você achar uma que preste. E para cada pessoa, esse padrão é diferente. Se você está desistindo antes ou criando padrões cada vez mais difíceis para o outro alcançar, você está com um problema. Você, não o outro.

Já basta esse bando de mulheres cada vez mais raivosas e ressentidas, não precisamos de um bando de homens histéricos com medo de esperma homeopático, né? Sai dessa. Pode até achar bonito ou especial encontrar uma mulher virgem, nada contra, mas isso é só um pedaço dela, um que se parte rapidamente. Se é isso que você espera de uma mulher, será que você quer mesmo uma mulher?

Para dizer que eu sou mangina, para dizer que é mulher e vai se ofender por solidariedade, ou mesmo para escrever um livro dizendo como as mulheres são horríveis mesmo que você nunca tenha pegado na mão de uma: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

O que você achou?

Loading spinner

Desfavores relacionados:

Etiquetas: , , , , ,

Comments (18)

  • Então, biologicamente falando, é por causa dessa telegonia que a gatinha da minha mãe teve um filhotinho de cada cor na última ninhada?

    O que você achou?

    Loading spinner

    • Não é uma teoria provada. E eu acredito que seja algo muito complicado de provar… pode ser que sim, mas até o dado momento, a resposta é não.

      O que você achou?

      Loading spinner

    • A galinha ao contrário da mulher, pode ter vários óvulos fertilizados em seus interior.
      Se no quintal tiver vários galos, ela pode colocar seus ovos fecundado por cada galo diferente.
      O mesmo vale pra cachorros, gatos e outros mamíferos com múltiplas proles.

      O que você achou?

      Loading spinner

  • Eu já vi sobre esse assunto antes, mas tinha conseguido esquecer…

    Bem, sobre o ser humano inventar ideias para disfarçar seus medos, acontecia, acontece e acontecerá de monte. Celibato para padres não deixarem herdeiros, recriminação a gays por medo de sair do armário, e mesmo puritanismo por medo de sexo ou assexualidade, por exemplo.

    No final, o ser humano nunca irá controlar totalmente outro ser humano. Especialmente quando boa parte das coisas que ele faz, é pensando em sexo. E mesmo que você consiga “controlar” alguém, será a maior prisão e infelicidade da sua vida.

    O que você achou?

    Loading spinner

  • “…para dizer que é mulher e vai se ofender por solidariedade…”

    Não, Somir, não vou me ofender e inclusive quero destacar que gostei muito de seu texto, pois em um trecho você chegou a ser poético (não estou de deboche) e em outro teve uma sensibilidade muito grande para destacar o real significado desse medo de alguns homens.
    Vou compartilhar esse texto com meus alunos do ensino médio na esperança de que faça a diferença para algum deles.

    Ps: a título de curiosidade, ministro a disciplina de entomologia e na aula sobre classificação dos insetos pergunto o que virgindade e as abelhas tem em comum. Eles ficam super curiosos em primeiro lugar por terem escutado uma palavra relacionada a sexo (adolescentes! Rsrs) e depois porque acham que não tem nada a ver. Então explico que as abelhas, vespas e formigas pertencem a ordem Hymenoptera, sendo que Hymen significa em grego “membrana”, que é o nome pelo qual também é conhecido o “selo de garantia” das meninas virgens.

    O que você achou?

    Loading spinner

    • Ainda bem que não é deboche, porque eu vou ficar ainda mais intragável depois de ser chamado de poético. Sally vai sofrer. Hahahaha!

      Fico feliz que você tenha gostado, e tomara que o texto consiga ajudar pelo menos um ou outro moleque a não seguir o caminho dos incels. Ninguém merece.

      O que você achou?

      Loading spinner

    • Falando em abelhas e vespas, há algumas espécies capazes de partenogênese. Isto é, reprodução assexuada.
      Se esse papo de esperma homeopático deve ser levado a sério como ciência absoluta a humanos, devemos então considerar erradicar o sexo entre machos e fêmeas, e deixar que essas últimas procriem sozinhas e decidam o destino da população, menos burocrático…

      O que você achou?

      Loading spinner

  • Se pá pessoas que casam virgens são até mais propensas a trair. Depois que descobre o sexo na lua de mel, começa a pensar hmmm, será que é a mesma coisa com o vizinho? Será que é a mesma coisa com a secretária? Se o ser humano médio era mais casto antigamente como alguns acreditam, era por falta de opção. A pessoa vivia numa fazenda no meio do nada, só tinha o marido/a esposa, as cabras e os cavalos mesmo.

    O que você achou?

    Loading spinner

  • Isso é o excesso de idealização. Os guris crescem ouvindo (da mãe solteira, dos personagens de filmes e das professoras mulheres, que são maioria esmagadora na educação infantil) que mulheres são princesas assexuadas que só gostam de caras bonzinhos e sensíveis. Aí ele cresce e vê que o bandidinho do bairro, o bully da escola e o bolsominion fortão de academia não ficam 2 semanas sem pegar ninguém, ele percebe suas crenças sendo confrontadas. Que “ser bonzinho” não é tudo.

    E geralmente esses garotos não têm uma figura masculina decente pra se inspirar, seja um parente, um professor, um vizinho… o que gera um auto-ódio contra seu próprio gênero. “Meu pai era um escroto abusador, então provavelmente vou ser um também”. Aí o que sobra é ficar militando contra “masculinidade tóxica”, “chads”, ou o que for. Em casos extremos, vão pra transição, mas isso já é outro assunto…

    O livro “No More Mr Nice Guy” analisa tudo isso com mais detalhes (apesar do título, não é um livro de mgtow e também é destinado a mulheres, principalmente mães de meninos).

    O que você achou?

    Loading spinner

      • Isso se chama realidade, caro anônimo sem pensamento próprio que só repete frases de memes.

        O que você achou?

        Loading spinner

    • Esse livro é muito bom, uma pena que problemas masculinos ainda não são vistos com tanta seriedade.
      Agora, se uma única mulher diz que tem depressão, o mundo inteiro para.

      O que você achou?

      Loading spinner

  • Dúvida honesta: Até onde essa coisa de valorizar castidade, monogamia e fidelidade é realmente vinda de utilitarismo ou moralismo “pra oprimiíí as muiééé”? Não vejo vantagem evolutiva em uma macaca sair cruzando com todo mundo e acabar sozinha e com uma penca de filhotes demandando recursos, que não eram tão abundantes. Não tem welfare no mato pra sustentar irresponsáveis.

    O que você achou?

    Loading spinner

    • É uma vantagem evolutiva tão grande que basicamente todos os primatas fazem isso. O ser humano só foi parar de criar filhos em comunidade e se preocupar mesmo com saber quem é o pai quando o conceito de propriedade privada se desenvolveu, e por tabela, o de herança.

      O que você achou?

      Loading spinner

    • O que não tem vantagem evolutiva é nossa cultura de acúmulo desenfreado. Embora entenda que algumas características ajudar no nosso desenvolvimento, nosso egoísmo é muito mais nossa danação que qualquer coisa.

      Nem é “papo de comunista”, somos egoístas e egolatras demais pra fazer diferentes.

      O que você achou?

      Loading spinner

Deixe um comentário para Torpe Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: