O futuro da internet.

Ontem foi feito o leilão das frequências do 5G brasileiro. Como em quase tudo o que tem a ver com tecnologia, o Brasil não é pioneiro, mas também não está tão atrasado assim. Em pouco tempo vamos ver as redes surgindo nas grandes cidades. O que isso pode mudar em nossas vidas?

Eu já escrevi um texto inteiro sobre a alegação ridícula que o 5G é um risco à saúde, mas só para tirar do caminho: se as frequências do 5G fossem perigosas para a saúde humana, não existiria vida na Terra. A luz do Sol chega numa frequência ABSURDAMENTE maior que qualquer antena de 5G pode gerar. É que nem uma pessoa usando um colete a prova de balas ter medo de jogarem um grão de areia na direção do seu peito…

Dito isso, me incomodou a cobertura da imprensa sobre o 5G, não por mentirem, mas por não explicar direito o que está acontecendo: o 5G não é um salto tecnológico absurdo, e sim um facilitador de diversas outras tecnologias. Se você tem idade para lembrar disso, é como trocar a internet discada pela banda larga. A lógica é a mesma, só que fica muito mais rápido e constante.

Especialmente para quem vive em grandes cidades, vai ser como ter wi-fi em qualquer lugar, sem ter que pedir senha ou fazer login naqueles serviços bizarros que querem saber seus dados. A conexão que seu celular tem na rua vai ser de alta velocidade o tempo todo. Se você nunca teve banda larga de fibra óptica ou algo parecido na faixa dos 50mb para cima, vai ser uma revolução na forma de usar a internet, mas se você já tem, vai ser quase igual, só que na rua também.

Não estou fazendo pouco do que vai acontecer quando a tecnologia estiver popularizada, só estou dizendo que é mais simples do que parece quando a mídia fala disso. Assim como tem que fazer com o wi-fi, precisa estar perto da antena para receber internet em alta velocidade. Por isso o 5G precisa de muito mais antenas e roteadores do que as redes que temos agora. A 3G pega em quase qualquer lugar urbanizado, a 4G depende um pouco mais de você estar num local de gente rica ou com muita densidade populacional, o 5G vai ser ainda mais dependente de infraestrutura.

A frequência “premium” – de 3.5 gH – é uma faixa bem parecida com a que as redes caseiras usam. E quem tem internet sem fio em casa sabe que às vezes duas paredes são suficientes para parar tudo. No 5G o problema é menor porque as antenas são muito mais poderosas, mandando sinais para mais longe e com mais confiabilidade. Mesmo assim, existem limites: um sinal de alta qualidade provavelmente não vai mais longe que um quarteirão. Muito melhor que seu roteador, mas ainda exige um gasto considerável para montar a estrutura.

Gasto que várias empresas estão felizes de ter por causa das imensas possibilidades que banda larga para todo mundo pode trazer. Mesmo considerando as exigências governamentais para não colocar rede só em bairro rico, ainda vai ser lucrativo. As empresas não ligam para a qualidade do serviço que te entregam, mas sabem que quem tiver a internet mais rápida vai vender mais. É 5G ou morte.

Mas tem outra frequência que eu acredito que vá ser ainda mais importante no longo prazo, a de 700 mH, 5 vezes mais fraca, mas que consegue chegar muito mais longe que a arrematada pelas operadoras de celular. Ela não vai oferecer internet de altíssima velocidade, mas vai ser bem melhor que um 3G e pegar em basicamente qualquer lugar que não seja mato puro. Essa internet é a que vai conectar o país de uma forma jamais vista antes. Não digo que todo mundo vai poder transmitir vídeo em alta qualidade de onde quiser, mas é uma velocidade considerável até mesmo para quem estiver bem longe de grandes centros populacionais.

Quem vive em cidade grande esquece disso, mas ainda existem muitos pontos cegos na internet banda larga no Brasil. É muita gente que não tem acesso a várias coisas que consideramos banais como streaming. Com o avanço da cobertura ao redor do mundo (tem países avançados nisso, mas mesmo eles ainda não estão muito mais conectados do que grandes cidades e capitais), vamos começar a ver uma nova forma de lidar com a internet.

O método de texto e fotos não é popular por gosto do cidadão médio, textos longos como esse então? Sem chance. Uma das coisas que mantinha a informação da internet nesse formato era a grande diferença de capacidade de recepção e envio de dados que a maioria das pessoas experimentava. Eu prevejo um avanço imenso do mercado de vídeos com o 5G. Todo serviço de produção de conteúdo que puder fazer a transição vai acabar fazendo. Eu nem sei se temos capacidade de armazenamento e distribuição de vídeo para a loucura que vai ser.

E se você é como eu e reclama da maldita inclusão digital, vai se lembrar com saudade dos dias atuais. Tem bilhões de pessoas que basicamente não conseguiam participar da internet que vão entrar em questão de menos de uma década. A China tende a ficar contida em sua bolha, mas países como a Índia vão lotar a internet de conteúdo (de gosto duvidoso). Serão trilhões de vídeos ao mesmo tempo voando para todos os lados.

O que pode gerar dois resultados, ainda não decidi qual acho mais provável: no primeiro, a confusão que vivemos atualmente se intensifica até ninguém mais saber o que é real e o que não é; no segundo, a confusão aumenta, mas as pessoas reagem confiando mais em curadores de conteúdo. Ambos os cenários têm seu problemas. Até mesmo para se proteger do caos de informação, o cidadão médio pode acabar muito radicalizado, mesmo que seja pelo motivo de não ter que acompanhar muitas fontes ao mesmo tempo.

Não sabemos ainda qual vai ser o resultado de todo mundo poder receber conteúdo da forma mais prática possível. É uma humanidade com bilhões de canais de TV para acompanhar… e olha que ainda tem uma possível singularidade tecnológica no caminho: e se tiver um jeito ainda mais cômodo de distribuir informação que vídeo? Com tanta gente tentando se destacar, a chance de uma ideia diferente surgir e pegar começa a aumentar consideravelmente. Se eu soubesse qual seria esse formato, já estaria fazendo para ficar milionário, mas posso imaginar que vai acontecer algo do tipo, mais cedo ou mais tarde.

E tem outro ângulo importante do 5G: automação. Novamente algo mal explicado por aí… não é que o 5G vai permitir automação das coisas, é que tudo o que depende de internet vai ter internet mais rápida. Não foi inventada uma nova tecnologia. É mais ou menos como colocar uma estrada asfaltada no lugar de uma trilha de terra batida: as pessoas já usavam aquele caminho, mas agora ele ficou muito mais rápido. E muito mais gente vai começar a usar.

Automação que precisa de dados da internet para funcionar vai ser muito mais possível agora. E, é claro, automação que não precisava pode ser adaptada para usar com mais confiabilidade. Eu estou escrevendo o texto nesse tom para passar a ideia de que você não precisa reaprender como a tecnologia funciona, o que vai mudar é grandioso, mas é mais no sentido “duplicaram a estrada que chegava na minha cidade”. O 5G é uma mudança de paradigma no volume da informação.

Todas as coisas que ficavam capengas por depender de internet 3G vão poder ser realizadas, podemos ter drones verificando plantações do Mato Grosso mandando informações em tempo real para Porto Alegre. O sinal de trânsito vai poder ser controlado por uma inteligência artificial bolada para reduzir congestionamentos. Talvez até tenhamos um sistema de posicionamento complementar ao GPS para informações mais rápidas. O volume de dados aumenta consideravelmente.

Os que você recebe e os que você envia. Vai ser mais fácil enviar vídeos de realidade virtual, de gamificar diversos processos da vida. Vocês não imaginam a complexidade de um sistema de compressão de vídeo atual, como é difícil manter as coisas sincronizadas, e tudo só existe pelos perrengues de conexões instáveis. Mesmo quem vive em lugares com banda larga decente vai começar a ver diferenças na quantidade de informações e no quanto elas interagem com sua vida.

O 5G é a Era da Informação na sua maturidade. Com suas vantagens e seus defeitos elevados à máxima potência. Muito mais caos informativo, muito mais integração e facilidades. Sim, talvez logo apareça o 6G, o 7G, o XG, sei lá… mas serão iterações da mesma ideia. Não é nada muito mais complexo do que wi-fi em todo lugar, mas tudo bem, era só isso que estava faltando mesmo para ver o verdadeiro potencial da internet: comunicação interminável, inteligências artificiais globais, virtualização das relações…

Espero que você goste de internet, porque ela vai terminar seu processo de dominação da humanidade em questão de poucos anos. O futuro é esse. Por sorte, eu gosto, apesar de todos os defeitos.

Para dizer que se animou e desanimou com esse texto, para dizer que a doença que o 5G vai causar é social, ou mesmo para dizer que esse povo vai acabar se matando: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • Era adolescente quando tive minha primeira internet discada q entrava depois da meia noite. É incrível como tudo mudou tão rápido. Q venha o 5g …

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  • Vale lembrar o seguinte, antes de rimar o Brasil com qualquer excremento: atrasamos bastante por causa das parabólicas, que ainda garantem TV aberta para boa parte da população rural.

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  • O pessoal tá achando que seu chipzinho pré pago de 1 real por dia, só paga o dia que usar vai navegar 5G. As operadoras vão cobrar bem caro por planos 5G e a velocidade brazuka nem vai ser tão alta assim, fora a limitação de franquia pra uso.

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  • Já tô vendo um monte de gado correrer pras Casas Bahia pra comprar um celular novo 5G pagando parcelado em 60 meses… Lá pra 2030 talvez chegue um 5G nesse cu de mundo e pelo que vejo no meu 4G da Claro navegando em 5MB, imagino um 5G com velocidade de 10MB lá em 2030.

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  • Quem prever qual vai ser o próximo “k-pop” entre os adolescentes fica rico. Será os artistas indianos? Artistas africanos?

    Seja como for, vai ser divertido ver os choques culturais.
    Spoiler: enquanto Europa e Américas envelhecem e ficam ateias, o cristianismo e o islã continuam conquistando terreno nas outras regiões do mundo

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  • Então a “mídia de massa” meio que está morrendo, não? Hoje em dia é tudo nicho, em vez de todo mundo ver os mesmos programas e novelas na TV, cada um se dedica ao seu nicho favorito com pessoas de diversos lugares diferentes que nunca se encontrariam se não houvesse internet. Na verdade isso é bem reconfortante.

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    • Pois é, quando eu entro no Youtube de vez em quando aparece nos “recomendados” um monte de canais que nunca ouvi falar, mas que tem uns 10 milhões de inscritos. Não existe fama universal.

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