Usinas de medo?

Com uma guerra acontecendo ao redor de dois países que usam energia nuclear, um deles famoso por abrigar o maior acidente da história, Sally e Somir começam a pensar nas consequências, mas emitem opiniões diferentes. Os impopulares nos contaminam.

Tema de hoje: as usinas nucleares são um fator de risco nessa guerra?

SOMIR

Não. Não porque usinas nucleares não geram riscos, mas porque para chegar no ponto de elas serem o problema, custa e custa muito. Desde o acidente em Chernobyl o mundo entrou em uma histeria injustificável com a energia nuclear. Já tínhamos na mão uma forma eficiente, econômica e surpreendentemente sustentável de gerar energia, mas a imensa incompetência dos soviéticos sujou a imagem das usinas nucleares.

Para quem não sabe, usinas nucleares usam elementos radioativos para esquentar água e girar turbinas. Esses elementos radioativos ficam isolados do ambiente, e só o calor que geram que realmente é trocado com a água. Resumindo, você produz energia elétrica como uma usina de carvão ou gás produzem, mas a única coisa que sai pela chaminé é vapor de água.

Sim, quando os elementos radioativos deixam de funcionar para gerar o calor suficiente, eles precisam ser descartados. E isso exige procedimentos especiais para não deixar a radiação contaminar o ambiente, por isso esses detritos nucleares são fechados em barris e isolados em câmaras de concreto e chumbo debaixo da terra, a serem mantidos por séculos. Claro que como estamos falando de produção de energia em escala industrial, não estamos falando de apenas algumas gramas, mas também é importante entender que não é tanta coisa assim.

O mundo é um lugar muito grande. Grande o suficiente para termos toda nossa energia providenciada por usinas nucleares e ainda sim não ter nenhum depósito de detritos radioativos sequer perto de centros populacionais, ou mesmo ambientes com alguma biodiversidade. Nenhuma das crises nucleares que realmente assustaram a humanidade teve relação com os restos do funcionamento dessas usinas.

O perigo existe, é claro, mas é um perigo relativo: se alguma coisa der muito errado durante os ciclos de aquecimento causados pelo combustível nuclear, existe o risco do derretimento do núcleo. Foi o que aconteceu em Chernobyl, mas para todo mundo que estudou minimamente o assunto (ou viu a série), fica claro como foi uma sequência de falhas humanas que causou o problema, especialmente os erros humanos de tentar abafar o caso do governo soviético. Se não tivessem tentado esconder o problema com tanto afinco, a coisa não teria ficado tão horrível.

Tanto que vimos outro problema sério em Fukushima, no Japão, e as consequências foram bem menores. Precisou de um tsunami monstruoso para criar problemas para a usina, e no final das contas o estrago foi bem localizado. Achavam que ia contaminar o mundo todo, mas existiam mecanismos de proteção. Não eram os ideais, com certeza, mas fora uma zona de exclusão, a vida no Japão continua normalmente.

E sim, você pode estar dizendo que ter uma zona de exclusão já é problema o suficiente, mas novamente você está subestimando o tamanho deste mundo. O pior acidente de todos os tempos criou uma zona de exclusão de milhares de quilômetros quadrados, mas mesmo assim tem duas capitais de países bem próximas (Ucrânia e Belarus), e a vida seguiu. Precisaria de milhões de Chernobyls ao redor do mundo para começar a dar problema de espaço contaminado no mundo.

E considerando que 10% da energia mundial vem de usinas nucleares e que mais de 440 reatores estão em funcionamento atualmente, podemos calcular que a chance de algo dar errado é minúscula. Toda vez que aconteceu foi falha humana gravíssima (daquelas que precisa de um comitê de gente fazendo besteira uma atrás da outra) ou desastre natural de proporções aterrorizantes para começar a ficar perigoso. Se fosse pra falar de desastre, usina hidroelétrica também é um perigo! Se estoura uma barragem das maiores, milhares morrem e milhões ficam sem casa.

Eu não acredito que as usinas nucleares próximas da guerra sejam muito mais perigosas agora do que já eram antes. E antes, estatisticamente, não eram perigosas. O mundo vive uma fase de histeria antinuclear causada por gente que não entende patavinas de energia nuclear. Energia solar e eólica não dá conta de resolver nossos problemas de energia no curto prazo, países que começaram a desativar suas usinas nucleares estão enfrentando problemas com a instabilidade inerente dessas formas consideradas mais sustentáveis e ligando termoelétricas poluentes para compensar.

O medo do desconhecido não pode ser motivação para atrapalhar o progresso tecnológico humano. Os desastres anteriores foram aprendizado, depois de Chernobyl nunca mais aconteceu um problema parecido porque todo mundo melhorou os protocolos de segurança. Depois de Fukushima vai acontecer a mesma coisa na proteção contra desastres naturais. Toda tecnologia tem riscos, aprendemos com os problemas e encontramos soluções.

Energia nuclear era a humanidade resolvendo o aquecimento global antes mesmo de se preocupar com ele, mas como políticos perceberam que era popular gerar histeria no povão dos países que usam essa alternativa, todo mundo começou a ficar com muito mais medo dessas usinas do que realmente deveria. Tem uma fuckin’ usina nuclear no fuckin’ Rio de Janeiro! Se fosse esse perigo todo, você já estaria morto. Se cariocas conseguem não explodir uma, é porque não é esse terror todo, né?

Usina nuclear é uma chaleira gigante, não é uma bomba esperando para explodir. Bombas atômicas usam tecnologia diferente, o que serve para explodir não serve para gerar energia. É tipo álcool de limpar mão e álcool de acender fogo. A concentração do combustível nuclear da usina e a forma como é usado não vai criar um inverno nuclear no planeta. Se der MUITO errado vai criar uma área de exclusão e a vida no planeta segue como se nada. O pior que acontece nessa guerra é um bando de soldados russos ou ucranianos sendo irradiados localmente. Não é uma preocupação global. Não deixe o lobby dos histéricos contrários à energia atômica influenciarem sua análise sobre o risco de usinas nucleares numa guerra. Se ela estiver desligada, ainda por cima… o risco é basicamente nulo até mesmo pra quem estiver dentro dela.

Preocupem-se com as bombas, não com as usinas. Usina é progresso.

Para dizer que estamos muito energéticos, para dizer que é contra macaco pelado mexendo com fissão e fusão, ou mesmo para dizer que torce pelo caos mesmo: somir@desfavor.com

SALLY

Um tema que vem afligindo muitas pessoas pelo mundo: as usinas nucleares são um fator de perigo que merecem preocupação nesta guerra?

Semana passada acordamos com a maior usina nuclear da Europa, localizada na Ucrânia, pegando fogo. O aviso ucraniano foi curto e grosso: se ela explodisse, seria dez vezes pior do que Chernobyl. Talvez, quem sabe, seja hora de tocar nesse tema, não é mesmo?

As pessoas se acalmaram falando “Não vai acontecer nada com usina nuclear, a Rússia não tem interesse em fazer isso, pois a radiação afetaria a eles diretamente”. Racionalmente, faz sentido, afinal, a Rússia fica lá na esquina. Mas, ainda assim, eu acho que usinas nucleares representam um risco nessa guerra, não pela intenção russa em destruí-las, mas por uma frase que vocês estão muito acostumados a me ver falar: “Russo é brasileiro da neve”.

Eu acho que sim pode acontecer um acidente por incompetência, descuido, excesso de confiança ou bebedeira. Se você olhar para a história dos países envolvidos verá que muitas merdas em tempos de guerra aconteceram por esses motivos.

Lá nos primórdios, no embrião da Rússia/Ucrânia, quando os primeiros eslavos fundaram uma cidade no local chamada Kievan Rus (que deu origem a ambos os povos), acabaram invadidos por mongóis por terem bebidos demais para comemorar que haviam repelido o inimigo: de tão bêbados acabaram, por engano, abrindo os portões da cidade e permitindo que o inimigo entre. Desde então, sucessivas cagadas de guerra foram feitas por tropas bêbadas.

Não é um fator isolado. Em toda a história desses países a bebida por diversas vezes representou sérios problemas. Por sinal, de tanto dar merda por causa de soldado bêbado, chegou-se a instituir um Lei Seca em tempos de guerra, que, obviamente, não resolveu o problema.

Hoje é inverno na região do conflito. O exército russo não é exatamente preocupado com a boa nutrição dos soldados. Não seria estranho que todos estejam bebendo para se esquentar. Bebendo com pouca comida no estômago. Além disso, soldado russo não é exatamente um Nobel da Física ou da Química, são russos médios, que são muito parecidos com o brasileiro médio.

Outro fator importante: a maioria das pessoas que está ali não quer estar ali. Rússia e Ucrânia são nações irmãs, a maioria dos russos tem algum parente na Ucrânia e vice-versa. Apesar da massiva propaganda de guerra do Putin, não é muito confortável declarar guerra contra seus “irmãos”. Muita gente está indo por ser forçada a ir, mas não acha muita graça no que tem que fazer.

Quando você se obriga a estar em um lugar que não quer, quando você se obriga a fazer algo que não quer, no geral, o resultado não é bom. Ou dá merda, ou você faz merda. Sabotagem é um processo inconsciente e ardiloso, eu não sei que tipo de consequência pode ter um exército onde boa parte das pessoas está indo contrariada.

E tem a pura e simples burrice humana, nunca podemos subestimá-la. Um soldado Zé Cu que quer tirar uma selfie fingindo que aperta um botão e acaba realmente esbarrando nele ou qualquer coisa do tipo bastam. Eu sei que usinas nucleares tem muitos mecanismos de segurança e contenção, pensando não apenas em guerra, mas também na imbecilidade humana mas, não acho que sejam suficiente para prevenir por completo um acidente nuclear, tanto é que já aconteceu antes.

Se eu acho que vai ter um acidente nuclear? Não. Não seria minha primeira aposta. As chances de não ter nada são muito maiores. Mas não é algo que eu descarte. Pode acontecer. E a mera possibilidade me preocupa, pois com radiação não se brinca. A radiação de Chernobyl cruzou o oceano e chegou do outro lado do mundo. Afetou alimentos, animais, pessoas. E não tinha guerra, assim que o acidente aconteceu, todo mundo correu para resolver.

Então, sim, usinas nucleares são um motivo de preocupação nesta guerra, não pela probabilidade, pois, como eu disse, é mais provável que nada aconteça, mas pela severidade de um eventual acidente: se acontecer, pode afetar o mundo todo e pode ser algo que demandará anos para recuperação.

Quando pensamos em riscos, em ataques, em danos, nossas principais razões são ficar e lutar ou fugir e procurar um esconderijo. Nada disso funciona contra radiação. Contra radiação não podemos fazer basicamente nada, pois ainda que a gente se vista de chumbo e não permita que ela entre no nosso organismo, ela mata ou contamina tudo que comemos, o ar que respiramos e a água que bebemos.

Eu não vou entrar em detalhes do que pode acontecer se houver um acidente nuclear grave, pois seria assustador e gratuito. Se acontecer, ainda dá tempo de vir aqui e soltar um texto sobre para todo mundo tomar algumas medidas para minimizar os danos. Mas não são consequências bonitas. Um evento catastrófico desse porte com 1% de chances e acontecer me assusta mais do que um evento pequeno com 90% de chances de acontecer.

Então, não tem que perder noite de sono com isso pois, como eu disse, é improvável que aconteça, mas dá para classificar como uma preocupação. “Ain Sally mas se for assim eu não vou dormir pois tem usina nuclear em outro país que foi construída por cima de falha geológica e a qualquer momento pode acontecer um terremoto”. Se você acha que a possibilidade de um soldado burro, bêbado e contrariado fazer uma cagada é a mesma de um terremoto, você deveria rever sua noção de probabilidade.

Repito: minha intenção não é que ninguém sinta medo. Mas, não dá para mentir, chance existe sim e, mesmo ela sendo pequena, faz do assunto um motivo de preocupação.

Sobre a usina que está pegando fogo, ela tem muitos mecanismos de proteção e dificilmente um incêndio vá fazer ela explodir. São usinas construídas em épocas de conflito, preparadas para suportar bombas e ataques. Tenham medo é da imbecilidade humana mesmo.

Para dizer que tem usina nuclear no Rio de Janeiro por isso nada te assusta, para dizer que seria um belo plot twist que a Rússia acabe toda contaminada (o povo russo não tem culpa) ou ainda para dizer que não está nem aí: sally@desfavor.com

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Comments (10)

  • De acordo com a BBC britânica, os funcionários de Chernobyl estão trabalhando há 12 dias (a notícia é de ontem, então agora são 13), sem poder deixar a usina, sob stress e com acesso limitado a comida e medicamentos. Não duvidaria que talvez estejam sob privação de sono também. Apesar do acidente, Chernobyl nunca deixou de ter um pessoal responsável pela manutenção e alguns reatores ainda funcionaram por anos depois do desastre – o último foi desligado em 2000. Os riscos não são tão grandes quanto seriam se isso acontecesse em alguma usina com reatores ativos, mas a captura de Zaporizhzhya não deve estar oferecendo condições muito diferentes aos trabalhadores de lá.

    Gostaria que algum especialista em física/química comentasse acerca do risco real de se ter trabalhadores estressados e sob más condições em usinas nucleares, porque o cenário não parece ter riscos nulos mais.

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    • Deve ser um risco real. Se a gente parar para pensar em todos os fatores que estão se empilhando para um acidente, realmente preocupa.

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    • Olha, tem muito otimista dizendo que essas várias imagens perigosas que estão aparecendo são montagens, são de guerras antigas, etc. Eu não me atrevo a duvidar da estupidez humana. Com ou sem imagem comprovando, eu tendo a acreditar que tem uma parte dos envolvidos sendo bem idiota neste exato momento.

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  • Nessa discussão eu quero entrar. O Somir partiu do pressuposto que a Rússia não ia invadir a Ucrânia há algumas semanas. Li o texto dele, compreendi o argumento, e achei que ele estava errado na previsão. O erro foi julgar as ações do Putin de acordo com uma lógica fria (custo muito alto, pequeno ou nenhum valor em troca). Putin têm tomado decisões que nada tem a ver com lógica fria. É puro rancor histórico, beirando a perda de contato com a realidade (provavelmente ele está mentalmente instável). As operações Russas não são efeito de um ato impulsivo, mas um ato planejado e colocado em execução aos poucos, desde os primeiros ataques cibernéticos na Estonia em 2008, passando pela invasão da Georgia, e mais recentemente a tomada da Crimeia. Ele vem se preparando aos poucos, e agora está agindo de modo total. Os líderes ocidentais viram nas ações de Putin o mesmo que o Somir viu. Exceto os Estados Unidos, que tiveram informações de inteligência muito precisas, e divulgaram massivamente para os meios de comunicação. A Russia não está simplesmente ameaçando, ela está alertando. Putin tem atuado de forma a avisar antecipadamente o que vai fazer para ver a reação da Europa, EUA, NATO. E a forma como o fazem é a mais sinistra possível: eles acusam os adversários de algo que eles estão para fazer. Faz parte da campanha de desinformação que montaram. Alertaram sobre o “genocídio” na Ucrânia, e agora de fato há um genocídio (perpetrado por eles). Alertaram sobre uma ameaça da Ucrânia contra a Russia, e agora estão exterminando o país e seus cidadãos. E na última semana começaram a alertar sobre uma ameaça nuclear por parte da Ucrânia e do Ocidente. Eles estão preparando o terreno para justificar o uso de armas atômicas táticas (de menor poderio de destruição). O uso desse tipo de bomba levaria aos seguintes possíveis cenários: 1) Rendição incondicional da Ucrânia, 2) alerta máximo para os EUA e Europa não se envolverem nunca mais nos assuntos bélicos Russos, 3) retração do poder percebido dos EUA, Europa, NATO, 4) acabaria com a entrada da Finlândia e Suécia na NATO, 5) serviria como justificativa para EUA e Europa “negociarem” com a Russia a retirada das restrições e sanções com o argumento de evitar uma guerra mundial nuclear. A guerra na Ucrânia hoje não pode acabar para o Putin. Se acabar, ele estará ferrado. Ele tem chance de terminar o serviço na Ucrânia e subir pra Estonia, Latvia, Lituania, terminando de pegar esses três países para si. Mas para evitar o envolvimento dos EUA e Europa, precisaria de fato de um motivo muito, muito grave. Seria o fim da NATO, paradoxalmente criada para evitar a expansão Russa e sua agressão à países aliados do atlântico norte. O Putin é um rato carniceiro acuado e perigoso, e que precisará fazer atos extremos para sair da cova que cavou com as mãos. Só a saída nuclear dará a ele tudo o que quer, sabendo que provavelmente não terá retaliação dos covardes da Europa e dos EUA. Infelizmente, eu acho que o xadrez sangrento é esse. Vamos esperar pra ver, mas minha sugestão é já ir estocando iodeto de potássio em casa. Já tá difícil de achar na Bélgica, e acho que vai ser semelhante ao efeito do álcool em gel e da N95: quando a treta tava na China, ninguém procurou se precaver. Quando chegou no lado de cá do mundo, não tinha mais estoque. Iodeto de potássio é o novo álcool em gel.

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    • Ok mas… A pergunta não foi se o Putin usaria armas nucleares. A pergunta foi se devemos ter medo que o dano a uma usina nuclear ucraniana cause um acidente.

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