Skip to main content

Colunas

Arquivos

A revolta do Pix.

A revolta do Pix.

| Sally | | 18 comentários em A revolta do Pix.

A partir de 1° de janeiro deste ano a Receita Federal ampliou a fiscalização sobre transações via Pix e esta medida, bem como a forma pela qual foi anunciada, está causando muita confusão.

Sabemos que nosso leitor está bem informado, portanto, não vamos gastar muito tempo com o básico. Começaremos o texto com o básico e ele vai se aprofundando (não na parte técnica, na reflexão mesmo) à medida que passam os parágrafos, beleza?

A principal mudança é que agora a Receita Federal (aquele pessoal responsável por te cobrar impostos) ampliou a fiscalização sobre Pix acima de 5 mil reais para pessoas físicas e 15 mil reais para empresas.

E não estamos falando de um pagamento único de mais de cinco mil reais, estamos falando de um monitoramento bem de perto de pessoas que, no período de um mês, tenham feito movimentações via Pix que some mais de 5mil reais. Então, se uma pessoa fizer várias transferências pequenas, mas que somem 5 mil ao final do mês, ela também entra nesse monitoramento.

As informações serão repassadas pelos bancos (inclusive bancos digitais) à Receita Federal, portanto, não existe forma de fazer um Pix e esconder isso do governo. E as operações entre contas de mesmo titular também serão monitoradas, ou seja, se você transferir para você mesmo, também conta.

O objetivo é pegar quem sonega imposto e cobrar, não apenas o imposto devido, como uma belíssima multa, que costuma ter um valor exorbitante. E, daí para frente, obrigar as pessoas a declararem cada centavo que movimentam.

Uma a teoria especulando uma eventual taxa para cada operação com Pix se espalhou rapidamente. Ao que tudo indica, não é verdade, mas é bastante compreensível que o povo esteja desconfiado. O governo culpa as notícias falsas, mas será que elas realmente têm culpa?

O atual governo está há dois anos socando imposto novo no povo e isentando grandes empresas (até mesmo montadora que funcionava com mão de obra escrava!) de impostos. Será realmente um devaneio tão grande pensar que o governo quer meter mais um tributo? Apesar de ser falso que o Pix será taxado (sempre bom frisar esse ponto em distintas partes do texto, para combater desinformação), não seria algo absurdo de se cogitar, condiz com tudo que foi feito até aqui.

Percebam que, após dois anos de decepções e promessas não cumpridas, o brasileiro, em sua maioria, já funciona na vibe “como o Governo vai me ferrar hoje?”. Ele já aprendeu a esperar o pior, a esperar uma sacanagem. E o brasileiro médio não tem qualquer noção de direito tributário (nem seria exigível que tivesse!) para alcançar formas mais elaboradas de sacanear, a única coisa que vem na cabeça dele é “vão querer comprar imposto por cada Pix que eu fizer”. O Governo negou, mas o brasileiro não acreditou. Difícil acreditar em quem mente para você várias vezes.

Inclusive o Governo fez o mesmo com a taxa das comprinhas importadas. Juraram que não teria taxação, pagaram ao Felipe Neto para ele fazer um vídeo dizendo que conversou com o Lula e que o Lula garantiu que não seria taxado. Ficaram tranquilizando o brasileiro por meses, dizendo que não ia acontecer e… fizeram. Qual confiança se pretende que um povo tenha em quem faz uma coisa dessas?

Um videozinho para refrescar sua memória:


O brasileiro tem todos os motivos do mundo para desconfiar. O brasileiro tem todos os motivos do mundo para levantar essa lebre em redes sociais. Lula garantiu que não taxariam em diversas outras ocasiões e taxaram. Não vejo nenhum problema de o brasileiro, puto e descrente, ir para rede social dizer “eu não acredito mais quando esse governo diz que não vai taxar, eu acho que vão taxar sim”.

Mas não pode, pois é Fake News, é um absurdo, é o que destrói a economia. Não pode apontar o quanto o Governo não merece confiança. Não pode apontar que existe uma chance de estarem mentindo e sim, taxarem, mesmo tendo negado que o fariam. Quem cogita isso está contra a pátria, o amor e a democracia. Regulação das redes sociais já! Repito: o Pix não será taxado. Pode ter certeza disso. Meu ponto é outro: mesmo assim, a desconfiança é válida, pois as pessoas foram muito enganadas. Não tem como pedir confiança quando você mente e é flagrado na mentira diversas vezes.

O ponto é: o Governo está mentindo descaradamente desde o primeiro dia e chama de desinformação quando desconfiam dele? Faz vídeo ofendido? Culpa as redes sociais por desconfiarem dele? Vamos colocar os pingos nos “is”: desinformação é quando você afirma que algo falso é verdadeiro. O que eu tenho visto em redes sociais é gente dizendo “eu não acredito, eu não confio, eu não duvido que no futuro não cumpram sua palavra e acabem taxando”. Isso não é desinformação, isso é desconfiança. E será que o povo não tem motivos para desconfiar? Vejamos…

Meus queridos, se chega uma postagem ou um vídeo para mim sobre o Somir ter sido flagrado de sunga branca na laje pegando sol ao som de funk e com uma bandeira do Bolsonaro, eu simplesmente vou ignorar, pois eu tenho a mais absoluta convicção de que não é verdade. Não importa quão elaborada seja a montagem, que feitiçaria façam para parecer real, não vai me convencer, pois todo o histórico de vida dele me garante que é algo que ele jamais faria. Se chama “credibilidade”.

Se esse Governo tivesse credibilidade, nenhuma notícia falsa grudaria. É como a fábula do menino que gritava “lobo”: quando você mente compulsivamente, ninguém acredita em você quando finalmente você está dizendo a verdade. E a culpa era das Fake News na fábula? Das redes sociais? Não, né? Era do menino, por ser um mentiroso do caralho.

Também é importante separar o joio do trigo: o brasileiro desconfiado (coberto de razão) que cogita que seja mentira, do agitador pago que recebe mesada para ficar afirmando em rede social que vão taxar o Pix. São duas figuras diferentes. E, relembrando: não vão taxar o Pix. Quem lucra espalhando desinformação merece ser punido, mas não por falar X ou Y, mas pelo modus operandi de lucrar explorando o medo. Não é o caso, estamos vendo um governo sentando a pata no povo por ele desconfiar da sua credibilidade.

Se notícia falsa, por si, bastasse para derrubar uma pessoa, Lula nem tinha vencido o Bolsonaro nas eleições. O buraco é bem mais embaixo. Quando você se comporta desde sempre como um mentiroso compulsivo, potencializando sua mitomania nos últimos anos, não dá para culpar terceiros pelo seu descrédito. Muito menos objetos inanimados, como redes sociais ou notícias. Uma notícia falsa, por si só, ou dezenas delas, não grudam em uma pessoa que tenha credibilidade. Mas em um mentiroso contumaz e confesso, com certeza.

Um vídeo para refrescar sua memória:


Quando você diz que vai acabar com os sigilos e depois os utiliza, quando você diz que vai acabar com Orçamento Secreto e depois bate recorde de utilização, quando você se elege criticando falta de vacina e depois deixa faltar o dobro, quando você se elege criticando como seu opositor trata mulher e depois deixa Ministro assediador impune, quando você reclama de queimadas na floresta e depois deixa queimar o dobro, quando você mente o tempo todo, sem parar, sem escrúpulos, é esperado que, em algum momento, todo mundo esteja bastante incrédulo e desconfiado a seu respeito.

Mas imagina se alguém vai assumir responsabilidade por alguma coisa… a culpa é sempre dos outros. Sempre são vítimas de algo ou alguém. Sempre são os arautos da bondade, da sensatez e da defesa da democracia, e quem critica ou se posiciona de forma contrária, só pode ser representante da maldade, idiota e antidemocrático, não é mesmo?

A que ponto chegamos que a palavra “democracia” (e relacionadas, como por exemplo “defesa da democracia”) já está fazendo com que o brasileiro revire os olhos. É o mesmo efeito camisa da seleção brasileira do governo anterior: dá nojo de algo que deveria ser muito bacana. Se apropriaram de algo, usaram de forma errada, canalha e mentirosa e agora está todo mundo de saco cheio disso.

Felizmente, a memória que falta ao brasileiro a internet proporciona. Por isso estamos citando neste texto algumas poucas lembranças, para refrescar a sua memória.

Então, se o Governo está puto pelo fato de o brasileiro estar desconfiando que no futuro possa ocorrer alguma taxação do Pix, em vez de querer regular redes sociais, deveria fazer uma autorreflexão e parar de mentir, enganar e manipular o povo. Repetindo: o Pix não vai ser taxado.

Não é teoria da conspiração nem chapéu de papel de alumínio, é perfeitamente plausível que as pessoas tenham medo de serem taxadas o tempo todo. E é um sagrado direito assegurado pela democracia que elas externem esse medo em redes sociais, que desacreditem um Governo mentiroso, que levantem dúvidas. O povo tem o sagrado direito de não confiar no seu governo, mas que inferno! Querem eleitores ou querem fã clube?

O povo brasileiro paga muito para o Governo (desde sempre) e recebe muito pouco em troca (desde sempre). Querem que o povo seja BFF? Por favor…

O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo, o brasileiro é um dos povos que mais paga imposto e certamente um dos que menos recebe retorno disso. O brasileiro trabalha cinco meses do ano para dar todo esse dinheiro ao Governo e nem sempre tem serviço público de qualidade (educação, segurança, transporte, saúde… não tem nem esgoto para metade dos brasileiros!). Isso obriga o brasileiro a pagar esses serviços por fora, no particular.

O brasileiro paga imposto e ainda tem que pagar planos de saúde. Paga imposto e ainda tem que comprar carro. Paga imposto e ainda tem que pagar escola particular para seus filhos. Paga imposto e fica sem luz, fica sem água, fica com zero segurança pública, é maltratado em todas as esferas da sua existência. Paga imposto e precisa pagar advogado, pois Defensoria Pública não dá conta. Paga imposto e espera 20 anos por uma decisão judicial. Paga imposto e só se fode.

Então, imposto é muito correto, desde que ambos os lados sejam corretos: o povo paga, o Poder Público que arrecada converte esses impostos em benefícios para o povo. Aí é justo, aí é legal, aí tá dentro das regras. Mas se o povo paga e os impostos viram Orçamento Secreto, lagosta para Ministro do STF, regalias para os amigos, aí é simplesmente indecente. Se indignar contra isso não me parece incorreto. Perder a confiança em um governo que faz isso me parece justo.

A indignação aumenta mais ainda se a gente pensar que estão socando imposto no povo e dando isenção de impostos aos montes para empresa bilionária. Aos amigos, que lucram bilhões, se permite não pagar imposto. Ao trabalhador não, tem que pagar cada vez mais e será fiscalizado cada vez mais, mesmo sem que receba a contraprestação correspondente.

“Precisa arrecadar mais imposto”. Vai tomar no seu cu. Não precisa. O que precisa é enxugar a máquina estatal, cortar supersalário, tirar cabide de emprego e parar de sustentar metade da população com bolsa-alguma-coisa, garantindo que todos tenham oportunidades iguais e acesso a educação de qualidade e a condições de vida dignas. Mas, mesmo que precisasse arrecadar mais, é aviltante não começar retirando bilhões de reais de isenções de grandes empresas, de bancos, de bilionários.

Então, querem falar sobre credibilidade, confiança e retidão? Vamos exigir que todos sejam corretos. 1) que o Governo dê a contraprestação adequada do que arrecada e 2) que o Governo não isente bilionários de pagar imposto enquanto cobra mais de você. Enquanto isso não acontecer, a Dona Maria e o seu João tem o sagrado direito de dizer “eu não confio nesse governo” sem serem taxados de antidemocráticos e propagadores de fake news.

Querer lacrar para cima do povo pedindo confiança quando se vive em um país recordista mundial em homicídios (segundo dados da ONU), com uma das piores colocações no ranking de educação (PISA), com uma das maiores taxas de desigualdade, com todas as sacanagens que acontecem no Brasil é crueldade. São Deuses? Não podem ser questionados? Não podem ser alvo de desconfiança? Milésima vez: o Pix não vai ser taxado, mas o povo tem o sagrado direito de desconfiar se ele se sentir assim. O que não pode é afirmar como se fosse uma verdade, mas pode dizer que não confia.

O resultado de toda essa onda de desconfiança envolvendo o Pix já pode ser sentido. Já tem estabelecimento se recusando a aceitar Pix como forma de pagamento (e não existe lei que os obrigue a aceitar). Se a coisa continuar nesse rumo, vocês vão ter que voltar a pagar em dinheiro, como faziam na pré-história. Não tem cabimento minar uma ferramenta bacana como o Pix partindo para cima e atacando a Dona Maria e o seu João por eles dizerem que não confiam. Conquistem a confiança das pessoas em vez de apontar o dedo e dizer que a desconfiança deles é que está destruindo a economia.

Meus mais sinceros parabéns ao Governo por ter minado sua credibilidade de tal forma que as pessoas não acreditam em absolutamente nada e sempre desconfiam do pior. Parabéns por ter uma comunicação tão bosta que deixa margem a todo tipo de desconfiança. Também parabenizo por colocarem em risco a ferramenta do Pix, que parece ser algo muito prático e que pode ficar em segundo plano agora.

A revolta do brasileiro é legítima. A desconfiança do brasileiro é legítima. O saco cheio do brasileiro é legítimo. Não vão taxar o Pix, mas isso não impede que a desconfiança das pessoas seja pertinente. Quando mentem para você muitas vezes, a confiança se perde – e isso não é culpa de quem não confia mais.

Comentários (18)

Deixe um comentário para Paula Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.