Aprendendo a errar.

Errar é humano. A frase é um clichê, mas não o é à toa: descreve muito bem como é impossível passar pela vida sem cometer erros. Sejam erros que você consegue perceber logo após o acontecido, sejam erros que demoram décadas para registrar como tal. De uma forma ou de outra todo mundo sabe disso, mas na hora de lidar com o erro, quase todo mundo… erra de novo.

Eu incluído, é claro. Lidar com seus erros não é uma ciência exata, e até voltando para a frase inicial do texto, não é como se pudéssemos acertar sempre. Não escrevo este texto para te ensinar um jeito ideal de passar pela vida, até porque isso eu não sei também, mas para dividir um pouco do raciocínio e experiência acumuladas até aqui.

Por mais que pareça algo óbvio, reconhecer um erro passa longe de ser um processo simples. Talvez a maior lição que eu tenha tirado dos meus anos de vida seja a de diferenciar as coisas entre o que você tinha capacidade de fazer diferente e as que não tinha. Exemplo banal: uma criança que não foi ensinada a usar o banheiro não pode ter culpa de se sujar. De uma forma ou de outra, quase todo mundo entende essa ideia, mas ela tem ramificações muito maiores.

Só erra quem sabe como não errar. Porque se você não tem as informações necessárias para diferenciar resultados positivos e negativos de uma ação, como julgar essa ação? Eu peguei o exemplo da criança borrando as calças porque muitos dos problemas que a maioria dos adultos tem com os erros que cometem vem da ilusão que se tornar adulto termina o processo de aprendizado.

Adultos perdoam crianças por erros, mas mais importante: crianças se perdoam por seus erros. O adulto tem a noção bem mais clara que a criança não tinha ferramentas para fazer melhor, e a criança ainda não tem essa expectativa irreal que sabe tudo o que fazer. Um dos maiores problemas dos jovens que começam a lidar com a vida adulta é essa confusão sobre o que deveriam ou não deveriam saber.

A verdade é que esse conjunto ideal de informações e experiências não existe na prática. Quando você completa 18 anos de idade, a lei passa a te tratar como adulto, esteja você pronto ou não. Spoiler: você não está. Mas tinha que ter um número exato por tecnicalidade legal e escolheram um que parecia razoável. Seja como for, o ponto aqui é que se a gente parar para pensar mesmo, não é como se existisse um ponto mágico no tempo em que a pessoa começa a ter noção real de tudo o que faz.

Errar é tão humano que você consegue errar do primeiro momento que é capaz de fazer uma escolha até o último. Percebam que estamos falando de erros até aqui, mas não definimos o que configura um erro: presume-se que você entenda claramente o que é errar, mas será que entende mesmo? Se você tivesse que descrever isso para uma criança, como falaria?

Eu tentaria dizer que errar é escolher o que faz mal para você ou para as pessoas com as quais você se importa. Iria por esse ângulo porque o ser humano tem uma bússola interna: recompensas cerebrais. Algumas coisas fazem seu cérebro soltar substâncias que te agradam, algumas coisas fazem o contrário.

Mas e aí, será que só essa ideia hedonista dá conta do recado? Buscar boas sensações pode te deixar viciado e/ou te colocar em situações terríveis. Se a criança internalizar que o certo é se sentir bem e pronto, vai comer doce até ter dor de barriga. E depois pode virar um adulto drogado ou promíscuo. Eu até coloquei algo sobre as pessoas com as quais a criança se importa para lembrá-la que a vida humana depende de socialização, e temos que manter outras pessoas felizes também; mas existem várias formas de subverter esse pensamento. Formas que uma criança pode até não conseguir pensar naquele momento, mas que um adulto consegue rapidamente.

Percebem como o papo pode começar a ficar filosófico rapidamente? O que é certo? O que faz bem? O que é verdade? São várias ideias extremamente complexas que a maioria de nós define uma vez durante a criação e depois toca a vida toda comparando nosso estado atual com elas. E isso, curiosamente, é um erro. Sua noção do que é certo ou errado tem que evoluir com o passar dos anos, senão você vai acabar sendo uma criança vivendo num mundo de adultos. E isso é receita de sofrimento.

Ter essa noção infantilizada do que é certo ou errado é comum o suficiente para que a maioria de nós nunca perceba o problema. Faltam exemplos ao nosso redor e raramente alguém aborda o tema. Vai dizer que você não se frustra constantemente com outras pessoas tendo comportamentos infantis? Teimar com algo obviamente ineficiente, reações exageradas ao menor sinal de problema, ignorância inexplicável sobre algo que parece óbvio… a lista vai longe. Sem querer fazer um tratado sobre a humanidade como um todo, mas já fazendo: quase todo problema de relacionamento (de todos os tipos) pode ser traçado de volta a um comportamento que não esperaríamos de um adulto.

E olha a sutileza da questão: o que achamos que um adulto deveria saber? O que nós sabemos. Óbvio, não dá para cobrar do outro o que nem sabemos que existe. É inescapável olhar para o mundo com os nossos olhos e nossa experiência. Sempre vamos nos comparar ao outro, porque é o único parâmetro que temos. Se você sabe como fazer uma coisa do jeito certo, do jeito que acredita ser certo, pelo menos, é difícil não presumir que o outro seja capaz também.

Só que muitas vezes, o outro não é. Não sabe o que você sabe, e pior, por isso não consegue tomar decisões que sejam compreensíveis para você. E eu não digo isso para te tornar infinitamente compreensivo(a): eu confio que a escolha certa é ter padrões básicos de compatibilidade com as pessoas com as quais você convive. Se você não quer estar por perto de alguém com a inteligência emocional de uma ameba, faz muito sentido. Se você não quer conversar com gente cuja cultura é muito diferente da sua, tudo bem. Se você acha que o senso ético da pessoa é minimamente questionável, acho válido que você não deixe se aproximar. Mas tudo isso tem que ser feito de forma consciente.

De uma certa forma, a noção do que configura errar é a melhor métrica para testar a compatibilidade entre duas ou mais pessoas. Essa noção nasce do conjunto de experiências e aprendizados de uma pessoa, está intimamente ligada à personalidade dela. Arrisco dizer que o culpado por relações ruins na sua vida está nessa diferença básica entre o que é um erro e o que é um acerto. A pessoa que não entende um comportamento como errado que você acha errado vai fazer isso repetidas vezes se você não conseguir colocar na cabeça dela que aquilo é um erro, ou mesmo se ela não conseguir te convencer de que não é um erro.

A vida humana é tão cheia de variáveis e nuances que pode ser que esse acordo sobre certo e errado nunca chegue. E digo mais, muitas vezes ele não chega e as pessoas insistem em continuar uma relação (pode ser amorosa, amizade ou mesmo de negócios) que não faz bem para nenhuma das partes.

Como eu dizia antes, muito do que se considera errado é tatuado na cabeça durante a criação e dificilmente é modificado depois disso. Esse é um passo mais avançado nesse processo: de tempos em tempos faz bem observar o que você acha certo ou errado para saber se com o seu conhecimento e experiências atuais ainda pensa igual. Porque as pessoas têm fases também. Não só fases da experiência de vida que vai se acumulando, como fases muito mais passageiras baseadas em situações pontuais da vida.

Você pode ter conhecido alguém que combinava muito bem enquanto sua mente estava aceitando alguns erros a mais e depois ver que não funcionava mais quando você voltou à sua média. Se você entra numa fase porra-louca e começa a beber sem parar para se anestesiar, pessoas que não tem freios para seus vícios não te parecem tão erradas. Mas se essa fase passa e você quer se estruturar novamente, elas voltam a te incomodar. A Sally me disse uma vez que achava que casamento deveria ser um contrato com prazo que precisa de renovação, eu achei a ideia excelente: dada a natureza humana, algumas coisas funcionam por tempo limitado. Ninguém sabe como vai estar amanhã, e até mesmo a sua noção do que é certo ou errado pode variar.

Mas não estou sendo incoerente? Eu disse que nossa ideia de certo e errado é mutável, mas ao mesmo tempo disse que se forma cedo e nunca mais é questionada… as duas coisas não podem ser verdade, certo? Pois bem, é aí que entra o inconsciente, a maior parte da sua mente que não fica disposta claramente para você. As coisas podem coexistir sim, mas elas geram sofrimento quando combinadas. Eu nunca disse que era uma coisa boa…

O perigo aqui é ter racionalizado um senso de certo e errado desenvolvido por uma criança (que não tem capacidade para fazer isso) e no irracional, todas as trilhões de mudanças que viver sua vida gera. As coisas param de funcionar: você começa a comparar algo que sente com algo que pensa, e as duas coisas não fazem mais sentido nenhum. Oras, é claro que não fazem sentido, é como querer que um papiro egípcio funcione no seu celular. São coisas criadas em eras diferentes. Sua ideia de certo e errado provavelmente está travada em algum ponto passado distante, e sua intuição de certo e errado atualiza a cada interação com o mundo.

Então, quando eu escrevo um texto falando sobre como lidar com erros, eu não estou falando de uma fórmula, eu estou falando de ir buscar essa racionalização que você fatalmente tem e comparar ela com o que você realmente sente sobre o assunto. Será que é um erro mesmo? Será que hoje em dia você se perdoa por aquilo? Será que se fosse outra pessoa errando e você só estivesse reagindo, ficaria tão incomodado?

Ou, ao contrário: será que você realmente acha certo fazer o que está fazendo? Criança é um bicho egoísta por natureza, falta noção do outro ainda. Se seu senso racional do que é certo ainda está na infância, existe um risco considerável dele ser mais egoísta do que você gostaria de ser. E é claro, seu eu infantil não sabia quase nada sobre o mundo, sobre as dificuldades da vida adulta, sobre como tanta coisa pode ser relativa…

Mais do que se perdoar, aprender com o erro e seguir em frente, é importante saber também o que você realmente considera errar. Porque perceber o erro é um avanço, e deixar de considerar erro o que não é também. Tanto que eu até vou mudar de ideia sobre como explicar um erro para uma criança:

“Errar é aprender um jeito melhor de fazer as coisas.”

Para dizer que eu errei ao escrever o texto, para dizer que eu devo ter feito uma merda muito grande (não, erro não tem hora), ou mesmo para dizer que queria um guia e se decepcionou: somir@desfavor.com

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Comments (4)

    • Eu tenho textos que provavelmente não faria mais hoje em dia, mas não chega a ser arrependimento. Naquele momento era o que eu queria/podia fazer.

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    • Tem texto antigo que eu não postaria hoje de jeito nenhum, por motivos variados: por estar mal escrito, por ter sido mal interpretado (falha minha em expressar minhas ideias), por não ser mais compatível com a realidade atual, por ter mudado de ideia, etc.

      Mas arrependimento não é bem a palavra, tanto é que nunca apagamos nenhum texto antigo. Como o Somir já disse, na época aquilo me pareceu bom e foi o melhor que eu pude fazer.

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