Gêneros Musicais – Jazz e Blues

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Tio Ge explica – gêneros musicais 3 – Jazz e Blues parte 1

Continuando com a série de textos sobre gêneros musicais, nesse eu falo de jazz e blues. Esses são dois gêneros realmente sofisticados, para ouvidos sofisticados, pra não dizer complicados em termos de estruturação harmônica. O mais curioso é que, hoje, esses gêneros são tratados de maneira um tanto elitista, sendo que, no passado, pertenciam ao nível do popular.

Antes de comentar sobre cada subgênero ou vertente destes, preciso explicar mais umas coisas sobre teoria musical. Não quis explicar tudo de uma vez lá no primeiro texto, pois achei que iria ficar algo muito teórico e cansativo, mas agora é realmente chegado o momento se quisermos entender com maior profundidade sobre esses gêneros.

Vamos lá: a começar por escala, que, grosso modo, é um conjunto de notas agrupadas. Cada escala vai ter uma fórmula dividida entre tons e semitons. Tom e semitom é uma medida abstrata, uma unidade de frequência sonora qualquer. Admitamos como tom as sete notas que a gente conhece: dó-ré-mi-fá-sol-lá-si. Semitom, então, vai ser um meio termo entre um tom e outro; são chamados também de acidentes na escala. Daí subindo a escala vou ter os sustenidos, e descendo, os bemóis. Só não vai ter acidente entre mi e fá e entre si e dó, porque o “sistema” adotado pelo ocidente optou por ser assim. Há uma explicação mais aprofundada que envolve Pitágoras, senos e cosenos, ondas, integrais e derivadas, mas não vou entrar nisso, merece até um texto à parte.

Modos gregos: são escalas específicas que existem desde os tempos da Grécia antiga, e eram usadas no canto gregoriano. São sete escalas, ou modos: jônio, dórico, frígio, lídio, mixolídio, eólio e lócrio, e cada um vai ter uma fórmula diferente, por exemplo, o modo jônio é organizado por tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom, já o dórico é organizado por tom-semitom-tom-tom-tom-semitom-tom, e assim por diante. Dá pra partir de qualquer nota e aplicar essa fórmula pra achar o modo correspondente dela. “Tu está me dizendo, então, que existe dó jônio,ré jônio, mi jônio, fá jônio…?” Exatamente! Assim como existe ré dórico, mi dórico, fá dórico, sol dórico, e assim por diante. Em resumo, são sete modos, para sete notas, totalizando aí 49 combinações possíveis. E sim, numa graduação em música prepare-se para estudar todas as combinações, uma por uma!

É preciso dizer também que o sistema ocidental europeu preza pelo uso dos modos gregos, e mais particularmente, pelo sistema diatônico (sete notas). Já a música africana, e, em menor grau, a música chinesa, indiana e em parte a árabe, utiliza o sistema pentatônico (5 notas). Na outra ponta, existem também as escalas temperadas, exóticas, e a hexafônica (6 tons inteiros).

O jazz e o blues dão um passo à frente e juntam o melhor dos dois mundos: o blues vai utilizar a dita “escala blues” junto com a “blue note” (geralmente a 3b ou a 4#), que é uma variação da pentatônica maior, que por sua vez é nada menos que a escala maior melódica, sem o grau IV e VII. Partindo de dó, vou ter: dó-re-mi-sol-lá como pentatônica, e como pentablues, dó-ré-mib-mi-sol-lá.

Além disso, o blues também utiliza exaustivamente o IV grau com função de V, dando um efeito interessante ao ouvido humano tanto de dissonância, quanto de exaustão acústica pela necessidade de “resolver” essa meia tensão (subdominante) provocada pelo IV grau.

Em termos de estrutura harmônica, o blues originalmente segue o modelo de 12 compassos, cada um com um acorde respectivo, com a fórmula:

I | I | I | I
IV | IV | I | I
V | IV | I | V

Partindo de dó, então, vou ter: dó|dó|dó|dó – fá|fa|dó|dó – sol|fá|dó|sol. Um exemplo bem bacana dá pra conferir nesse vídeo aqui.

Há também a variação de 8 compassos, 16, 24 e 32 compassos. Reparem que, nessa pequena fórmula, há a repetição, a ênfase nos graus I e IV.

Não bastasse isso, o blues também adora brincar com a 3ª menor/maior, 5ª diminuta e sétima menor. Um exemplo está aqui.

O jazz, por sua vez, já brinca com dissonâncias estranhas ao acorde adicionando notas como a 6ª, a 9ª bemol (9b), a 11ª sustenida (11#) ou a 13ª bemol (13b). Novamente, explicando rapidinho: disse anteriormente que a escala tem lá 7 notas, certo? Mas dá pra continuar a contagem com as notas seguintes admitindo ser 8º, 9º, 10º, 11º, e assim por diante. Partindo de dó, como sempre: se si = 7, dó = 8, ré = 9, mi = 10, fá = 11, sol = 12, lá = 13. Reparem que a 9ª, neste caso, vai ser correspondente à 2ª, assim como a 11ª vai ser correspondente à 4ª, e a 13ª à 6ª. Tudo isso pra dizer que: se há uma 13b no arranjo, isso corresponde ao 6º grau bemol, se há uma 9ª, corresponde ao 2º grau, e se há um 11# corresponde ao 4º grau.

Outra característica marcante do blues é o groove de baixo, que consiste, basicamente, na utilização de várias notas sendo tocadas no baixo, de forma que dê a parecer que se está tocando uma música independente do conjunto todo, mas que, ao mesmo tempo, conversa com ele. Vale lembrar também que, afora isso, o blues é marcado pelo uso de 5as no baixo (dó-sol, por exemplo).

O jazz, por sua vez, vai misturar vários modos gregos em uma melodia só, coisa que até anteriormente não havia sido feita. Exemplo: misturar as notas pertencentes a dó jônio com sol mixolídio. Além disso, das progressões clichês do tipo I-IV-V passam-se a ter deslocamentos de função, como por exemplo, essa mesma progressão I-IV-V se tornar uma II-V-VI, ou um III-VI-VII. Há também o uso de enormes progressões, assim como no heavy metal, com encadeamentos cada vez mais malucos, e finais inesperados, como por exemplo, ao invés de “resolver” no grau I, resolver em III ou VI, e daí deixar aquela sensação por vezes de decepção no ouvinte. Assim como o blues, há também brincadeiras com os acordes, experimentando a 5ª aumentada ou diminuta, assim como a 3ª menor e maior.

Mais do que isso, há também o uso de modulações tonais, que é um recurso que vem lá do romantismo, e que consiste basicamente em utilizar as mesmas notas em comum de uma tonalidade em outra, e daí enganar o ouvinte. Exemplo bem básico: dó maior e sol maior. Ambas têm todas as notas da escala e também acordes em comum, à exceção de fá sustenido. Excluindo essa nota, eu posso muito bem tocar uma música em dó maior, mas não necessariamente começá-la em dó (grau tônico), mas sim em sol (grau dominante), e usar os acordes pertencentes ao campo harmônico de sol maior, a ponto de o ouvinte se perguntar, “afinal, está em dó maior ou sol maior?”. Quem faz isso, na música erudita, é Chopin, Liszt, Schubert, e essa turminha aí dos românticos tardios como Rachmaninoff, Shostakovitch e Prokofiev. Debussy em menor grau, esse já começa a flertar com as vanguardas do século XX. O jazz, no caso, vai abusar disso, a ponto de se ter uma verdadeira virtuose em termos de complexidade harmônica.

Não bastasse essa salada toda, ainda há brincadeiras com os ritmos, os chamados rubatos, rallentandos (que vem lá da música erudita), com a sincopa (começar a contagem do compasso não no tempo 1, mas em outro tempo), e jogos com contratempo (imagine contar 1 e 2 e 3 e 4… imagine também dar ênfase da nota no “e” ao invés do número) e swingado do compasso, além de poliritmia (vários instrumentos tocados em ritmos diferentes, e de modo independente, ao contrário de serem tocados todos juntos, respeitando o mesmo andamento). Um exemplo de poliritmia com a bateria pode ser encontrado neste vídeo.

Sim, o jazz e blues são tudo isso e mais um pouco. É realmente complexo porque mistura o melhor dos dois mundos: o erudito e o popular. A essa altura do texto, devem estar se perguntando: mas qual a diferença entre os dois gêneros, afinal? A resposta pode parecer difícil, já que ambos os gêneros tem muito em comum entre eles, mas dá pra dizer, em linhas gerais, que o jazz é um derivado do blues e sofre influências de outros gêneros comuns na época, como o ragtime. O blues vem primeiro, o jazz depois. Mas as características marcantes mesmo que diferenciam esses dois é a repetição incessante da mesma estrutura harmônica, e o uso do groove no baixo, no caso do blues. O blues é mais simples, vale dizer, o jazz mais complexo.

Dito isto, vamos então às vertentes de cada gênero, e para tanto, um pouco de história. O blues “raiz” nasce nos estados do sul dos EUA (Mississipi, Alabama, Louisiana, Texas…) no final do século XIX e começo do século XX; é difícil determinar com precisão. Mas ele recebe grande influência do “negro spirituals”, que é uma música de origem africana utilizada para meditar ou rezar. É um estilo bem introspectivo e emotivo, para ser cantado baixinho. Outra influência importante são os “work songs”, canção de trabalho. São músicas cantadas por trabalhadores negros para manterem o ritmo no trabalho e deixá-lo menos extenuante. Há registros desse tipo de canção especialmente nas plantações de algodão do sul dos EUA. É um tipo de música extremamente repetitiva, homofônica. Ao lado deste estão as canções do tipo “call response” que consiste em um líder que entoa um verso, e um grupo que responde a esse verso logo em seguida. É parecido com essas musiqunhas cafonas que o exercito canta. Outra influência que merece comentário são os “clamores de roda”, que, a meu ver, são realmente interessantes antropologicamente falando. São canções também de origem africana e também cantada por negros, mas não em horário de trabalho, e sim fora dele. Não tinham controle rígido, como nas “call respose”, mas sim o que importava eram a expressão e a catarse dos indivíduos lá envolvidos. Estes entravam em transe quando cantavam e dançavam em roda, e esse não é o único estilo musical africano utilizado para isso.

O blues, então, bem resumidamente, é a mistura de todas essas influências juntas, numa linguagem própria e autônoma. Em sua origem, o blues é triste, as letras de músicas são tristes, falam quase sempre sobre a libertação dos escravos, e o tom também é triste: são evitados os modos e escalas maiores, notas agudas, e priorizam-se as notas baixas, para serem cantadas baixinho. O termo “blue”, neste caso, significa triste, deprimido.

O contexto cultural e social também influencia bastante nisso: com a abolição da escravatura os negros andavam por aí, marginalizados, e em condições de trabalho precárias. Eles se reuniam em casas para beber, conversar, jogar, e claro, cantar e dançar. Essas casas eram conhecidas como “juke joints”, onde eles podiam fazer esse tipo de coisa, já que em outros estabelecimentos eram proibidos de entrar. Uma espécie de inferninho. Como eram pobres, não tinham condições de comprar vários instrumentos, só restavam poucos recursos como voz e violão, e quando muito, uma gaita diatônica ou trompete. Mas, com o passar do tempo, o blues também passa a ser tocado pelos brancos. Já nos anos 1920 temos grandes nomes como W. C. Handy, Mamie Smith, Ma Rainey, e Blind Willie Johnson.

Disse anteriormente que o blues “raiz” nasce nos estados do sul dos EUA. Pois bem, à medida que o tempo passa, ele vai se espalhando por outros estados e regiões, e cada região vai agregando alguma diferença sutil aos novos subgêneros que nascem a partir daí. O primeiro subgênero a ser catalogado é o delta blues, nos primeiros anos do século XX e se estende aí até por volta de 1930. Ele se desenvolve ali naquela região do Delta do rio Mississipi, e cobre uma região que vai até Tennesse e Memphis. O estilo é simples e rudimentar, apenas vocal triste e calmo, introspectivo, violão e uma gaita. Representantes desse subgênero são Woodron Adams, Kid Bailey, Tom Bankhead, John Henry Barbee, Ishmoon Bracey, Willie Brown, David Honeyboy Edwards, entre tantos outros. Detalhe: para quem realmente se interessar por esse gênero, há um museu chamado “delta blues museum” em Clarksdale, Mississippi.

Do delta blues surge o Detroit blues. Ele nasce graças à migração de pessoas que moravam e trabalhavam em Delta e migraram para trabalhar na região de Detroit, nas indústrias de lá, isso por volta dos anos 1920 a 1930. Aqui a coisa muda um pouco de figura, algumas músicas são mais animadas, menos tristes, o ritmo começa a ficar mais rápido, e o uso das pentatônicas e pentablues nos solos enormes é evidente. Adicionam-se aqui instrumentos amplificados como a guitarra elétrica e o piano, para além do já básico vocal-violão-gaita. Representantes desse gênero são Alberta Adams, Andre Williams, Bobo Jenkins, John Lee Hooker e Johnnie Bassett.

Outra vertente pertencente aos antigos é o Piedmont blues, que se desenvolve na região de Piedmont, nos EUA. Aqui, a característica principal é o uso da técnica do “picking” nas cordas do violão, que consiste basicamente em tocar “pinçando” com dois dedos as notas mais graves e, com os outros três dedos restantes, as notas mais agudas realizando a melodia. É bem parecido com o ragtime no piano, só que feito no violão. Pode parecer simples, ter poucas notas, mas acreditem, é difícil de tocar! Intérpretes aqui dá pra citar Pink Anderson, Etta Baker, Ed Bell, Blind Blak, Robert Curtis Smith e Brownie McGhee.

Enquanto isso, também entre os anos 1920 e 1930, há o surgimento do Memphis blues, no estado de Tennesse, nos EUA. A característica interessante aqui reside no fato de que este tem influência dos vaudevilles locais, das “jug bands” que tocavam nesses vaudeviles, e do ritmo sincopado do jazz. Outra característica é que, nos primórdios, esse gênero dava atenção aos solos de gaita ou de instrumento de sopro, mas, após a segunda guerra mundial, passa-se a priorizar instrumentos elétricos, como a guitarra, bem como vocais mais agressivos. Exemplares desse subgênero são Albert King, B.B. King, Furry Lewis, Mempnhis Minnie, Willie Nix, Sleepy John Estes, Ida Cox, James Cotton, Big Mama Thornton e Raymond Hill.

Nos anos 1930 é válido citar o Texas blues, que se desenvolve na região do Texas. Contexto histórico interessante pra lembrar: depois da grande crise de 1929 muitas pessoas migraram para a região do Texas, incluindo aí vários “bluesman”. Esse subgênero tem grande influência da música country raiz já existente nessa região, e o que o caracteriza mesmo é o ritmo muito mais swingado (arrastado) que nos outros, como o marcado e rígido Chicago blues. Nos anos 1960 esse subgênero ganha uma pequena evolução com a adição da guitarra elétrica nos arranjos e longos solos com slides e pontes entre os refrãos. Representantes desse gênero são Albert Collings, Big Mama Thornton, Jimmie Vaughan, Stevie Ray Vaughan, T-Bone Walker, Canned Heat, ZZ Top, Billy Gibbons, Freddie King, Pee Wee Crayton, Gary Clark Jr, e Lightnin’ Hopkins.

Um subgênero bastante conhecido e apreciado por aí é o Louisiana blues. Ele se desenvolve depois da segunda guerra mundial, tem seu declínio nos anos 1960, e um pequeno revival na década seguinte. Aqui os instrumentos são os mesmos: guitarra elétrica, violão, vocais, bateria, gaita, mas misturam-se aqui alguns solos ora com trompete, ora com sax. Mas a característica marcante desse subgênero é o uso do baixo em quintas. Sabem aquelas músicas que ficam sempre com aquele baixo marcado do tipo dó-ré-mi-fá-sol-fá-mi-ré-dó? Pois é. Representantes desse gênero são Tabby Thomas, Slim Harpo, Lazy Lester, Lightnin Slim, Nathan Abshire, Bobby Parker e Robert Pete Williams.

Uma variação bem interessante do Louisiana blues, e que ocorre ao mesmo tempo deste, é o New Orleans blues. Aqui a coisa fica um pouco mais pesada, com vários instrumentos de metais fazendo os solos (sax, trompete, trombone…) fora os solos de guitarras. A pequena sutileza aqui também fica por conta do uso de 6ª justa e a 9ª bemol e inversões de acordes utilizando essas notas no baixo. Aqui entram intérpretes como Johnny Adams, James Booker, Guitar Slim, Smiley Lewis, Professor Longhair, Tommy Ridgley e Champion Jack Dupree.

Do Louisiana blues surge também o swamp blues, que tem seu auge nos anos 1950, e se desenvolve especificamente na cidade de Baton Rouge, capital de Louisiana. A diferença aqui reside na utilização de aberturas quartais (usar o acorde com notas distanciadas entre intervalos de quartas) e o uso de acordes com 6ª justa e 11# no arranjo. Outra diferença sutil diz respeito ao ritmo, que é mais rápido, mais sincopado, além do uso de pedais de tremollo nas guitarras e o som de bateria mais fechado. Representantes dessa vertente são Lightnin’ Hopkins, Larry Garner, Silas Hogan, Jerry “Boogie” McCain, Slim Harpo e Lonnie Brooks.

Outro subgênero do blues é o Chicago Blues, que obviamente se desenvolve em Chicago, lá pelo fim dos anos 1940, e tem seu auge nos anos 1950 a 1960. A diferença aqui está no uso da guitarra elétrica brincando com as 7as menores e 5as diminutas, e o saxofone fazendo solos incríveis nos modos gregos, além da gaita, baixo, bateria e vocais. Esse influencia bastante o rock’n’roll que estava se desenvolvendo na época. Representantes desse subgênero são John Primer, Litter Walter, Buddy Guy, Elmore James, Freddie King, J.B. Lenoir, Luther Allison, Muddy Walters, Willie Dixon.

Ainda nos anos 1940 vale citar também o Saint Louis blues: aqui, embora haja outros instrumentos na categoria de sopros e metais, quem manda é o piano. O arranjo das linhas de baixo e acordes é feito com o piano primariamente, e a estrutura harmônica é a mesma daquela dita anteriormente, brincando com 3as, 5as e 7ª diminuta. Ele é derivado do jump blues que também é da mesma época dos anos 1940, e tem influência da evolução das big bands (comentarei sobre posteriormente ao falar de jazz). Há musicólogos que apontam para o jump blues como precursor do rock’n’roll nos anos 1950, embora isso seja discutível até hoje. Representantes desse gênero são Jelly Roll Anderson, Chuck Berry, Henry Brown, Oliver Brown, Teddy Darby, Walter Davis, Tommy Diean, Jonnie Johnson, Lonnie Johnson, Roy Milton, Ella Mae Morse, Freddie Slack, Billy Wright, entre outros.

Do outro lado do oceano, nos anos 1950 e 1960, há o blues britânico, que começa nada menos com a mesma turminha que alavancou o rock nas terras do velho mundo. Entre eles estão os Rolling Stones, Eric Clapton, Led Zeppelin, The Animals e The Yardbirds. Aqui dá pra falar também em termos de blues-rock, que se desenvolve nos anos 1960 e é uma fusão entre esses dois gêneros, fusão essa um tanto difícil de diferenciar as fronteiras entre os dois: a estrutura harmônica segue a mesma, com aquela fórmula de 12 compassos, extremamente repetitivo entre o I e IV graus; é isso que vai gerar o já comentado “riff”, feito com uma guitarra, enquanto outra guitarra faz algum solo utilizando notas mais altas, mas geralmente se utilizando da pentablues.

Essas são as principais vertentes e subgêneros do blues. Para além destas estão também os gêneros derivados do blues, dentre eles: o boogie-woogie, o rythm and blues – também conhecido como r&b -, soul e disco. O Boogie-woogie nasce, na verdade, lá nos anos 1910, mas ganha popularidade mesmo só nos anos 1930. Tem forte influência do ragtime, e a característica principal é o uso da mão esquerda no piano brincando com notas graves (baixo) e acordes em ritmo sincopado, e utilizando sempre as 3as maior e menor e 5a justa. Isso gera uma célula rítmica, um “riff”, e em cima disso a mão direita brinca fazendo algum improviso. Um bom exemplo tu encontra aqui.

Embora quem mande aqui seja o piano, é comum encontrar também arranjos envolvendo baixo e guitarra, além de vocais. Eu, como formado em música, vos digo: é um negócio difícil de tocar, e haja mão, haja fôlego, haja energia! Pior que isso, só o jazz bebop. Artistas dessa vertente são Albert Ammons, Jean-Pierre Bertrand, John Lee Hooker, James Brooker, Crhiz Conz, Louis Jordan, Memphis Slim, e Pinetop Perkins.

O r&b é esse gênero que a gente conhece por aí com uma pegada melosa-romântica-balada pra dançar juntinho, que tem como seus representantes contemporâneos Boyz II Men, R. Kelly, Mariah Carey, Whitney Houston, e Toni Braxton. A pegada mais recente incorpora muito do hip-hop, mas no fundo é o mais do mesmo do pop. Ele tem seus precursores lá nos anos 1940, e pequena influência do soul, que é outra vertente dos anos 1960, através de Ray Charles, B.B King, e Ottis Redding. Há alguns musicólogos que discordam e dizem que o r&b veio primeiro e que o soul é um derivado deste.

A estrutura harmônica é diferente daquela tradicional do blues, aqui o que conta é um longo encadeamento harmônico, com grandes progressões do tipo III-VIIm7-IV-I-VII-V-II-V-I, e que explora bastante o uso de acordes invertidos, aberturas 6/9, uso de sétimas diminutas, quintas aumentadas, 9ª bemol e tudo o que tem direito, pra dar aquele efeito de movimento plástico, de sensualidade, como se as notas estivessem dançando entre elas.

É uma “linguagem” harmônica que incorpora muito do jazz, e o charme também fica por conta do uso dos acordes suspensos. Novamente, breve explicação: acordes suspensos são aqueles que não têm a 3ª, nem menor, nem maior. “Ahh mas isso é um Power chord”, vão dizer. Sim, só que daí troca-se a 3ª por alguma outra nota, geralmente a 4ª, 6ª ou 7ª. Exemplo partindo de dó: Csus7 ficaria dó-sol-si.

O soul (do inglês “alma”) é bem parecido com o r&b em termos de estrutura harmônica só que a pegada não é tão romântica como no gênero análogo, mas sim algo emotivo que expressa a “alma”. É comum encontrar, entre os arranjos, alguns falsettes nos vocais e aquela técnica conhecida como “melisma”, que consiste em pegar uma sílaba qualquer do que está sendo cantado e improvisar umas notas acima ou abaixo. Traduzindo para os leigos, é bem aquela coisa de, no embalo da emoção da música, o cantor começar com “uhs yeahhh ohhh ann” da vida. James Brown, Solomon Burke, Aretha Franklin, Luther Vandross, Ray Charles, Little Richard são alguns exemplares desse gênero, e um cara contemporâneo que aprecio bastante é Seal.

Para finalizar, comento rapidinho sobre a disco music: ela surge nos anos 1970 e tem seu boom na década seguinte, e a ideia é justamente representar, musicalmente, um disco girando, girando, girando… e a festa não pode parar! Ele é um derivado do blues no quesito baixo sincopado em quintas, com a novidade de que usam e abusam de efeitos no baixo como o slide e o sweep, que consiste em pegar um dedo na corda e arrastá-lo por toda sua extensão gerando aquele som de “wuoool” bem encorpado.

A estrutura harmônica se diferencia pelo uso daquele clichê do pop V-II-IV-I. Os instrumentos aqui ainda não são tão eletrônicos, como na década seguinte, e os arranjos se caracterizam ainda pelo uso de baixo elétrico, guitarra com um monte de efeitos, teclados e strings, e alguns poucos brass (instrumentos de metais/sopros como sax, trompete, trombone) realizando apenas algumas notinhas de recheio. O ritmo é sempre alegre, dançante, na casa aí dos 120 a 130 bpm. Quando se fala em disco quase todo mundo se lembra de Village People, mas disco não é só isso. Tem também Abba, Gloria Gaynor, Donna Sumemr, Bee Geese, Blondie, entre tantos outros.

Bem, é isso. Finalizo essa parte, e na segunda parte passo a falar de jazz e seus tantos subgêneros.

Por: Ge

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Comentários (7)

  • Pessoas cujos ouvidos estão mais acostumados apenas às fórmulas prontas e às estruturas “redondinhas” e mais simples de outros gêneros não conseguem perceber a sofisticação que há no Jazz e no Blues porque não são suficiente “educadas” musicalmente para tal. É isso?

  • “Para finalizar, comento rapidinho sobre a disco music: ela surge nos anos 1970 e tem seu boom na década seguinte” Ge, o auge da Disco Music não foi do meio pro final os anos 70? Lá no começo dos anos 80, que eu me lembre, a onda já havia passado e outras coisas passaram a ser moda, como o punk e o new-wave.

    • Acho que depende de quem tu pega como referência. Uma grande parte das músicas datam dos anos 70 mesmo, mas por exemplo, Bee Gees e Village People ainda estavam na ativa nos anos 80.

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