Terraformar: Vênus.

Terraformar é o ato de transformar um planeta, lua ou qualquer outro tipo de objeto espacial grande o suficiente numa “cópia” da Terra. Isso é, um lugar que seja capaz de sustentar vida oriunda do nosso planeta com pouca ou nenhuma adaptação. É um passo muito além de colonizar, não é só colocar vida no planeta novo, é fazer o planeta novo aceitar essa vida como se fosse sua. Considerando que nosso planeta atual tem prazo de validade, fatalmente teremos que encontrar uma forma de fazer isso.

Olhando para as nossas redondezas, podemos perceber como a vida como conhecemos pode até ser resiliente dentro do nosso planeta, mas simplesmente não está preparada para os ambientes disponíveis nos planetas próximos. Mercúrio é uma imensa bola de ferro orbitando perto demais do sol. Júpiter, Saturno, Urano e Netuno são bolas de gases venenosos à vida. Depois deles, nem mesmo o Sol tem capacidade de entregar energia suficiente. Numa localização minimamente aceitável, temos apenas Vênus, Terra e Marte de planetas. Hoje o papo é Vênus:

Vênus é extremamente tóxico à vida por uma série de motivos, apesar de ainda estar numa faixa bem interessante de distância de sua estrela. Por causa de uma atmosfera extremamente densa, o efeito estufa por lá é tão intenso que a temperatura na superfície passa dos 400 graus Celsius, com uma pressão atmosférica mais de 90 vezes maior do que a que temos aqui ao nível do mar. Por lá o ar é tão denso que até um ser humano com asas amarradas aos braços conseguiria voar… claro, não seria nem um pouco agradável a parte de ter as asas derretidas pelas constantes chuvas de ácido sulfúrico.

Como transformar um forno ácido desses num planeta habitável? Bom, existem algumas ideias. O primeiro problema é tirar o excesso de atmosfera do planeta, composta por dióxido de carbono (por isso o efeito estufa – ele não deixa o calor sair do planeta). Carl Sagan foi um dos primeiros a sugerir um plano para tal: a introdução de bactérias geneticamente modificadas para transformar o carbono em oxigênio. O problema é que quando ele deu essa sugestão, ainda não se sabia quão densa era a atmosfera do planeta.

Mesmo que desse certo, a pressão imensa local faria a superfície ficar coberta de metros e metros de grafite, com uma atmosfera composta de oxigênio pressurizado. Não seria um lugar bacana para termos uma faísca… o outro problema é que para transformar o dióxido de carbono em oxigênio, precisaríamos de muito hidrogênio para a reação. Hidrogênio temos aos montes aqui na Terra, mas em Vênus as coisas são diferentes. O planeta recebe o dobro de luz solar que a Terra, e por ter uma rotação lenta, muito lenta (o ano de Vênus é mais curto que o dia!), não tem um campo magnético que proteja o leve hidrogênio que se acumularia no alto da atmosfera. O vento solar levou quase tudo embora.

Resolver o problema da atmosfera avança muito a questão da temperatura na superfície, e inclusive reduz a quantidade de substâncias nocivas (para nós) por lá. Então, mesmo que a ideia das bactérias não seja muito eficiente, ainda sim precisa-se lidar com essas condições de temperatura e pressão. E pessoas mais loucas e inteligentes que eu já deram vários caminhos, dentre eles bombardear o planeta com algo que gere a reação química necessária. Com a quantidade suficiente de magnésio e cálcio, o carbono poderia ser fixado em uma forma sólida. O problema é quanto seria suficiente: mais ou menos um quarto da Lua em matéria… e minerar isso pode ser um desafio grande demais.

Mas como já disse aqui, hidrogênio é eficiente para o processo de resfriamento e diminuição da pressão por lá, justamente algo que falta em Vênus. A quantidade de hidrogênio necessária para ter o resultado seria bem menor que a da opção anterior, teríamos apenas que ir buscar isso num dos gigantes gasosos ou uma de suas luas congeladas. Estima-se que assim como na Terra, abaixo da superfície de Vênus tenha bastante da substância para realizar o processo, mas isso significaria fazer buracos pra lá de consideráveis no local, que não é muito hospitaleiro com mineradores…

Então, que tal destruir a coisa toda? Com uma explosão grande o suficiente, a atmosfera pode ser expulsa numa pancada só. Claro, no caso de Vênus e sua atmosfera absurdamente densa, uma explosão grande o suficiente para tirar a maior parte da atmosfera destruiria o planeta por tabela. Mas, daria para fazer isso em etapas, arremessando os gases para fora em impactos controlados. Um cálculo sugere que seriam necessários uns 2.000 impactos de objetos acima de 700km de diâmetro para expulsar atmosfera suficiente para ficar parecida com a Terra. Lógico, nem tudo é tão simples: depois de tantos impactos, é provável que muita coisa que estava presa abaixo da superfície acabe subindo, refazendo a atmosfera com outros gases.

Se não pode vencê-los, cubra-os. O próximo plano sugere uma sombrinha sobre o planeta. Uma sombrinha de proporções planetárias, mas com a mesma ideia: barrar a luz solar que atinge o planeta. Com uma redução dessas, o efeito estufa enfraqueceria o suficiente para facilitar quaisquer outros processos. Se colocada no ponto certo, essa sombrinha com quatro vezes o diâmetro do planeta conseguiria bloquear toda a luz solar e inclusive a radiação que chega até Vênus (outro ponto positivo para a terraformação). Mas como vocês podem prever, mesmo sem considerar o trabalho de fazer uma capa desse tamanho (que no espaço ficaria mais factível), ainda temos de considerar a pressão da radiação solar!

Aquele monte de partículas que nossa estrela solta sem parar não tem muita força sozinhas, mas quanto maior a área que se considera, mais fortes podem se tornar. Uma superfície desse tamanho viraria uma vela, como as de barcos, pegando o “vento solar” e convertendo em movimento. Uma solução para isso é colocar essa estrutura perpendicular ao Sol, apenas mudando sutilmente a luz de direção ao invés de devolvê-la para a fonte. É só não apontar pra Terra que está ótimo. O ponto positivo desse processo é ter de bônus um imenso gerador de energia para “financiar” o trabalho imenso necessário.

Então, que tal usar tudo o que aprendemos até aqui para pensar na melhor solução? Sabemos que Vênus tem uma atmosfera muito densa, recebe muita luz solar e radiação pela sua posição. Então a superfície fica fora de questão pela pressão atmosférica absurda, e o topo das nuvens também pelo planeta não ter campo magnético para nos proteger da radiação.

Mas, e se não fosse nem uma coisa nem outra? No caso de Vênus, o meio termo realmente é a solução. Uma atmosfera muito densa num planeta que praticamente não se move sobre o próprio eixo significa um lugar suficientemente estável alguns quilômetros atmosfera a dentro. Quando falamos de terraformar, estamos pensando no longuíssimo prazo, o que nos leva a ideia de criar sombra na superfície para ir modificando sua composição. O que funciona muito bem numa atmosfera dessas são balões. E eles tendem a ser muito estáveis. Qualquer gás poderia ser colocado dentro de um balão e flutuar por lá. Poderíamos construir cidades nesses balões sem medo deles afundarem, e estaríamos protegidos da radiação pelas camadas superiores da atmosfera.

Uma colônia humana poderia viver por lá por gerações, flutuando sobre as nuvens venusianas, produzindo mais e mais plataformas para cobrir a superfície, introduzindo hidrogênio e outras substâncias por lá, possivelmente até explorando a superfície para liberar depósitos de coisas como magnésio, cálcio e afins. O resto está lá, basta transformar no que queremos.

Na próxima edição, falaremos de Marte. Até lá!

Para dizer que está torcendo para eu ir primeiro, para dizer que agora sabe porque dizem que as mulheres são de Vênus, ou para dizer que modificar planetas não te atrai (pffft, plebe): somir@desfavor.com

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Comments (6)

  • Na minha opinião, uma colônia de bactérias (e não de algas) ainda é a melhor e mais fácil opção de Terraformar Vênus!
    Hoje, com atual tecnologia, temos condições de criar uma bactéria a partir do zero e com isso adaptá-la a sobreviver naquele “oceano” de nuvens e ainda processar todos os elementos constituintes destas núvens (como CO2 e H2SO4).
    Para isso apenas miremos em algumas características essenciais para que ela obtenha sucesso:
    * Estudar aprofundadamente a camada de núvens que cobrem o planeta, KM a KM com a finalidade de obter com exatidão suas velocidades, para que tais bactérias sejam projetadas para se locomoverem por entre tais nuvens sem problemas de serem tragadas para a superfície;
    * Sejam construidas de forma que possam se locomover livremente entre as núvens, bem como em meios aquosos;
    * Uma taxa de crescimento hiper-acelerada, para que a taxa de natalidade supere em muito a taxa de mortalidade das mesmas, ou seja para cada bactéria que fosse sugada para a superfície (assim sendo morta e devolvendo em partes o que roubou da atmosfera) nasça 2! Assim, a conta acaba se revertendo para o processo de transformação climática!
    * Possuam um alto índice de resplandecência (alto albedo), assim, além de contribuir com o consumo dos materiais tóxicos da atmosfera, ainda de brinde ajuda a diminuir ainda mais a insolação solar no interior do planeta, diminuindo mais sua temperatura;
    *Sejam extremófilas (suportem temperaturas elevadas), e mistas: quimio e foto-sintéticas ao mesmo tempo, assim poderiam executar a remoção dos gases tóxicos tanto no lado iluminado quanto no lado escuro do planeta!
    Pronto, só deixar elas começarem a trabalhar! A temperatura irá cair gradualmente! Quanto aos metros e metros de grafite, ele pode tranquilamente ser limpo da superfície e reaproveitado na construção de produtos!
    Com relação ao excesso de O2 e a falta de H2 para fazer H2O, isso NO MOMENTO realmente seria um problema, mas entendamos que esse processo de terraformação é um processo fácil, porém é lento e isso demandará alguns séculos a fio. Neste meio termo enquanto as bactérias ficam executando o trabalhinho delas, nós seguiremos com nossas vidas e estaremos resolvendo nossos próprios problemas como destruição da natureza, ganância, sede de poder, orgulho e todos os demais empecilhos que FODEM com nossas espécie e provavelmente até lá teremos condições de minerar H2 de outros mundos como Júpiter por exemplo e teremos uma sociedade mais justa e feliz! Entendam que este tipo de Terraformação é um processo sem vistas à períodos rápidos de tempo, ou seja, a principal função destas bactérias seria a de melhorar as condições com o passar dos séculos lá para que no futuro, com uma tecnologia mais avançadas nem precisemos mais de usá-las, porém, como o tempo passa, o planeta ficaria muito menos hostil do que é hoje!

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  • Porque não construir um canudo enorme que liga a superfície ao vácuo e deixar que a pressão faça o resto..kkkk os gases seriam expulsos para o vácuo..kkk

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  • As condições de existênciasaúde realmente são impossíveis para a vida humana, mas creio que pra quem mora nesses planetas…seus corpos são adequados à cada habitat.

    Que pena, Somir. Depois de ler o fruto de sua pesquisa (muito bem didatica, por sinal), não tenho mais como sair do planeta.

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  • Morar flutuante seria menos incomum para vários dos atuais holandeses…
    (tu run tss)

    Parabéns, Somir !

    (Realmente aguardando a continuação)

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  • Aguardando a próxima parte!

    Pergunta: Lua não faria falta? Ou haveria possibilidade de uma ser criada artificialmente?

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