Vai (te) Catar!

Enquanto rola a Copa no Catar, a atenção do mundo se volta para o pequeno país árabe. Sally e Somir concordam que o lugar não é lá grandes coisas, mas basta uma condição especial para um deles mudar de ideia. Os impopulares viajam…

Tema de hoje: se você recebesse uma viagem com tudo pago ao Catar, iria ver a Copa?

SOMIR

Mas é claro. Está nas condições da hipótese ver a Copa. Se fosse só para ver o Catar, eu não me empolgaria tanto, mas como tem o maior torneio esportivo do mundo no pacote, fica difícil dizer não. Sim, Copa é maior que as Olimpíadas, as pessoas realmente se importam com quem vence o campeonato do esporte mais popular do mundo.

Como a FIFA gerencia basicamente tudo, as Copas modernas são basicamente iguais em estrutura, e quando você está num pacote fechado de turismo, provavelmente não vai ter muita relação com a cultura local além daquela especificamente definida pelo departamento de turismo do país. A não ser que você seja um sem noção que vai fugir do hotel para perguntar para estranhos onde fica o puteiro mais próximo, dificilmente vai passar por algo muito complicado de lidar.

Sim, eu imagino que tenha perrengue, algumas concessões em questão de conforto… se fosse só para ver areia e prédio eu não sei se me animaria muito, mas em troca de ver um jogo de Copa sem pagar os preços exorbitantes da FIFA? Faz sentido sim. E tem um plus: eu sou brasileiro. Nunca pensei que fosse escrever essa frase…

Dizem que o passaporte japonês é o mais poderoso do mundo: é recebido em todos os países do mundo sem dificuldades. Quando falamos de camisas de futebol, a amarelinha (mesmo com estampa de oncinha) é a mais poderosa. Todo mundo gosta da seleção brasileira, até mesmo os rivais. O Brasil por si só não fede nem cheira na política internacional, a imagem de quem vai ver uma Copa é só futebol, e um futebol carismático.

Brasileiro tem fama de pobre, então provavelmente não vai ter muita gente tentando te dar golpe, tem muito alemão para chamar essa atenção para se preocuparem com brasileiro. E de forma meio torta, nossa fama não é de povo sério, então provavelmente o clima é mais tranquilo. E por mais que a gente chame argentino de arrogante, a imagem mundial deles é basicamente a mesma, com uma ou outra piada de netos de nazistas aqui e acolá.

Imagino que a Sally desgoste da ideia também pelo fato de ser mulher, e aí eu entendo uma diferença: eu sou homem, e geralmente é mais fácil para o homem nesse tipo de situação social, as pessoas respeitam mais, e especialmente num país com tolerância baixa para a cultura de diversidade moderna, ainda vem com um pacote de vantagens especiais. Não atrapalha nem um pouco ser branco, é claro.

Como eu já passei da fase da completa estupidez obrigatória (vulgo os primeiros 30 anos de vida), acho virtualmente impossível cometer algum erro cultural que me faça ser preso. De resto, no máximo passaria alguma vergonha ou veria uns olhares feios. Se você é um homem com mais de dois neurônios, sabe que não é legal ficar secando/abordando mulher dos outros, num país muçulmano multiplique isso por dez. É só pensar com a cabeça de cima.

E, apesar de tudo, é um país bem arrumado, tem dinheiro para isso. Pode ter milhões de indianos perdidos por lá, mas turista não passa nem perto deles. As ruas são limpas, parece tudo silencioso, tem ar-condicionado em todo lugar, ninguém vai bater sua carteira. Tem lugares bem piores para ir, não? Não acho que gostaria de morar por lá, mas para passar uns dias vendo jogos de Copa do Mundo? Bem melhor que o Brasil, por exemplo.

Você vai ficar junto com outros turistas, normalmente gente educada e animada que não vai tentar te dar porrada, gente que brinca com rivalidade e pede para tirar foto junto. Novamente, agradeço por ter nascido homem nesse sentido, ninguém vai querer pegar na minha bunda. Falo de um lugar de privilégio? Falo. Mas é a verdade também.

E sobre boicotar o Catar… nhé. É que nem tentar resolver a crise climática usando canudo de papel. Quem tem que boicotar o país não o faz, por interesses econômicos gigantescos. Viagem com tudo pago vai para o segundo lugar se o primeiro não for, então não ache que está lutando contra o sistema. Minha parte de não votar em político que é simpático aos sheiks e emires eu faço. Isso significa votar basicamente só no PCO? Sim, infelizmente. Mas a minha parte eu faço.

A FIFA lucra de qualquer jeito, o mundo todo já decidiu que corrupção no futebol pode, os EUA até tentaram pegar no pé deles tempos atrás, não deu em nada. E francamente, são 22 marmanjos chutando uma bola. Estou de saco cheio dessas causas aleatórias: não se muda o Catar com bandeirinha de arco-íris e boicote turístico: 99% da renda deles é petróleo e como eu disse num texto anterior, goste ou não o país está estável assim.

Copa é Copa. Quem pode ir viver a experiência de turista rico não deveria desdenhar. Eu pagaria milhares de dólares para ir do meu dinheiro? Não, eu acho divertido até vendo na TV, mas se alguém quiser pagar pra mim, vamos nessa!

Para me chamar de vendido, para dizer que eu sou o pior comunista de todos, ou mesmo para dizer que com o pintocard white até você: somir@desfavor.com

SALLY

Se você recebesse uma viagem com tudo pago ao Catar, iria ver a Copa?

Não. Obrigada. Se você não está bem-informado sobre esta Copa e seu entorno, sugiro ler este texto.

Não me sentiria confortável em um país regido por essas regras, independente de qualquer outra coisa. Mas, fica ainda pior se eu pensar que essas regras me afetam diretamente, pois eu sou mulher, portanto, teria uma série de restrições ali e poderia, em diversas ocasiões, ficar em situação de vulnerabilidade ou colocar minha liberdade ou integridade física em risco. Não, muito obrigada.

Além disso, tem a questão da compostura, que não é o meu forte. Não sei se é bom ou ruim, mas eu costumo ser muito transparente, é muito fácil perceber o que eu estou sentindo e meu comportamento é espontâneo. Em um país cheio de regras que eu considero estranhas, seria um inferno ter que me policiar para me portar de acordo.

E não quero dizer que eu vá subir em uma mesa de biquini e rebolar. No Catar, por exemplo, você não pode mostrar a sola do seu sapato para ninguém, pois é considerado uma ofensa grave. Não é raro que eu sente com as pernas cruzadas ou ao menos uma das pernas cruzadas. Então, comportamentos corriqueiros podem te colocar em problemas por lá.

Acho um saco ter que me policiar constantemente em tudo que eu faço. Fico tensa, fico nervosa, não é para mim. E o Catar tem centenas de regrinhas que eu teria que memorizar e ficar me policiando. Coisas que na nossa cultura passam longe de ser ofensivas, mas na deles é algo tenebroso. Não vale a pena ir ao Catar para ficar em constante tensão, me policiando para não fazer algo.

Percebam que não é que eu seja inflexível e não queira me adaptar a outras culturas: eu não quero ter o trabalho de fazê-lo pois o país não me parece valer à pena. Acho um país cafona, acho cosplay de Dubai, acho a legislação escabrosa, acho um lugar preconceituoso, bruto, injusto e que não merece ser prestigiado. Ainda mais se a viagem representar uma tensão para mim.

E não é só com mulheres. Se, de alguma forma, eles acharem que você cometeu um crime, primeiro você é preso, depois perguntam. E não tem essa molezinha de direito a um telefonema, a falar com um advogado ou coisa do tipo. Você pode ser submetido a um julgamento sumário onde a pessoa que se sentiu lesada por você vai escolher a sua pena. Eu tenho vontade de ir a um lugar assim? Não tenho. Nem que me paguem todas as despesas e ainda me paguem para ir. Passo.

Além de todos os fatores citados, que sem dúvida, são os que mais pesam, não é uma viagem fácil. São muitas horas de viagem, provavelmente não com voo direto. Escala, aeroportos, deslocamento… o lugar tem que valer à pena. E no meio de uma pandemia, então? Menos vontade ainda de passar por isso. Não, muitíssimo obrigada. Não vale esse risco.

Já passei da fase de ter dessa sanha por abraçar qualquer coisa gratuita que me ofereçam. Esse lado pobre meu eu já transcendi. Então, mesmo com tudo gratuito, eu sou capaz de recusar. Se eu não tiver a certeza de que terei liberdade e segurança, prefiro ficar na minha casa.

Essa é uma premissa que eu incorporei na minha vida adulta: se for para estar menos confortável do que eu estaria na minha casa, eu prefiro não viajar. No mínimo, tem que ser tão confortável quando. Não tenho mais interesse em aventuras. O que nos leva a outro ponto: por mais que tenhamos uma ideia de luxo vinculada ao Catar, em alguns aspectos o país pode ser muito precário e desconfortável.

Por exemplo, os banheiros. Vocês viram as fotos do banheiro do estádio onde a seleção brasileira estava treinando? Se não viram, é só clicar aqui. O que a matéria chama de “diferenças culturais na arquitetura” eu chamo de “nem fodendo vou cagar em pé”.

Tem ainda uma questão ética: o país não se comporta da melhor forma com relação a direitos humanos. Não acho legal que um país desse ganhe dinheiro/prestígio com turismo, como é o desejo deles. Se querem ser visitados por pessoas do mundo todo, no que depender de mim, terão que rever alguns conceitos.

E aqui tem uma diferença sutil, que muitos confundem ou distorcem: cada país pode ter a cultura que quiser, os costumes que quiser, as tradições que quiser desde que respeite um patamar mínimo chamado Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cultura tem que ser respeitada, violação a direitos humanos não. Violação de direitos humanos não tem que ser respeitada, tem que ser punida.

É universal. Obriga a todos. Se não respeitar, está violando direitos. Se está violando direitos básicos, essenciais, inerentes a todo ser humano apenas por ser humano, não merece visita, prestígio nem dinheiro de ninguém. “Mas Sally, você não pagaria, iria com tudo pago”. Mas alguém pagaria. Não estou com vontade de colaborar para que esse país receba dinheiro, nem prestígio, nem visitas.

Para piorar ainda mais a situação e deixar o convite ainda menos interessante, minha seleção está presa ao porra do Messi, que nunca joga absolutamente nada com a camisa da Argentina. Eu já disse aqui em outros anos que, enquanto o Messi jogar pela seleção argentina, eu não vou me dar ao trabalho de torcer. Eu já sei o que vai acontecer. Por sinal, já tivemos uma pequena amostra dessa realidade com a derrota para fortíssima seleção da Arábia Saudita. Aff… Imagina, 500 horas de viagem para ver isso?

E se é que ainda se precisa de algum motivo para recusar uma visita a esse local, cães são repudiados no Catar. Você não pode sequer sair com cães na rua para passear, pois são considerados animais odiosos. Se meu doguinho não vai, eu não vou. Simples assim. O Catar pode bem enfiar o turismo e a Copa no cu.

Para dizer que discordava de mim até o último parágrafo, para dizer que grátis até injeção na testa ou ainda para dizer que iria escondido para não comprometer a sua militância: sally@desfavor.com

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Comments (22)

  • Se tivessem convocado o Germán Cano não estariam passando esse sufoco. KH de pé é normal no Brasil quando se vai a banheiro público. Se encostar o traseiro no vaso imundo vai pegar uma doença muito grave.

  • Já fiz viagens a trabalho para outros países muçulmanos na África, Ásia (não tão ricos quanto o Qatar). Por qualquer outro motivo, não iria.

    Além das questões levantadas aqui, há o aspecto da segurança. Não conheço o Qatar, mas, em outros lugares, pessoalmente não há nada que compense qualquer atrativo quando há esteiras e detectores de metal no hall dos hoteis, e os hóspedes têm que passar por revista toda vez ao entrar. Além do exército colocando barricadas a cada 100 metros nas ruas para evitar que um carro bomba (ou cheio de terroristas) entre em hoteis, shoppings ou nos eventos (Hoje com a proliferação de drones, fico imaginando um drone carregado de explosivos, descendo como um kamikaze…).

    Resultado: ficava longe de gringos, sobretudo ocidentais, com medo de virar alvo junto com eles. Nisso, fico pensando no quanto o Qatar investiu em segurança para passar esse ar de oba-oba da Copa sem ter nada ostensivo nas ruas. Como é entrar nos hoteis perto dos estádios, por exemplo?

    Nisso, perguntaram uma vez: mas se for viajar por escolha, sem esse aparato todo de segurança, não fica mais tranquilo? Como se os problemas de segurança fossem removidos junto…

    (P.S.: esses banheiros no chão também tinham no Japão. Hahahaha…aí a pessoa fica agachada como um sapo, de pernas abertas, e na hora de dar a descarga (em uma barra na sua frente), o tolete fica rodando debaixo de você como se estivesse no Beach Park até ir embora. Sorte já estar bem em desuso na época em que estive lá)

    • Nada melhor do que ler o depoimento de alguém que já esteve em lugares assim! E eu nem consigo imaginar o quão infernal devia ser, Suellen.

    • Eu sei que você tratou de assuntos muito mais importantes no comentário, mas eu só consigo pensar POR QUAL MOTIVO EM NOME DE GEZUIZ alguém faz esses banheiros onde você tem que cagar de pé? O que justifica essa escolha???

      • Exatamente para não precisar sentar, o q torna o ato mais higiênico q ficar sentada.
        Já estive por uma semana hospedada em local com esse vaso sanitário limpinho e sem resíduo, mas so conseguia fazer xixi, o número 2
        so consegui fazer 7 dias depois, já então num hotel na Italia. Chegou num ponto q eu nao mais comia
        evitando assim q a merda sentisse vontade de ser evacuada.
        Eh higiênico sim, xixi ia numa boa, mas p quem não está habituada, não rola cagar de 4.

        • O problema maior de vasos sanitários não é o assento, que você pode limpar e desinfetar, o grande vilão da contaminação é a água que respinga. Fico me perguntando se soltar um tolete dessa altura, estando de pé, não respinga água também.

          Obs: os comentários deste texto estão fascinantes

      • Na China também é assim, e o mais legal é que os banheiros em bairros tradicionais também não tem portas, apenas umas paredes baixinhas (menos de 1m de altura). Ou seja, todo mundo vê todo mundo. Eu precisava fechar os olhos e ficar cantando uma música baixinho para imaginar estar em outro lugar, ainda bem que não fui internada como louca.

        • Já li algo a respeito desses banheiros na China há alguns anos, Esther. E também fiquei espantado, para dizer o mínimo. Mas eu achava que, hoje em dia, depois do recente surto de crescimento e “ocidentalização” do país mais populoso do mundo , esse tipo de coisa estivesse restrita apenas às pequenas cidades do interior e a áreas ainda rurais.

          • Nas cidades rurais é a regra, não existe outro tipo de banheiro. Mas nas grandes cidades, se você for fora do “circuito ocidentalizado”, também. Em Pequim, por exemplo, dependendo da vizinhança só tem esses banheiros, como no bairro das “hutong”. Até onde eu entendi as hutong não têm banheiros privados. Então em cada quarteirão têm banheiros públicos com os buracos cavados no chão e acabamento em porcelana (acredito que as pessoas no meio da noite devam usar penicos, mas não perguntei). Mas a ideia não é ficar de pé, e sim agachado com os pés apoiados naquelas reentrâncias. Os que eu visitei pelo menos estavam muito limpos.

    • Essas privadas de agachar na verdade são as mais saudáveis, apesar de estranhas.
      O ser humano evoluiu cagando agachado, porque o reto fica numa posição que facilita a saída do cocô. Quando se senta numa privada ocidental, o reto fica encurvado.

  • Resposta de pobre é diferente. Eu nunca viajei pra canto algum que não fosse de busão, então seria da hora viajar de avião e ter história pra contar. Não pode mostrar sola, ok, eu ando arrastando o pé ou até descalço. O chão lá não deve ser mijado e cagado igual do Rio de Janeiro. Já andou a pé no Centro do Rio? Tem que pular poças de mijo, dá até nojo mesmo de tênis.

  • Enfrentar um calor desumano num lugar com leis e costumes esdrúxulos pra assistir futebol sem poder nem beber cerveja? Passo.

  • Concordo com a Sally nessa.

    Não gosto quando muçulmanos fundamentalistas tentam impor seus dogmas nos países laicos, então, também não vou dizer ou exibir aos caras os meus na casa deles.

    Já é comprovado inclusive que uso de niqab, burca, o que quer que seja, não impede que um maluco vá mexer com mulher, imagine então sem as vestes tradicionais deles. E ainda há risco da mulher sair culpada (pra começar, o próprio Islã defende que a palavra de uma mulher é de menos valor que a de um homem, e ainda precisaria de umas quatro testemunhas para comprovar que sofreu um crime).

    Gosto de beber de vez em quando, e não tenho pira com carne de porco. Se limitar minha dieta por motivos médicos já me irrita, imagine então porque terceiros querem baseados em suas crenças pessoais.

    Se eu tivesse amigos ou familiares cataris, até aceitava passar um tempinho por lá, mas, como não tenho, é pedir pra estar vulnerável onde posso me ferrar por nada.

  • Eu iria, nunca fiz uma viagem internacional na minha vida, e talvez nunca faça, então qualquer oportunidade é bem vinda. E não tenho cachorro.

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