Sally Surtada: Bêbadas.

Uma pesquisa recente de uma conceituada Universidade de São Paulo foi a gota dágua para me fazer escrever sobre o tema. Sempre relutei, porque achei que soaria moralista, e aqui pregamos tudo, menos o moralismo. Mesmo assim, decidi falar sobre o assunto, e espero não passar a imagem errada. Essa pesquisa que citei revelou que hoje, nos adolescentes de em idade entre 12 e 18 anos, as meninas estão em maior número quando se trata de alto consumo de álcool. Mulheres (ou meninas, como preferirem) estão bebendo mais do que homens. Fiquei chateada, em nome do corporativismo.

Nem vou entrar na questão biológica sobre como álcool é mais prejudicial a mulheres em função de uma série de fatores. As pessoas tem o sagrado direito de se auto-destruir da forma que mais gostem, desde que não destruam os outros junto. Vou tentar manter meu discurso longe do moralismo e da questão de saúde pública.

O que me chama a atenção é a forma como meninas e mulheres ostentam que bebem até cair. Aquela coisa de no dia seguinte de uma festa ligar ou deixar um scrap para uma amiga dizendo “Ontem eu bebi MOOOOOOOITOOOOO!”. Parabéns, quer uma medalha? Acredito que gente que ostenta que bebe quer passar alguma mensagem. Quando a pessoa ostenta qualquer comportamento, já é sinal de alguma coisa. Fica a impressão que não está bebendo pelo prazer que a bebida proporciona e sim para mostrar ao mundo que bebe. Só não entendo o simbolismo que isso representa, de que forma a pessoa acha um lado positivo em ostentar que bebeu até cair e muitas vezes, até dar vexame.

Não falo aqui de meninas e mulheres que bebem socialmente, falo daquelas que bebem industrialmente. Me passam uma imagem de pessoas tristes, deprimidas, solitárias. A bebida aparece como uma muleta emocional, uma necessidade para estar socialmente integrada. Tudo bem, muita gente usa bebida para descontrair, desinibir ou relaxar, como um facilitador, mas não como necessidade e única forma de alcançar diversão e inclusão. O grande problema é quando a bebida deixa de ser opção e passa a ser necessidade.

Beber costumava ser um hábito exclusivamente masculino. Chutando números, acho que de uns 50 anos para cá é que vem sendo aceito que uma mulher encha os cornos. Porque mulheres insistem em querer beber como homens? Nosso organismo é diferente: temos menos massa corporal, menos água, menos enzimas e uma infinidade de diferenças que não vou citar sob pena de parecer uma aula de biologia. Querer direitos iguais até vai (eu não quero! Eu quero benefícios por ser mulher!) mas querer se portar como homem é burrice.

Entendo que a pessoa queira relaxar e use a bebida como artifício, todos nós temos algum (o meu é a dança), o que eu não entendo é porque se ultrapassa do ponto da leve embriaguês para chegar ao ponto do porre nojento com direito a vômito na sarjeta, e uma série de vexames. E o que eu entendo menos ainda é como podem ostentar com orgulho essa prática. Para mim é o mesmo que chegar no trabalho e dizer aos colegas de peito estufado: “Porra! Ontem eu tive moooooita diarréia!!!”, ou seja, motivo nenhum de orgulho.

Chamem de machista (até porque eu sou mesmo), mas é muito mais feio, vulgar e ordinário uma mulher bêbada do que um homem bêbado. Ok, gente bêbada é um horror, independente de sexo, mas mulher é pior. E não se iludam achando que não tem preconceito com mulher que bebe, porque por parte dos homens tem sim. Um porre seguido de vexame pode jogar seu nome na lama por um bom tempo e te tirar da categoria das “namoráveis”. Não estou discutindo se isso é justo ou não, apenas dizendo que isso pode acontecer.

“Mas Sally, você não sabe do que está falando, provavelmente porque não bebe. Nem sempre ficamos bêbadas porque queremos. Saiba que nem sempre percebemos que estamos bêbadas e que é a hora de parar, por isso continuamos bebendo além da conta”. Tem razão, eu não bebo e talvez seja mesmo difícil controlar a hora certa de parar. Mas, se uma pessoa tem consciência de que não sabe a hora de parar, deveria criar mecanismos para lidar com isso e não se conformar e continuar se auto-destruindo. Eu, por exemplo, já servi de babá para muitas amigas que estavam prestes a se exceder. Na pior das hipóteses, se não sabe a hora de parar, melhor não beber. E se acontecer um acidente e você se exceder, favor não ostentar no dia seguinte como se fosse bonito.

Quando bebemos nosso senso de repressão diminui consideravelmente. Isso em uma mulher é muito mais perigoso do que em um homem. Em uma festa, por exemplo, uma mulher precisa de seu senso de repressão em funcionamento, para se poupar de uma série de situações de risco. Joguem pedras feministas em mim, mas mulher é mais vulnerável por natureza, por exemplo, tem menos força física que um homem. Preserve-se e se mantenha no comando das suas decisões, não encha a cara. Existem outras formas de se divertir.

“Mas Sally, eu só consigo me soltar e me divertir bebendo”. É mesmo? Então você tem um problema. O que vai fazer a esse respeito? Andar com muletas a vida toda ou fazer um esforço para resolver? Está na hora de sentar e entoar o mantra do Obama: “Yes, we can!”. Você pode se desinibir, se divertir, dançar e beijar na boca sem beber. Tudo questão de costume, de criar mecanismos para isso, de repensar algumas coisas e de força de vontade. Nós mudamos tanto por causa de homem… vamos o show de rock que mais parece barulho de britadeira para acompanhá-lo porque ele gosta, vamos acampar e limpar a bunda com folha porque ele gosta, vamos ver filmes imbecilóides porque eles gostam… então porque não fazer concessões, sacrifícios e esforços por nós mesmas também? O ganho? Sua liberdade e capacidade de se divertir sem entorpecentes.

Soa tão infantil mulher afirmando que bebeu muito, que bebe muito ou que vai beber muito! Parece uma criança tentando mostrar ao mundo que é adulta. Ou então uma menininha certinha tentando mostrar ao mundo como é descolada, independente e rebelde. Depõe contra você de forma muito pior do que queimar seu filme por vomitar em uma colega, porque expõe sem dó um lado fraco, inseguro, frágil e mal estruturado que é justamente aquilo que se pretende esconder. Praticamente um carimbo de “INSEGURA” no meio da testa. Atentem para o fato de que eu não estou dizendo que toda mulher que bebe é insegura, apenas aquelas que usam bebida como muleta/necessidade de forma autodestrutiva.

E nem vou começar a falar dos danos físicos, porque como eu disse, essa não é a questão, cada um se auto-destrói como quer. Mas que eles existem, ah… existem. E devem ser levados em conta. Pense nisso.

Porque será que meninas/mulheres estão bebendo mais do que homens? Honestamente, eu não tenho essa resposta. Talvez pela pressão enorme que mulher enfrenta hoje em dia. Talvez para tentar se igualar aos homens. (Deus me livre me igualar a um homem, que falta de ambição na vida…) O fato é que qualquer festinha adolescente hoje em dia tem bebida alcoólica, sob pena de ser considerada desinteressante. E sempre tem uma ou duas figurinhas que se excedem na bebida. E acham lindo no dia seguinte.

Tem outra: bebida alcoólica atrapalha o sexo. Só posso pensar que quem vive de tomar porres homéricos não gosta muito de sexo, não é mesmo? Ou faz uma versão basiquinha, assim, meia bomba. Francamente, acho estranho que alguém escolha álcool, entre álcool e sexo. Credo.

Essa coisa poética da pessoa entorpecida, muito romantizada por filmes e livros, não passa de ficção. Onde está escrito que para se divertir uma pessoa tem que beber? Talvez na imposição social de um bando de adolescentes (físicos ou mentais) infantilóides, onde quem não bebe é criança ou certinho. Lembro que quando estava no colégio e até mesmo no começo da faculdade, era muito comum umas figurinhas que bebiam em excesso (excesso MESMO!) debocharem de mim por não fumar e não beber: “Não fuma? Não bebe? Não faz sexo também?”. Olho para eles hoje e sinto pena. Um teve um derrame e está torto cagando na fralda – quem não faz sexo é ele – (devo ligar perguntar se ele não faz sexo?). Outro morreu em um acidente de carro, bêbado, claro. Enfim, todos aqueles que bebiam em escala industrial e constante acabaram mal.

Engraçado é que geralmente quem não bebe não julga quem bebe. Mas quem bebe está sempre espezinhando quem não bebe. Pressionando: “Ahhh! Para com isso! Bebe aí! Só um copo!”. O lado errado é sempre o mais desrespeitoso, já repararam? Não existe a menor diferença entre esses bêbados e aqueles evangélicos ortodoxos que ficam te abordando na rua querendo que você se converta à religião deles: um bando de chatos que não respeitam o livre arbítrio dos demais.

Eu realmente não quero convencer ninguém a abandonar a bebida de vez nem a querer se matar depois de um porre. Só quero dizer que não é bonito e que não sou apenas eu a não achar bonito. Gostaria que se alguma pinguça autodestrutiva estiver lendo, repense sua conduta, não com base em um julgamento moral de “certo” e “errado”, apenas porque fica ridículo mesmo. Fica patético viver a vida assim.

Dedico esta postagem à Fernanda e à Juliana, que me pediram para escrever sobre isso na intenção de alertar uma amiga querida que anda se excedendo. Espero que seja útil.

Para me mandar relaxar e beber, para me dizer que eu não sei me divertir, para me perguntar se eu faço sexo e para sugerir temas: sally@desfavor.com

SALLY SURTOU: Toda semana uma das colunas originalmente postadas no antigo blog da Sally será trazida de vez para o desfavor. Começamos com “Bastidores”. Clique aqui e leia.

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Comments (13)

  • Absolutamente de acordo: todo mundo sabe seu limite, ultrapassa-lo é opção.
    Eu adoro beber, mas apreciar bebida é muito, muito diferente msm de encher a cara.

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  • Vocês falam contra maconheiros, drogados, alcoólatras…

    Caretas… tsc.

    (Nos anos 70 as coisas eram mais divertidas… Saudades.)

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  • Pois é… até onde eu sei, quem não faz sexo é gente que bebe muito!

    Mania de desvalorizar o correto. Hoje em dia você é menosprezado quando faz a coisa certa, o bacana é ser transgressor!

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  • Mulherzinha Sim!

    Me identifiquei muito com esse post, pois não bebo e sempre ouço: “Não fuma? Não bebe? Não faz sexo também?”. Sobretudo porque sou jornalista e 70% dos profissionais dessa área consomem álcool.

    Também acho ridículo mulher que usa a bebida para se igualar aos homens ou para mostrar que é “moderninha”. Mas, se elas são felizes nessa ilusão, quem sou eu para contrariá-las?

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  • Independente do sexo, diante de décadas, séculos, de comportamentos sociais ridículos e sem sentido, tal qual preferir a droga (legalizada) ao sexo, é de se lamentar que as gerações cada vez mais embarquem nessa burrice.

    Nesse sentido, esse embarque depõe muito mais contra as mulheres. Pois mostra que não aprendemos coisa alguma ao observar, nessa maior parte do tempo, homens se prestando a esse papel ridículo de submeter sua dignidade e amor próprio a qualquer droga. Simplesmente nos juntamos a eles.

    É uma pena que a igualdade aconteça mais no sentido de uniformidade, em que homens e mulheres se tornam cada vez mais padronizados em suas fraquezas e em suas imbecilidades.

    Suellen

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  • Sally isso é muito real e muito preocupante. Beber não é ruim, pode até ser bem delicioso.

    Mas é uma droga e vicia mesmo. Virou hábito, fudeu. Nada mais vai ter graça se não tiver a bebidinha.

    E é bem aquilo que tu falou: INSEGURANÇA. Essas pirralhas (e até as mais veionas) ganham uma coragem e uma cara de pau jamais vista com a ajuda da bebida. Ficam muito vagabundas e acham que assim conseguem Homi com mais facilidade, conseguem chegar chegando. Como sse isso fosse lindo. Pois sabem que sóbrias não fariam isso (pois não se garantem) e também sabem que ninguém vai chegar nelas, NUNCA.

    Não consigo sentir nojo, pena talvez.

    Pois é muito triste precisar dessas muletas, como tu falou, pra conseguir alguma coisa. É muita incompetência.

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  • Muita gente que conheço falo “bebi todas”, não vejo mal nisso, nem como ostentação de algo, pra mim é o mesmo que “me diverti para caralho”, “tava foda aquela happy hour”, só isso…

    Creio que é feio tanto para o homem, quanto para a mulher, qualquer ato que os faça perder a dignidade em virtude do álcool… Agora beber e depois rir muito, zoar… acho normal.

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  • Como dizia a minha avó: “Cadê a porcaria do respeito!?” Pode me chamar de moralista e de velha (tenho 20 anos) mas acho que quem tem que IMPOR respeito é a mulher! Agora me diga: Que respeito impõe uma mulher bêbada? Depois não reclame que engravidou ‘sem saber como’ e não sabe quem é o pai.

    Como alguém disse aí “hoje em dia ser puta é bonito” é só olhar televisão que verá que é verdade. Mulheres fruta (gordas) com shortinhos intra-uterinos é que são padrão de beleza (que nojo!). Nesse caso, perfiro estar ‘fora do padrão’ e manter meus princípios que dizem que a mulher tem q se dar ao respeito para ser respeitada!

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  • “Wow, viva a igualdade!!”Não seja hipócrita, igualdade não tem nada a ver com agir de forma imprudente.
    Direitos iguais é uma coisa, agir que nem uma maluca é outra bem diferente, desde quando agir como um homem é direito?

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  • As mulheres resolveram adotar todos os hábitos deploráveis do sexo masculino. Isso inclui galinhagem e agora bebedeira. Qual será o próximo?
    Wow, viva a igualdade!!

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  • Eu já disse, e repito: Mulher tem que ter classe.
    E álcool em excesso não ajuda ninguém a manter a classe.
    Já acho muito feio homem bebendo além da conta, quanto mais mulher.
    E, grande balela isso de “não perceber quando é a hora de parar”. Acredito que todo mundo percebe muito bem quando está “alegre”, “bêbado” e “trêbado”. Bom, eu percebo e sei o que é legal e o que não é legal. Por exemplo: não é nada legal não saber onde vai colocar o pé.
    Concordo com a Sally, se não sabe a hora de parar, não beba.

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  • Perfeita sua argumentação, Sally. Por mais que a gente não queira ver isso, a mulher ainda está em grande desvantagem social perante o homem. E quando a gente bebe demais, isso só piora. Não sou mais adolescente (há muito tempo), mas mesmo agora, depois de velha, tive uns dois ou três porres horríveis que me fizeram refletir em quão ridículo isso é. Abençoado é quem mantém sua lucidez. :o)

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  • Eu acho que é porque a vida tá cada vez mais merda, então geral pega tudo que entorpece pra sair do ar. Hoje em dia é bonito ser puta, fazer vandalismo, andar bêbada… Já virou, não tem mais como mudar, a inversão de valores imperará para todo sempre. Eu não sou crente, mas uma coisa que admiro neles é que eles não bebem e nem traem. A maioria dos brasilóides, pode jogar no lixão.

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