Ovelhas solitárias.

Ontem, um maluco aleatório abriu fogo dentro de um vagão de metrô nova iorquino. Como tantos outros malucos antes dele, e tantos que virão no futuro. Isso sempre nos faz pensar no perigo desses lobos solitários, gente que sem aviso nenhum resolve fazer mal para completos desconhecidos, às vezes com um motivo declarado, às vezes nem com isso. O que nos leva a conclusão de que uma pessoa qualquer pode ser muito perigosa… mas que raramente nos faz discutir como… como é que o mundo ainda funciona?

A mídia em geral tem o péssimo hábito de focar em desastres, erros e problemas. O negativo tem um poder de atrair e reter atenção espetacular. Não é à toa que jornal é 99% desgraça: é o que costuma vender. Nós, que pagamos para produzir conteúdo e estamos pouco nos lixando para cliques e visualizações, acabamos fazendo a mesma coisa: vamos naquilo que mais chama atenção e fazemos com que a pauta do Desfavor seja dominada por notícias negativas e críticas em geral. O mundo está cheio de problemas, problemas nos chamam atenção desproporcionalmente… está criada a situação.

Não estou estabelecendo uma mudança de foco no Desfavor, nós vamos continuar focando no que acharmos relevante a cada momento, mas essa é uma boa oportunidade de escrever um texto olhando para o outro lado da realidade: apesar dos pesares, o ser humano médio é pacífico e bem-intencionado. Não é muito brilhante, costuma estar terrivelmente mal-informado, mas o grau de estabilidade que a humanidade moderna tem só é possível se a imensa maioria das pessoas tiver uma boa índole.

E quando eu falo boa índole, é melhor esclarecer: não é que todo mundo seja bonzinho, é que mesmo as pessoas mais limitadas de alguma forma entendem que é melhor construir do que destruir, que é mais vantajoso para todo mundo manter um mínimo de paz e formar relações positivas com aqueles que nos cercam.

Toda vez que surge uma dessas notícias sobre lobos solitários, terroristas e malucos em geral machucando ou mesmo matando pessoas desavisadas, acabamos focando no perigo latente em cada ser humano. Uma pessoa pode causar o caos e estragar a vida de muita gente ao seu redor. A tecnologia com certeza tem um papel nesse aumento de potencial destrutivo individual: antes da arma de fogo, o estrago que uma pessoa podia causar normalmente era bem limitado. Quando colocamos bombas na equação então… uma pessoa dos dias atuais pode aprender como fazer uma arma de destruição em larga escala em pouco tempo.

A verdade assustadora é que na maior parte do mundo, é realmente simples que uma pessoa consiga ter a capacidade de matar várias antes de sofrer qualquer represália. Para lutar guerras de forma mais eficiente e aumentar nossa capacidade de extrair recursos da natureza, demos um imenso poder de destruição para qualquer indivíduo com os recursos certos.

Um lobo solitário nos lembra de como uma pessoa pode ser perigosa. Mas também pode nos lembrar de como a maioria escolhe não ser. E é nisso que eu quero me concentrar hoje. A maioria de nós vive uma vida que presume contato constante com outros seres humanos, quase sempre em posição de extrema vulnerabilidade. Não temos equipes de segurança observando atitudes suspeitas, ninguém revista as pessoas que entram em contato conosco… vivemos dentro de lugares com poucas alternativas de escapatória cercados por estranhos.

E mesmo assim, o ser humano médio consegue viver. Nossa expectativa de vida só aumenta ano após ano, os números da violência diminuem com o passar das décadas e séculos. O que prova que doenças e fome eram basicamente os nossos maiores inimigos desde o começo dos tempos. Quando você consegue tratar doentes e oferecer recursos básicos para uma população, a violência não consegue reduzir a duração e a multiplicação da vida humana de forma significativa.

Sim, até mesmo no Brasil, onde a taxa de assassinatos é maior que em países em guerra declarada. Morre muita gente neste país de forma violenta, mas nem de perto o suficiente para mexer com estatísticas de crescimento populacional. Mais de 50.000 assassinados é um número assustador, mas estamos falando de uma população de mais de 200 milhões de pessoas, não é suficiente para inviabilizar o desenvolvimento da sociedade. Poderia e deveria ser muito menor o número de mortes violentas, mas não é grande o suficiente para reduzir o crescimento populacional ou mesmo a longevidade média do brasileiro.

Precisamos olhar para o outro lado dessa história: a absoluta maioria das pessoas com as quais você vai conviver nessa vida são “ovelhas solitárias”, gente que não quer te matar ou machucar, que provavelmente nem quer te causar desconforto. É gente que fica chateada de dizer não. Que fica triste quando é rejeitada, que aceita muita coisa que não gosta só para manter uma relação positiva com as pessoas com as quais convive. Gente que provavelmente é como você.

Não que sejam pessoas maravilhosas o tempo todo, às vezes podem ser muito irritantes e teimosas, às vezes podem dizer coisas horríveis, trair, mentir… assim como eu e você. Ninguém precisa se preocupar comigo pegando uma arma e saindo atirando por aí, e mesmo sabendo que estou escrevendo para estranhos na internet, aposto que vocês também são seguros a esse ponto. É lógica simples: se a maioria avassaladora dos seres humanos não fossem mansos, ovelhinhas mesmo, não conseguiríamos nem manter uma plantação de batata funcionando, quanto mais uma sociedade complexa e globalmente interconectada como temos atualmente.

Existem explicações instintivas para isso: somos seres sociais, aprovação e convivência são importantíssimas para quase todos nós, salvo alguma doença mental (transitória ou permanente). Faz parte do que nos faz sentir humanos ter relações positivas com outros humanos. E ainda tem todo o elemento evolutivo: só estão vivos hoje em dia os descendentes dos humanos com maior foco em vida em sociedade. O grosso dos lobos solitários genéticos foi eliminado pela natureza em milhares e milhares de gerações.

Sim, ainda existem malucos atirando por aí, mas a natureza reduziu seus números de tal forma durante nossa história que eles não conseguem mais parar o desenvolvimento da espécie. Salvo alguma mudança significativa na tecnologia de reprodução humana, essas pessoas vão continuar existindo, mas nunca vão se tornar numerosas o suficiente para impedir que a sociedade como um todo avance.

Eu acho importante trazer esse tema à tona para combater o tipo de discurso que vai se instalando entre a parcela mais radical dos ativistas políticos: o de que precisamos ser mais agressivos na busca de uma sociedade ideal. Espera, espera… olhem para os números, olhem ao seu redor. Seja lá o que estivermos fazendo para tornar o mundo melhor para as pessoas, está funcionando. Ainda existe muito sofrimento e injustiça, mas contra todo o argumento de quem declara o fim do mundo como próximo, a maioria de nós ainda consegue viver uma vida relativamente segura e estável. O ser humano médio é avesso à violência e não quer fazer mal para o outro.

Não somos monstros. Somos uma maioria absoluta de ovelhas, que até por causa da forma como a mídia trata os problemas, colocando uma lupa sobre tudo o que há de ruim nesse mundo, somos uma maioria absoluta de ovelhas que acabam se achando solitárias. Não é só você que está tentando viver sua vida em harmonia com os outros, é praticamente todo mundo. Lobo solitário vira notícia, mas é óbvio que não são a média. Se gente realmente descompensada da cabeça que quer matar todo mundo ou não liga nem um pouco para o bem-estar alheio fosse a média… não seria notícia.

Você não é uma ovelha solitária. Você é tão parte da maioria que não existe sequer incentivo para colocar você em evidência. Pode até ser chato para quem queria um pouco mais de atenção, mas o que você recebe em troca é a possibilidade de viver sua vida mais ou menos como quer e lidar com situações perigosas causadas pelos lobos solitários bem raramente. Sim, morre muita gente por causa de violência, mas mesmo nas comunidades mais abandonadas pelo poder público, esses números são incapazes de impedir a vida da maioria.

Temos que melhorar? É claro! Temos que ter melhores ferramentas para lidar com os malucos e os psicopatas que infestam nossa sociedade? Sim, temos. Mas não é para desanimar achando que é uma guerra perdida. A guerra já foi vencida, faz tempo: a humanidade escolheu uma vida pacífica. O que temos agora são problemas pontuais causados por doenças mentais e imensa desigualdade social. Não é para achar que estamos perdidos, ou mesmo que precisamos virar tudo de ponta cabeça para começar a lidar com o problema. Discurso de fanático e radical não tem base na realidade.

A realidade é nossa, das ovelhas que se acham solitárias. Não somos. Somos a maioria, e o caminho em linhas gerais que nossos antepassados resolveram seguir está se provando correto. Quando a população começar a diminuir e a longevidade do ser humano cair por muito tempo, é hora de corrigir o curso.

Não estamos nessa situação. Está funcionando sim. Mas é claro que não é perfeito, perfeição é uma ilusão da mente humana. O foco em melhorar faz bem, desde que não ignoremos o que já está funcionando. Pode ficar insatisfeito sim, mas não seja enganado por quem se concentra exclusivamente em gente ruim, essas pessoas não enxergam o mundo, enxergam apenas o próprio umbigo.

Para dizer que tem que acabar com tudo isso aí, para dizer que otimismo é inimigo de autoritário, ou mesmo para dizer que o seu umbigo é o que te mantém vivo: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • Os lobos solitários hoje em dia podem até ser poucos em comparação com o que já houve na história da Humanidade, mas ainda fazem muito estrago. O bastante pra ainda nos incomodar e nos chocar.

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    • hahahahaha

      Muitíssimos(as), tanto dentro quanto fora daqui, ajudam suas localidades a não fracassarem ainda mais: as chances de ser vítima de homicídio no Brasil seguem sendo no máximo “28 em 1000″…

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      • A maioria aqui teria vergonha de assumir na vida real que lê o desfavor, isso já diz muito.
        Imagina se precisasse fazer login no Facebook pra comentar aqui.

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