Pseudociência.

Para comemorar o Dia da Mentira 2019, hoje nós vamos mergulhar no mundo da pseudociência. Dizer que algo é pseudocientífico não significa que é necessariamente errado, e sim que é um campo de estudos que usa termos e técnicas comumente associadas com a ciência, mas não obedece aos rigorosos padrões do método científico.

E o que isso quer dizer na prática? Que pseudociência é baseada em experimentos que não resistem a uma análise mais profissional. Os resultados não se sustentam em testes com mais pessoas, variam muito de experimento para experimento, e quase sempre são facilmente explicáveis por outros processos naturais já conhecidos. É mais ou menos como jogar uma moeda para o alto três vezes, ela dar cara três vezes e você escrever que estudos comprovam que moedas caem com a cara para cima 100% das vezes.

Vamos buscar alguns exemplos menos comuns de pseudociência, porque se você precisa de mais argumentos sobre vacinas ou o formato do planeta, você está fora do meu alcance de qualquer jeito…

Efeito lunar: muita gente acredita que a Lua tem efeitos consideráveis no comportamento e organismo dos seres vivos. Vira e mexe surge algum estudo ou compilado de opiniões de profissionais de saúde jurando que durante a Lua Cheia nascem mais bebês, ou que pessoas sangram mais durante essa fase do nosso satélite natural. Tem gente que acha que faz diferença na hora de cortar o cabelo, tem gente que acha que as pessoas ficam mais violentas, tem gente que acha até que influencia no mercado de ações!

O problema com essa ideia é que nenhum estudo de larga escala comprova esses efeitos. De tanto falarem dos nascimentos na Lua Cheia, vários experimentos foram feitos. Um estudo americano analisou 70.000 partos e não encontrou nenhuma diferença entre partos e fases da Lua. Tudo acaba caindo na mesma distribuição aleatória que se espera quando nenhum fator exterior está presente. Mas por que médicos continuam jurando que essa relação existe? Isso se chama viés de confirmação, e isso não é pseudociência: quando temos uma teoria na cabeça, é comum que prestemos mais atenção no que a confirma do que o que a desaprova. O cérebro guarda as “provas” do que você acredita e joga no lixo o que não combina com isso. Confirmar o que acredita é agradável e gera recompensas no cérebro, ser provado errado não.

A única relação comprovada entre as fases da Lua e o comportamento humano está relacionada com a iluminação providenciada durante a noite. Lua Cheia ilumina mais, o que nos torna mais ativos. Mas, se for para levar em consideração isso, iluminação pública interferiu mais no comportamento humano em algumas décadas do que a Lua por toda nossa história. De certa forma, nem é a Lua fazendo isso, é o bom e velho Sol sendo refletido nela.

E sobre a questão da atração gravitacional, o efeito nas marés… bom, se você não é um corpo de milhões de quilômetros quadrados de um líquido pesado como um oceano, a Lua tem pouca ou nenhuma chance de influenciar você. Um pernilongo zunindo perto da sua cabeça tem mais força gravitacional do que Lua… não é fisicamente possível que a Lua mexa com a circulação do seu sangue ou qualquer outro processo que não seja relacionado com a luz que reflete durante a noite. E sim, toda vez que tentam fazer um estudo procurando relação entre as fases da Lua e a fisiologia humana, não dá em nada.

Triângulo das Bermudas: essa vai ser rápida. O estudo mais aprofundado dos casos relacionados com essa área do Oceano Atlântico onde muitos acreditam que o número de acidentes é maior que no resto do mundo descobriu que boa parte dos acidentes aconteceram fora da área delimitada, e que não há diferença estatística comprovável entre acidentes por lá e em qualquer outra parte dos oceanos. E muitas das alegações de pessoas, navios e aviões desaparecendo não resistem aos documentos da Guarda Costeira local e aos relatórios das companhias de seguros, que não cobram mais caro de ninguém que passa por lá. Só essa informação já deveria te convencer: se uma seguradora não consegue cobrar mais caro de quem passa pelo Triângulo das Bermudas, pode ter certeza que eles não tem a menor chance de provar que o local é perigoso…

Acupuntura: parece algo sério, né? Milhares de anos de conhecimento oriental e milhões de clientes satisfeitos! No Brasil, pode até ser usado como tratamento na rede pública. Infelizmente, é pseudociência. Eu já escrevi textos inteiros sobre homeopatia, então nem vou me estender muito aqui: assim como no caso da homeopatia, a acupuntura não passa por nenhum teste científico rigoroso, tendo sua faixa de sucesso totalmente dentro do esperado com qualquer outro tratamento baseado em placebos.

Estudos foram feitos com pessoas vendadas que foram só “cutucadas” com as agulhas, sem que elas entrassem na pele, e elas tiveram os mesmos resultados das que receberam o tratamento invasivo. Os cientistas descobriram também que para quem não sabe como acupuntura funciona, é totalmente irrelevante onde as agulhadas são aplicadas. Usando as agulhas nos pontos corretos e em pontos aleatórios, os pacientes reportaram resultados tecnicamente iguais. Sim, muita gente diz que acupuntura resolveu seus problemas e ninguém está duvidando delas, a questão é que podia ser uma pílula de açúcar ou um cristal encostado na testa que daria no mesmo. Efeito placebo é algo sério, muito bem estudado: o corpo humano não aceita derrota com facilidade, e tem muitos mecanismos para se curar de doenças e aliviar o sofrimento. Às vezes basta um incentivo.

O problema é deixar de procurar tratamento real e confiar cegamente numa prática que não tem comprovação. A maioria esmagadora dos estudos que “comprovam” a eficácia da acupuntura vem dos países onde a prática é mais comum, como na Ásia e na Rússia. E esses estudos quase sempre falham em criar grupos de teste para tentar diferenciar a prática de um placebo qualquer.

Aromaterapia: talvez você nunca tenha ouvido isso, mas como virou uma febre nos Estados Unidos recentemente, eu temo que acabe aparecendo com força por aqui. Basicamente, é a prática de usar óleos aromáticos como uma forma de tratamento para doenças e incômodos do corpo humano. A prática é antiga, existem registros do uso deles no Egito Antigo até. Só que normalmente eram usados de forma ritualística, não como um tratamento.

Como acabamos de falar de outro tratamento de saúde sem comprovação científica, podemos ir direto para o spoiler: aromaterapia não passa pelo teste do placebo, vulgo, tão eficiente quanto rezar. Mas, ao contrário da acupuntura, que só em casos extremos pode ser perigosa para a pessoa durante a aplicação, óleos essenciais costumam ser perigosos, irritando a pele em vários casos e alguns são venenosos se ingeridos. E nem pensar em passar isso numa criança: já existem vários óleos inertes para passar no corpo.

Detox: virou moda. Sucos, alimentos e tudo mais que te ajuda a desintoxicar seu corpo. Só tem um problema científico nessa história toda, quase todos os defensores da prática não sabem nem que toxinas são essas. É comum dizer que seu corpo vai acumulando toxinas com maus hábitos de alimentação e sedentarismo, mas a indústria do detox não oferece elementos práticos para uma análise criteriosa. O corpo humano tem vários mecanismos criados justamente para evitar que elementos danosos continuem no seu corpo, o fígado e o rim trabalham o tempo todo para te desintoxicar.

Se você precisa tomar um suco ou fazer jejum para tirar toxinas do seu corpo, sua prioridade deveria ser correr para um médico, porque você provavelmente vai precisar de um transplante! Estudos realizados para comprovar a eficácia de dietas e tratamentos de desintoxicação não encontraram diferença prática que elimine o efeito placebo da equação. O corpo humano pode acumular elementos danosos sim, mas se os seus mecanismos naturais de limpeza não deram conta deles, não vai ser um suco de abacaxi com couve que vai resolver. Tanto que em hospitais existem procedimentos específicos para cada tipo de toxina, porque ou o corpo perdeu a capacidade de se limpar, ou é necessária uma reação química muito fora da habilidade natural do nosso organismo.

Basta cuidar da alimentação e manter o corpo ativo para se desintoxicar, porque salvo um desastre, já saímos de fábrica com a capacidade.

Hipnose: você pode acreditar ou não, você pode ter sido hipnotizado em algum momento da sua vida ou conhecer alguém que jura que foi, mas isso não ajuda a hipnose fugir da definição de pseudociência. Não existem estudos que consigam comprovar a diferença entre entrar num estado hipnótico e começar a atuar (mesmo que inconscientemente) como se estivesse fazendo um papel numa peça de teatro. O simples fato de muita gente simplesmente não conseguir ser hipnotizada já sugere que o processo é essencialmente interno, ao invés de algo causado por influência externa.

Polígrafo: a suposta máquina da verdade, na verdade, não detecta mentiras. Isso considera que o polígrafo foi “enganado” inúmeras vezes por pessoas treinadas, baseado em vários exemplos de espiões russos que passaram sem problemas pelos polígrafos americanos. Mas também porque a máquina gera resultados duvidosos até mesmo em pessoas que não tem a menor ideia de como ela funciona: o polígrafo não mede atividade cerebral de uma forma que possa diferenciar nervosismo de mentira. Uma pessoa muito segura e tranquila pode mentir à vontade para a máquina e não ser descoberta. É pseudocientífico principalmente porque ainda não existe um consenso comprovável e reprodutível sobre a forma como o cérebro humano processa uma mentira.

Eu poderia continuar escrevendo sobre isso por várias e várias páginas, mas acho que a lógica já está bem definida aqui: quase sempre estamos falando de pessoas encontrando padrões onde querem encontrar, e errando conceitos básicos do método científico como tamanho da amostra e grupos de controle. Ciência é difícil porque precisa ser comprovada por várias fontes independentes e eliminar outras explicações mais prováveis. Não quer dizer que tudo o que seja pseudociência hoje é mentira para sempre, só quer dizer que tomar decisões baseado(a) em pseudociência tem um grau de risco muito maior do que o que é baseado em conhecimento adquirido e validado pelo método científico.

Nada contra estudar essas coisas, mas tudo contra acreditar cegamente e não se questionar se as coisas fazem sentido. No final das contas, a mentira mais perigosa sempre é aquela na qual acreditamos…

Para dizer que eu estrago tudo, para dizer que baseado num caso que você viu ou ouviu falar todos os cientistas estão errados, ou mesmo para dizer que o que você não acredita é pseudociência: somir@desfavor.com

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Comments (9)

  • Geraldo Renato da Silva

    Muito bom o texto! O grande problema das chamadas “pseudociências” é que as pessoas realmente acreditam e divulgam isso como se fosse uma verdade absoluta. Um caso muito comum são as dietas milagrosas, que vez ou outra, aparecem. Antigamente, eram divulgadas por atores e gurus; hoje são impulsionadas nas redes sociais. Basta um famoso ou famosa defender tal dieta que um bando de tontos compra a ideia. Perdem tempo, dinheiro e até a saúde.

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  • Excelente postagem. Eu já estou me preparando para as perguntas de verão: óleo de sei-lá-o-quê espanta mosquito? vela de PQP espanta mosquito? A mais engraçada foi se comer batata doce com chucrute espanta os mosquitos. Minha resposta é que pode também acabar com casamentos. E que para espantar mosquitos nada melhor que queimar uns pneus no quintal de casa.

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  • No Dia da Mentira da RID, vem bem a calhar falar sobre “Ciência de Mentira”. Eu já imaginava que hipnose fosse mesmo pseudociência – nunca tentaram me hipnotizar e acho que ninguém conseguiria – , mas a parte sobre acupuntura me surpreendeu porque sempre me deu a impressão de algo sério e verdadeiro, ainda que isso sempre fosse algo hermético e inescrutável para mim.

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    • Lembrando: pseudociência é o que não conseguiu passar pelo método científico, seja por falta de resultados reprodutíveis ou mesmo falta de isolar o motivo pelo qual algo acontece. A pessoa pode e deve estudar tudo o que achar interessante, desde que tenha consciência que as coisas estão muito longe de ser comprovadas ou mesmo explicadas ainda. Hipnose e acupuntura funcionam para algumas pessoas, mas isso não significa nada ainda.

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  • Só que jejum intermitente tem vários benefícios conprovados sim. E hipnose claro que funciona. Eu mesmo era doente de fobia social, mal saia de casa e hoje falo até em público.

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    • Considerando que você está refutando dois pontos que nem existem no texto, só me resta te desejar um Feliz Natal.

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  • Hoje em dia boa parte das pessoas são adeptas da ciência customizada, só usam a ciência quando lhes convém…

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    • Eu aposto que sempre foi assim, mas hoje em dia é mais fácil achar um estudo que corrobora com sua opinião.

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