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Desfavor Explica: O apagão!

| Somir | | 50 comentários em Desfavor Explica: O apagão!

Efeito dominó

Ontem, por volta das 22h, vários estados brasileiros enfrentaram um blecaute generalizado (outras regiões com as quais ninguém se importa continuaram com o abastecimento de energia elétrica intacto).

Recentemente eu falei sobre a importância da energia na história da humanidade, e de como o consumo desenfreado está intimamente ligado com o que nos faz ser o que somos hoje. A prova está aí: Algumas horas sem energia e grandes cidades enfrentaram situações caóticas.

Na posição de âncora de “jornal celular” para Sally, fiquei sabendo de vários boatos correntes na Cidade Maravilolsa (uma das mais atingidas pelo corte).


Desfavor Fone!

SALLY: A energia jááá voltou aí?
SOMIR: Vantagens do mundo civilizado.
SALLY: (xingamento 1) O que aconteceu?
SOMIR: Alienígenas estão sobrevoando as maiores cidades do mundo e…
SALLY: (xingamento 2) E eu já fechei as janelas. O que aconteceu com Itaipu?
SOMIR: Os alienígenas…
SALLY: (xingamento 3)
SOMIR: Sei lá, a energia voltou aqui, eu nem me preocupei.
SALLY: Eu estou aqui no escuro, perdida, e você nem para saber o que está acontecendo para me acalmar? Disseram que eu tinha que estocar água! Você não se preocupa comigo?
SOMIR: Tem certeza que você não é judia? Eu vou descobrir o que aconteceu e já te aviso.


A explicação oficial é simples. Simplesmente uma zona! Itaipu, uma usina hidrelétrica monstruosa situada no estado do Paraná (fronteira com o Paraguai), parou de funcionar porque uma das linhas de transmissão de energia (obviamente comprada no Paraguai) foi interrompida por “problemas atmosféricos” (eles também dizem isso de alienígenas… coincidência?).

Como o Brasil tem um dos sistemas de energia mais modernos do mundo, quando uma das linhas tem problema, metade do país fica no escuro! Não é magia, é tecnologia! Mas esse tipo de situação não assusta uma nação avançada como a nossa! Para o caso de problemas com a geração de Itaipu, temos várias usinas termoelétricas prontas para assumir automaticamente.

A questão é que… elas meio que não funcionaram. Espero que não tenham colocados os sensores de abastecimento que as ligariam na tomada comum…

Ok, pelo menos ainda temos nossas usinas nucleares! As Angras custaram bilhões dos cofres públicos e são o pináculo da tecnologia tupiniquim de produção de energia. Lembram que até os americanos malvados queriam roubar nossos segredos? Se não resolve o problema geral, pelo menos o Rio de Janeiro estaria protegido! Opa…

Bem que dizem que energia nuclear não é confiável.

São Paulo e Rio de Janeiro, como as duas maiores cidades do país, obviamente foram as mais afetadas pelo blecaute. Cada uma com sua especialidade: Os paulistas ficaram presos no trânsito, os cariocas em casa.

Espero não ter colocado as fotos erradas...


Desfavor Fone!

SOMIR: Oi! Já vi o que aconteceu.
SALLY: E aí, quanto tempo até voltar a energia?
SOMIR: A energia nunca mais vai voltar. O Brasil vai se tornar um cenário do Mad Max. Eu vou deixar mullets crescerem e já estou indo te buscar no meu carro pós-apocal…
SALLY: Por que eu resolvo ligar para você? De tanta gente, justo para você?
SOMIR: Por quê? You don’t need another heeeeroooo!
SALLY: Somir, o que aconteceu?
SOMIR: Itaipu está inteira. Foi um fio no caminho que quebrou.
SALLY: Hã? Eu estou no escuro por causa de uma merda de fiozinho desencapado?
SOMIR: Você e o Paraguai.
SALLY: Que vergonha. Tem amigos meus me avisando para não sair de casa porque a coisa está feia nas ruas.
SOMIR: Pelo menos dá para enxergar as trajetórias das balas no céu!
SALLY: Tem um helicóptero passando aqui por perto, vamos ver se pegam esse…
SOMIR: Ok, fique longe da rua e dos helicópteros.
SALLY: Você fez a postagem de hoje?
SOMIR: O… apagão…
SALLY: Eu te liguei ANTES do apagão para perguntar se você tinha postado.
SOMIR: Está… tudo… escuro… Não consigo postar!
SALLY: A roça onde você mora funciona com um lampião. Amanhã você VAI fazer um desfavor explica sobre o apagão.
SOMIR: Merda.
SALLY: Vai escrever o texto, Somir! E me avisa se tiver alguma notícia sobre quando a energia volta.
SOMIR: Você não manda em mim!
SALLY: *rosnando*
SOMIR: Mas… eu vou quebrar essa. Até mais tarde…


O Brasil depende de Itaipu. A usina hidrelétrica que mais produz energia no mundo. Vamos entender como uma merda de uma tempestade é capaz de deixar no breu boa parte do país.

Eu tenho quase certeza que são as fotos certas...

Itaipu produz cerca de 20% de toda a energia consumida no país. E num país do tamanho deste, não é pouca coisa. Energia hidrelétrica é produzida de forma bem simples: Água + Gravidade. E como água é o que não falta nesse país, as chances da energia elétrica simplesmente acabar da noite para o dia são minúsculas. Seria necessária uma catástrofe de grandes proporções para o problema ser REALMENTE da usina em si.

No caso do apagão de ontem, a usina parou porque seus sistemas são programados para desligar quando alguma coisa acontece com suas linhas de transmissão. (Ei, faz sentido. É a mesma coisa que desligar o disjuntor quando vai mexer no chuveiro.)

E são as linhas de transmissão que são mais suscetíveis a problemas. Energia elétrica tem que passar por algum fio, não tem outro jeito. A quantidade colossal de energia de Itaipu sai de lá diretamente para uma central de redistribuição (de câncer de cérebro) em Furnas.

Tem uma boa parte de explicação técnica aqui, mas como eu não tenho saco de escrevê-la agora, entendam que tipos de energia diferentes são enviados para o resto do país a partir da usina. Uma no padrão de utilização normal, outra num padrão diferente. (que é convertido depois no padrão de utilização normal… certeza que contrataram engenheiros paraguaios…)

E aí começa uma malha de transmissão e transformação de energia que só deve fazer sentido para quem realmente entende dessa merda toda. O que nos interessa agora é uma informação importante: A energia acaba concentrada em poucas linhas e estações de transformação, mais precisamente duas no estado de São Paulo no caso da energia oriunda de Furnas/Itaipu.

Quando um problema atmosférico (leia-se raio/vendaval) faz algum desses gargalos da rede de transmissão perder sua utilidade, acontece um “efeito dominó” de desligamento das redes posteriores para evitar que alguma cagada maior ainda aconteça. O problema é que quem trabalha com um funil óbvio na sua rede tem que ter todo tipo de mecanismo para evitar que cidades inteiras sofram caso ele “entupa”.

E foi a zona que vimos. A verdade é que energia elétrica não é uma coisa domável, vacilou meia vez e já não se sabe muito bem o que diabos está acontecendo. (A energia não é “empurrada” de um lugar para outro, ela é “guiada” pelos fios, e isso é um procedimento bem complexo.) Claro que os responsáveis pelas redes vão dizer que tem total controle e que o sistema é inteligente, mas não é bem assim que a banda toca. Embora tenhamos um dos sistemas de produção de energia mais limpos do mundo, ele tem seus problemas. E situações como essas não são surpreendentes para quem trabalha com isso.

Construir usina hidrelétrica na puta-que-pariu é obra de respeito para o povão. Construir uma porra de uma linha extra de transmissão para redundância é gastança, né? Se vocês desligarem meu computador mais uma vez, eu mato vocês! *nerd rage*

O que mais me incomoda é imaginar que o Lula logo logo vai fazer um discurso minimizando o acontecido. “Foi só uma faisquinha!”.

Enquanto várias grandes cidades sofriam com a escuridão, lugares como a Amazônia continuavam gozando de abastecimento normal de energia elétrica. Se o sistema nacional de energia realmente fosse inteligente, tiraria a energia de lugares como o Acre (que talvez nem exista) e a redirecionaria para locais onde ela realmente poderia ser aproveitada.


Desfavor Fone!

SOMIR: Fica tranqüila!
SALLY: Lá vem…
SOMIR: A energia volta antes de você acordar para ir trabalhar.
SALLY: Droga! Nem pra isso esse país serve.
SOMIR: É por isso que eu digo, mais energia nunca é energia demais. Deveríamos construir mais umas quinhentas Angras!
SALLY: Você só está falando isso porque quer que aconteça algo parecido com Chernobyl aqui no Rio, né?
SOMIR: Também. Mas energia nuclear é muito mais bacana. Seríamos um país mais moderno.
SALLY: Tá maluco, Somir? Imagina só o bando de incompetentes que iam trabalhar nesses lugares. Imagina uma Evelyn cuidando de uma usina nuclear! Quer matar todo mundo, é?
SOMIR: Eu tenho um plano para isso! Vamos construir todas na Amazônia.
SALLY: Boa desculpa para asfaltar aquela merda.
SOMIR: E construir um estacionamento no lugar.
SALLY: Eu já estou começando a concordar com você, sinal que eu preciso dormir…
SOMIR: Ei!
SALLY: A bateria do celular está acabando também. Se eu não conseguir mais falar mais com você, não esquece de postar o meu texto na quinta.
SOMIR: Se eu não conseguir mais falar com você, foi um prazer ter te conhecido. Eu vou sempre me lembrar dos nossos belos momentos…
SALLY: Eu não quis dizer… *cai a ligação*


Sally, onde quer que você esteja agora, não vou deixar que sua memória se apague. Venha para a civilização, nós temos luz aqui!

Para dizer que o texto de hoje está uma bagunça, para contar suas histórias do apagão ou mesmo para dizer que também sente falta de ar e calafrios quando fica sem seus aparelhos eletrônicos: somir@desfavor.com

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