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Desculpinha…

Desculpinha…

| Desfavor | | 30 comentários em Desculpinha…

O que acontece quando a cultura do cancelamento encontra com o jeitinho brasileiro? A pessoa tenta estragar a vida do outro, mas se der errado pede desculpas e sai ilesa para tentar novamente no futuro. Desfavor da semana.

SALLY

A atriz Mel Lisboa (“Presença de Anita”) tentou lacrar esta semana. Nada de novo até aí, toda semana nanocelebridades esquecidas tentam angariar alguma simpatia, conseguir algum engajamento ou seguidores. Mas a forma como a dinâmica se deu nos chamou a atenção para o que parece ser um novo ritual de lacre.

Antes de mais nada, a polêmica é essa conversa no grupo do WhatsApp que ilustra o texto de hoje. Não contente em ser extremamente grosseira com a professora da filha dentro do grupo, na frente de todas as outras pessoas, Mel Lisboa ainda printou a conversa e postou em suas redes sociais, de forma a expor a coitada da professora, com um comentário escroto: “é exaustivo”.

Independente do mérito da questão, dar esse tipo de resposta para a pessoa que ensina à sua filha em um grupo é escroto. Chama no privado e conversa, explicando que talvez fosse melhor abordar de outro jeito. É isso que pessoas que querem ajudar ou colaborar fazem. Quem expõe um suposto erro em público e aponta o dedo não quer te ensinar nada, quer te escrotizar.

E postar print da comida de rabo que deu na coitada da professora em redes sociais? Isso é muito escroto. Escroto e desconectado da realidade dar tamanha importância a uma coisa dessas em um país que enfrenta as mazelas que o Brasil enfrenta. White People Problem de gente que não parece ter muito contato com a realidade para avaliar o senso de proporção das coisas.

Quando a coisa explodiu na cara da atriz, ela veio com esse papo de “cultura do cancelamento”, para se vitimizar. Oi? O que ela fez com a professora, no caso, foi o que? Expor um suposto “erro” dela para todos os seus seguidores teria qual intenção? Que joguem rosas para a professora? Quando entra no próprio cu critica cultura de cancelamento, mas na hora de botar no cu dos outros é exposed sem dó, né?

O curioso foi ver o modus operandi de Mel Lisboa. Detectamos um padrão. O mesmo de todas essas Lacrianes chatas pra caralho que insistem em expor detalhes da sua vida pessoal na internet e depois se chatearem se alguém opina a respeito. Parece que temos uma coreografia pronta para casos como este.

Segue o tutorial da Lacriane Moderna:

1) A pessoa precisa de atenção por carência afetiva ou por questões financeiras, daí pega uma questão pequena, um equívoco, uma falha, uma imprecisão quase que irrelevante de alguém e joga um holofote. Faz disso um problemão, incitando outras pessoas a se incomodarem com isso, de forma antagônica: se você é boa pessoa, você vai se indignar com isso.

2) Tornam isso público de forma covarde, jogando em redes sociais, nas quais a Lacriane costuma ter um número muito maior de seguidores dos que a pessoa que está sendo exposta. O público alvo não será imparcial, afinal, estão seguindo a Lacriane, portanto, se supõe que tem uma afinidade com essa pessoa e vão olhar com muita boa vontade o que quer que ela diga. Isso tende a provocar um efeito manada.

3) Caso de fato as pessoas concordem com o exagero que a Lacriane está expondo, ela capitaliza isso para ela. Sai de “fada sensata”, de pessoa sábia, de pessoa boa que se revolta diante de uma escrotidão que está sendo cometida. Uma justiceira, arauto da verdade. Felipenetou.

4) Se der errado e as pessoas se voltarem contra o exposed covarde que a Lacriane promoveu, elas apagam, pedem desculpas e soltam umas excrescências como “oportunidade de aprendizado”, “recolhimento para refletir”, “gratidão”, “somos todos humanos, todos erramos”. E se safa da babaquice que fez, pois brasileiro é treinado para sempre ter que perdoar, caso contrário é um escroto.

Isso é uma coisa que eu critico faz tempo, tem até um texto antigo meu sobre isso: que porra é esse de ter a obrigação de desculpar quem pede desculpas? Negativo. Todo mundo tem o sagrado direito de se sentir decepcionado, parar de seguir, parar de consumir, desgostar. Quando pedido de desculpas vira passaporte para fazer qualquer merda e se safar, entramos em um campo de manipulação perigoso.

Assim como sair “cancelando” todo mundo por qualquer erro é escroto, deixar passar impune qualquer erro também é escroto. Excessos. Dois lados de uma mesma moeda da qual não devemos nos aproximar. Se um famoso fez algo que você considera inaceitável, você tem todo o direito de parar de seguir, criticar ou até boicotar algo do qual ele participe, por mais que ele se desculpe. Isso não faz de você uma má pessoa.

O “pedido de desculpas cala a boca” parece ser o jeitinho encontrado para fugir da cultura do cancelamento. Isso não é solução, é manipulação tão baixa quanto. Solução é assumir a responsabilidade por seus atos. No caso, admitir o motivo real pelo qual jogou uma pobre professora no fogo, queimando-a em público.

Crescimento, aprendizado e gratidão é o caralho, olha pro próprio rabo e entende de onde veio essa babaquice e joga limpo com as pessoas. Não quis tonar pública a cagada? Torne pública a resolução da cagada também.

Esse pedido de desculpas vazio me ofende e me faz sentir ainda mais resistência à pessoa. Fica claro que está só está se desculpando por ter dado merda, caso contrário, continuaria com seu linchamento. É mais falso que uma nota de três e infelizmente costuma funcionar.

Ou o povo é muito burro, ou o povo está em um pacto perverso e silencioso onde engole a “desculpa cala a boca” por saber que um dia também pode precisar desse recurso. Provavelmente ambos.

Aprendizado a gente tem quando olha para a questão e entende de onde ela veio. Quando você entende que não pode fazer se não as pessoas ficam putas é um mero adestramento. Enfia o aprendizado no cu e me chama quando resolver falar a verdade a respeito da questão e de si mesma.

Para dizer que exaustivo é ser professora de filha de Lacriane, para dizer que o pai estava no grupo e podia se encarregar independente de quem a professora chamou ou ainda para dizer que é lindo fazer fama se objetificando e depois posar de feminista: sally@desfavor.com

SOMIR

Todo mundo erra. É condição inescapável na existência humana: somos seres falhos trabalhando com informações incompletas na maioria esmagadora dos casos. Se não houver algum grau de tolerância entre nós, a vida em sociedade se tornaria (ainda mais) impossível. Então, claro que pedir e aceitar desculpas faz parte da convivência.

Porém, existem erros e erros. Algumas coisas podem ser corrigidas, outras não. Um atropelamento fatal causado por um motorista bêbado nasce de um erro de julgamento e não de um desejo homicida premeditado, mas para quem sofre com esse erro, o resultado é o mesmo. Até por isso os erros estão previstos em leis ao redor do mundo: por mais que não gerem punições tão severas quanto os crimes realizados com intenção explícita, ainda sim entendemos que nem todos podem ser desfeitos com arrependimento. Não imediatamente, pelo menos.

E nem todos os erros nascem iguais: alguns são resultado da mais pura ignorância, alguns são erros de cálculo, já outros podem ser mera distração. Na maioria desses casos, basta que a pessoa tenha informações melhores para evitar a repetição do erro, pois presume-se que se soubesse melhor antes, não teria errado para começo de conversa. Todo mundo pode aprender com suas falhas, e é até comum que as pessoas que cometeram mais erros sejam as que mais aprenderam. Por isso, outro fator importante para considerar ao analisar o erro alheio é como a pessoa chegou até aquela conclusão e se ela vai ficar menos propensa a repeti-lo no futuro.

Tudo isso conta na hora de julgar um erro. E é por essa lógica que eu analiso o post “exausto” de Mel Lisboa sobre a professora da filha. Depois de sentir a reação negativa sobre sua tentativa de expor a mulher, pediu desculpas, esperando que isso fosse considerado um erro. Se foi um erro… quem nunca, não? Até disse que isso gerou um aprendizado. Melhor que não aprender com o erro só não errar, e não somos malucos de exigir perfeição de outro ser humano. Pronto, resolvido.

Mas e se não fosse um erro? Expor pessoas nas redes sociais tornou-se um hábito nos últimos anos. É uma forma de projetar a imagem de justiceiro ou vítima para plateias online, ambas comprovadamente recompensadoras no clima sociopolítico atual. Muito embora tenhamos sim casos de pessoas que finalmente tem a coragem de denunciar algum mal que sofreram diretamente ou testemunharam de alguma forma, é impossível gerar um ambiente de punição pública sem algumas pessoas aproveitarem para criar “bruxas” nos desafetos. Somos falhos.

Como Mel Lisboa disse na sua mensagem para a professora: é 2020. E do jeito que as coisas estão, especialmente na internet, não é difícil imaginar que alguém exponha outro por “pensamento errado” na rede social já prevendo benefícios pessoais pelo ato. Há uma turba enfurecida 24 horas por dia com tochas na mão esperando pelas próximas acusações, e nada alegra mais essa turba que um bom e velho linchamento. Se você entregar alguém para o sacrifício, é elogiado por seus pares e ainda tem sua função social validada. E talvez mais importante: quem está acusando toma a iniciativa e evitar ser acusado primeiro, uma questão de segurança.

O ser humano se junta para apedrejar párias há milênios, com ou sem um julgamento isento: é evidente que tem algo agradável em linchar, ou como se diz hoje, cancelar o outro. Os adeptos da prática dizem que é o senso de justiça, muito embora não façam questão de julgamento.

Eu não tenho provas que Mel Lisboa queria que a pessoa que expôs fosse apedrejada, e nem acho razoável acreditar que ela tenha feito isso com o objetivo de destruir a vida alheia, mas aceitou o risco disso para fazer parte do grupo de acusadores online. Havia sim um benefício. E se havia um benefício, será que podemos equiparar com outros erros cometidos por ignorância, falha de cálculo ou distração? Não havia uma intenção de expor a pessoa e gerar valor na própria imagem por isso?

Errar é humano, explorar o outro também. Para o primeiro é saudável exercer uma tolerância maior, mas para o segundo… aí eu já não acredito que um pedido de desculpas demonstre uma evolução. Você não errou, só foi pego. E o interessante é que nem Mel nem boa parte da lacrosfera que se voltou contra ela parecem entender a questão central aqui. Segundo esse povo, deveria ter falado em particular com a mulher. Mas, vamos fazer um exercício de imaginação aqui: e se fosse um professor homem? Vocês realmente acham que a polêmica de expor alguém existiria? Mel Lisboa esqueceu que nesse caso, nesse mundo paralelo das redes sociais, expor uma mulher desconhecida é fogo amigo.

O sistema de cancelamento funciona porque escolhe muito bem seus alvos: homem branco pode sempre, se for gay, só se for rico, se for negro quase nunca; se for mulher tem que ser branca e rica, se for gay quase nunca e se for negra deixa pra lá. É o bizarro sistema de castas da lacração em funcionamento, há uma ordem no caos de jogar a próxima oferenda na fogueira da “justiça social”. Como o suposto crime da professora era muito leve, só mesmo um homem branco poderia ser punido por isso. A cultura do cancelamento traz muita alegria para grupos sem nenhum poder na vida real, muita gente que só existe na rede social e só sente que tem algum valor na vida quando participa de linchamento com 280 caracteres ou menos. A pior coisa que pode acontecer para essa gente é que alguém possa olhar para ela e gritar “bruxa”! Isso não pode acontecer: há uma ordem e ela não pode ser quebrada.

Então, no final das contas, existe um erro sim: o erro de Mel Lisboa de não ter percebido que não ia colar expor uma mulher que provavelmente não é rica o suficiente para ser cancelada. É nisso que ela vai pensar enquanto “aprende” longe das redes sociais. A escrotidão de explorar outro ser humano jogando-o aos linchadores para ganhar umas curtidas a mais não foi mencionada em momento algum. Porque o ambiente cultural atual permite essa falha de caráter grotesca, aliás, a incentiva. Não tem o que desculpar, a escrotidão é intencional e vai ser repetida mil outras vezes, com ela e com todos esses outros influencers.

Gente sem ideologia, papagaios repetindo coisas que não entendem. Celebridades é um grupo composto desproporcionalmente por narcisistas que jogam a ética pela janela quando percebem que podem ganhar mais atenção e validação externa. Não aprendem nada porque não sabiam nada para começo de conversa. São quase todos como a Sara Winter, se o ambiente cultural mudar, vão fazer saudação nazista se der mais atenção e contratos mais lucrativos. E pior, eles influenciam milhares de pessoas por aí. Quem participa de cultura de cancelamento não é necessariamente uma pessoa ruim, mas não pensa sozinho, só dança a coreografia da música que está tocando no momento.

Não adianta pedir desculpas pelo o que você vai continuar fazendo.

Para dizer que rede social foi a pior invenção da humanidade, para dizer que se fosse um professor homem já estava demitido, ou mesmo para dizer preferia ter lido sobre coronavírus de novo: somir@desfavor.com


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