Lilith encomendou um texto sobre Eutanásia, e disse que tinha que vir dentro de uma coluna Flertando com o Desastre. O tema já passeou pelas nossas páginas algumas vezes e eu sempre deixei minha posição clara. Mas, talvez não com o carinho necessário… vamos estabelecer o ponto central do texto de hoje: eutanásia é uma prática humanitária que defende a vida acima de tudo. Não deveria ser polêmica, nem um pouco.

Em termos simples, eutanásia é o ato de terminar a vida de uma pessoa para evitar que ela sofra de forma continuada. Evidente que não falaremos sobre uma pessoa aleatória matando outra porque acha que vai ajudar, estamos falando sobre profissionais de saúde bem treinados realizando o procedimento de forma tranquila e indolor em pacientes em estado de sofrimento continuado comprovável e de acordo com a vontade da pessoa ou daqueles que podem tomar essa decisão por ela.

Mas mesmo dentro de regras bem definidas e um grau de confiabilidade razoável no processo, ainda existe um dilema moral poderoso. Não é objetivo deste texto fazer pouco desse dilema, afinal, decidir pela própria morte ou a de uma pessoa querida marca pontos em todas as escalas do que configura uma decisão complexa para uma pessoa: é definitiva, envolve diretamente as pessoas ao seu redor, gera um risco de arrependimento e querendo ou não, mata uma pessoa! Frequentemente nos vemos confusos sobre o restaurante que vamos, é o terror da escolha errada elevado ao cubo.

Totalmente compreensível que quem esteja dentro de uma situação dessas sinta-se terrível para tomar a decisão. Mas ser uma decisão terrível não deveria ser a base para uma polêmica. Vejam bem, algo polêmico, pelo menos da forma como eu enxergo, deveria ser algo sobre o qual existam pelo menos duas interpretações conflitantes bem fundamentadas. O debate entre esquerda e direita em política é uma polêmica, pessoas podem falar sobre isso com uma complexidade enorme se quiserem. Dados e mais dados sobre a vida real podem ser trazidos e analisados para gerar mais e mais discussões. Polêmicas só tem longevidade à medida que se transformam quanto mais pessoas participam dela.

A discussão sobre a eutanásia realmente muda quanto mais pessoas são forçadas a tomar um partido? Novas experiências trazidas de fora modificam significativamente o objeto argumentativo dessa suposta polêmica? Meu ponto aqui é que não. No caso da eutanásia, a polêmica não existe de fato. Os lados não tem a capacidade de evoluir a própria discussão, não importa quanta coisa joguem pra cima dela. Via de regra, quando um tema difícil pode ser reduzido a uma escolha pessoal cujo impacto acontece basicamente só dentro da vida dela, fica muito difícil polemizar.

O que um grupo de defensores e detratores da eutanásia faz realmente pela pessoa que tem que decidir se ela ou uma pessoa querida vai morrer? Como essas opiniões podem modificar a experiência no final das contas? Ou você termina uma vida, ou você permite o sofrimento continuado. Não tem muito para onde escapar, quando as coisas chegam nesse ponto, vai polemizar pra quê? Na hora de uma decisão pessoal dessas, a pessoa não tem que redefinir significados da vida, tem que ter um mínimo de segurança que está tomando a decisão com maior valor agregado.

Uma pessoa passando por sofrimento extremado ao ponto de não querer mais viver deve ser ouvida com muito cuidado. Porque tem algo muito sério ali. Tem uma decisão fundamental sobre a vida dela. Acredito que o maior engano sobre o tema seja acreditar que eutanásia seja sobre a morte… a morte é irrelevante nesse contexto. É tudo sobre a vida que aquela pessoa está vivendo e uma decisão pra lá de complicada sobre a viabilidade dela. Se você acredita que todos temos o direito de viver sem sofrimento exagerado, vai entender como eutanásia é sobre o direito de viver.

Não é humano fazer uma pessoa viver uma vida de torturas, de isolamento, de violências contra tudo o que acreditamos ser mais valioso na nossa existência. Isso não é polêmico. Não existem informações novas que vão subverter essa ideia de um mínimo de valor na nossa existência para ela ser tolerável. Vai polemizar que dor excruciante por anos a fio é algo aceitável para uma vida humana? Vai polemizar que um filho não pode querer poupar seu pai de um enclausuramento mental sem fim? Nem se você for fundamentalmente favorável à tortura vai tender a concordar com isso, afinal, mesmo quem acredita em causar extremo sofrimento em outras pessoas se defende acreditando que isso só deve ser feito com pessoas realmente horríveis, em retribuição por crimes já cometidos.

O corpo humano falha por doenças, acidentes e tantos outros motivos, ele falha de formas catastróficas para a possibilidade de uma vida minimamente decente. Isso também não deveria ser polemizado. Infelizmente é. O grau de sofrimento que algumas pessoas causam nas pessoas ao seu redor por ilusões de amor é assustador nesse mundo. Por exemplo: crianças terrivelmente deformadas são mantidas vivas pela força da negação dos pais, criando um ser humano que pelo curto tempo que ficará consciente, vai sofrer terrivelmente mais do que qualquer outra criança. Eu mal posso imaginar a tortura mental que é ter seu sonho de um filho desfigurado em sofrimento constante. Quando temos muito medo, tendemos a nos apegar a qualquer coisa. Inclusive a crianças que vão ser torturadas pela vida que tiverem.

Eu trago esse ponto porque existe sim uma conexão entre o que parece mover as pessoas que são contra a eutanásia, aborto e outras formas de valorizar a vida ao invés do sofrimento: a ideia que existe uma saída dolorosa para elas mas que salva uma pessoa querida não pode fincar raiz nessas cabeças. Porque aí elas tem que lidar com o mesmo dilema que mencionei no começo do texto, mas já sabendo que tomaram a decisão mais dolorida para quem acreditavam estar ajudando. O egoísmo de manter viva uma pessoa com o corpo e/ou a mente destroçados para não ter que ficar sem ela deve ser uma realização devastadora.

Somos seres sociais, está em cada fibra do nosso ser a necessidade de ter conexões com outras pessoas. É compreensível querer colocar essa necessidade de estar com outra pessoa acima do bem estar dessa pessoa. Uma coisa escrota de se fazer, mas muito humana, visceral. Não queremos ficar sozinhos, e quanto mais bate o desespero, mais forte queremos segurar nas outras pessoas que geram significado para nossas vidas. Mesmo que esse agarrão machuque. E outra, é basicamente impossível passar pela vida sem gerar dor em outras pessoas. De uma certa forma, estamos acostumados que isso vai acontecer, e que por vezes precisamos machucar até pessoas queridas para continuar vivendo.

Mas as coisas tem limites. Outra parte essencial do que é ser humano é controlar esses impulsos quando você os conhece. Eu não quero nem imaginar a dor de ter que se cortar fora da vida ou tirar alguém próximo dela diante de uma situação limite feito as relacionadas com eutanásia. Ninguém quer simplesmente largar as pessoas queridas, seja você ou elas que vão morrer nesse processo. O instinto é do agarrão mesmo: “Fica aqui! Fica comigo! A gente dá um jeito, a gente aguenta!”. Muita gente nunca consegue lidar com a necessidade de controlar esse instinto, porque francamente, é difícil. Mas, novamente, não é uma polêmica.

Saber deixar as pessoas irem embora da sua vida é uma necessidade. Não é algo que se possa argumentar por horas em tese. Ou você realiza que gostar de alguém também significa pagar preços pessoais altos para ver ela melhor, ou você fica preso em relações doentias onde o sofrimento continuado é aceitável. Tanto no caso da eutanásia quanto de aborto de crianças extremamente deformadas, não é complicado entender a necessidade de segurar essas conexões por perto custe o que custar. Mas é algo horrível de se fazer: é gerar sofrimento por egoísmo.

E quando essa ideia de ter que deixar ir da sua vida pessoas que estão sofrendo demais na configuração atual realmente assenta na cabeça, é hora de rever muitas de suas decisões e perceber como somos fracos nesse campo. Como em algum momento, agarramos com força numa pessoa que não deveria estar lá, ou fomos agarrados para o nosso sofrimento com pessoas que acreditávamos gostar da gente. Seres humanos fazem mal uns para os outros, é o subproduto de tudo o que podemos fazer, inclusive as coisas muito boas.

E reduzindo o tema ao que realmente importa, a vida das pessoas envolvidas na decisão da eutanásia, com todos esses sentimentos, necessidades e conflitos comuns do ser humano… não sobra o que polemizar. Pessoas vivem e morrem, fato. O que elas fazem nesse meio termo é o que conta, e se você ou uma pessoa muito querida perderam a capacidade de viver com um mínimo de conforto físico e dignidade mental, não existe mais vida. Decidir-se pela eutanásia é escolher vida sim. É não agarrar uma pessoa ou as pessoas ao seu redor com força pelo medo de ficar sem elas, ou para não ter que lidar com seu egoísmo (compreensível, mas doloroso do mesmo jeito), é pensar em como aquela pessoa vive e como você pode demonstrar alguma forma de amor por ela.

É uma decisão pessoal horrível. Mas, muitas das coisas mais nobres que podemos fazer também são.

Para dizer que ficou chocado por eu não ter pego o caminho científico, para dizer que se for começar a contar o que mais não é polêmica vai ser difícil parar, ou mesmo para dizer que agora eu estou obrigado a definir polêmica num texto futuro: somir@desfavor.com

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Comentários (4)

  • Uma amiguinha de quimioterapia do meu sobrinho (já falecido) desenvolveu leucemia durante o tratamento do tumor cerebral. A criança já tinha sequelas do tumor. Quando fez o transplante de medula, nos 30 dias entre o transplante e a medula pegar ela foi colocada e tirada de coma induzido, teve convulsões violentas, infecção nos pulmões, os rins já pararam. A mãe não aceita perder a filha. E em nome disso, submete a menina a sofrimento constante. Isso é pior que eutanásia, a meu ver.

    • Essa mãe já perdeu a filha, só não consegue aceitar. E sua não aceitação está causando dor e sofrimento para esta pobre criança. É desumano, mesmo com a melhor das intenções.

  • Recomendo o filme “You don’t know Jack”, no qual Al Pacino é o Dr. Jack Kevorkian, o maior defensor da eutanásia em seu tempo.

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