Espelho.

Carlos estava vagando por uma fazenda qualquer, às margens da estrada de terra que pegara horas atrás. Não tinha noção de onde estava, não tinha a menor vontade de religar seu celular, só queria curtir a solidão daquele pasto iluminado pela lua cheia. Na sua mão, uma garrafa de uísque pela metade.

Ele encontra um toco de árvore numa elevação do terreno. Decide se sentar por lá. A noite estava agradável, com uma leve brisa suavizando o calor do verão. Ele começa a tomar mais um longo gole da bebida que o acompanhara desde a saída do carro. Ela queima em sua garganta, fazendo-o olhar para o céu estrelado com uma careta. Seus olhos se abrem por um momento, o suficiente para ver uma das estrelas se movendo.

Mal dá tempo de esfregar os olhos e o ponto luminoso aumenta exponencialmente. Depois de um clarão, ele pode enxergar uma esfera metálica flutuando perfeitamente sobre sua cabeça. Um holofote se liga daquele objeto, e dele começa a surgir uma figura estranha.

O ser que se manifesta diante de Carlos é do tamanho de uma criança, vestido dos pés à cabeça com uma espécie de traje espacial dourado. Ele tem formato humano, dois braços e duas pernas finas ao redor de um tronco diminuto. A cabeça é grande em proporção, e está coberta por um capacete escuro que lentamente se transforma em superfície espelhada.

Carlos está boquiaberto, olhando para o ser diante dele e para a garrafa de uísque, como se uma coisa explicasse a outra. O ser se aproxima dele, Carlos esboça uma reação de fuga, mas suas pernas já não obedecem ao corpo como antes. O ser chega perto e oferece um objeto com a mão esticada.

O objeto parece familiar, como se fosse um fone de ouvido. O ser usa o braço para apontar para o que seria sua orelha. Carlos vacila por alguns momentos, mas diante da insistência dos gestos do visitante desconhecido, pega o fone e coloca em seu ouvido direito.

“Você consegue me ouvir?”

Carlos leva um susto inicial com a voz robótica, como se fosse um daqueles leitores de texto para voz da internet. Mas logo responde:

“Sim, eu consigo. Quem é você?”

“Ex’tniiklo-okbnk, mas eu não me incomodo se você usar um nome mais simples de pronunciar, como Ex. Qual o seu nome?”

“Carlos. Ex, você… é um alien?”

“O seu povo se chama de humanidade, o meu se chama de tkniaks’ex. Mas, novamente, não se preocupe, pode me chamar de alien se for mais fácil.”

“Se eu estivesse no seu planeta, eu seria o alien, né?”

“Hahaha… sim, seria bem assim.”

“Ex, eu estou bêbado, num dia bem ruim… acho que você não escolheu a melhor pessoa pra fazer contato.”

“Eu senti isso, Carlos. Por isso que eu vim até aqui. Não está sendo um dos uulok’s mais agradáveis pra mim também.”

Carlos sorri. Estica o braço mostrando a garrafa de uísque. O ser do capacete espelhado gesticula que não com o braço:

“Agradeço, Carlos, mas mesmo que meu corpo aguentasse a quantidade absurda de álcool que um humano aguenta, eu não posso tirar meu traje, as bactérias e vírus deste planeta acabariam comigo em questão de minutos.”

“Eu estou aqui por um coração partido, Ex. E você?”

“Não é muito diferente, se eu realmente entendi como a cultura de vocês funciona. Eu perdi o meu jnuue’k vindo pra cá. Se eu tivesse que explicar o que é jnuue’k para um humano, eu diria que é uma mistura de animal de estimação, irmão e… celular?”

“É… é meio confuso…”

“Então me explica o que está te deixando triste primeiro, Carlos.”

“A minha namorada… ex… ex-namorada… ela me traiu. Eu estou morrendo de raiva dela, cara. Morrendo. Mas… eu sinto falta dela. Ela fica me ligando pra pedir perdão sem parar. Eu vim me esconder do mundo aqui.”

“Traição é ter relação sexual fora do acordo de exclusividade, não?”

“É… é um jeito de dizer. Vocês não têm traição no… no seu lugar?”

“Não desse jeito. Nós não temos… sexo. Precisamos de vários de nós ao mesmo tempo para criar descendentes. Pelo o que eu conheço da cultura humana, vocês achariam nojento. Hahaha…”

“E o que é o seu… juek?”

“Jnuue’k. Meu planeta é diferente do seu, humano. Uma parte dele está sempre virada para nossa estrela, M’nek, e outra sempre voltada para a escuridão do espaço. Os tkniaks’ex originais vinham do lado frio, os jnuue’k originais vinham do lado quente. Em algum momento, milhões de anos atrás, começamos a viver juntos, tão juntos que nossos corpos evoluíram para se encaixar.”

“Caramba…”

“Eu recebi o meu logo depois de nascer. Tem um espaço na minha coluna para encaixar um. Eu só me lembro de pensar junto com ele. Tudo o que eu fiz, foi junto com ele.”

“Poxa, Ex… eu sinto muito. Parecia alguém muito importante para você.”

“E era…”

Carlos estica o braço e coloca no ombro de Ex:

“Um brinde ao seu jnué!”

“Jnuu… um brinde!”

Carlos dá mais uma golada no uísque, praticamente terminando a garrafa.

“E o que você vai fazer agora, falar com o presidente?”

“Não, eu estava aqui só para fazer uma manutenção. Um detrito acertou meu companheiro em cheio… eu não sabia o que fazer, então desci e fiquei olhando o seu planeta pela última vez.”

“Vai ser uma viagem difícil sem o seu amigo, né?”

“O que eu não te disse é que não tem viagem de volta. Sem o meu jnuue’k, meu corpo começa a falhar lentamente. Não somos feitos para ficar separados, e cada um de nós só pode ter um par durante a vida.”

“Você está morrendo?”

“Sim.”

“E por que você está aqui falando comigo?”

“Eu não queria morrer sozinho.”

Carlos abraça o alien de forma desajeitada. Eles continuam conversando até o amanhecer, falando sobre bobagens, estrelas e os abomináveis modos de reprodução de cada um de seus povos. As risadas continuam até que Carlos olha para o lado e vê o corpo de Ex desfalecido.

A nave, que permaneceu flutuando ali o tempo todo, começa a brilhar; e com uma luz poderosa, pega o corpo de Ex de volta. Ela se fecha e desaparece com a mesma velocidade que surgiu.

Carlos olha para o alto e se despede do ponto de luz. Ele volta para casa e passa o resto do dia pensando se liga ou não para a ex-namorada.

Para dizer que faltou o emoji de viadagem, para dizer que a verdade está lá dentro, ou mesmo para dizer que chorou pelo tempo que perdeu da sua vida: somir@desfavor.com

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Comments (6)

  • E essa fase Ray Bradbury? Alguém explica isso?

    Seja como for, muito bom. Obrigado e parabéns.

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  • Subterranean Homesick Alien

    Gostei muito, não esperava esse conceito.
    Tomara que Ex seja revivido e volte pra tomar umas com Carlos…
    Não sei pq mas imaginei ele como um ser semiplanta.

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  • Deveras tocante, Somir. É… Às vezes, tudo o que nós queremos é alguém que nos escute e nos faça companhia.

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