Incontrolável.

O texto de ontem da Sally me deu vontade de fazer um exercício de pensamento tecnológico: se eu tivesse que imaginar um chip de controle mental aplicável por uma agulha de vacina, como eu faria isso acontecer?

Eu não sou especialista em construção de nada desse tipo, eu ainda me pego surpreso por um computador não ligar depois de montá-lo, mas tenho uma excelente noção da tecnologia disponível para a humanidade nos dias atuais. E como já disse em texto anteriores, dá para presumir muita coisa conhecendo o básico sobre física, química e biologia. Tem coisas que funcionam, tem coisas que não.

Vamos começar com algo básico: tamanho. Se é para colocar algo dentro do corpo humano, é importante considerar alguns fatores sobre suas dimensões. A primeira limitação é ser invisível a olho nu. Isso é bem óbvio, não seria possível aplicar uma substância estranha ao corpo humano numa vacina se fosse um pontinho claro ou escuro evidente dentro do pote da vacina. Todo mundo pode ver de onde sai a vacina, e se tivesse algo boiando lá dentro, é impossível que ninguém tivesse visto até hoje, não?

Sem contar o problema que várias doses dividem o mesmo vidrinho. Como garantir que pelo menos um chip de controle mental estaria dentro de cada dose aplicada? A coisa é meio caótica num líquido, mesmo que tivéssemos vários chips minúsculos dentro de cada invólucro de vacina, existe uma chance de nenhum entrar numa dose específica. Já tentou tirar um bichinho boiando de um copo? Qualquer movimento no líquido faz ele passear de forma errática.

Então, o chip de controle mental teria que ser muito pequeno ao ponto de não registrar no olho humano, e isso significa ser muito pequeno mesmo, muito menor que um grão de poeira, e além disso, teríamos que colocar um monte deles em cada mililitro de vacina, senão existe a chance de muita gente ficar sem um deles por pura sorte. Ninguém vai montar um esquema complexo desses de dominação mundial e deixar a sorte atrapalhar na hora mais importante, né?

E quão pequeno estamos falando? Bom, a visão humana é suficientemente detalhista para identificar um grão de sal, por exemplo. Um grão de sal é um cristal formado por várias moléculas de sal. Quantas? Bom, muitas. Muitas mesmo. É o tipo de número que precisa de notação científica para expressar. Tem mais moléculas de sal num grão de sal que grãos de areia numa praia. E por que eu estou falando disso? Porque todo mundo tem a noção de como um grão de sal consegue “sumir” no meio da água. Isso acontece porque a água desmonta o cristal de moléculas e separa boa parte delas. Uma molécula ou um grupo de algumas milhares são pequenos o suficiente para não termos a menor chance de enxergar.

Então, para o meu chip de controle mental, eu acho razoável ter um limite máximo de tamanho de uma molécula de sal. Desse tamanho, até mesmo microscópios comuns teriam dificuldade de encontrar. Existem apenas alguns microscópios especiais no mundo que conseguem ver coisas desse tamanho. Ok, problema resolvido! Se o chip de controle mental for do tamanho de uma molécula de sal, a chance de alguém encontrar é quase nula!

Mas… tem um problema. Uma molécula de sal são… dois átomos. Não sei o quanto você entende de átomos, mas um deles sozinho não consegue fazer muita coisa. Dois não resolvem nada. Precisamos construir uma máquina! Vamos ter que usar muito mais que dois átomos. E quando eu digo muito mais, é muito mais no sentido de “se eu escrever quantos com números, eu não vou parar mais de escrever zeros por alguns dias”. Lá se vai a chance de fazer um chip invisível. A natureza não vai deixar.

Falando em natureza, ela nos indica mais ou menos quantos átomos precisa para fazer qualquer tipo de máquina, isso provavelmente está na faixa dos menores vírus existentes. Caso você ainda não tenha percebido, microrganismos são máquinas muito pequenas. O vírus é uma máquina programada para infectar células e se multiplicar dentro delas. Bactérias são máquinas bem mais complexas que podem se virar sozinhas se tiverem uma fonte de energia, mas não tem um cérebro decidindo o que fazer a cada momento, tem apenas uma programação genética que realiza uma ação específica dependendo do estímulo que recebe.

Em tese, talvez até possamos criar uma forma mais eficiente em utilização de espaço que um vírus ou uma bactéria, mas essa tecnologia não existe ainda. É realmente difícil manipular a matéria nessas escalas. Uma das maravilhas da engenharia humana atual é a produção de chips de computador, as fábricas são espetaculares e caríssimas de criar e manter. Cada chip é composto de estruturas minúsculas que passam ou param correntes elétricas, criando os zeros e uns que a computação precisa para funcionar. E estamos chegando nos limites dessa tecnologia: essas estruturas já estão tão pequenas que efeitos de incerteza da física quântica começam a fazer diferença.

E se você olhar um desses chips num microscópio superpoderoso, vai perceber um detalhe importante: é tudo meio tosco nessa escala. Os átomos que formam os chips estão meio desorganizados, não são linhas perfeitas. Usam lasers para “imprimir” as estruturas nas placas de silício, e não há capacidade de fazer isso com perfeição no nível atômico. Deixam os chips do jeito que dá, se funcionar está bom. Tanto que existem variações nos chips de computador: como muitos tem defeitos na hora da produção, as fábricas separam os mais perfeitos dos mais defeituosos, as empresas vendem os mais bem arrumados como versão de alto nível, caríssimas, e as mais defeituosas como as versões para o consumidor médio. Na média, eles funcionam.

Lembrando: a tecnologia dos chips é uma das mais avançadas da humanidade porque é uma das mais valorizadas da atualidade. A China está se matando há décadas para conseguir produzir esses chips no nível que as empresas americanas e de Taiwan produzem… e não conseguem. É nesse nível de complexidade. Um grão de poeira na linha de produção de chips pode gerar milhões de dólares de prejuízo. É complexo assim.

Se alguém fosse capaz de “imprimir” chips funcionais na escala necessária para não ser visível em microscópios comuns, eles já estariam em tudo ao seu redor. Tem dinheiro “infinito” esperando quem conseguir fazer algo do gênero, e tenham certeza que todo mundo com capacidade de fazer isso está tentando com todas as forças. O problema é que não dá para manipular átomos individuais em escala industrial ainda.

E mesmo que pudesse, fazer um chip é muito diferente de fazer uma máquina que usa esse chip. Chips são “fazedores de conta”, não interagem com o resto do mundo. A informação é enviada para o chip, é processada e devolvida para quem vai fazer alguma coisa com ela. Colocar um chip dentro de uma pessoa não resolve nada. O chip é parte do sistema, não o sistema todo. É que nem comprar um processador de computador e colocar em cima da sua mesa… não vai fazer nada sozinho.

Não conseguimos nem fazer chips do tamanho necessário para “sumir” num líquido visto a olho nu, imagina só colocar uma máquina ao redor dele? Porque precisa de máquina, precisa de algo que consiga receber informação do ambiente e fazer alguma ação com a informação processada. E para isso, precisamos de uma fonte de energia, afinal, toda máquina precisa de energia pra funcionar, seja ela feita de matéria orgânica ou inorgânica. Suas células só funcionam porque chega energia para elas em forma de oxigênio e nutrientes. O celular só funciona porque tem uma bateria.

Precisamos colocar energia nesse chip. Uma forma de aproveitar o ambiente seria utilizar energia química que já usamos no corpo humano. Mistura oxigênio com outros elementos para criar energia utilizável. Mas… essa tecnologia não existe ainda. Não no tamanho necessário para correr nas suas veias (se não tiver contato com o sangue, não tem como pegar a energia química). E não tem tecnologia de criação e armazenamento de energia nessa escala. A não ser, é claro, que você aceite que a máquina de controle mental dure apenas algumas frações de segundo antes de uma bateria do tamanho de uma célula descarregasse. Não seria muito útil, não?

Tem muita gente inteligente e dedicada trabalhando com nanotecnologia, mas ainda nada de ter uma forma eficiente de utilizar energia nessa escala. Seres vivos precisam de um espaço considerável para fazer isso, novamente, com incontáveis zeros no número de átomos necessários para montar a estrutura. O chip teria que ser enorme em relação às células do corpo humano para funcionar por qualquer tempo que fosse. Provavelmente grande o suficiente para enroscar no buraco da agulha…

Mas vamos lá, vamos fingir que não seja atualmente impossível montar uma máquina que possa entrar no corpo humano por uma agulha e funcionar de forma minimamente eficiente. Vamos aceitar que ela existe… e agora, o que ela pode fazer dentro de uma pessoa? Controlar o cérebro? Bom, não sei se te contaram, mas o cérebro é composto de bilhões de neurônios dispostos numa estrutura que sequer entendemos ainda. Cada processo cerebral é um conjunto de ativações de neurônios que raramente envolve menos que alguns milhões deles. Um neurônio não tem a menor noção do que está fazendo, é só com a coleção de todos eles que nós temos alguma forma de consciência.

Agora, imagine… como é que uma ou algumas milhões de máquinas minúsculas poderiam controlar o cérebro humano? A gente já está bem avançado na ciência de influenciar o cérebro com substâncias químicas, com remédios capazes de alterar o humor e até mesmo a percepção das pessoas. Isso é feito com a liberação de incontáveis moléculas de substâncias que passeiam pelo corpo todo até chegar no cérebro. Chegando lá, elas interagem com processos naturais do cérebro para mudar um pouco os resultados na consciência da pessoa.

Em tese, sabemos como mexer com o cérebro, mas não é uma ciência exata. Até hoje não temos certeza sobre como antidepressivos funcionam, por exemplo. Tem uma boa teoria, mas ninguém da área acha que é a resposta final. E como podemos ver no campo da psicologia e psiquiatria, existem inúmeras variáveis no processo, nem todo mundo reage do mesmo jeito a um remédio, nem todo mundo pensa de uma forma previsível para outro ser humano.

Como controlar uma mente sem saber que mente é aquela? Ok, alguns remédios deixam pessoas mais ou menos dispostas, atentas ou motivadas, mas o que isso significaria num plano de controle mundial? Deixar todo mundo desanimado faz exatamente o quê? Não existe remédio para acreditar numa ideia ou para gostar ou desgostar de alguém. Ferramentas de controle precisam funcionar de forma mais específica do que um antidepressivo, por exemplo.

E, mesmo que esse fosse o objetivo… não é mais fácil continuar o que já está funcionando agora? As pessoas estão se entupindo de remédios por conta própria. Se eu estivesse criando um chip de controle mental, eu não gastaria tanta energia e dinheiro fazendo algo que todo mundo está buscando ativamente. Teria que ser algo bem mais único do que mexer com o humor geral de alguém.

As máquinas teriam que interagir com o cérebro das pessoas de tal forma que criassem ou reprimissem ideias específicas. Mas aí surge um problema fundamental: embora nossos cérebros sejam parecidos em linhas gerais, como cada um deles se constrói com o passar dos anos deixa cada pessoa única. Só pensar sobre as memórias: se elas ficam armazenadas no cérebro e cada pessoa tem um ponto de vista único, nem mesmo gêmeos teriam a mesma estrutura cerebral! Programar uma máquina para mexer com memórias é impossível sem ter uma análise completa de um cérebro e a conexão entre cada neurônio e significado de cada um deles em conceitos práticos e abstratos da mente humana.

Não tem computador no mundo que consiga fazer essa análise, mesmo com o tamanho de um prédio. Imagine só uma máquina que tem no máximo a grossura de um fio de cabelo de processador? As coisas têm tamanho. Não dá pra quebrar regra da física com tecnologia. Se uma máquina menor que uma célula fosse capaz de processar informação equivalente a de um smartphone moderno, ela derreteria imediatamente pelo calor gerado. A natureza não perdoa: as coisas precisam de tamanho, energia e dissipar calor.

Vou ser mais… visual. Quando eu penso no desafio de criar um chip de controle mental aplicável por vacina, é mais ou menos como pensar em construir um helicóptero que carregue quatro pessoas com vinte peças de Lego. Obviamente falta muita tecnologia para fazer isso funcionar, e talvez nem daqui há mil anos um ser humano seja capaz. Existem limitações absurdas.

Quando falamos de nanotecnologia para o futuro, não é ter um robô consciente dentro do seu corpo, é ter um sistema muito hábil de manipulação de propriedades químicas e físicas da natureza para gerar um resultado maior. Nanotecnologia nesse sentido é um remédio inteligente, não porque pensa sozinho, mas porque foi planejado para fazer um caminho exato e interagir com um processo específico dentro do corpo. Um composto químico que acha uma célula cancerígena, por exemplo. Não acha porque olhou para a célula, fez um cálculo e achou que era cancerígena; acha porque tem o encaixe molecular que só uma célula cancerígena aceitaria.

Nanotecnologia ainda é desafio de conseguir sequer imitar vírus e bactérias, o que ainda não chegamos nem perto de conseguir. A natureza demorou bilhões de anos para montar isso, e não é à toa: é complicado mesmo. Eu devolveria o projeto para quem me contratou. Diria que era para continuar com o lance de encher as pessoas de remédios e fazê-las ficarem dançando na frente de seus smartphones, está funcionando muito melhor.

Porque chip de controle mental… não dá não.

Para dizer que eles tem tecnologia pra isso (não tem, seu analfabeto científico), para dizer que foi uma decepção, ou mesmo para dizer como você faria esse chip: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • Fazendo uma comparação que beira à forçação de barra, o mais próximo que temos nesse sentido seria o chip da Neuralink: passa absurdamente longe de controlar a mente de alguém e acho eu que não deve caber numa vacina…

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  • Como assim, Somir?! Eu SEI que a história dos chips com células de fetos abortados do Biu Gaitis para mudar meu DNA é reaaal!!!11!!

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  • “como podemos ver no campo da psicologia e psiquiatria, existem inúmeras variáveis no processo, nem todo mundo reage do mesmo jeito a um remédio, nem todo mundo pensa de uma forma previsível para outro ser humano.”

    Eu não tenho grande entendimento do assunto, mas meus amigos psicólogos dizem que uma parcela considerável da população – um deles disse 30% – simplesmente não reage a esse tipo de remédio. Minha avó era uma dessas pessoas, nada funcionava pra tratar a depressão dela.

    Particularmente, acho muito difícil desenvolverem nanotecnologia capaz de controlar cérebros. Mexer na educação e na mídia traz resultados bons o suficiente e sem tantos gastos em vão.

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  • Vamos ver se eu entendi, Somir: mais do que uma mera teoria conspiratória estapafúrdia que não deve ser levada a sério, a idéia de chips de controle mental sendo injetados em pessoas é uma impossibilidade dupla, tanto científica quanto tecnológica. É isso?

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