Skip to main content

Colunas

Arquivos

Remédio amargo.

Remédio amargo.

| Sally | | 14 comentários em Remédio amargo.

Eu tenho uma lista de assuntos sobre os quais gostaria de falar aqui, mas nunca consigo, pois desde janeiro o Brasil é um atropelo de Desfavores. E hoje não foi diferente. Um final de semana de barbáries me obriga a comentar um assunto mais do que desagradável.

Todos devem estar cientes da barbárie que aconteceu no Recife, uma suposta briga de torcida, que acabou com espancamento, pessoas seriamente feridas e homem com o ânus dilacerado por uma barra de ferro. Também tivermos um episódio da mesma espécie em um show da Anitta, onde um homem foi estuprado de forma violenta.

Eu não vou entrar em detalhes de nada, só quero chamar à reflexão o quanto mais vão esperar a barbárie evoluir para fazer algo. Todas as propostas que eu vejo são inexequíveis ou de longo prazo. O que será feito hoje para evitar que os filhos de vocês sejam vítimas da barbárie?

“Ain Sally, falar é fácil, dá uma sugestão você então”. Ok. Eu tenho uma sugestão, só que ela não é bonita. Quando deixamos as coisas chegarem a um ponto extremo, a solução também tem que ser extrema. Na minha opinião, eventos que envolvam grandes reuniões de pessoas deveriam ser proibidos no Brasil até que se encontre uma solução, até que o Poder Público consiga controlar essas pessoas violentas que fazem esse tipo de barbárie.

Vai ser legal? Não. Vai ser horrível, terrível e provavelmente muito criticado. Mas gente que não sabe se portar não pode se reunir. “Mas Sally, eu sei me portar e vou ser punido por culpa de quem não sabe?”. Bem-vindo ao conceito de Estado e de leis: para impedir que nos matemos, todos abdicamos de alguma liberdade individual para criar as normas necessárias para proteção coletiva.

Perceba que não é um projeto de vida: banir para todo sempre eventos coletivos. É uma medida temporária para encontrar uma solução. E quando se tem uma enorme pressão para que a medida temporária cesse, por ela ser muito restritiva, o empenho em encontrar uma solução tende a ser maior.

Gente, infelizmente quando as coisas passam dos limites nesse ponto, o remédio é sempre amargo. Bota um limite menor de pessoas por evento e nada acima disso é autorizado (e precisa ser coibido), pois obviamente quando há muitas pessoas reunidas o Poder Público não consegue dar conta da índole animalesca de alguns que ali estão. Fica aí a proposta: que não se reúnam mais pessoas em grandes números.

“Não é justo punir todo mundo por causa de uma minoria”. Primeiro que não é punir, no caso, é proteger. Nem toda limitação ou restrição é punição. Segundo que, como já dissemos antes, bem-vindo ao mundo, é assim que as leis são feitas, são criadas restrições baseadas nos abusos que uma minoria comete. Ou por acaso você acha que todo mundo que dirige bêbado mata alguém? O que se tutela é o risco. Não queremos o risco. E se esse tipo de coisa começa a acontecer rotineiramente, é um risco.

Criar uma situação dessas de desconforto acelera o processo, se não de solução da questão, ao menos de pressão para solucionar a questão. Se mais ninguém puder ir a show, jogo, a porra de lugar nenhum em massa, as pessoas rapidamente vão tentar resolver o problema (ou pressionar para que se resolva) e melhorar, para poder voltar a se reunir. E, quando for liberado, talvez pensem duas vezes antes de cometer uma barbárie, pois saberão que isso pode custar a perda do direito de se reunir novamente.

Mais: se as pessoas sentirem esse remédio amargo, quando forem autorizadas a se reunir novamente, elas mesmas se encarregarão de neutralizar quem queira cometer uma barbárie, pois saberão que se isso acontecer, todas voltarão a sofrer proibições. Uma proibição dessa “severidade” faz com que a própria sociedade se engaje em impedir que isso aconteça.

“Mas Sally, seria impossível de fiscalizar”. Não. Seria difícil, mas não impossível. Sem contar que, ao ser proibido, todos os eventos oficiais de aglomeração de pessoas seriam suspensos e isso barra boa parte do problema. Nenhum dos dois exemplos de hoje teria acontecido: nem jogo de futebol, nem show. Ao menos não com tantas pessoas.

E, não sou idiota, sei que isso não vai acontecer nunca, pois todos os eventos que envolvem aglomeração de pessoas geram muita arrecadação, movimentam muito dinheiro, então, jamais, em tempo algum, serão suspensos. A razão pela qual trago o tema hoje é pelo mecanismo, pela forma de pensar: quando a coisa desanda para um certo grau de barbárie, solução bonita não resolve, só remédio amargo resolve. Nesse caso específico e em muitos outros.

E com isso de forma alguma queremos sugerir solução na base de milícia, de violência, de atitudes fora da lei. Tudo que está sendo sugerido aqui deveria ser executado dentro da mais absoluta legalidade: proibição formal de eventos que aglomerem mais de X pessoas, sendo os donos do evento responsabilizados patrimonialmente se deixarem que esse número seja excedido.

Hora de deixar de lado esse devaneio de querer que as coisas se resolvam, mas de uma forma que não limite, que não incomode, que não implique em restrição. Quando a coisa sai muito do controle, isso não é mais possível. Não se socorre um paciente que levou um tiro com um Band-Aid, não se impede as barbáries que estamos vendo sem restringir aglomeração. Infelizmente, tem que ser medidas incômodas, restritivas, chatas, que causem aborrecimento em todo mundo.

Tire hoje da sua cabeça e jogue no lixo esse mindset de que com medidas administrativas, com aumento de pena, com qualquer coisa que não seja restritiva e que afete e incomode as coisas se resolvem ou melhoram. Não se resolvem. Não melhoram. Todo mundo tem que cortar na carne para reverter um desgraçamento do tamanho que está a violência no país.

Bote hoje na sua cabeça a noção de que, se existe uma chance de conter essa barbárie, é com medidas que vão implicar em restrições para você também. Medidas que vão te privar de coisas que você gosta. Medidas que vão te deixar revoltado. Quem mandou deixar chegar nesse ponto? Quando mais o problema cresce, mais difícil ele se torna de resolver. “Mas Sally, a culpa não é minha”. A culpa é de todos. De quem não fez e de quem não cobrou que se fizesse. Cidadania é isso, não é apenas ir na urna votar de 4 em 4 anos.

Essa chavinha tem que virar na cabeça das pessoas, se não, elas sempre vão se acomodar em soluções cômodas, como a criação de leis, que, como bem estamos vendo, não bastam. Todo mundo vai ter que dar um passo atrás e ceder um pouco da sua liberdade, do seu conforto, da sua diversão. É necessário. É o único jeito.

E nessas horas sempre vem uma alma descolada da realidade dizer que isso é conformismo, coisa de gado ou algo do tipo. Não, meu anjo, conformismo é aceitar que medidas que não coíbem barbárie continuem a ser apresentadas como soluções válidas. Conformismo é permitir que tudo continue como está em um país no qual você, seu pai ou seu filho podem sair na rua e ter o cu dilacerado.

Vamos aproveitar o diferencial deste caso e refletir a respeito: agora as vítimas são homens. E no Brasil, as pessoas que fazem as leis são homens em sua maioria. Talvez agora que a barbárie chegou no cu dos homens, alguém se levante e queira fazer algo realmente efetivo a respeito. Agora é hora de discutir sobre medidas mais restritivas. Se acontecer, não recuse de cara. Faça uma reflexão sobre perder alguns direitos em troca de maior segurança.

E não venham faniquitar sobre perda de direitos. Vários governos já tiraram direitos muito mais importantes e ninguém fez escândalo. Menos, bem menos. A coisa chegou em um ponto assustador, o remédio vai ter que ser amargo. Me parece melhor não poder ir do que ir e sofrer uma violência dessas.

Nunca vou entender essa lógica de permitir que um governo te tome direitos na mão grande para que ele ganhe mais dinheiro, mas dar um piti quando a redução de direitos é voltada para manter a sociedade um pouco mais segura. Seu social, seu futebol, seu show é mais importante do que a sua aposentadoria? É mais importante do que seus direitos trabalhistas? É mais importante do que seu salário?

Não adianta viver em negação. Não adianta repetir discurso de aumento de pena, de prender mais, de construir mais presídios, de pena de morte, de prisão perpétua, do que for. Nada disso é imediatamente exequível. Enquanto outras medidas de longo prazo não são tomadas, é preciso proteger as pessoas hoje. Primeiro se educa um povo, só depois se dá liberdade. Se o coleguinha está matando o outro coleguinha enfiando barra de ferro no ânus, desculpa, mas não dá para falar em direito a liberdade.

Fazer cinco jogos sem público vai mudar o que? Nada. Não existe nenhuma providência que possa ser tomada em cinco semanas que melhore a situação. Todo jogo no Brasil deveria ser com portões fechados e torcidas deveriam ser proibidas de se reunirem de forma multitudinária em qualquer lugar. Isso, e apenas isso, garante a segurança enquanto outras medidas não são tomadas.

Mas, como já dissemos, não vai acontecer. O que sim pode acontecer é você ler este texto e deixar cair a ficha de que a situação é muito grave e que quando as coisas chegam nesse ponto são necessárias medidas muito restritivas para começar a tentar resolver. Não é sobre o “seu” direito de ir a um show ou a um jogo, é sobre uma parte da sociedade estar doente, animalesca, sem civilidade mínima para conviver em grandes aglomerações.

Seu “direito” de ir a um jogo não é nada quando comparado ao direito de outra pessoa de não ter o ânus dilacerado por uma barra de ferro. Não é sobre você. É sobre uma sociedade que precisa de contenção.

Este texto é para te pedir que reflita sobre medidas desagradáveis, impopulares, que, mesmo dentro da lei, privam todo mundo de algumas liberdades e direitos, pois, por piores que elas sejam, não as únicas que podem conter a barbárie que estamos vendo. Hora de começar a pensar com carinho nelas, não como uma solução definitiva, mas como uma forma de estancar o sangramento enquanto o tratamento não começa.

Preparem a cabeça de vocês para medidas mais restritivas, pois mesmo que não seja agora, em algum momento elas serão necessárias. A situação não parece caminhar para uma maior civilidade, muito pelo contrário. Em algum momento essa realidade vai se tornar insustentável para todos, a ponto do brasileiro fazer o maluco, dar uma de argentino e votar em outro maluco que execute o remédio amargo necessário.

Aceitem: não tem saída de problema de terceiro mundo com regras de primeiro mundo. As leis, as regras, as medidas, as soluções têm que ser condizentes com terceiro mundo. E regra para terceiro mundo é mais restritiva mesmo. Pune uma maioria por causa de uma minoria. É excessivo. Sinto muito, esse é o remédio. Ou toma o remédio amargo ou continua doente.

Eu realmente sinto muito que as coisas tenhan chegado nesse patamar. Sinto muito mesmo, de verdade. Acho o Brasil um país com um puta potencial. Mesmo nessas condições de violência que transtorna toda a população (quase todo mundo sente medo em algum momento) ainda consegue produzir muita coisa boa para o país e para o mundo. Imagina se fosse um ambiente minimamente decente e igualitário?

E é justamente por confiar no potencial do Brasil que eu estou aqui defendendo medidas mais extremas, ressalte-se, sempre dentro da lei. Não é para sacanear ninguém, não é para punir ninguém. Eu acredito que um tratamento de choque pode ser o começo de uma reversão dessa violência brutal. O tratamento de choque seria a contenção até que se reduza a desigualdade, se invista em educação e se melhore a sociedade. É como estancar uma hemorragia antes de efetivamente tratar um ferimento.

A boa notícia é que quando a população estiver educada, estiver em condições de igualdade, quando todos tiverem dignidade, o país poderá ter até mais liberdade do que tem hoje. Você não vai viver para ver, mas seu filho vai. Que tal fazer esse esforço por ele?

Não precisa fazer manifestação, marcha ou protesto. Apenas entenda que o remédio, para funcionar quando um problema está muito avançado, terá que ser muito amargo. Com isso já se dá um passo importante na direção da solução. Apenas entenda que o país não é a sua bolha, portanto, uma medida que soa ofensiva, excessiva e exagerada para você pode ser o necessário para a sociedade.

E, como a lei é para todos e o cumprimento da lei é premissa básica de um país civilizado, pelo bem da coletividade você vai ter que se sujeitar a futuras restrições bem expressivas. Mesmo que não esteja doente, vai ter que tomar o remédio amargo junto com toda a sociedade.

“Ain conformista, abaixando a cabeça para o Estado, gado…”. Então beleza. Fica aí em um país onde podem dilacerar seu ânus na rua. Eu moro em um país onde isso não acontece. Boa sorte.

Comentários (14)

Deixe um comentário para Paula Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.