O último podcast.

Podcasts são uma nova forma de distribuir conteúdo, baseada numa das formas mais antigas de distribuir conteúdo. Sally e Somir tem seus gostos, mas discutem muito além disso na hora de defender suas escolhas. Os impopulares falam.

Tema de hoje: se você só pudesse escutar um único podcast até o fim da sua vida, qual seria?

SOMIR

Eu quase pulei fora do tema porque eu não tenho hábito de ouvir podcasts. Mas aí eu lembrei que muitos dos conteúdos que eu consumo no YouTube não dependem de ficar olhando a tela. Por isso, eu resolvi escolher um dos vários canais que eu acompanho: Ciência e Futurismo com Isaac Arthur. Não sei se vale como dica específica para você, mas tem um conceito na minha explicação que torna a conversa sobre algo maior.

Primeiro, estabelecendo o que eu escolhi: o canal de YouTube é sobre assuntos ultra nerds, quase sempre focados em futurismo espacial. A pessoa passeia por vários conceitos de ficção científica e tecnologia especulativa sobre a nossa possível vida como espécie depois que começarmos a era da exploração espacial.

Fala sobre astronomia, mas o foco é sobre como faríamos as coisas na prática: criar habitats em órbita do planeta ou do Sol, viajar para outros planetas e estrelas, como desenvolver economia e sistemas de organização quando estivermos lá, etc. Apesar de ser em vídeo, a parte do vídeo é mera ilustração, e não tem nenhuma imagem que precise ser vista para o áudio fazer sentido.

Por isso eu estou colocando esse canal como um podcast. Não precisa estar no Spotify ou similares para ser podcast, só precisa que o conteúdo seja totalmente entregue por áudio. No mínimo fica a dica: tem muito canal do YouTube que é um podcast com imagens relacionadas na tela. E considerando como o algoritmo da rede de vídeos é bom, talvez seja até melhor na média para ir encontrando novos criadores de conteúdo.

Depois de explicados os elementos da escolha, vamos falar um pouco mais sobre ela: não quer dizer que a única coisa que me interesse seja futurismo, espaço e tecnologia; mas é o tipo de conteúdo super específico que faz a diferença.

A internet é excelente para te entregar quantidades imensas de informação, na profundidade que você quiser. Mas se você se limitar a redes sociais com foco em socialização ou mesmo portais de notícia, vai receber muito conteúdo pouco aprofundado. E mais importante, conteúdo produzido e apresentado por generalistas. Para manter um público amplo interessado, não dá para ficar muito tempo analisando cada coisa.

E é aí que entra o diferencial dos supernerds: as pessoas que normalmente ficariam escondidas atrás de publicações científicas ou em círculos acadêmicos que desde que a rede de computadores se popularizou, conseguiram uma chance de ganhar a vida falando sobre seus interesses muito específicos.

E são essas as pessoas que eu sinto falta de ter contato na vida real (em termos, já explico). A maioria das pessoas tende ao generalismo, ou seja, conhecer um pouco sobre diversos assuntos. Pode ser mais legal num papo de bar ou mesmo para ter uma relação duradoura, mas esse tipo de pessoa (da qual eu sou um exemplo) não tem muita utilidade quando você fica com aquela coceira de saber mais sobre um tema.

Eu gosto da ideia de ter acesso aos supernerds de diversos assuntos, porque são pessoas que pagaram caro em algum aspecto da vida para acumular tanto conhecimento específico. É um tipo de valor intelectual raro de achar, e a internet é maravilhosa nesse sentido: muitos deles conseguem se expressar, e você nem paga o pedágio de conviver com esses obcecados, você só tem acesso a eles quando você quer. No dia a dia eu gosto mais de generalistas, mas se não fossem os supernerds a internet seria bem mais chata para mim.

É por isso que eu não escolheria algum podcast (ou similar) de generalistas. Podem ser generalistas muito bons no que fazem, muito sérios na sua pesquisa de temas, mas francamente: para acumular e digerir vastas quantidades de informação de áreas muito diferentes, eu já tenho o meu cérebro. É bacana saber o que outras pessoas fazem com esse monte de informação, mas eu não considero essencial. Eu faço isso também.

Como o tema de hoje é baseado em ficar só com uma fonte de podcast, eu prefiro manter o meu acesso a um supernerd do que a redundância de outros generalistas. Mesmo sabendo que outros generalistas são capazes de fazer bem melhor do que eu, principalmente se ganham a vida fazendo isso, ainda não me parece uma grande vantagem.

Toda a futilidade e desgraçamento mental causado pela internet só se compensa pelos supernerds podendo divulgar seus interesses quase (às vezes literalmente) autistas. Se eu consigo fazer o mesmo que as pessoas do podcast, mesmo que num nível inferior, não tem a mesma graça. Se quem está produzindo esse conteúdo tem uma obsessão doentia por um tipo de tema e se aprofunda imensamente nele, é isso que eu não consigo fazer sozinho.

Eu ficaria chateado de ter que me prender a só um desses supernerds, afinal, a mágica da internet para mim é poder pular de um para outro de acordo com a curiosidade, mas seria bem melhor ser surpreendido constantemente por alguém que fala sobre um tema basicamente infinito em complexidade (futurismo e tecnologia espacial) do que arriscar escutar alguém chegando em conclusões parecidas com as minhas depois de consumir o conteúdo mais superficial da grande mídia.

É claro que tem gente que vai fazer análises generalistas melhor do que eu, mas pra mim não é a graça da Era da Informação acompanhar outros generalistas. Longa vida aos supernerds, porque mesmo que eu não tenha um interesse enorme em ser amigo na vida real de alguém tão obcecado, eu adoro ter a oportunidade de escutar eles falando de forma extremamente aprofundada sobre seus interesses (na hora que eu quiser).

Para dizer que está em ingrêis vai si fudê, para dizer que é claro que eu escolheria a coisa mais chata possível, ou mesmo para me indicar mais canais/podcasts de supernerds: comente.

SALLY

Hoje não tem certo nem errado, só opinião: Se você só pudesse escutar um único podcast até o fim da sua vida, qual seria?

Xadrez Verbal, um podcast sobre política internacional do qual eu sou devota seguidora e que sempre se mostrou correto, imparcial e muito instrutivo.

Política internacional não é meu assunto favorito, mas eu os escolheria por um motivo muito simples: todo o resto dos assuntos eu posso pesquisar e me informar sozinha, por podcast ou de outras formas. O conteúdo do Xadrez Verbal nem em um milhão de anos eu seria capaz de sintetizar, compreender e contextualizar. Eu realmente preciso deles. Não tenho como ler notícias sobre todos os países do mundo todas as semanas e ter conhecimento para avaliá-las.

Os autores, Filipe Figueiredo e Matias Pinto, são historiadores com um notório saber e a capacidade de abordar qualquer questão sem viés ideológico. Frequentemente expõe suas opiniões, o que é muito natural e inclusive desejado, mas deixam claro quando a fala reflete uma opinião ou quando estão expondo fatos. Sim, eles conseguem falar sobre política internacional sem pender nem para a esquerda, nem para a direita.

Toda semana tem um episódio, no qual eles fazem um passeio por todos os países do mundo que tiveram questões interessantes a comentar, nos cinco continentes. O que eles me oferecem eu não conseguiria obter sozinha de forma alguma. A quantidade e a profundidade das pesquisas somado à visão profissional que eles possuem por serem uma enciclopédia viva da história da humanidade é algo que faz anos não encontro em nenhum outro lugar que não no Xadrez Verbal.

“Mas Sally, os episódios são muito longos”. São mesmo. Às vezes passam de cinco horas de duração. Mas são divididos por blocos, o que te permite escutar um pouco todo dia, já que ele é semanal. Além disso eles sempre deixam uma minutagem, para que se saiba de qual assunto estão falando em cada parte do áudio, o que te permite pular para assuntos do seu interesse. Mas, na real, vale à pena escutar tudo.

Hoje eu inclusive utilizo o Xadrez Verbal de uma forma até mais ampla: além do seu conteúdo informativo, Filipe e Matias viraram referência de bom-senso para mim. Ao longo dos anos, eles sempre se demonstraram muito sensatos. E, para pessoas mentalmente sãs, sensatez passa longe de alguém só falar coisas com as quais você concorda. Não é sobre isso, não é elogio por concordar com o que eles falam.

É elogio por se mostrarem coerentes, imparciais, sérios e responsáveis em suas falas. Eles conquistaram a minha confiança, por isso hoje, quando aparece uma questão controversa, sempre procuro escutar não apenas as informações, mas as opiniões pessoais deles para formar a minha.

Além dessa produção cuidadosa e responsável de conteúdo, eles também são capazes de uma flexibilidade que raramente vemos em pessoas com um pé no meio acadêmico. Por exemplo, durante a pandemia, quanto todo mundo jogava pedras no Atila Iamarino, eles o convidaram para participar dos episódios do Xadrez Verbal, para falar sobre coronavírus, vacinas e assuntos relacionados.

Quantas pessoas do meio acadêmico vocês conhecem que seriam capazes de dizer “Está acontecendo algo mais importante do que a minha área de atuação, neste momento vou dividir os holofotes com uma pessoa de outra área?”. Difícil, né? Difícil ter o ego sob controle. Mas eles têm. Dividem holofote, se retratam quando erram e tratam todos os ouvintes com muito carinho e respeito.

Sabe aquela sensação que muitos de vocês tem de pensar que nós somos loucos por produzir tanto conteúdo gratuito para o Desfavor? Pois é, eu tenho deles. Cada episódio do Xadrez Verbal que escuto penso “Tanto trabalho, tanto estudo e isso é gratuito, não dá para acreditar!”. Se eu fosse rica, uma das primeiras coisas que faria seria financiar algum projeto bem maior deles.

“Mas Sally, política internacional não me interessa”. Talvez não te interesse por ter sido apresentado sempre de forma chata, monótona ou panfletária. Da forma como eles apresentam é extremamente interessante e divertido. A sensação é a de estar conversando em uma mesa durante o almoço com dois amigos. Sabe aquelas pessoas que são tão queridas que o cérebro buga e coloca elas na caixinha de amigos sem que você sequer as conheça? Pois é. Eles são assim para mim.

Além disso, política internacional não é algo distante, eu realmente recomendo que todos estejam conscientes e atualizados sobre o que está acontecendo no mundo, pois impacta, de uma forma ou de outra, a todos nós. Nem precisa reservar um tempo do seu dia exclusivamente para isso: tá lavando a louça? Tá no trânsito? Tá fazendo alguma tarefa meramente mecânica? Deixa Xadrez Verbal rolando no fundo, assim um tempo que não seria destinado a aprendizado acaba sendo produtivo.

Em tempos de desinformação, no qual todos tem voz mas nem todos realmente estudam antes de falar, ter este tipo de conteúdo à disposição é um privilégio e se eu tivesse que sacrificar todos os outros podcasts, eu o faria sem pensar duas vezes.

Só para constar: não recebi nada para falar bem deles, é de coração. Não fiz permuta, não ganhei benefícios, nem sequer os conheço e tenho certeza de que eles não têm a menor ideia de que eu existo nem lerão este texto. São elogios baseados única e exclusivamente no trabalho que eles fazem, pelo qual eu sou muito grata.

No Xadrez Verbal você terá acesso a informações sobre história e política internacional do mundo todo de forma leve, didática e bem-humorada. E descontaminada de qualquer polarização. Escutem. Mesmo que seja só um dos blocos. Vale à pena.

Para dizer que gosta de temas mais amenos (ouça o “Fronteiras Invisíveis do Futebol”, também deles), para dizer que você escolheria um podcast de fofocas (melhore) ou ainda para dizer que não consegue escutar podcast pois se não tiver imagem seu cérebro errante não presta atenção: comente.

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Comments (6)

  • YouTube br “quase underground” = o “Aloha” e o “Avesso”

    Spotify = assistindo bem mais os “Para dar nome às coisas” e “Não inviabilize”

  • Ainda não tenho nem um primeiro, posso nem pensar em nomear um último.
    Acho tedioso ficar ouvindo alguém falar sobre qualquer assunto,
    ainda prefiro ler.

  • Sally e Somir, agradeço a ambos pelas dicas de podcasts. Não conheço nenhum dos mencionados por vocês, mas eu vou procurar saber mais a respeito e, quem sabe, passar a ouvi-los.

  • Amei as indicações, já coloquei na lista pra ouvir.

    Meu favorito do momento é o Rádio Novelo Apresenta.

    E se algum(a) impopular tiver dicas de podcast sobre arte (gringos ou não), também aceito

  • “Sabe aquela sensação que muitos de vocês tem de pensar que nós somos loucos por produzir tanto conteúdo gratuito para o Desfavor?”
    Como assim?
    E o pix que faço todo mês?

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