Efeito multiplicador.

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Esporte de verdade? Sim, Esporte de verdade.

(Disclaimer: também fui vítima da névoa mental, logo o texto pode não sair com a qualidade que o blog exige)

“Ana Moser, já começou dizendo que os e-sports, as competições baseadas em videogames, não poderiam ser consideradas esportes”

É bom ter como ministra alguém que foi atleta e que dedicou a vida à promoção dos benefícios do esporte. O problema é que, enquanto os videogames cresciam no Brasil nos anos 90, a atenção dela estava focada na carreira dentro das quadras.

O pior é que, sem ter nunca sido atleta, pensava igual. Até que comecei a participar de um esporte, junto com outros pais, e perceber os múltiplos benefícios que praticar qualquer coisa com o devido incentivo traz.

E-Sports não ser esporte

Como havia comentado antes, haveria um bom motivo por trás da Ministra não considerar o e-sport um esporte. No caso, a primeira coisa em que pensei foi no Bolsa Atleta.

Ser um esportista de primeira linha requer muita dedicação e tempo, e tudo isso fica complicado quando essa rotina inclui também a necessidade de trabalhar para arcar com os gastos de um treinamento de alta performance.

Com o objetivo de garantir condições mínimas para atletas de alto rendimento que obtêm bons resultados em competições nacionais e internacionais, o governo federal mantém, desde 2005, um dos maiores programas de patrocínio individual de atletas do mundo: o Bolsa Atleta.

O programa garante condições mínimas para que se dediquem, com exclusividade e tranquilidade, ao treinamento e a competições locais, sul-americanas, pan-americanas, mundiais, olímpicas e paralímpicas.

São elegíveis, prioritariamente, atletas de alto rendimento praticantes de esportes que compõem os programas dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos. De forma não prioritária, o benefício pode ser estendido a atletas de modalidades não olímpicas.

Diante do que a Bolsa Atleta significa e pode proporcionar, é compreensível que a Ministra do Esporte tenha cravado que competições baseadas em videogames não possam ser consideradas como esporte. Abriria um precedente que, muito provavelmente, o orçamento do Ministério não teria como atender, tanto que dá prioridade para esportes (para)olímpicos.

E, diante de pessoas que torcem o nariz para videogames, ficaria difícil defender diante do público pagar 12 parcelas do teto de R$ 15.000 (não sei se o valor está maior agora) a, digamos, um nerd que tenha enormes chances de ganhar o e-sports numa Olimpíada, da mesma forma que a Rebecca Andrade. Sem falar que, quando um time disputa um campeonato internacional, a viagem é bancada, e atleta até recebe um pequeno valor para se manter durante o torneio.

Nesse contexto, qual seriam os argumentos para não considerar o e-sports uma atividade esportiva? Depender de uma ferramenta? Se for assim, skate e surf não deveriam ser considerados esportes, ou indo mais fundo, qualquer outro esporte que dependa de alguma coisa para acontecer, como tênis, tiro esportivo, vela, hipismo.

Uma atividade que depende totalmente do intelecto? E o Arco e Flecha? Tiro esportivo???

Propósito? Tem propósito mais discutível do que a Marcha Atlética?

O fato do atleta ficar o tempo todo sentado? Ora, no frigir dos ovos, no hipismo, o cavaleiro ou amazona conduz um cavalo.

Benefício Social

“Esporte é política pública. Milhões de jovens estão sendo impactados por e-sports enquanto você lê este texto, o mercado vai crescer e crescer. Triste que o governo esteja parado no tempo e não perceba a oportunidade. É melhor do que não fazer esporte nenhum, com certeza”.

Essa frase muito feliz do Somir me fez lembrar que Ana Moser, ao se tornar Ministra do Esporte, disse que a base da nova gestão seria integrar o esporte com educação, saúde e assistência social.

Nessas horas, espero que a Ministra esteja sendo bem assessorada para perceber o efeito multiplicador que o esporte pode proporcionar, ainda mais para crianças carentes.

Não precisa ser um esporte profissional e estruturado como futebol, vôlei ou basquete. Tem muito esporte amador no Brasil que já permite dar uma noção dessa multiplicação.

Um exemplo pessoal é o beisebol/softbol (modalidade modificada do beisebol, mais praticada hoje por meninas). Embora seja um esporte ainda amador, no qual os técnicos, assistentes técnicos, árbitros, anotadores de súmula, dirigentes, são praticamente os próprios pais dos atletas, já se percebe uma cadeia de atividade que gira em torno do esporte: personal trainers que dão treinos específicos para atletas, pessoas que vendem equipamentos para o esporte (outras que vendem luvas, tacos, equipamento de proteção aos árbitros), outras que confeccionam uniformes, gente que ministra cursos para árbitros.

Sem falar que movimenta outros setores de economia necessários para que o esporte aconteça: fretamento de ônibus para viagens, agência de turismo para torneios no exterior, setor hoteleiro das cidades que são sedes desses campeonatos, e por aí vai. Para terem uma dimensão de valores, os clubes mais ricos chegam a movimentar cada um cerca de R$ 1 milhão de reais para bancar suas categorias em campeonatos oficiais e amistosos ao longo do ano.

No entanto, havia uma limitação na expansão do esporte para além da colônia japonesa (e da renda que exige para sua prática), o que limitava o poder da multiplicação do esporte.

A situação melhorou a partir de 2006, com a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). Alguns clubes do interior de SP e do Paraná, sem o poderio econômico de outros clubes, se valeram dos mecanismos da LIE (mentira?) para garantir a sobrevivência do esporte na sua região. Esses mecanismos envolvem receber recursos de isenção de impostos de empresas e de pessoas físicas, com a contrapartida de que haja atletas carentes na equipe. Tem time no interior de São Paulo que chega a limitar a seletiva anual para atletas, tamanha a procura (no feminino, lembro que em um ano, limitaram a seletiva a 50 atletas num dos times). Além disso, para ajudar, as prefeituras dessas cidades cedem ônibus para transportar essas crianças para os torneios. Com isso, esses times já começam a contratar técnicos CLTistas, assim como comissões técnicas, nutricionistas, etc.

Para as crianças carentes, a prática do esporte traz uma oportunidade sem igual em termos de educação. Primeiro, abre o horizonte para crianças que dificilmente sairiam de casa, da sua cidade. Aprendem pelo esporte valores que nem sempre estão em casa, até porque nem sempre os pais estão em casa mesmo nos finais de semana (pensem em quem trabalha em um shopping por exemplo, pessoas que dormem no emprego, ou quem trabalha em vários aplicativos para pagar as contas).

Além disso, no beisebol/softbol, se o time da atleta chegar até em 3º lugar em um campeonato nacional, cada atleta tem o direito a receber (a partir das categorias maiores), a Bolsa Atleta, como foi explicado antes. No caso, 12 parcelas de um salário mínimo cada atleta, que tem o dinheiro depositado em uma conta diretamente no seu nome. Pena que, no caso do beisebol/softbol, o esporte só foi olímpico em quatro edições (a última em Tóquio). Assim, para Paris 2024, o esporte deixa de ser prioridade e não sei ainda se os atletas continuarão a receber essa Bolsa. E aí teríamos que esperar Los Angeles 2028 para o esporte ser olímpico de novo e voltar a ter prioridade pelas regras atuais da Bolsa.

E, por fim, em termos de oportunidade mesmo, a prática do beisebol/softbol traz uma possibilidade da criança carente conseguir uma bolsa de estudos e/ou jogar em um time profissional fora (o softbol é ainda amador no mundo). Temos olheiros aqui também. Quase sempre ouço de amigos e familiares no esporte notícias de uma menina carente que conseguiu uma bolsa de estudos numa escola ou faculdade nos EUA, Australia, Canadá. E, hoje em dia, os meninos que são contratados para jogar beisebol nos EUA já incluem cláusulas para assegurar bolsa integral em faculdades americanas, caso seguro caso a carreira de atleta não decole.

Por essas e outras que todos os pais envolvidos no esporte se dedicam integralmente ao esporte 24/7 para criar novas possibilidades para todos os envolvidos, e criar oportunidades para quem queira se dedicar ao esporte, quem sabe de forma integral um dia. De forma amadora. Ainda.

Os benefícios para o e-sports

Agora imaginem se todos esses benefícios fossem direcionados para o e-sports, tanto da Bolsa Atleta quanto da LIE. Aqui quase dou um Ctrl+C e Ctrl+V nos argumentos finais do Somir.

Com gente passando fome e traficante aliciando jovens nas comunidades, aliados a um sistema educacional que apenas agora está parando de piorar (ainda ruim), se for comparar caminho complicado e tortuoso, melhor que seja pela prática do e-sports, pois ao menos vai selecionar aqueles que tem melhores condições físicas e mentais de alcançar os resultados necessários para começar a ser considerado na cena profissional, dentro ou fora do esporte.

Além disso, não precisa de muito equipamento para colocar um monte de jovens para treinar, e nem espaço (tem clubes que são tentados a vender um campo de beisebol aqui e ali, ou uma sede inteira, para fazer caixa). E, o principal, sem dúvida a disciplina e a esperança de fazer algo a mais da vida podem vir sim desses jogos. E não apenas para os atletas, mas para suas famílias.

Nesse sentido, muitos dos pais amadores no beisebol/softbol são pais gratos pelo que o esporte proporcionou a seus filhos. Tem pais que ficaram viúvos e agradecem à rede de solidariedade no esporte que ajuda a criar seus filhos, evitando que se desviassem no caminho (há muito mais confiança em deixar um filho/a dormir na casa de amigos do esporte, do que com pais da escola).

Por fim, compartilho da tristeza do Somir pelo fato do País não perceber a oportunidade de fazer o e-sports um caso de sucesso, tal qual foi como o desenvolvimento do esporte paraolímpico aqui (fico impressionada toda vez que passo em frente ao complexo paraolímpico aqui no começo da Rodovia dos Imigrantes).

Sem falar do potencial econômico que o e-sports traria ao País, incentivando a criação de um ecossistema ao redor da prática do esporte.

Pena não ser economista para poder mensurar esse impacto, mas posso dizer que seria melhor concentrar recursos em uma aposta específica do que ficarmos nos objetivos generalistas da Ministra. Lembrem-se do quanto Israel cresceu em apostar nas Start-ups, permitindo derrotar a inflação e os terroristas sem deixar de crescer economicamente.

Ass: Suellen

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Comments (4)

  • Parece que o Brake (a dança mesmo) será esporte olímpico em Paris 2024. Se o pessoal aqui abrir logo uma confederação do Brake e montar campeonatos oficiais, já pode ir pedindo Bolsa Atleta pra Ana Moser…

  • Não concordo mas gostei do texto e te dei um Caribe porque é bom, tem gosto de arroz com passas na casa da avó no Natal. Quem não curte Caribe não teve infância e quem se acha um e-esportista nunca vai ter maturidade.

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