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Therians

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| Sally | | 12 comentários em Therians

Tudo começou quando vi um vídeo de uma mãe reclamando e debochando da filha pelo fato da filha se reconhecer como uma formiga. Sim, uma formiga. “É piada”, pensei. Não era. Fui investigar e acabei descobrindo o fascinante universo dos Therians.

Os Therians são pessoas “transespécie”, ou seja, pessoas que nasceram em um corpo humano, mas que se sentem outros animais. Por exemplo, a menina do exemplo acima, que se identificava com uma formiga. O nome vem de “Therianthrope”, ou, em português, Teriantropia, que significa uma criatura ou divindade que combina atributos humanos e de animais.

Há quem alegue que são pessoas com “dismorfia de espécie”. Outros alegam possuir uma conexão “psicológica” com certo animal. Outros alegam sentir uma conexão “neurobiológica” com animais. Outros, chamados Otherkin, acreditam que em vidas passadas foram animais e nesta vida trouxeram resquícios dessa experiência.

Aqui temos uma linha tênue entre empatia e endossar problema mental. Não estamos negando que existam desordens, transtornos ou condições mentais nas quais uma pessoa realmente acredite que é outro animal, mas, ao que parece, a coisa virou um modismo. O jovem e seus modismos.

Provavelmente em outro momento histórico essas pessoas seriam internadas ou medicadas, ninguém se preocuparia em averiguar se era uma condição mental ou apenas uma rebeldia momentânea, modismo ou uma fase ruim pela qual a pessoa estava passando. Hoje vigora o discurso de que você é o que você se sente (e deve ser tratado de acordo), os Therians estão ganhando espaço. E esse discurso é especialmente complicado quando falamos desse grupo.

Antigamente o jovem era mais tímido com esse tipo de modismo, se limitavam a dizer que tinham um “animal espiritual” e tentavam fazê-lo presente em suas vidas através de roupas, tatuagens, acessórios. Mas, hoje em dia há mais permissão para se sentir algo diferente do seu corpo e reivindicar ser tratado conforme esse sentimento. Porém, a coisa se complica muito quando a pessoa se sente outra espécie.

Os Theriands se sentem um bicho preso em um corpo humano. Alegam inclusive passar por mudanças de comportamento “incontroláveis”, apelidadas de “shifting”, nas quais o animal com o qual se identificam prevalece sobre sua condição humana. Não raro quando sentem esses “shiftings” subitamente começam a se comportar como o animal: ficam em quatro patas, saltam, rosnam e coisas piores.

Talvez você esteja lembrando de um caso isolado que já foi notícia aqui, de um japonês (“Toco”) que se identificava como um cachorro, conhecido como “O Collie Humano”. Hoje, ele não é mais um caso tão isolado assim, qualquer busca rápida vai te direcionar para vídeos de encontros de pessoas que se identificam como cachorros. Teve um recentemente na Alemanha que reuniu mais de 50 pessoas. Sim, o modismo está se espalhando. E não apenas de pessoas que se identificam como cães, mas com muitos outros animais.

A sociedade repudia? Não. Boa parte inclusive encoraja. Um fator que chama a atenção é a demanda por esse tipo de conteúdo em sites de… como podemos chamar? Entretenimento adulto? Um dos maiores faturamentos dessas plataformas tipo Only Fans vem de pessoas que se “vestem” e se portam como animais. Quanto mais parecido com o bicho, mais procura. Em redes sociais o tema também faz sucesso. O perfil de uma moça que se comporta como um gato tem quase um milhão de seguidores no TikTok.

Graças a esse modismo, o mercado em torno dos Therians não para de crescer: pessoas e marcas que vendem fantasias e acessórios para quem se sente animal aumentam todos os dias e ficam mais e mais sofisticados. Que tipo de acessórios? Tigelas, por exemplo. Quem se identifica com cães a gatos come de quatro eu uma tigela com seu nome.

Porém, me arriscando a sofrer severas críticas por parte de alguns grupos, me sinto no direito de dizer que se achar um determinado animal não te faz esse animal. Aquela frase de que se você se sente X você é X fica insustentável quando falamos de outras espécies. Se a pessoa se sente uma águia, ela não será uma águia, ela não terá capacidade de voar.

Digo isso porque estão surgindo diversos casos de lesões e sequelas de pessoas que se sentem animais e resolvem se portar como animais, mas o corpo humano não responde a esse anseio. Se você passar seus dias andando de quatro por se sentir um cachorro, sua coluna e suas pernas vão sofrer com isso. Então, talvez seja hora de revisitar essa afirmativa de que, se você se sente X, você é X. Talvez algumas pessoas que se sentem X nunca possam ser X. Talvez você precise de ajuda para aceitar que, mesmo se sentindo X, seu corpo é Y.

Os Therians obviamete discordam. Eles se acham incompreendidos, se comparam a outros grupos que já foram tratados como “doentes” e hoje são bem aceitos socialmente, como é o caso de gays e trans. O que, por sinal, é um ótimo argumento: se uma pessoa com corpo biológico masculino que se sente mulher deve ser tratada como mulher, por qual motivo seria diferente com eles? O que importa não é como a pessoa se sente?

Profissionais de saúde mental são muito cuidadosos quando falam sobre esse assunto, afinal, todo mundo sabe que qualquer pessoa está à beira do cancelamento hoje em dia. Eles recomendam avaliar “caso a caso”, devido à “complexidade da mente humana”. Certíssimos eles em ter cautela.

Para ser considerado Therian não é necessário que a pessoa altere seu corpo ou sequer vista uma fantasia. Basta que ela sinta uma sensação de não pertencimento a aquele corpo e que o corpo humano lhe cause uma profunda sensação de inadequação. E isso a gente detecta de uma forma muito simples: quem está com uma profunda sensação de inadequação e não se identifica com seu corpo está lutando com isso, não está fazendo graça com isso.

De forma alguma queremos negar a existência de pessoas transgênero ou minimizar seu sofrimento. Muito pelo contrário, quem adere a modismos é que banaliza o acolhimento criado para pessoas trans e o usurpa para si regras legítimas, criando um impasse, um repensar dessas regras.

Um exemplo, entre muitos: se você tem que ser tratado como se sente, uma pessoa que se sente um cachorro poderia ter permitido fazer sexo com “outro” cachorro? Zoofilia é algo proibido e malvisto em sociedade, porém, se aplicarmos a regra do “a pessoa é o que ela se sente, independente do corpo” se abriria uma brecha perigosa para, entre outras coisas, normalizar zoofilia. E aí? Olha que impasse terrível se cria.

Uma pessoa que se sente um gato teria o direito de se recusar a ir para um hospital e demandar ser atendida por um veterinário? Olha o tamanho do problema quando você finca o pé que o corpo não importa, que a pessoa é o que ela se sente e precisa ser tratada de acordo com isso. A biologia é implacável, você pode se sentir um ratão do banhado, mas seu corpo ainda é humano e um veterinário não é o profissional apto para te atender. Mas, se você diz isso em voz alta, vai ter quem te ache transfóbico. Complicadíssimo.

O caso mais famoso, do Collie Humano, é um exemplo de como a biologia não se importa se você se sente outro animal. Ele teve sérios problemas de coluna e de articulações por passar seus dias andando em “quatro patas” e, por ordens médicas precisou se conformar em voltar a ser bípede. Então, nem sempre se sentir algo te faz algo e dizer isso não é transfobia.

Existe uma linha interpretativa tênue aqui. O que defendemos é não levar as coisas a ferro e fogo, a extremos. Tratar a frase “você é o que você se sente independente do seu corpo” como verdade absoluta é nocivo, pois pretender que um ser humano seja tratado por um veterinário em vez de um médico não é razoável. Porém, desmerecer por completo essa frase também é nocivo: as pessoas têm o direito de se sentirem o que elas quiserem e isso deve ser respeitado, desde que não as coloque em risco ou coloquem a sociedade em risco.

Exemplo: uma pessoa que diz ser um Condor e sobre no alto de um prédio para levantar voo. Eu não acho que esse sentir deva ser respeitado, pois ela não vai conseguir voar, vai se machucar e pode machucar outras pessoas ao cair. Quando há risco para a própria pessoa ou terceiros, a biologia tem que prevalecer.

A comunidade trans pode ficar chateada o quanto quiser, mas biologia é uma realidade que não pode ser mudada pelo seu sentimento. Tanto é que pessoas com corpo do sexo masculino, por mais que se sintam mulher, podem ter câncer de próstata e jamais terão câncer de ovário. Negar a biologia nesses casos é uma fantasia que pode durar bastante em outros casos, mas, no caso do Therians, a negação acaba rápido: não vai demorar nada para que o corpo dê indícios de que não pode voar, andar em quatro patas ou saltar de um telhado para o outro.

Especialistas são quase que unânimes em afirmar que embarcar nessa fantasia de que biologia não importa e que basta se sentir para ser não vai ajudar uma pessoa transespécie, vai apenas negar a realidade reforçando o problema dela. Se sente uma águia? Ok, vamos conversar e ver qual é a melhor forma de ajudar essa pessoa a viver em um corpo que não é o de uma águia, em vez de aplaudir e dizer que ela pode voar.

Só que está cada vez mais difícil dizer isso em voz alta. Provavelmente você seria acusado de preconceito, de ser cabeça fechada, de ser opressor. E isso preta um desserviço para todos, inclusive para os que precisam aceitar que são seres humanos e seu sentir infelizmente não muda a biologia.

Sem mais.

Para dizer que eu sou preconceituosa (trabalhar com a realidade não é preconceito), para dizer que preferia ter morrido sem nunca ouvir falar disso ou ainda para dizer que o jovem tem que acabar: comente.

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