Se a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro for apontada como a candidata do PL à Presidência da República em 2026 no lugar do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível, a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, não seria nada fácil. Levantamento feito pelo instituto Paraná Pesquisas entre os dias 18 e 22 de março, contratada pelo partido PP, mostra que Lula teria 36% das intenções de voto, contra 30,9% de Michelle. LINK


O brasileiro simplesmente não cansa dessa polarização. Desfavor da Semana.

SALLY

Depois das últimas eleições, com a vitória de Lula e o grande fracasso na gestão da pandemia de Bolsonaro, muita gente pensou que essa dualidade estava encerrada. Não estava. O mundo deu voltas, Bolsonaro está respondendo a vários processos e correndo o sério risco de chegar inelegível nas próximas eleições, mas… a mesma dualidade continua. Se preciso for, com sua esposa, Michelle Bolsonaro, que, em pesquisas, estaria com pouca diferença percentual em número de votos para Lula.

“Mas Sally, a pesquisa foi feita em um lugar que a favorece”. Ok, mas é uma mulher, sem tradição na política, sem qualquer campanha, com uma militância que, ao contrário do PT, sabe usar redes sociais, concorrendo com o político mais atuante do momento e que domina a máquina pública. Era para Michelle estar 20 pontos abaixo do Lula. Não está. Se nada mudar e houver uma campanha bem conduzida, ela pode ganhar do Lula.

Não vamos aqui ficar apontando a imbecilidade da situação, de um povo que se alterna entre dois lixos radioativos e não aprende nada após décadas. Não tem mais o que falar sobre o assunto e eu já considero fato que vocês vão continuar tomando no cu nas próximas eleições.

Vamos fazer a única coisa útil que pode ser feita no meio dessa enxurrada de estrume e usar a situação para melhorar como pessoas?

Somir e eu temos algumas divergências sobre o que leva o brasileiro a ficar repetindo voto em lixo. Talvez você concorde comigo, talvez com ele, talvez com ambos. Não faz diferença, a premissa é: certamente você tem um pouco disso dentro de você e, de alguma forma, de atrapalha, te limita ou te restringe na sua vida. Então, hora de olhar para essa pá de bosta e entender como você pode melhorar isso dentro de você.

Eu acredito que essa dualidade Lula x Bolsonaro se dá, em boa parte, pelo lado do apego: o brasileiro aderiu a um “lado” como se fosse um torcedor de time de futebol, não importa a merda que faça, mesmo que putos, continuarão torcendo para o seu escolhido e arrumando desculpas para sua derrota (“eleições roubadas” é o novo “o juiz roubou para o outro time”).

Suponho eu, no meu achismo pessoal, que esse apego vem de uma série de ganhos secundários que tapam buracos no emocional do brasileiro: sensação de pertencimento, sensação de superioridade moral, construção de uma identidade e um status que não conseguiriam de outra forma e outros motivos que já discutimos aqui em diversos textos.

Uma vez estabelecido, o apego é muito difícil de se desfazer, pois o mero cogitar do desfazer gera muitas sensações negativas na pessoa: além de abrir mão de todos os ganhos secundários, ela também sente um esvaziamento da sua identidade, uma sensação de desistência após muito investimento que acaba sendo erroneamente vinculada a fracasso e ainda tem que enfrentar a hostilidade de quem se manteve no apego, quem saiu como traidor.

Por um motivo ou por outro, todos nós sentimos apego a algo: aos filhos, aos pais, a um cargo, ao trabalho, à comida, ao pet, às redes sociais, a um casamento, a um namoro, a uma cidade, ao corpo, a dinheiro… são infinitas possibilidades. Apego nunca faz bem. E muitas vezes camuflamos apego como sendo amor, pois o torna socialmente aceitável. Arrisco dizer que muitas pessoas nem sequer sabem o que é amor, sentem apego por tudo e nem percebem.

Daria para escrever uma tese de mestrado sobre isso, mas vamos tentar resumir grosseiramente apenas para despertar a curiosidade do leitor em pesquisar mais: apego se baseia no medo, o amor no altruísmo.

No apego predomina o medo. O medo de ficar sem aquilo e sofrer, o medo do que se pode perder ao perder o objeto de apego, o medo de ter que recomeçar sem aquilo. No apego, não é sobre escolha, a pessoa precisa daquilo para não sofrer. É sobre o ego, sobre o eu. Se a sua frase para justificar por qual motivo se mantém em uma situação começa com “Eu”, talvez seja apego. Se começa com “Eu tenho medo de que…” com certeza é. Amor é altruísta, você quer o bem de todos os envolvidos, não tem “eu”, não tem medo, não tem necessidade de controle.

Como dizia Buda, a raiz de todo o sofrimento humano está no apego. E eu acrescento: justamente por envolver controle, medo e egoísmo. Tudo que envolve medo, controle e pensar única e exclusivamente no seu bem-estar é nocivo. Todos nós nos metemos em um muitas furadas e nos mantemos em muitas furadas movidos por apego, ou, em outras palavras, pelo medo, pela necessidade de controle e/ou por desejos do ego.

Resta a cada um de nós refletir o que tem de apego em nossas escolhas de vida e tentar desfazer isso da forma mais gentil possível, removendo o egoísmo, o medo e essa necessidade de controle, até que tudo que reste seja amor. Difícil? Não tanto quanto parece, seu ego faz parecer muito pior, para que você ache que não vai dar conta e nem tente. Você consegue. O simples fato de tomar consciência de que precisa ser feito já é meio caminho andado.

Enquanto isso não for olhado e trabalhado, as mesmas merdas se repetirão na vida de todos nós, seja os mesmos políticos corruptos, seja os mesmos problemas na esfera pessoal. Não tem saída, é olhar e trabalhar essas questões ou andar em círculos o resto da vida.

Então, vamos aproveitar um belíssimo exemplo no macro, que sempre chama mais a atenção por seu tamanho, e usar como deixa para trabalhar essas questões no micro, em nossas vidas, em vez de querer salvar o mundo. Ninguém salva o mundo, ninguém salva a terceiros, apenas podemos salvar a nós mesmos. Use sua energia para isso, é a única forma de contribuir para um mundo melhor: melhorando a si mesmo.

Cada vez que aparecer para você essa sensação de que o Brasil anda em círculos, revise seus apegos e as situações da sua vida que se repetem e pense no que você precisa trabalhar. Só assim esse entorno merda terá alguma utilidade.

Para dizer que prefere o título de herói e andar em círculos alegando que está tentando salvar o mundo, para dizer que prefere Desfavor da Semana trabalhado no ódio e esculacho ou ainda para dizer que não está disposto: comente.

SOMIR

Está ficando repetitivo? Está. Mas da repetição podemos analisar várias coisas diferentes. Como o ser humano é uma combinação de fatores, muitas vezes difíceis de prever, a cada vez que a gente volta neste assunto, existe a possibilidade de explorar uma nova faceta desse mal dos tempos modernos.

As pessoas sempre tiveram alguma propensão aos vícios, enfrentamos vários problemas sociais por causa disso, especialmente no caso das drogas. Mas o ser humano tem um pensamento abstrato tão desenvolvido que somos capazes de nos viciar até mesmo em ideologias. Acreditar que está certo pode ser tão estimulante quanto qualquer outro vício de natureza mais mundana.

E não precisa de décadas de estudo para sentir isso no campo intelectual, as torcidas de futebol estão aí para provar que basta uma bandeira colorida para ativar sentimentos ancestrais de pertencimento a uma tribo e sentir que está do lado “certo” na vida.

Acho até que já disse isso antes, mas vale a pena dizer de novo: em tempos pré-overdose de informação e globalização, as pessoas tinham um limite natural de quanto se importavam com grandes questões políticas, filosóficas e até mesmo espirituais. Você lidava com menos gente, recebia menos estímulos externos, a vida cotidiana tinha um peso maior porque não tinha tanto lugar para escapar.

Hoje o mundo todo bate na porta da sua casa, com milhares de certezas sobre qual é o problema mais importante de todos, e é claro, com o mesmo número de soluções mágicas para eles. Temos exemplos históricos de como esse tipo de ideologia pode ser contagiante, pode terminar numa revolução comunista ou nazista, mas o cerne da questão é o mesmo: depois que a pessoa encontra sua ideologia e começa a experimentar as descargas de dopamina de fazer parte da “tribo certa”, o vício pode se instalar.

E aí, a lógica sai pela janela. E com o tipo de vida ultraconectada com a humanidade e distante da sua comunidade que vivemos, grandes chances de não ter muita coisa te puxando de volta. O brasileiro ficou viciado na sensação de ter um lado certo e um errado, em fazer parte de uma disputa entre dois grupos capitaneados por Lula e Bolsonaro. E pelo visto, eleição após eleição, espera por mais uma dose cavalar de polarização.

Achar que está certo é bom, mas quando tem um inimigo que defende tudo o que está errado junto… fica muito melhor. Dá sensação de propósito, além de acalmar a mente sobre a dúvida fundamental sobre sua posição na sociedade. Você é defensor do bem, lutando contra o mal. O meu ponto aqui é que isso vicia, e como é comum nos vícios, as pessoas precisam de doses cada vez maiores para sentir aquela euforia inicial. Sem contar que a abstinência bate forte quando passam muito tempo sem a droga ideológica da vez.

O governo Bolsonaro foi uma vergonha. Não só pelas posições bizarras em questões como a pandemia, mas pela preguiça generalizada: ô povo encostado, começando pelo presidente. Passava mais tempo brincando com o seu gado do que despachando no seu escritório. O governo Lula está sendo outra vergonha: os esquemas do PT estão voltando (a Petrobrás vai começar a sangrar de novo), a violência continua, os direitos humanos não são respeitados e a dengue comendo solta. E a parte de passar vergonha internacional continua.

Faria muito sentido procurar outros políticos e partidos para gerenciar o Brasil, não? Bom, como dizer isso para quem está viciado? Vai chegar no cidadão perdido no meio da Cracolândia e dizer que é só parar de usar droga para melhorar? As pessoas sabem que os governos não estão indo bem, mas provavelmente acham que a única alternativa é ir para a outra torcida e virar a casaca. Mas, de novo: os dois são uma vergonha.

O vício cria essa ilusão de “ruim como está, pior se mudar”. É da natureza dele criar barreiras mentais poderosas para se manter. E isso fica especialmente cruel na polarização política porque realmente, se mudar de Lula para Bolsonaro ou de Bolsonaro para Lula, é ruim dos dois jeitos. A pessoa se convence que está menos pior do jeito que ela já defende, até porque todo mundo sabe como é difícil admitir que investiu seu tempo e energia numa alternativa ruim.

Para não achar que desperdiçou sua militância, a pessoa começa a tolerar mais e mais absurdos. Bolsonaristas e lulistas vivem negando corrupção, quando é provado eles dizem que foi pouco; e quando descobre-se que não foi pouco, eles dizem que era uma necessidade por causa do sistema que o adversário criou. Quer mais papo de drogado do que isso?

O Brasil precisa de um detox urgente. E isso começa de baixo para cima, quem está ganhando dinheiro e poder com a polarização não vai largar o osso, evidente que não. Quanto menos polarizado você é, menos doses dá para quem está viciado ao seu redor. E das duas uma, ou você ajuda a pessoa a ver que existe um mundo gigantesco além das suas teorias conspiratórias e certezas políticas analfabetas funcionais; ou ela começa a se afastar.

Se muitos de nós ajudarmos a não polarizar, reduzimos a oferta dessa droga no mercado. Eu já acho que é questão de saúde mental pública nessa altura do campeonato. O povo viciou pesado nesses dois e nas bandeiras que eles balançam (a maioria de forma hipócrita).

Porque só isso explica uma terceira eleição presidencial seguida entre Lula e Bolsonaro (com ou sem fantoches), depois do que os dois fizeram.

Para dizer que não tem opção, para dizer que o machismo vai nos proteger de Michelle, ou mesmo para dizer que não é viciado e pode parar quando quiser: comente.

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Comments (6)

  • Faz tempo que eu ia compartilhar que um principal pensamento intrusivo meu é de ainda quase raiva contra este radioativo tema, este bem adjetivado e retornado.

    Grande semana “até” sobre “resgatar” essenciais secularismo e altruísmo!

  • “10,5% disseram que votariam em branco, nulo ou nenhum e 4,7% não souberam ou não quiseram responder.”
    Quase 1 a cada 5 pessoas. Complicado…

  • As pesquisas do Paraná Pesquisas tendem a superestimar os votos mais à direita, em especial quando a eleição está distante, sendo que já ocorreu isso com Moro ou mesmo com o Bolsonaro apontados como candidatos a presidência.
    A diferença do Lula pra Michele tende a ser maior na espontânea que na estimulada. De qualquer forma, acho 30% dos votos a essa altura do campeonato muito pra ela.

    • Ainda não li bots de YouTube pra ela (nem pra Damare$, e olha que as duas já foram mencionadas numa newsletter especial de sábado do “Meio”), sendo que imagino que virão + tendências do que dominar os clusters de Facebook.

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