Magnetorrecepção

A Terra possui um campo magnético que afeta não só o planeta, mas todos os seres que vivem nele – inclusive a nós, seres humanos. Desfavor Explica: Magnetorrecepção.

Vamos começar pelo básico: a Terra, como todo objeto, possui um campo magnético (ninguém discute). Esse campo magnético afeta tudo aquilo que está em contato com esse objeto (ninguém discute). A intensidade desse magnetismo é capaz, por exemplo, de afetar animais (ninguém discute).

Um pombo-correio, não importa onde esteja, sempre saberá voltar para sua casa, guiando-se pelo campo magnético do planeta (se você colocar um pequeno imã nele, ele se perde).

Vacas e cervos se alinham ao campo magnético da Terra quando comem. Animais migratórios como aves, tartarugas, tubarões, abelhas, baleias, salmões e outros se orientam pelo magnetismo do planeta. Quando, de alguma forma ele sofre alguma anomalia, eles se perdem.

Animais que não migram também são afetados: minhocas, caracóis, rãs, ratos, toupeiras e gado, por exemplo. Existem até estudos afirmando que cachorros se alinham com campos magnéticos quando urinam ou defecam (ok, essa informação foi bizarra demais, merece que eu deixe o estudo, pois é inacreditável) Até plantas são afetadas.

Já que afeta a todo ser vivo que existe no planeta, é razoável cogitar que esse campo magnético afete os seres humanos de alguma forma (e é aí que existem controvérsias). Não seriamos os únicos alecrins dourados imunes a ele, não é mesmo? Pois bem, até poucos anos, não havia resposta para esta pergunta. Hoje ela já existe, ainda que insuficiente.

Vamos entender de onde vem, para depois tentar entender como afeta. O planeta Terra é composto por várias camadas. A parte central (o “miolo”) é sólida. Em volta desse miolo sólido existe uma camada líquida (núcleo externo) composta por ferro e níquel derretidos a altíssima temperatura. Por cima dessa camada líquida está uma camada sólida (manto). Somos basicamente um pedaço de bolo boiando no café.

Por estar em uma temperatura elevada, a camada líquida acaba soltando gases para a camada que está acima dela. Isso faz com que a camada líquida se mova: a pressão dos gases empurra esse líquido constantemente. E é daí que vem o campo magnético da Terra: o núcleo líquido de ferro que se movimenta cria correntes elétricas, enquanto a rotação da Terra em seu próprio eixo faz com que essas correntes gerem um campo magnético gigante.

Essa explicação ultra resumida é para estabelecer que o campo magnético da Terra é uma constatação científica, não uma suposição holística, mística ou conspiratória. O campo magnético é real, existe e é mensurável: na superfície terrestre, ele fica entre 30 e 60 microtesla. Isso quer dizer que, na superfície, ele é muito fraco, quase imperceptível, cerca de 100 vezes mais fraco do que um ímã de geladeira. Por isso, durante muito tempo se julgou que ele não teria força suficiente para afetar o grandioso ser humano. Pois bem, estavam errados.

Esse campo magnético é vital para manter a vida no planeta, para manter a nossa atmosfera habitável. Sem ele, provavelmente não teríamos tanto oxigênio à disposição e não teríamos proteção contra raios solares nocivos. Mas, parece que esse campo magnético afeta a vida na Terra de uma forma muito maior do que proporcionando um ambiente favorável.

Mesmo sendo imperceptível para a maior parte dos humanos, o campo magnético do planeta pode afetar o comportamento de todos os seres vivos. Não para prever o futuro, ler pensamentos ou mover objetos. Nada nesse sentido. Funcionaria como uma espécie de “bússola interna”, que pode influenciar direta ou indiretamente nosso comportamento.

É cientificamente comprovado que o cérebro humano é suscetível ao magnetismo. Isso significa que você pode trazer a pessoa amada em três dias com imãs? Claro que não, estamos falando de reações físicas. Se você gerar um campo magnético artificial em volta da cabeça de uma pessoa, ele vai interferir na atividade elétrica dos neurônios.

A grande pergunta é: como um campo magnético tão sutil como o do planeta Terra, interfere ou pode interferir nos seres humanos, sem que eles percebam?

Durante muito tempo essa pergunta ficou sem resposta, mas, nos últimos anos surgiram evidências de que sim, seres humanos também podem detectar campos magnéticos fracos e de alguma forma ter seu comportamento influenciado por eles, sem sequer perceber.

E isso ficou conhecido popularmente como “sexto sentido magnético”, que teria sido a escolha mais apropriada de título para este texto, mas não foi usado para não passar a ideia de algo pseudocientífico e paranormal. Para conseguir um público mais alinhado com nosso texto, que não tem resposta mágica, mandinga ou misticismo, optamos pelo nome difícil: Magnetorrecepção.

Magnetorrecepção é o nome que se dá à influência que o campo magnético da Terra exerce sobre seres humanos. E sim, já está provado que ele exerce alguma influência, mesmo que ainda não se saiba muito bem como isso funciona. Talvez a vida fique melhor, mais simples ou mais fácil se a gente descobrir como usar essa bússola interna.

Entre os muitos estudos publicados sobre o assunto, o mais esclarecedor é o do Instituto de Tecnologia da Califórnia- Caltech (o autor é Joseph Kirschvink) publicado na revista eNeuro, onde é possível constatar que o cérebro humano responde de forma inconsciente a oscilações (ainda que muito sutis) do campo magnético da Terra.

Nesse estudo, cientistas colocaram voluntários em uma cabine totalmente isolada desse campo magnético (geomagnetismo) e começaram a monitorar as suas ondas cerebrais. Depois, simularam campos magnéticos bem fracos (similares aos da Terra) e suas oscilações, ainda monitorando os voluntários.

Ao simular esses campos magnéticos, eles constataram alterações: os campos magnéticos da Terra podem alterar as ondas cerebrais alfa. Não sabe o que isso significa? Tudo bem, os cientistas também não tem certeza. O cérebro humano ainda é pouco compreendido. Mas que afeta, isso afeta. E vamos tentar explicar da melhor forma possível como.

Mas antes, uma ressalva. Este texto tem duas informações importantes: 1) somos afetados por campos eletromagnéticos e 2) quem te disser que compreende totalmente como isso funciona e pode manipular isso de alguma forma para te trazer algum benefício é um tremendo de um estelionatário. O mais perto que se chegou de compreender esse fenômeno é entender que ele afeta as ondas alfa do cérebro.

Nosso cérebro produz cinco tipos de ondas elétricas durante seu funcionamento: alfa, delta, theta, beta e gama. A função das ondas alfa ainda não é muito bem compreendida. Sabemos que elas aumentam quando estamos concentrados, com os olhos fechados, relaxando ou meditando.

Há indícios de que elas estão relacionadas à forma como lidamos com estresse e ansiedade. Ao que tudo indica, elas funcionam como uma espécie de mecanismo de inibição do cérebro, provavelmente voltadas para suprimir atividades irrelevantes e evitar que percamos a concentração em algo importante. Baixos níveis de ondas alfa estão associados a ansiedade, estresse e insônia.

Pois bem, as oscilações magnéticas interrompiam as ondas alfa. Cientistas acreditam que o cérebro possa se confundir e interpretar essas oscilações como como um eventual movimento do corpo, fazendo com que ele interrompa as ondas alfa de seu estado de relaxamento e colocando-o em estado de alerta.

Isso abre uma porta para que se cogite se o aumento na oscilação magnética da Terra poderia, de alguma forma, gerar um aumento no estresse, ansiedade e insônia dos seres humanos. Ambos estão acontecendo e parecem estar relacionados, de alguma forma ainda não bem compreendida.

Atualmente, temos uma grande incidência de estresse, ansiedade e insônia na humanidade e também estamos passando por um período de oscilação e mudança no magnetismo da Terra. Existem teorias que dizem que estes fatores estão diretamente relacionados.

Neste momento, há duas coisas diferentes acontecendo no planeta: 1) o campo magnético da Terra está se deslocando e 2) o campo magnético da Terra está ficando mais fraco. E ambas têm potencial para afetar o cérebro humano. Não sabemos como cada uma delas afeta a humanos, mas seria muito plausível que gerem algum efeito coletivo.

Desde o começo do século 20, o polo norte magnético está “se deslocando” (indo do Canadá em direção à Sibéria). Nada de novo, é um processo natural, que já aconteceu antes em diferentes períodos da história da Terra. O ponto é que agora esse processo está mais acelerado do que o normal. Mudanças mais rápidas costumam impactar mais. E, além de se deslocar, o campo geomagnético também está ficando mais fraco: vem perdendo cerca de 5% da intensidade a cada século. É óbvio que em algum momento isso seria sentido.

A junção destes dois fenômenos é um processo que costuma acontecer antes de uma “inversão dos polos magnéticos” (papo técnico: Evento de Laschamps), um evento bastante desagradável para os habitantes do planeta, que muitos acreditam estar em curso. Da última vez em que aconteceu, os neandertais sumiram do mapa e metade do planeta congelou.

Mas, não se preocupe, estamos falando de um fenômeno a longo prazo. Você não vai viver para ver essa inversão dos polos magnéticos (e fique feliz por isso). Mas, pode ser que mesmo sem experimentar essa inversão, todos os seres humanos sintam, em maior ou menor grau, alguma consequência do início do processo, ou seja, do deslocamento ou da perda de intensidade do campo geomagnético.

Uma pista de como isso pode nos afetar (e também uma pista de como pode nos ajudar) está no nosso cérebro: recentemente se descobriu que o cérebro humano possui cristais de magnetita, uma substância muito sensível a campos magnéticos (o termo “magnético” vem daí). Então, sabemos que nossa bússola interna está no cérebro. E quanto mais “fundo” você vai (mais para o centro do cérebro), mais magnetita ele possui, ou seja, mais sensível à campos magnéticos ele é.

Nada mais coerente que um cérebro magnético sinta alterações no campo magnético, não é mesmo? Isso abre uma porta enorme, ainda que não se saiba bem como: se o cérebro reage a magnetismo, talvez uma série de tratamentos e terapias com o uso de ímãs seja possível.

Por exemplo, estudos indicam ainda que cérebros de pessoas com esquizofrenia possuem uma quantidade muito maior de cristais de magnetita, ou seja, é muito mais sensível a campos magnéticos. Talvez isso explique o motivo pelo qual escutam vozes ou eventualmente ficam tão transtornados. Talvez seja possível, um dia, criar um campo eletromagnético artificial mais favorável, que melhore a qualidade de vida dessas pessoas.

E não é apenas a alteração natural do campo eletromagnético que pode afetar o ser humano. Qualquer fenômeno externo que impacte no magnetismo do planeta também pode respingar nas pessoas. E eles existem. Fenômenos naturais, já vistos e estudados, mas pouco divulgados: aquele tipo de coisa que quando acontece todo mundo coloca a culpa no Bill Gates. Entre eles, o que talvez exerça mais influência é a tempestade solar.

Além de luz, o sol também produz vento solar, um conjunto de partículas eletricamente carregadas que se deslocam em uma velocidade muito rápida (quase 3 milhões de quilômetros por hora). Obviamente, elas chegam até a Terra, mas costumam ser barradas, em sua maioria, pelo campo magnético do planeta – ao menos até agora.

Mas, mesmo assim, o impacto contra o campo magnético pode acabar influenciando quem vive no planeta. Não se sabe quanto nem como, mas seria algo bem bacana de pesquisar. Talvez isso possa explicar alguns desconfortos modernos experimentados por um grande grupo de pessoas.

Pode acontecer desse vento solar ficar um pouco mais forte, quando ocorrem grandes explosões no sol. Quando eles são intensificados por essas explosões, recebem o nome de “tempestade solares”. Como são mais fortes do que o vento solar regular, o campo magnético da Terra não consegue nos proteger totalmente contra elas. Obviamente o impacto delas no campo magnético gera um efeito ainda maior nos seres vivos do planeta.

Se for uma tempestade solar muito forte, uma parte acaba “entrando e bagunçando” o campo magnético da Terra. O resultado pode ser sentido claramente em alguns animais (tempestades solares fazem, por exemplo, baleias ficarem desnorteadas e encalharem) mas é bem provável que afetem também o ser humano. Novamente, não sabemos como, mas, cientes de que acontece, cada um pode monitorar a si mesmo e tentar entender eventuais alterações.

Faz tempo que não temos uma tempestade solar grande por aqui. A última grande tempestade solar ocorreu em 1859 e ficou conhecida como Evento de Carrington: estragou telégrafos pelos EUA e Europa. Infelizmente não havia tecnologia nem rapidez na comunicação para compilar sintomas que tenham sido comuns aos seres humanos afetados, então, não sabemos o que pode causar.

E, para terminar, entender melhor sobre o campo magnético da Terra não é apenas uma questão importante para a saúde humana, é também fundamental para a sociedade.

O que aconteceria se, com o campo magnético cada vez mais enfraquecido, chegasse uma tempestade solar? Até que ponto afetaria tudo que é eletrônico? Como o ser humano agiria se a internet parasse de funcionar por dias, meses ou anos? Como ficariam os sistemas bancários, o dinheiro e todos os registros de dados sem internet? Não é impossível de acontecer. Estamos preparados para isso?

Eu torço para que muitas pessoas estejam estudando sobre o assunto, pois, além de ser informação muito útil e interessante, também informação deturpada diariamente por coaches, místicos e esotéricos de plantão. Quem tiver teorias, por favor compartilhe nos comentários.

Para dizer que agora entende o motivo do seu cão rodar tanto antes de cagar, para dizer que campo magnético é uma mentira inventada pelo Bill Gates para vender ímãs ou ainda para dizer que em vez de pedir pelo meteoro vai se atualizar e passar a pedir pela tempestade solar: sally@desfavor.com

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Comments (2)

  • Não sabia praticamente nada sobre essa influência que o campo magnético do planeta Terra tem nas pessoas e muito que eu li me surpreendeu. Gostei de ver essas informações compiladas aqui. Só não vou passar a pedir por uma tempestade solar porque acho que mesmo assim um meteoro ainda chegaria antes. E a resposta pra pergunta “Como o ser humano agiria se a internet parasse de funcionar por dias, meses ou anos?” é simples: surtaria como um viciado em crise abstinência.

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    • Não se preocupe, nem os cientistas que estudam isso sabem muita coisa sobre a influência que o campo magnético do planeta Terra tem nas pessoas! hahahaha
      Mas é um assunto legal de se saber que existe. Talvez muita gente, ao se observar, perceba algo.

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