O cérebro de Teseu – Parte 1

Há milênios filósofos discutem sobre o Navio de Teseu. Teseu era um herói da mitologia grega conhecido por enfrentar o Minotauro para salvar jovens atenienses. O barco no qual partiu para essa missão e retornou a sua cidade natal foi preservado pelos atenienses: cada vez que uma parte do navio apodrecia, trocavam por uma nova. Então, surge a dúvida: depois de todas as partes terem sido trocadas muitos anos depois, o Navio de Teseu ainda era… o Navio de Teseu?

Se você for substituindo aos poucos todas as partes de um objeto, ele ainda é o objeto original ou se torna algo novo? Num exemplo mais moderno: imagine que seu avô tinha um Fusca, o carro passou para o seu pai e depois para você. Com o passar das décadas, todas as peças foram trocadas por novas, até a lataria foi refeita com partes de outros carros. Ainda é o Fusca do seu avô ou já se tornou algo totalmente diferente?

O que importa é a nossa ideia sobre um objeto ou a sua composição física? Eu não vou responder essa pergunta porque a Filosofia ainda se diverte muito com o tema. Se nem quem é pago (mal pago) para pensar nessas coisas tem uma resposta definitiva, nos resta aceitar a sua natureza paradoxal. Você pode escolher a sua resposta como quiser, muita gente inteligente já pensou a mesma coisa e chegou à mesma conclusão. Você sempre vai estar em boa companhia.

Mas quanto mais a nossa tecnologia avança, mais importante é pensar no mitológico Navio de Teseu. O que Sócrates, Platão e cia. não tinham como prever quando começaram a discutir o tema é a ideia de que eventualmente a humanidade teria que pensar no ser humano como foco desse paradoxo. A coisa já vai longe quando pensamos em… coisas. Imagine só quando colocamos humanos no meio disso.

Vamos começar com um exemplo simples: uma pessoa que teve a perna amputada e colocou uma prótese no lugar. Com a prótese ele é capaz de andar, e se for uma das mais modernas, é possível até que você nem consiga perceber a diferença se ela estiver com calça comprida. É um ser humano com uma parte não original. A pessoa com uma perna mecânica ainda é uma pessoa?

Ficaria muito surpreso se alguém dissesse que não. É consenso entre a esmagadora maioria das pessoas que uma prótese não faz um humano ser menos humano. Está aí a resposta para o paradoxo do Navio de Teseu?

Não. O máximo que conseguimos provar é que não é uma perna que nos faz definir o que é um ser humano. A pessoa amputada sempre foi uma pessoa, com ou sem a prótese. Trocar uma perna de carne e osso por uma de fibra de carbono não muda em nada a essência do ser humano.

Podemos extrapolar isso para todos os outros membros. Se no futuro tivermos próteses mais avançadas que obedecem aos comandos cerebrais de forma parecida com as originais, uma pessoa vai poder ter ambos os braços e pernas trocados por elementos robóticos e continuar sendo chamada de humana do mesmo jeito. Membros não entram na conta do que é o ser humano “original”.

Aliás, nem órgãos. Algumas pessoas até tem uma visão meio torta do assunto, mas é regra também que se você tiver um órgão transplantado, você não vira outra pessoa. Se você for mais novo, talvez nunca tenha sequer visto ficção baseada nessa ideia: quando os transplantes se tornaram possíveis no século passado, a imaginação humana foi longe, com histórias sobre corações de assassinos influenciando ações do transplantado… hoje em dia é uma tecnologia tão comum que ninguém mais pensa nisso.

E podemos ir mais longe ainda: com raras exceções, as células do corpo humano morrem e são substituídas por novas o tempo todo. Boa parte da poeira que fica nos ambientes habitados por humanos é composta de células mortas da nossa pele, descoladas do corpo porque foram trocadas por novas. Renovação celular é um padrão da vida: em média, um corpo humano se renova de 7 a 10 anos. E isso vale para todos seus órgãos.

Mas ninguém realmente fica discutindo se uma pessoa ainda é uma pessoa se todas suas células forem trocadas. Existem exceções, a mais famosa sendo o conjunto de óvulos da mulher, que se formam ainda dentro do útero e são sempre os mesmos até acabarem (menopausa). E mesmo nesse caso, ninguém fica discutindo que são os óvulos que definem o que é um ser humano único.

Não são as partes, não são os órgãos, não são nem mesmo as células. O ser humano é definido como um ser único pelo seu conjunto atual. Nunca pensamos nisso, então o Navio de Teseu nunca é considerado para definir seres humanos. Na verdade, o paradoxo tem resposta padrão quando falamos de pessoas: pode trocar todas as partes e ainda é o mesmo “objeto”.

O que vale para o ser humano é algo que vai além dos elementos constituintes, é a ideia do que é uma pessoa única. Aquela combinação específica pode mudar inteira de dez em dez anos, mas a nossa percepção sobre ela permanece estável. Pronto, não tem paradoxo nos seres humanos e este texto é inútil.

Espera, espera…

Da mesma forma que os filósofos gregos não tinham noção sobre próteses robóticas, transplantes e renovação celular completa, nós também não sabemos exatamente para onde a humanidade vai nos próximos séculos e milênios. Talvez no futuro a ideia de trocar de corpo seja tão natural como trocar de roupa. Talvez decidamos colocar nossas mentes na nuvem, virando seres digitais. Muita coisa pode acontecer para chacoalhar nossa noção do que configura um ser humano único.

E uma coisa para confundir nossa noção sobre o que somos já está acontecendo, e debaixo do nosso nariz: você é você sem o seu celular?

Claro, né?

Ninguém aqui nasceu com celular. Muitos de nossos leitores cresceram num mundo sem essa tecnologia e só agora fazem uso dela. Os mais jovens já podem estar sendo criados com um tablet na cara o dia todo, mas mesmo assim, não é um aparelho que vai mexer com a nossa ideia do que configura um ser humano. Ou, será que vai?

Pense comigo: o seu conhecimento é parte do que você é? Você está inserido em um ou mais círculos de relações entre pessoas, e as informações que você tem definem como você interage com essas pessoas. Estou falando de família, amigos, namoros, trabalho e tudo mais. Você é uma memória que tem dados específicos sobre todas suas relações e é reconhecido por outras pessoas pelas coisas que sabe. Você reconhece um parente e ele sabe que você o reconhece. Você sabe fazer um trabalho, seu chefe ou seu cliente sabe disso e depende desse seu conhecimento para se relacionar com você.

Espero não estar ficando muito confuso aqui, então vou tentar resumir a ideia: você não é suas células, seu braço ou seu fígado, você é uma pessoa e a forma como outras pessoas te reconhecem como ser humano é baseada nas informações que você recebe, processa e devolve para o mundo. Uma pessoa sem memória nenhuma pode até ser vista como um ser humano, mas não consegue mais continuar as relações que tinha antes disso.

Você depende o tempo todo da sua memória e da memória dos outros para se posicionar no mundo. É mais do que o último assunto que você conversou com outra pessoa, é mais do que a lembrança de algo que vocês passaram juntos, é a própria ideia de reconhecer o outro. Sem uma memória sobre uma pessoa, você não tem relação com ela. Sem relação com ela, você é só um amontoado de células com a forma de uma pessoa.

E eu vou voltar para o Navio de Teseu aqui: a questão nunca foi se o navio é um navio. Ele tem todas as partes de um navio, faz tudo o que um navio faz, é óbvio que é um navio. A dúvida filosófica era se o navio que estamos vendo na nossa frente, que teve todas suas partes trocadas por novas, ainda é o Navio de Teseu. O fato de ter sido chamado de Navio de Teseu durante todos os anos que existiu faz dele o Navio de Teseu, ou só as partes originais dele quando começou a ser chamado de Navio de Teseu que contam?

De volta ao ser humano: ninguém está colocando em dúvida o que é um ser humano aqui, e sim se a diferença entre um indivíduo e outro está nas suas partes físicas ou se na ideia que temos sobre eles. Se você conhece alguém há mais de 10 anos, é provável que esteja conversando agora com alguém que é 99,999…% diferente em células do seu primeiro encontro. O que mantém a pessoa estável na sua cabeça é sua ideia sobre ela, a informação que você guardou no seu cérebro sobre essa pessoa. O que o outro é está na sua memória. Se você esquecer tudo sobre aquele indivíduo, ele passa a ser apenas uma pessoa aleatória.

Somos informação, de uma certa forma. Somos ideias dentro da cabeça de outras pessoas. E as outras pessoas são ideias dentro da nossa cabeça. Não estou abrindo outra discussão filosófica: estou só diferenciando quem a gente conhece e identifica como único de pessoas que você não conhece. Quem você conhece é a pessoa X, quem você não conhece é só pessoa.

E agora, como você responde à pergunta sobre você ser a mesma pessoa sem o seu celular? Não espero que você mude a resposta original, só quero colocar uma pulga atrás da sua orelha. Antigamente, a gente decorava o número de telefone das pessoas mais próximas. Era natural ter o número na cabeça, um identificador único no cérebro. Pessoa X pode ser encontrada com a sequência X de números. Estava dentro da sua cabeça. Pessoas mais distantes ficavam na agenda telefônica, mas quase todo mundo sabia pelo menos um ou dois números mais importantes.

Não sei quanto a vocês, mas eu demoro um segundo ou mais para dizer o meu número de telefone. O meu. Eu converso com a Sally praticamente todos os dias, e eu nem imagino qual seja o número do celular dela. Eu não sei o endereço exato dela, assim como não sei exatamente o de muita gente com a qual tenho imensa proximidade. Se acontece alguma coisa e eu fico sem internet e sem computador, eu não consigo mais achar a Sally por um bom tempo.

Uma pessoa com a qual eu tenho contato próximo há mais de uma década, que eu conheci com todas as células do meu corpo diferentes das atuais. Eu sou eu sem contato com uma pessoa tão próxima? O Somir é a mesma ideia de ser humano sem contato com a Sally? Meu cérebro guardou várias informações sobre ela, mas eu entreguei uma parte importante do conceito de ser único dela para uma máquina. O meu celular tem uma parte da minha mente, que a minha mente achou super bacana delegar.

Muito informação que me importa como ser único – a informação das minhas relações com outros seres humanos – está fora do meu cérebro. Saber entrar em contato com outras pessoas é parte da sua mente? Eu acho que é. Por isso eu já acredito que meu cérebro está ligado com algo fora do meu corpo. Se alguém tirar o meu celular, eu não sou mais eu, eu sou uma versão parecida, mas sem informações essenciais.

E eu só estou falando dos seus contatos do WhatsApp. Quanta informação que em tese te torna único(a) está na internet porque não fazia diferença guardar no cérebro. Explico: você pode ser especialista em física quântica, todo mundo te conhece como o(a) nerd da quântica, mas você não tem uma memória absurda para lembrar de todas as equações e detalhes. O que você tem é um conhecimento avançado sobre como encontrar os detalhes na internet.

Porque é claro, quando toda a informação do mundo está ao seu alcance, não é mais importante decorar. E você para de decorar. A informação está “segura” fora da sua mente. Mas essa informação é parte do que você faz da sua vida e de como outras pessoas te enxergam. Essa informação é um identificador único seu, mesmo que você só lembre de onde achar os detalhes. O cérebro vai delegar tudo o que não for absolutamente necessário, é uma máquina projetada para otimizar tudo o que puder.

O cérebro de Teseu ainda é o cérebro de Teseu se todas as informações que ele usa vem de fora do cérebro? Que é um cérebro não se discute, mas é um cérebro único? Se você conseguir mudar toda a informação ao redor desse cérebro e ele precisa ir buscar informação lá fora, ainda é a mesma pessoa? A pessoa pode ser influenciada ao ponto de não… ser mais aquela pessoa?

É… vai ser texto de duas partes. Espero que tenham gostado, porque de qualquer jeito eu vou continuar ele semana que vem.

Para dizer que estava com saudades dessas insanidades, para dizer que o navio é de quem pagar mais, ou mesmo para dizer que não sabe nem o telefone da sua mãe: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • 1. Você ainda é você quando todas as células do seu corpo se renovaram (hardware)?
    2. Você ainda é você se trocar de cérebro com outra pessoa (software)?
    3. O navio de Teseu são suas peças ou sua ideia (exatamente como funciona)?

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  • Se usasse as peças antigas do navio para completar outro… Teríamos uma cópia do navio, ou seria o navio em si?

    E um PC, formatado, apesar de manter todo seu hardware… Continua o mesmo PC? E se trocasse o hardware, mas mantivesse os mesmos dados?

    Se clonasse uma pessoa, ela não se torna o clone, e nem o clone se torna essa pessoa, apesar de compartilharem as mesmas “informações”?

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    • E o que define alma? É algo único (significa do que teríamos no mínimos dezenas de trilhões em nossa história) ou como perdemos algo?

      No fim, temos a resposta de “Como pode existir um eu (com minhas percepções de mundo) e você (com o mesmo)?” com “só pode existir um eu pois ele interage com você.”

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  • Isso me lembra aquele spammer maluco que pegava textos daqui. Se o Desfavor original sumisse e só sobrasse aquele site plagiador, ele seria o Desfavor?

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