Viagem marcada.

Tem gente que gosta muito, tem gente que acha uma furada: viajar para conhecer outros lugares além dos que você mora tem seus apelos e seus problemas. Sally e Somir fazem um exercício de imaginação e até mesmo futurismo quando confinados a uma escolha. Os impopulares… viajam.

Tema de hoje: se você fosse obrigado(a) a escolher um único continente para viajar pelo resto da vida, qual seria?

SOMIR

Ásia. Eu nem ligo muito para viajar, para ser honesto. Mas se algo mudar e a vontade surgir, eu imagino que seria mais inteligente escolher o maior continente de todos. A Ásia é gigantesca, abriga a maioria da população humana e tem um misto interessante de história e modernidade para ser explorado.

Claro que existem lugares interessantes nos outros continentes, sempre vamos perder alguma coisa ficando presos a apenas um, mas considerando que as Américas são variações com graus diferentes de sucesso do Brasil; a África ainda está muito pouco desenvolvida; Oceania tem pouca coisa e a Europa é o continente padrão da cultura que aprendemos.

Porque isso é importante nessa análise: no Brasil recebemos o pacote completo da colonização, nossa cultura pode até ter se desenvolvido como uma amálgama do que índios e escravos trouxeram, mas tudo sob forte controle europeu. O Brasil é um país ocidental moderno porque segue mais ou menos as mesmas convenções usadas na Europa. Não que o Brasil tenha feito isso direito, mas a alma é a mesma.

E francamente, o resto das Américas é muito parecido nesse sentido de colônia europeia, até porque todos os países foram colônias. Repúblicas das bananas, países europeus falidos (oi, Argentina!) e a insanidade que são os EUA. Alma europeia, mas com ideias libertárias e foco capitalista total. A cultura europeia chega aqui, a cultura americana chega aqui.

De uma certa forma, já conhecemos essas partes do mundo. Claro, é bacana ver um lugar onde a coisa deu certo e você pode andar na rua de noite, mas não me parece muita novidade. Se fosse um continente para ir morar eu talvez ficasse mais tentado com a Europa, mas só para visitar? Uma pessoa com alguma bagagem cultural no Brasil já conhece quase tudo o que tem por lá.

Se é para viajar, que seja para conhecer coisas diferentes da norma. Na Ásia, a cultura se desenvolveu muito menos contaminada pela mentalidade europeia por milênios. Eles tem uma base muito forte que foi sendo exposta à dominância ocidental, mas até por ter uma base, chegou em resultados bem diferentes.

Na Ásia você tem uma boa parte do Oriente Médio, que tem cultura única; os países centrais com suas misturas de Rússia com árabes, a Índia que tem sua cultura única, a China, Japão e Coreias com civilizações cheias de história e costumes próprios, além de uma versão meio “latina” nos países do sul asiático. São todas culturas que não entram muito no Brasil, talvez um pouco mais dos árabes por causa da imigração e dos laços históricos com os ibéricos, mas nada do que tem lá é padrão numa cidade comum das Américas.

Quer dizer que eu acho bacana ir nadar no Ganges? Claro que não. A Ásia é gigantesca e cheia de gente, você não precisa ir para armadilha turística nem sofrer com as partes horríveis de um continente que tem muita pobreza. Se você quiser ver natureza, tem natureza de todos os tipos, das mais frias na Sibéria às mais escaldantes no Oriente Médio. Pode até ir ver florestas tropicais no sul do continente (não sei por que fazer isso, mas poder pode). O Japão tem lugares lindos e muito mais bem cuidados.

Porque tem isso também: se você quiser turismo de aventura, não falta. Se você quiser turismo de primeiro mundo, tem muito lugar moderno e organizado para visitar. Você pode ver os descampados da Mongólia, onde quase não vive ninguém, ou você pode ir para a loucura tecno de Tokio ou Seoul. Tem o mundo ancestral e tem o mundo de última geração.

E tem outra: a Ásia pode ter muito shithole, mas está em uma curva ascendente. A imensa população ajuda no crescimento e faz com que a economia mundial olhe para lá. Europa e eu diria que até mesmo os EUA estão numa fase de declínio. Eu imagino que até o final da minha vida temos mais chances de ver outros países asiáticos chegando num nível médio de qualidade de vida do que muitos dos países europeus aguentarem o tranco da decadência.

E voltando ao primeiro argumento: espaço. É o que não falta no continente. E com esse espaço, suas escolhas aumentam consideravelmente. Depois de ver uma capital europeia bem cuidada uma vez, as outras não são lá tão diferentes. Os povos podem até ter personalidades um pouco diferentes, mas é uma cultura média fossilizada. Sem contar que nas cidades grandes você vai lidar mesmo é com árabes, asiáticos e africanos.

Então, eu prefiro o continente que tem milhares de mundos diferentes dentro dele, para nunca ter como enjoar. Me conhecendo eu provavelmente ficaria rodando entre as capitais tecnológicas como Hong Kong, Shenzen, Seoul e Tokio, mas quem sabe não rolaria até uma visita a melhor Coreia? Ou um rolê maluco pelo Cazaquistão? Passeios desconfiados pela Tailândia?

O que não falta na Ásia é variedade. Porque se for para sair do conforto da minha casa e aguentar os perrengues de uma viagem, que pelo menos seja alguma coisa interessante que eu não conheça por impacto midiático infinito. Deve ser confortável morar na Europa, mas se fosse toda minha opção de viagem pelo resto da vida, eu talvez ficasse com mais preguiça ainda de viajar.

Para dizer que eu sou weeaboo, para dizer que as japonesas não dariam bola pra mim, ou mesmo para dizer que o Brasil não tem nada a ver com a Europa (você literalmente fala uma língua europeia): comente.

SALLY

Se, para o resto da vida, você tivesse que escolher um único continente para o qual você pode viajar a lazer, qual seria?

Europa, é o que melhor se adapta ao meu conceito de um lugar civilizado e com lazer que me agrada.

Vamos por exclusão: América do Sul tem uns lugares legais, mas a infraestrutura, segurança e civilidade deixam a desejar. África e Oceania tem muita natureza e calor para o meu gosto. América do Norte me desinteressa por não me identificar com a cultura que eu considero infantilóide. Ásia é muito exótica para o meu gosto e também tem problemas de infraestrutura na maior parte dos países. Antártida é muito legal, mas não tem muita coisa para se fazer por lá. Dentre as opções, a melhor me parece Europa.

Tem seus problemas (cada vez mais, por sinal), mas ainda é um reduto de civilidade em alguns países. Come-se bem (vamos abstrair Islândia e Inglaterra). Tem o tipo de lazer de idoso que eu gosto (museu, café, livraria). Tem uma infraestrutura razoável na maior parte dos países. Não costuma ter calor como regra. Montanhas predominam sobre praias como principal atrativo natural. Tem pessoas que, em sua maioria, tem uma noção de educação parecida com a minha.

“Mas Sally, você não tem vontade de conhecer lugares diferentes, culturas diferentes?”. Não, não tenho. Minha alma de idosa não quer mais aventuras nem novidades. Eu quero ir a um lugar no qual as pessoas tenham a noção de civilidade que coincida com a minha. Eu quero ir a um continente com poucas crianças, com pouco calor, com pouca euforia.

“Ain mas a Europa está em decadência”. O mundo está em decadência. A Europa em decadência ainda é melhor do que a maior parte dos países do mundo. Obviamente se pode evitar as cidades mais decadentes, imundas e tumultuadas, como Paris, por exemplo, e priorizar a parte mais civilizada da Europa, como Noruega, Suíça, Finlândia, Suécia e Dinamarca. Há opções. Há 50 países para escolher, todos muito próximos, a um trem de distância.

Eu tenho uma regra de ouro: se for para estar menos confortável do que eu estou na minha casa, prefiro não viajar. Só viajo, só saio de casa e gasto dinheiro, se puder estar igualmente confortável ou mais confortável.

E eu estou realmente confortável na minha casa, isso faz minha barra de exigências subir bastante. Seja nas acomodações, seja no transporte, seja no caso de uma emergência de saúde, eu quero um lugar que me trate tão bem quanto eu sou tratada hoje – ou melhor. Isso, por si, já limita bastante os continentes que poderia escolher como destino fixo.

Outro fator importante para me fazer sair de casa é gastronomia. Comida para mim é um ponto importante. Inclusive, se não tiver comida, nem me chame pois eu não saio de casa. Na real, minha vontade é nunca sair de casa, às vezes eu o faço, subornada por comida.

E para o meu paladar, na Europa se come bem. Só a Itália já valeria o passeio, mas ainda temos ótimos chocolates (principalmente na Bélgica e Suíça), tem as delícias que vem do mar como King Crab e salmão verdadeiro e uma infinidade de comidas boas com lugares dignos, silenciosos e child free para apreciá-las. Eu não vou sair de casa, viajar 12h e ir para país que serve cérebro de macaco ou para país que só de olhar para a água você tem diarreia. Eu gosto muito de mim mesma para me sujeitar a esse tipo de flagelo.

Mais um fator: clima. Pode ser estresse pós-traumático, mas minha tolerância a calor é mínima hoje em dia. Se vou ficar horas em um avião, se vou pagar caro, certamente não será para passar calor. Nos demais continentes, você tem um número bem reduzido de países que não são quentes. Um monte de país frio? Só na Europa.

E, por mais que se diga que com as mudanças climáticas agora faz calor na Europa, ainda existem estações do ano, coisa que o Brasil desconhece. No inverno, a Europa será fria. Já peguei inverno com 40 graus no Rio de Janeiro. Esse tipo de abominação não acontece por lá. Talvez um verão um pouco mais quente, mas basta não ir durante verão. No inverno, o frio está garantido, então serve para mim.

É um continente versátil, que te permite todo tipo de programa. Tem opções culturais, tem opções de compras, tem opções de moda, tem opções de natureza, tem opções de vida noturna, tem basicamente tudo que você procura. Até boas praias eles tem. Então, dá para fazer diversos tipos de viagens diferentes, uma com cada foco.

Além disso, via de regra, é um lugar no qual mulheres podem transitar em relativa segurança, tomando apenas alguns cuidados básicos. Não é algo que se possa dizer de todos os continentes. Viajar para passar medo? Não, obrigada. Prefiro ficar em casa.

Quero um lugar cujas regras de civilidade coincidam minimamente com as minhas. Não vou subir em um avião para ir a um país cheio de regrinhas estranhas no qual eu tenho que estar me policiando para não criar problemas por desrespeitar as normas do local.

Sim, é isso mesmo que você leu, eu quero um local culturalmente parecido comigo. Branca, hetero e sem paciência. Eu tenho direito a essa escolha. Eu quero cagar em privada com sistema de esgoto, eu quero banho quente, eu quero comer com talher. Eu quero neve, eu quero tranquilidade, eu quero conforto. E se você ainda não quer nada parecido com isso, não se preocupe, um dia você amadurece.

Para dizer que com o valor atual do Euro você não iria nunca (eu também), para dizer que está perto demais da guerra ou ainda para dizer que eu sou esnobe (não, sou apenas velha mesmo): comente.

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Comments (20)

  • Concordo que na Asia o lado cultural é extremamente enriquecido, mas ao mesmo tempo, a cultura é muito diferente, acho que seria um choque muito grande e bem difícil pra se adaptar, então… Talvez não seja a melhor opção.

    Eu até iria de Europa, afinal, tudo organizado e limpinho (até a pag 2, claro), mas o que me preocupa as vezes são essas ondas de calor que estão cada vez mais frequentes por lá.

  • Capitão Impressionante

    Europa, com certeza. Concordo 100% com a Sally. Como ela, eu também não abro mão de conforto e já estou velho demais pra passar perrengue me lançando em “aventuras rumo ao desconhecido e ao exótico”. Na verdade, me dizem que tenho “espírito de idoso” desde os meus 20 anos…

    • Faço minhas as suas palavras, Capitão Impressionante. E tambpem me dizem há tempos que tenho “espírito de idoso” …

  • Bem, um colega de trabalho aconselhou levar seu próprio rolo de papel higiênico se for viajar pelo Vietnã, Cambódia, Sri Lanka e outras paradas mais pobres (passou um mês perambulando por lá), além do medo de me enfiarem droga na mala (ou trocá-la) e ser mais uma brasileira presa na Indonésia (além da eventual condenação à morte como outros dois brasileiros).

    Também não dá pra deixar passar a notória porquice generalizada de indianos e chineses que, em algumas cidades, ainda recebem multa pesada por querer escarrar na rua, fora a comida…de onde veio a covid mesmo?

    Em termos de modernidade, só faltou citar Singapura (e não Cingapura, que temos aos montes aqui em São Paulo).

    Por outro lado, europeu pode não ser tão fã de higiene, mas turista não precisa carregar tanta coisa…é só não sentar nos bancos de tecido de alguns metrôs no verão.

      • As imagens que eu já vi das áreas mais pobres de lá são mesmo de assustar: tudo inacreditavelmente imundo, apinhado de gente, primitivo, insalubre, miserável e com uma infraestrutura pra lá de precária, onde a crença no místico toma o lugar que deveria ser do conhecimento científico. Não iria pra lá de jeito nenhum!

  • Europa, sem dúvida nenhuma. Tenho vontade de conhecer alguns países da Ásia e assistir algumas coisas na Broadway, mas posso viver sem fazer isso. Também tinha vontade de conhecer o Egito pelas atrações turísticas, mas todo mundo que conheço e que foi voltou meio traumatizado pelo assédio no caso das mulheres, e pela precariedade geral do país. Fora que já passei calor suficiente no Brasil pra matar a vontade pelo resto da vida.

    Quase todos os lugares que tenho vontade de conhecer fora da Europa são considerados perigosos para mulheres viajarem, e ultimamente tenho achado que o risco não vale a pena. Além disso, seria um pouco difícil encontrar pessoas que falem idiomas nos quais consigo me comunicar fora dessa rota mais turística. Melhor deixar as aventuras tropicais para pessoas que não nasceram em países precários como o Brasil, sair de casa aqui já é uma aventura tropical.

  • Concordo totalmente com a Sally, nao gasto meu dinheiro pra visitar lugares pobres e aonde homenzinhos arcaicos te seguem nas ruas. Europa ainda e civilizada e tem arquitetura belissima e povo educado. Me apaixonei por Praga, recomendo.

  • EUROPA. Chega de clima tropical pra mim. Sim, tem neve na Ásia, mas a maior parte é um Brasil de olho puxado e bichos ainda mais bizarros.

  • Ásia. É um planeta dentro de um planeta. Só pelo Japão e pela Coreia do Sul já vale a pena, em termos de limpeza, organização e comportamento do cidadão médio parecem uma Europa melhorada, tem mais pulso firme pra manter as coisas funcionando, sem muito politicamente correto e culpa de colonizador. Também tenho muita curiosidade de conhecer a Indonésia a.k.a. Brasil se fosse islâmico: paisagens legais, álcool, carne, música e roupas normais liberados.

    (a maioria das bizarrices de radicalismo islâmico na Indonésia, que você vê nas notícias, acontecem em Aceh, a província mais barra-pesada, o resto do país é de boa.)

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