ALELUIA!Você já se arrependeu? Eu também não, mas aparentemente ainda temos tempo. Dia 21 de maio deste ano começa o Julgamento! Gezuiz descerá à Terra com seu caderninho de anotações divino e vai decidir se você foi um bom ou mau menino. Ou menina. Mas se eu fosse mulher não teria muitas esperanças, a religião cristã tende a jogar a culpa de tudo nelas.

E se você está achando que eu sou maluco, devo te informar que não sou apenas eu que estou dizendo, a informação é quente e foi retirada diretamente da Bíblia através de complexos cálculos matemáticos que não fazem o menor sentido. Pelo menos é o que diz um grupo de lunáticos americanos que cravou a data sem a menor sombra de dúvida. E isso gerou uma razoável atenção não só de fanáticos como da mídia sem nada melhor para comentar.

Se você quiser se divertir, aqui vai o link que te explica melhor. Mas eu te aconselho a fazer como eu e esperar para vê-la dia 22. Vai ser mais engraçado.

Evidente que eu não vou sequer me dar ao trabalho de discutir os buracos na teoria, seria bater palma para maluco dançar. Mas esses assuntos de Dia do Julgamento e Fim do Mundo sempre rendem uma análise mais complexa sobre a fascinante habilidade humana de não fazer a porra do menor sentido.

Tem muita gente nesse mundo que realmente acredita que um dia desses sua divindade preferida vai fazer uma entrada triunfal pelos céus para punir os infiéis e premiar as ovelhinhas obedientes. E não estou falando apenas de quem vai passar o dia 21 todo na expectativa, até mesmo pessoas um pouco mais racionais (nesse caso, até um poste é mais racional) nutrem essa idéia de Dia de Julgamento.

E não é só a baboseira típica da religião, é uma das fundações dela: A TARA que o ser humano tem por ser julgado. Somos seres sociais com a noção, mesmo que inconsciente, que nossa percepção da realidade não passa de uma ilusão. De uma certa forma, o olhar externo é o que valida nossa existência. Sem a opinião alheia, você é a árvore que caiu no meio da floresta. E ninguém parece gostar da idéia de que ninguém vai ouvir o som…

A idéia de divindade observando e julgando nossas ações é o que protege a maioria absoluta da humanidade do pensamento enlouquecedor sobre o propósito da nossa existência. Talvez não seja verdade para você como indivíduo, mas para o grupo como um todo existir é ser julgado. E é muito por isso que religião demora tanto para sumir, mesmo com o aumento exponencial do conhecimento médio do ser humano. A divindade que julga é o dedo tapando o buraco na represa.

Só que a humanidade não está tão preocupada assim com questões filosóficas. Não é apenas a segurança de ter um parâmetro externo para validar sua existência, é muito mais a vontade de buscar a felicidade em forma de vantagem e recompensa (SPOILER: O sentido da vida é gostar dela.).

A pessoa acredita que esse julgamento “maior” vai favorecê-la. Ela quer ser julgada desde que seja considerada inocente. Cada maluco religioso que espera o “fim dos tempos” o faz para ser salvo enquanto outros sofrem punições horríveis. O ser que tudo pode e tudo sabe está obrigado a julgar suas criaturas de acordo com um conjunto de regras arbitrário o suficiente para ser questionado por uma criança.

Mas não é a lógica que interessa. A lógica não permitiria nem a existência de tal “juiz” para começo de conversa. O que realmente está em jogo aqui é uma razão para que um ser humano possa segregar outro. A jogada é transformar as idéias desconexas no cerne de cada religião em base de comparação entre duas ou mais pessoas.

O Dia do Julgamento é o dia em que as pessoas esperam receber uma sentença inapelável de que são melhores do que os outros. O ser humano precisa de parâmetro externo. Não basta acreditar que é melhor, alguém tem que chancelar.

A ironia aqui é que a mera expectativa de um julgamento cósmico sobre quem é bom ou ruim é de um egoísmo e crueldade que jamais teriam lugar num Paraíso. Se é essa gente que vai subir, GRAÇAS A DEUS que eu sou um dos que fica. Imagina só passar a eternidade com um bando de gente com complexo de superioridade sem nenhuma qualidade para bancá-lo?

E se eu falo de crueldade, é pela idéia de que muitos dos condenados jamais tiveram chance de se adequar às regras incoerentes pelas quais esse julgamento se pautaria. Se baixasse um ser mágico dizendo que essa existência era um teste e somente quem enxergasse além da estupidez da religião humana poderia receber a recompensa de felicidade eterna, eu ficaria furioso com ele. Seria absurdamente injusto considerando que quase todo mundo nesse planeta nasce em berço pobre e dificilmente tem acesso ao estudo. Se a pessoa nasce condenada, não é julgamento!

Aliás, é de doer que eu, ateu convicto, tenha mais fé nesse deus do que a maioria dos seus seguidores. Porque eu, mesmo aceitando sua existência por pura diversão argumentativa, o coloco num patamar de inteligência e ética incrivelmente mais elevado do que a ovelha média. Parece que as pessoas imaginam a Terra como uma espécie de cassino cósmico onde seu deus aposta utilizando almas como fichas. O Dia do Julgamento seria o momento onde ele decidiria que ganhou (ou perdeu) o suficiente e voltaria ao caixa para descontar o que conseguiu acumular.

Se o ser infalível fizer seu julgamento em QUALQUER dia que não for o que ele tiver conquistado TODAS as almas possíveis, ele não é infalível. Ou admitiu a derrota ou ficou com medo de perder o que já conquistou. Não deveria mais ser surpreendente, mas não deixa de me impressionar como esses deuses são reflexos perfeitos dos seres que os inventaram. O ser mais poderoso do universo tendo crise de insegurança e botando para foder a maior parte dos seus filhos queridos só para não dar o braço a torcer. É de uma mesquinharia e falta de caráter nauseante. Eu tenho padrões mais elevados até para escolher colegas… Ô povinho para se contentar com pouco.

Mas como seu deus é um babaca, as pessoas ganham passe livre para serem, elas mesmas, tão ou mais babacas quanto. Deus é desculpa para segregar e se sentir superior. Impossibilitados de expressar essa opinião por repressão social (falar vale mais do que agir) ou pela incapacidade de dar sustentação (sua maior qualidade é ser humilde? parabéns, você não tem qualidades… anta!), buscam refúgio na suposta concordância de um ser imaginário.

Caralho… o que foi que deu errado? A mente humana é capaz de muito mais do que uma asneira egoísta dessas.

Bom, essa foi uma pergunta retórica. Eu sei o que deu errado: A mente humana é capaz de muito mais que uma asneira egoísta dessas. A necessidade de aprovação externa está presente na maioria dos seres vivos que se reproduzem sexualmente. Um besouro também compete com seus iguais dentro de uma série de parâmetros pré-definidos para ser visto como o melhor de todos. Isso não é tão especial assim.

O que fizemos com essa necessidade é que é impressionante, e às vezes, horripilante. Criamos toda uma indústria de parâmetros de julgamento. O gorila precisa ser mais forte, o pavão precisa ser mais bonito, o pinguim precisa ser mais resiliente… Mas o ser humano cria novos parâmetros para ser julgado a cada dia que passa. O mercado comporta mais do que meia dúzia de julgamentos baseados apenas em pré-disposições genéticas.

A grande jogada é criar quantos padrões de julgamento quanto forem necessários para todo mundo poder ganhar alguma coisa. TODA a indústria de supérfluos é baseada nisso. “Você se sente uma merda? Nós criamos uma nova categoria para julgar pessoas onde você vai ser o melhor!”

É isso que vende carro esportivo, é isso que vende roupa de grife. A noção de se adequar a um conjunto de regras que te permitem ser julgado de forma mais favorável que outro ser humano. É por isso que eu digo e repito tantas vezes que publicidade te vende problemas. Cada produto que te mostram como a oitava maravilha do mundo nada mais é do que um novo conjunto de regras pelas quais você vai ser julgado. Ter o produto é ser julgado de forma favorável.

A publicidade e a religião não jogam nesse campo à toa. O que ambas desejam é fazer pessoas acreditarem que precisam convencê-las a serem inocentadas. E, Gezuiz, como o povo abraça a causa.

Por incrível que pareça, o cara que compra um carrão para se sentir mais jovem e o que vai à igreja para se salvar no Dia do Julgamento estão fazendo a mesma coisa: Falando o que juiz quer ouvir.

O julgamento é o fetiche humano mais comum. Quase qualquer atividade que envolva o conceito atrai atenção. Seres humanos definindo padrões de aceitação para outros seres humanos (seja um show de calouros com jurados ou um reality show com votação pública… é o julgamento que vende).

Um dos esquemas mais bem planejados nesse sentido (não à toa um dos mais antigos) é o que o exemplo do texto de hoje trata. Para entrar no rol de beneficiados pelo julgamento religioso, basta acreditar no que ela prega. E se quiser ser inocentado no último minuto, independentemente do crime, basta se arrepender. E muito mais do que a graça de ser salvo, é a graça de saber que outros vão ser culpados. Essa é a verdade inconveniente que poucos religiosos vão ter coragem de assumir.

Se todo mundo é especial, não tem nada demais nisso. Pode acreditar que no fundo das almas puras que esperam a salvação está o desejo de ver outros indo para o inferno sofrer pela eternidade. Esse povo que acha o máximo dizer que Jesus voltará para julgar as pessoas quer mesmo é ver o circo pegar fogo por acharem que apostaram no número certo. Igualzinho o deus apostador no qual acreditam.

Até porque se forem se concentrar nas possíveis benesses de estar do “lado certo”, a coisa começa a ficar difícil de apreciar. Num paraíso, todo mundo é feliz pela eternidade. Todos são iguais. Essa mesma humanidade que SE CONSTRUIU em volta do conceito de vender parâmetros de julgamento, contentando-se com igualdade? Faz-me rir.

E se o ser mágico que toma conta desse paraíso apelar tirando a humanidade de seus beneficiados, vai estar admitindo erro no projeto inicial. Se precisamos ficar dopados para apreciar o paraíso, que merda de paraíso é esse? Bacana mesmo é ver os outros se fodendo.

Religião depende 99% do inferno e 1% do paraíso. E no final das contas, é isso que vende. O Dia do Julgamento vai continuar chegando vez após vez, ele é ÓTIMO para os negócios.

Para fazer o seu papel nessa sociedade e julgar o meu texto de acordo com padrões que reforcem sua noção de que vai ser inocentado neste grande tribunal imaginário que é a vida: somir@desfavor.com

RBD você, hein?Adoraria me manter completamente alheio aos assuntos que “bombam, uhu” no Twitter, mas como a mídia é preguiçosa e uma pauta baseada em cliques dentro de um site é pra lá de econômica, não tem mais como escapar.

A campanha de divulgação de um jornal disfarçada de movimento social Preço Justo se baseia na utilização de um abaixo assinado para pressionar o governo a baixar os impostos de importação. Bom, os impostos de importação aqui no Brasil são realmente absurdos, não se pode negar.

Mas essa campanha é claramente uma balela. E isso fica claro pela pessoa contratada (é campanha publicitária disfarçada, pagaram sim) para ser a cara do movimento: O famoso “mamãe quero ser rebelde” Felipe Neto.

Se fosse uma idéia séria, escolheriam alguém cuja opinião tenha mais peso. Fica na cara que mais um daqueles diretores de comunicação “super descolado” pegou alguém que geraria interesse do público jovem e emprestasse aquele ar “conectado” para o produto vendido (no caso, o jornal).

Felipe Neto é superficial e previsível demais até para a MTV, e olha que essa é uma acusação séria. Chamar um babaca desses para encabeçar um movimento supostamente sério evidentemente vai jogar contra a causa. A promessa dele é levar o abaixo assinado direto para a presidente assim que alcançar um número pré-definido de adesões.

Claro, um Zé Ruela que argumenta “Preço justo já nessa porra!” vai ser recebido com honras de chefe de Estado pelos políticos nacionais. Excelente idéia!

Ei, eu também uso palavrão, mas eles não são linha argumentativa. Mas deixemos esse assunto de lado, Felipe Neto é a mesma coisa que Justin Bieber e qualquer outro fenômeno adolescente para mim: Falar mal é fazer o jogo deles.

A última informação que li foi de que o abaixo assinado (virtual: vale muuuuito, viu?) já alcançou mais de 400.000 adesões. Evidente que não vai dar em nada, a idéia original era fazer propaganda e escolheram um mané para ser porta-voz.

Mas, porra… são quase meio milhão de pessoas concordando com a idéia. Não é uma estatística de se jogar fora! (Ok, como é online, é sim… difícil provar que não foi adulterado…)

O problema aqui é tanta gente achando que a coisa é tão simples como baixar impostos e fazer todo mundo feliz. Eu também adoraria que fosse só a maldade de algumas pessoas que me impedisse de comprar os equipamentos e softwares que vivo precisando por um preço justo.

E sim, eu me coloco num patamar de necessidade superior ao das ANTAS que querem pagar 10 vezes mais por um produto por causa de uma maçã mordida impressa no verso. Enfiem seus iPads no rabo! Mesmo sem imposto algum vocês estariam pagando demais por algo, deveriam achar “super cool” desperdiçar dinheiro. Vocês merecem toda a carga tributária do mundo. (E talvez uma doença crônica “não revelada” como a que matou a Lacraia… Só eu que ri quando li?)

Os impostos brasileiros são altos porque o governo gasta demais com bobagem? Sim. Os impostos brasileiros são altos só por causa disso?

Não. Tem tudo a ver com o resultado da bagunça que o nosso país sempre foi. Na prática os impostos de importação tem a função básica de arrecadação para a máquina pública, mas também servem como medida de proteção para a frágil e tosca economia de engenho tupiniquim.

Se os produtos importados chegarem aqui pelo preço justo, a nossa economia QUEBRA e vai faltar contracheque para pagar sua prestação das compras. A fábrica chinesa tem uma série de vantagens que a brasileira não tem, como não ter que lidar com uma das legislações trabalhistas mais paralisantes do mundo. A fábrica chinesa pode enfiar dez mil produtos a um real no nosso mercado antes da brasileira conseguir produzir mil a dez reais.

E as pessoas vão comprar essencialmente o que acham a melhor relação entre custo e benefício. Entre um importado bom e barato e um nacional bom e um pouco mais caro, vai o importado! Nem os americanos, com aquela mania de patriotismo, conseguiram convencer sua população a valorizar a indústria nacional em detrimento dos importados melhores e mais baratos. E olha que por lá a campanha é bem agressiva. Ser acusado de não ser patriota por lá é quase como ser acusado de ler um livro aqui no Brasil: Queima filme.

E se você está pensando que concorrência é saudável e um influxo de produtos importados pelo preço justo faria bem a nossa economia, pense de novo. Tocar qualquer negócio no Brasil é enfrentar o mercado consumidor, os concorrentes e o governo! Somos um país muito burocrático com uma dose alarmante de corrupção e incompetência.

Não é à toa que nossa economia ainda é muito primária (índio plantar soja, índio criar gado, índio quebrar pedra, índio cavar buraco) e dependente das flutuações de mercado. O Brasil produz e vende o ferro que faz o parafuso que compramos de volta cem vezes mais caro prendendo as peças de um notebook.

Sério, o nosso modelo econômico é um tiro no pé no mundo de hoje. E não podemos ignorar que coincidentemente o maior poder de lobby em Brasília é justamente o do setor primário. Bancada ruralista, cúpula das “estatais”… Fica bem claro porque não interessa mudar o foco.

Tudo bem que em outros países a coisa não é tão melhor assim (gente burra e desonesta é o tipo da coisa que ninguém precisa importar…), mas só do concorrente gringo ter que levar uma trolha a menos no rabo para competir no mercado, ele já passa muito na frente do nosso.

E o empreendedor brasileiro leva uma das piores trolhas do mundo com burocracia, taxação e é claro, a nossa podre legislação trabalhista. Contratar é caro, burocrático e inseguro. Grandessíssimo pau no cu ter que escolher entre crescer e contratar mais funcionários, mas é assim que a banda toca por aqui.

Você vai pegar a empresa nacional (ou multinacional com filial aqui) que já leva até cansar da máquina pública e dizer para ela que vai entrar um concorrente no mercado que pode fazer tudo o que ela faz pela metade do preço? Uma década, no máximo, para emprego bom no Brasil virar sinônimo de “vendo meu corpo para turista”. Estilão Cuba.

Concordo que é uma merda perceber que o preço de um produto que você quer é 100 lá e 300 aqui, mas não existe solução simples. Se uma campanha feito a #precojusto conseguir QUALQUER resultado, vai ser um placebo do tipo redução de 5% para iPad (os playboyzinhos só se importam com isso mesmo), compensado com minúsculos reajustes nos outros trocentos de impostos que pagamos.

Nem o mais bem intencionado dos políticos brasileiros poderia endossar uma campanha oportunista dessas com expectativa de algo além de auto-promoção. Por mais que a proposta suba, vai chegar em algum especialista com poder de decisão real que vai dizer que não tem o que fazer de verdade.

Se esse país fosse um pouco menos esperto e mais inteligente, não bateria de frente com uma reforma trabalhista para nos colocar nesse milênio de uma vez por todas. Mas todo mundo quer todas as vantagens… Governo paternalista e economia livre não costumam nem dividir a mesma frase.

Triste que mais de 400.000 pessoas acreditem num stunt publicitário desses, encabeçado por um babaca comprado e sem fundamentação econômica razoável. Quando não der em nada na prática (claro que vão fazer festa se ganharem alguma esmola, é bom para o jornal), vão continuar achando que a única coisa que impede esse país de ir para frente é um grupo de vilões em Brasília.

Se gritar pega ladrão, não fica um, mermão. Mas tem muito mais nessa história do que simplesmente “o homem querendo te sacanear”. O sistema está tão bagunçado que quebra as pernas até de quem quer ajudar. O Brasil precisa de reformas GRANDES que vão muito além de textos de leis, o povo precisa começar a perceber a diferença entre pirotecnia (abaixo assinado de Twitter) e dedo na ferida de verdade… (VERGONHA NA CARA de não aceitar essa economia que nada mais é do que uma versão em larga escala do que os primeiros habitantes dessa terra faziam… Trocando recursos naturais por badulaques brilhantes.)

Do jeito que vamos, Custo Brasil e #precojusto significam a mesma coisa. Estamos pagando justamente o que devemos.

Para dizer que o texto só foi legal até a parte que eu comecei a argumentação, para dizer que está se sentindo meio otário(a) por ter assinado, ou mesmo para escrever um tratado econômico discordando de mim (vou achar bacana, mas saiba que só eu vou acabar lendo…): somir@desfavor.com

Vamos todos para o inferno!

Nota: Vamos tratar do assunto “principal” no desfavor da semana, estamos achando que ainda sobe mais sujeira até o sábado. Por enquanto eu quero desenvolver melhor um assunto que ficaria meio deslocado numa postagem de crítica “pura”.

Já começaram a sair produtos com estampas comemorativas sobre a morte de Bin Laden. Ao ver uma xícara com um selo “Obama 1 X 0 Osama”, não pude evitar de soltar o famoso: “Como americano é babaca…”

Só que eu ando tão subversivo ultimamente que não estou perdoando nem minhas opiniões. Americano ganha dinheiro com qualquer merda e não é de hoje. Podia ser a morte do Bin Laden ou podia ser um time de beisebol ganhando um título que eles fariam a mesma coisa. Ás vezes é absurdo, às vezes é engraçado e relevante. Não é como se fosse alguma surpresa que começassem a vender produtos sobre esse evento dias depois de seu anúncio. No contexto, nada mais é do que uma manifestação cultural típica.

Nos resta a noção de que milhões de pessoas por lá (e até alguns malucos por essas bandas) estão comemorando a morte de uma pessoa como se fosse uma vitória nacional. Pode até passar a impressão de que “lavou a alma” de muitos deles, mas isso não cola muito bem dez anos e MUITAS cagadas depois do atentado. Se tivessem pegado o Bin Laden em 2001, teria sido realmente grandioso como “ação de guerra”, mas hoje em dia?

A verdade é que os americanos são torcedores comemorando um gol (ou um touchdown, para ficar mais em casa). Não é uma manifestação política, não é declaração sociológica… é a porra de um gol. O cidadão médio é realmente incapaz de se identificar profundamente com a geopolítica econômica e militar global, tanto lá quanto cá.

As pessoas se amarram em ter algo para comemorar. Procurar profundidade em mentes rasas é uma busca inútil. A coletividade tem uma cabecinha pra lá de limitada (mesmo que os indivíduos sejam capazes de alguns lampejos de lucidez) e denominadores comuns são bobagens mesmo. E é importante ter a noção do valor relativo.

Logo após o anúncio de Obama, já começaram a surgir as primeiras vozes reclamando do fato de que estavam comemorando a morte de um ser humano. Vozes não muito mais racionais do que as que berravam pelas ruas ianques. Pra mim isso é papinho hippie de quem quer chamar atenção.

E olha que eu sou do tipo de pessoa que considera essa mentalidade “olho por olho, dente por dente” uma das coisas que mais atrasa a humanidade. Vingança não é justiça, justiça não é vingança. Queriam o quê? Que o mesmo povo que manda seus filhos para guerras pelo controle dos campos de produção de heroína no Afeganistão sob o pretexto de lutar pela liberdade deles magicamente entendesse essa situação como um momento para fazer uma reflexão?

Se não tem pensamento crítico para perceber os golpes diários, vai ter profundidade para dissociar a “chance de fazer festa” da morte de uma pessoa? Foi um gol, e só.

Americano, brasileiro, chinês, inglês… seja quem for, tem sua população média muito mais preocupada com a vida diária do que com grandes questões sociais. Povo é massa de manobra porque as sociedades que evoluíram se baseavam nisso. Apontar para qualquer um desses povos é a mesma coisa que se apontar.

Mas aqui na América Vira-Latina é cult dizer que acha que os americanos estão manipulando todo mundo o tempo todo. Que cada atitude deles é friamente calculada para nos controlar. Faça-me o favor! O povo que sai as ruas para comemorar a morte do Bin Laden dez anos, dois trilhões e milhares de baixas militares e civis depois de ser transformado no homem mais procurado do mundo? Manipulando alguém?

Assim como em terras tupiniquins, é uma elite que apronta por lá. Não tem porra nenhuma a ver com índole do povo. O gado humano americano é tão gado quanto o brasileiro. Vai ver se fosse com a gente se não sairia o povo nas ruas comemorando? “Eu, eu, eu, Binládi si fudeu!”

Temos diferenças culturais, o americano acha seu governo uma máquina perfeita de conspirações, o brasileiro acha o seu uma máquina ineficiente de corrupção. E isso tem muito a ver com a falsa sensação de que eles são mais “otários” do que a gente. Como duvidamos profundamente de nossas instituições, parece que não damos a elas o que elas querem.

E o resultado disso é que temos um país muito justo e pouco alienado, não? A diferença cultural é cosmética, o resultado continua sendo o mesmo.

Sem contar o aspecto de alcance: Os filhos-da-puta que fazem qualquer coisa por dinheiro nos EUA podem lucrar em vários locais do mundo, dada a base de influência já disponível. Os daqui tem que cagar no quintal mesmo, o poder deles está bem mais restrito geograficamente.

Anti-americanismo é uma praga que diverge a atenção dos nossos problemas e também dos que realmente tem culpa no cartório por lá. A turma republicana (os crentardados de lá) usa e abusa dessa idéia de que o mundo odeia os americanos para reforçar a postura de que relações internacionais tem que ser à base de bala. E brasileiro é o tipo de povo que entra na dança com gosto… Faz pose de rebelde (agrada quem tem que pilhar os pobres de lá), mas se arreganha todo para não perder o apoio (agrada quem quer esse país apenas como exportador primário para sempre).

Não vamos cair nessa de tratar o assunto Bin Laden como um momento para subir no pedestal e falar mal do gramado do vizinho (que é mais verde sim…) e ignorar que é justamente a babaquice média SEM FRONTEIRAS que permite que cretinos usem o povo de um país como escudo para seus próprios interesses.

Aqui no desfavor não vamos cair nessa. Americano é babaca, mas não tem o monopólio, pelo menos não nesse setor. Que se critique quem pelo menos SABE o que diabos está fazendo.

Sábado tem mais.

Para dizer que não entendeu porra nenhuma, mas está comemorando do mesmo jeito, para reclamar que eu sou um colonizado a serviço dos americanos malignos, ou mesmo para dizer que essa minha nova linha ideológica é chata: somir@desfavor.com

Corinthians? Gezuiz!Tatuagem. Já foi tão polêmica e marginalizada… ela mal sabia que esta época seria sua época de ouro, o pior ainda estava por vir quando ela ganhasse popularidade e aceitação social. Garanto que a tatuagem preferia ter ficado restrita a marinheiros e presidiários do que virar a decadência que virou nos dias de hoje. A tatuagem caminha de mãos dadas com o brega e com a falta de noção e parece que esta parceria só vai se consolidar com o passar do tempo. Já repararam como as pessoas vem fazendo mau uso da tatuagem hoje em dia? As pessoas se tatuam com a mesma seriedade e planejamento com que peidam. Um horror.

Antes de fazer a minha tatuagem eu pensei “é algo que vai me acompanhar para o resto da vida, por isso tenho que escolher uma coisa significativa, imutável e única. Tem que ser em um local que não desabe com o tempo e de preferência não muito visível para não me atrapalhar na minha profissão e algo que não seja ofensivo para a pessoa que vai estar comigo”. Fiz estas e outras ponderações. Refleti, perguntei, pesquisei. Será que alguém pensa hoje em dia antes de se tatuar? Talvez poucos. Essa nova geração, que eu apelidei carinhosamente de “Geração Ejaculação Precoce” não quer saber. Sentiu vontade vai lá e se tatua, foda-se o depois. E suas vontades costumam ser cafonas e simplórias.

Sou do tempo em que uma tatuagem era algo pessoal, cuja intenção era transmitir uma mensagem, tornar seu corpo único, transmitir uma informação relevante. Um ícone, um emblema, um símbolo com toda uma história por trás. Hoje em dia, a impressão que tenho é que as pessoas não se tatuam, elas são “legendadas”. Sim, esse é o grau de sutileza, as pessoas são LEGENDADAS. E o pior é que as legendas estão ficando padronizadas. Tatuagens obvias, padronizadas, que escancaram a intimidade e a privacidade do usuário. E feias, estão feias de doer. Faz tempo que não vejo uma tatuagem bonita.

Qual é a graça de ter uma tatuagem que todo mundo tem? Estrelinha no pulso? Atrás da orelha? E aquela maldita tatuagem ícone do mau gosto brega onde se escreve com FUCKIN´ LETRA DE CONVITE DE CASAMENTO o nome da pessoa amada no antebraço? Ou a pessoa amada, ou uma mensagem para Gezuiz. Em parte é bom, ajuda nos tempos de solteira porque se eu vejo um elemento com um “Obrigada Jesus” ou coisa do tipo no antebraço (como é horrenda essa letra de convite de casamento, puta merda) eu corro como se não houvesse amanhã e nem chego perto.

E as pessoas que decidem tatuar a fêice (vai lá nos comentários dizer que eu não sei escrever em inglês) de um bebê em alguma parte do corpo? Gente, fica HORRENDO, ok? Por mais lindo que seja o seu bebê e por melhor que seja o tatuador, FICA HORRENDO. E por mais que você não ache horrendo, pense no constrangimento de quem faz sexo com você. Já pensou ter que foder com alguém com um bebê desenhado olhando pra sua cara? Não há condições. E quando você ficar velho e pelancudo, grandes chances da cara do bebê parecer o Vampeta, devido às deformidades causadas pela pelanca.

Porque sim, tem gente que tatua lugares que deformam com o tempo. As pessoas pensam que nunca vão envelhecer. Sua tatoo na barriga tá uma gracinha hoje, mas dentro de vinte anos vai ser uma obra de arte abstrata. O mesmo vale para tatuagem no peito ou na bunda. As pessoas não pensam que é uma coisa PARA SEMPRE e não conseguem antever o que pode acontecer a longo prazo não? Pensar está se tornando um luxo para poucos. “Viver o momento” tem limite. Se vocês soubessem a dor que é tirar uma tatuagem com laser pensavam bem antes de sair se rabiscando.

Mas o pior para mim é mesmo o conteúdo. Acabou a sutileza, o senso de humor, o easter egg. Hoje neguinho tatua curto e grosso o que quer passar. Geração legendada. “Fulano amor eterno” ou “Tudo posso naquele que me fortalece”. Gente, que tal um pouco de senso de humor ou sutileza? Precisa deixar estampado na pele quão rasa é a mente de vocês? Aliás, precisa escrever o quanto gosta de alguém no seu corpo? O simples sentir, o simples gostar não basta? Precisa evadir seus sentimentos para que o porteiro, o pedreiro que foi remendar seu vaso e o atendente do Mc Donald´s saibam quem você ama ou quem você deixa de amar? Eu hein…

Minha tatuagem foi uma brincadeira pensada para me comparar a um produto que pode ser comprado. Muitos acharam de gosto duvidoso. Tudo bem que muita gente não entende, mas é uma tatuagem que desperta curiosidades e perguntas. Uma tatuagem “Fulano amor eterno” é escrachada demais. Precisa evadir a privacidade até na própria pele? Pouco interessa aos outros quem você ama e não é o tipo de informação que transeuntes, colegas de trabalho, clientes ou vizinhos tenham que saber. Banalização do amor. Depois dizem que sou EU a que não sabe amar. Eu preservo. Um dos principais segredos da longevidade do relacionamento é esse, preservar. Precisa estampar para todo mundo ver? Tem algo errado quando a pessoa sente prazer ou necessidade em tanta ostentação.

Isso sem contar com as conseqüências do término do relacionamento. Perguntem para Debora Secco, Viviane Araujo, Daniele Winits e tantas outras que fizeram a burrice da dar nome aos bois em suas tatuagens. Perguntem para a maior expoente da evasão de privacidade via tatuagem, Kelly Key, que tatuou nada mais nada menos do que a fêice do Latino na sua perna! ECAAAA! E não aprendeu. Tatuou o nome do seu atual marido na nuca. Mas tudo bem, ele merece, ele merece. Já pensou ter que comer a Kelly Key olhando para a fêice do Latino? Esse cara passou maus momentos.

As pessoas estão parecendo BLOCOS DE NOTAS COM PERNAS. Sério, a impressão que me dá é que não precisa ter a menor relevância para que algo vire uma tatuagem. Neguinho se tatua como quem cola um chiclete debaixo da mesa. Entrei pro BBB? Vou fazer uma tatuagem para isso! Entrei em um novo trabalho? Vou tatuar. Caguei um tolete maior do que o normal? Vou escrever nas costas “Homenagem ao meu toletão”. Gente, vocês estão ficando RABISCADOS e não tatuados. Vai pensando que é fácil de tirar… não é não! É demorado, dolorido e caro. Parem de tatuar coisas transitórias em seus corpos! Corpo não é bloquinho que a gente rabisca enquanto fala no telefone, ok?

Tatuar coisas obvias mostra ao mundo que você é uma pessoa obvia. Não seria mais legal mostrar ao mundo que você é uma pessoa criativa, inovadora, ousada, à frente do seu tempo, diferente e especial? Não, né? Tem que ser simplório. Tem que ser evidente. Cuidado, sua tatuagem diz muito sobre você e quem você menos espera pode estar reparando e te julgando por ela. Eu não contrataria alguém com tatuagem contendo o nome da pessoa amada de letra de convite de casamento no antebraço por melhor que fosse seu curriculum (já comentei que odeio tatuagem com letra de convite de casamento no antebraço?). Me parece uma pessoa inconseqüente, irresponsável, volúvel e sobretudo burra pacarai. PRÉconceito? Não, PÓSconceito.

Essa geração imbecilóide que acredita que tudo tem que ser rápido, tudo é descartável, tudo é digital, ainda não percebeu que tatuagem não é descartável e tem conseqüências na vida de uma pessoa. Mas não importa, né? O que importa é saciar de imediato uma vontade, um ímpeto que teve no momento. Porque essa geração não sabe esperar, não sabe ponderar, não sabe refletir. Geração Ejaculação Precoce. Não sabe se privar de nada que queira em nome de um bem maior no futuro, é incapaz de olhar três degraus acima. É tudo imediato, custe o que custar. Tatuagem não é e não deve ser tratada como coisa de momento. Pessoas assim, que acham que o que sentem HOJE é tão intenso que só pode ser uma verdade absoluta que não vai mudar, são retardados emocionais. O mundo está cheio deles. Oremos para que um dia eles amadureçam. Você VAI MUDAR, seus sentimentos VÃO MUDAR, e QUE BOM que vai mudar, porque graças a esta mudança nos tornamos pessoas melhores, mais maduras, mais competentes.

Fico me perguntando se da mesma forma que um cirurgião plástico deve dizer “não” a um procedimento que considere nocivo à pessoa, um tatuador também deveria fazê-lo. É complicado. Se eu fosse tatuadora e entrasse no meu estúdio uma menina de 18 aninhos mastigando um chiclete aos beijos com o namoradinho, dizendo que tem três meses de namoro e quer tatuar o nome dele em letra arial 47 no decote, eu me recusaria. Não sei o que fazem os tatuadores, mas eu me recusaria a ser a autora de algo que considero que vai atrapalhar a vida da pessoa, por mais que ela discorde e queira me pagar bem para fazê-lo. Eu não faria. É por essas e outras que eu nunca vou ser rica. Certo está quem faz, assim ensina uma lição a esses retardadinhos que acham que tem todas as certezas do mundo. Certezas mudam.

Até aqui, você pode discordar de mim dizendo que eu não tenho o direito de me meter na opção alheia. Bem, com certeza as pessoas tem o sagrado direito de tatuar o que querem em seus corpos, mas eu também tenho o sagrado direito de achar ridículo e externar isso no meu blog. Porém, existem casos onde nem mesmo a própria pessoa pretendia aquele resultado, mas, por tratar a tatuagem de forma leviana, ele acaba acontecendo. Nesse caso você não pode discordar de mim, pois o próprio tatuado se fode de imediato. Por exemplo, as tatuagens com erros gritantes de português. Gente, se você vai escrever uma coisa no seu corpo que vai ficar ali PARA SEMPRE, você tem que ler e reler várias vezes para se certificar que aquilo está correto.

Mas as pessoas estão cagando. As pessoas querem resultados para ontem, tem pressa, não ligam para a perfeição. Daí surgem tatuagens vexatórias como um “PISICOPATA” tatuado no antebraço (convenhamos, mesmo com a grafia correta, se apresentar à sociedade como psicopata seria bem ruim), ou um “TOMARROW NEVER KNOWS”. Tá tudo no Google, não estou inventando. Tem muita coisa grotesca: “senpre”, “desepção” e até mesmo “Corinthias”. Fala sério que a pessoa escreve uma coisa para sempre no seu corpo e não lê cuidadosamente antes do tatuador cobrir com a tinta? Neguinho não tá nem aí MESMO!

E as tatuagens em outros idiomas? Neguinho não confere. Sai do tatuador com um ideograma que acha que significa “amor” e na verdade significa “libero meu brioco por um trident mastigado”. As pessoas simplesmente não procuram saber. Elas querem é se tatuar. Elas querem se tatuar para ontem, não querem refletir, pesquisar, confirmar. Geração imediatista, vazia e descartável. Não sabem esperar. Preferem fazer uma cagada imensa e irreversível do que se aprofundar e adiar uma tatuagem para pesquisar. Medo desses animaizinhos exercendo suas profissões. “Devemos operar, Doutor?”. “Sei lá, opera, opera!”.

E gente que tatua o animal de estimação no próprio corpo? Não posso com gente que tatua animal de estimação (ou o nome do animal) no corpo. Tipo, essa era a coisa mais importante que você tinha para nos mostrar? Seu cachorrinho? Seu gatinho? Era isso a coisa mais importante que você escolheu gravar para a (sua) eternidade? Um animal de quatro patas que lambe o cu? Tua vida deve ser mesmo muito merda, vai desculpar. Ou tuas prioridades muito cagadas. Teu bicho vai morrer e em dez anos você mal vai lembrar qual era a cor dele, tenha dó! É essa a coisa marcante da sua vida que você quis estampar no seu corpo para sempre? Wat. (vai lá nos comentários dizer que eu não sei escrever em inglês).

O primeiro passo é ter consciência do que é imutável na sua vida. Tatuar qualquer coisa mutável pode te trazer problemas e pode ser necessário remover a tatuagem por uma infinidade de motivos. Não, amor não é imutável. E mesmo quando a gente escolhe algo imutável, como um filho, por exemplo, está sujeito a riscos. Conheço uma pessoa que tatuou a cara do filho de três anos no braço e a criança morreu pouco depois. A pessoa teve que remover a tatuagem pois não agüentava o sofrimento de lembrar da sua perda cada vez que olhava no espelho. Se no imutável já pode dar merda, imagina no mutável. As chances são muito maiores.

Se você for tatuar uma coisa mutável, ao menos seja sutil e faça de uma forma que seja possível minimizar os danos em um futuro. Conheço uma pessoa que tatuou o amor pela dança nas costas e depois foi parar em competição de Vale Tudo. A sorte é que ele tatuou em chinês, e hoje fala para todo mundo que significa o nome da luta que ele pratica. Parem com essa necessidade de se expor ao máximo. Isso desvaloriza. Tudo que é muito fácil, muito direto, perde o valor. O ser humano gosta de uma aura de mistério, de conquista. Parem de se legendar e deixem que paire algum mistério!

Seu namorado pode mudar, sua religião pode mudar, até mesmo SEU SIGNO pode mudar, sabia? Pense, reflita. Adianta pedir isso? Não adianta. Filhos são outra coisa irreversível, muito mais séria que uma tatuagem e neguinho decide ter na base do “foda-se”. Eu tentei.

Para não dizer que eu sou uma azeda que só fala mas dos outros, quero elogiar uma tatuagem que vi em um desconhecido que freqüenta a minha academia: ele tatuou FODA-SE em letras garrafais no antebraço. É uma tatuagem estúpida que pode ofender e limitar a pessoa profissionalmente (ainda que no futuro), mas EU RESPEITO de montão essa tatuagem, porque pelo menos não é brega, clichê e é ousada, diferente. Estranho do FODA-SE no antebraço: mandou bem.

Para dizer que minha tatuagem é a mais escrota ever e que eu não tenho o direito de falar da tatuagem de ninguém, para dizer que você quer fazer o combo estrelinha no pulso + estrelinha atrás da orelha + lacinho no Rêgo + Hello Kitty nas costas e se acha o máximo por isso ou ainda para simplesmente me mandar à merda: sally@desfavor.com

KKK!Tive receio em escrever este Flertando com o Desastre porque o Somir abordou o tema de forma tão brilhante neste texto, na minha opinião, um dos melhores de todo o blog, que durante muito tempo fique achando que não teria mais o que dizer. Mas agora quero dizer algumas coisas sim e adianto que minha intenção não é ofender nem chocar ninguém. Desde já me desculpo se o fizer.

Eu acho que todos deveríamos poder contar piadas de negros, ou, como se dizia nos anos 80, “piada de preto”. Ou então, deveríamos proibir qualquer piada com qualquer outra raça: judeus, baianos, paraíbas, portugueses, ARGENTINOS, etc. Incoerência esse pavor todo de brincar, brincadeira de mau gosto que seja, com a raça negra. Por mim, podia liberar geral. Piada para todos os gostos. Como diz o Deja, poder usar uma camiseta escrito 100% branco na rua sem ser ofendida ou conduzida a uma delegacia, já que eles podem usar uma camiseta escrito 100% preto.

Porque esse terrorismo todo com as “piadas de preto”? Porque tanto excesso de zelo e proteção? Tem aquele discurso que o negro foi menosprezado durante séculos enfeitado por todas aquelas frases de contexto histórico e antropológico que provam como esta raça foi afetada e subjugada pelos brancos. Ok. Concordo. A solução para isso é proibir que os brancos contem “piadas de preto” por medo de responder a um processo? O que parece proteção está na verdade desmerecendo os negros: “melhor não brincar com isso, tem um fundo de verdade”. Eu não acho que tenha, por isso gostaria de poder brincar. Contamos piadas de humor negro sobre deficiências físicas, condições realmente incapacitantes e limitantes, porque não contar “piada de preto”, já que “ser preto” não é nenhum demérito?

O que estão dizendo é que se um branco contar uma “piada de preto” isso pode ser visto como verdade pela sociedade? Isso pode prejudicar um negro? Porque dói tanto? Será que não existe a certeza de que de fato seja uma piada? Como bem disse o Somir na postagem sobre racismo, nos permitimos rir de uma piada de argentino mas não nos permitimos rir da mesma piada quando protagonizada por um negro porque “(…) aposto que ninguém que está lendo este blog tomaria mais cuidado com a carteira se visse um argentino passando na rua.”

Não contar a “piada de preto” é que configura racismo. Se você está convicto de que a pessoa não é filha da puta, nem ladra, nem suja, nem o que quer que seja, pode brincar com isso. A coisa perde a graça e cria constrangimento apenas quando tem um fundo de verdade. Eu tolero sem o menor problema as piadas de argentinos.

Mas daí alguém pode dizer que eu só as tolero porque nunca fui massacrada como os negros foram (coisa que não é verdade, eu os convido a viver uma infância em um colégio sendo a única argentina, especialmente em época de Copa do Mundo. Teriam que criar uma nova palavra porque bullying seria insuficiente). E eu respondo: que tal os judeus, que passaram pelo Holocausto, e toleram piadas a seu respeito? Por mais que eles não gostem ou que se sintam desconfortáveis, você não vai ver um judeu fazendo um escarcéu e querendo te levar para a delegacia porque você perguntou ao seu colega na mesa de um restaurante como se faz para colocar 500 judeus dentro de um carro. Não com freqüência, não com escândalo, não com orgulho.

Vejam bem, não estou entrando no mérito de ser legal ou não ser legal contar piadas estereotipando raças, crenças ou nacionalidades. Acho inclusive de gosto duvidoso. O foco da discussão é: DEVE SER PROIBIDO que se contem estas piadas? Não temos o sagrado direito de rir daquilo que muitos não acham engraçado? Não existem piadas sacaneando deficientes físicos, idosos, deficientes mentais e até mesmo crianças? Ora, deixa falar! Quem quiser que conte piadas! Sobre qualquer tema! Ou então deixemos de hipocrisia e vamos passar a proibir qualquer piada com qualquer raça. Inclusive com argentinos. Da mesma forma que não são inferiores, Negros não são mais especiais que ninguém. Não quero necessariamente contar uma “piada de preto” e sim viver em um país onde se possa contar uma “piada de preto”.

Se eu fosse negra eu ficaria particularmente ofendida em saber que as pessoas não contam piadas por medo de processo e não por consciência. Não é assim que se resolve. Não pode falar? Não pode contar piada? Não faz mal, o racismo continua, só que graças a esta proibição, continua de forma mais velada, perigosa e difícil de combater.

Não demora muito, os demais membros do grupo dos Intocáveis vão começar a reivindicar o mesmo direito: não querem ser alvo de piadas. Pessoas babacas existem em todos os cantos do mundo e gostando vocês ou não, elas tem direito de voz. Infelizmente é assim na democracia e democracia é uma merda, mas dentre todas as merdas, é merda menos merda, ainda não inventaram coisa melhor. Vai dizer que você nunca teve que entubar alguma piadinha ofensiva a qualquer título? Todos nós passamos por isso e todos nós sobrevivemos.

Tem quem diga que a proibição das “piadas de preto” se justifica para proteger as crianças em idade escolar. Vamos encarar a realidade: seus filhos vão sofrer bullying na escola, por um motivo ou por outro, serão atacados e ridicularizados e vão sobreviver. E crianças não podem ser punidas criminalmente por contar uma piada, logo, isto não vai impedi-las. Todos nós sofremos algum tipo de massacre na escola e sobrevivemos. Se você quer proteger seus filhos, a melhor forma não é calar a boca dos outros através de ameaças e sim dar armas (peloamordedeus, no sentido figurado, ok?) para que seus filhos mantenham a auto-estima e saibam lidar com isso. Se uma criança SABE que não é inferior em nada por ser negra, uma “piada de preto” não vai fazer estrago, como não fez em mim crescer ouvindo que argentino é tudo safado, filho da puta, desonesto e escroto.

Correndo o risco de transformar isto em um Processa Eu, afirmo que os mais preconceituosos nessa história toda tem sido os próprios negros, que vem usando histericamente uma lei que protege todas as raças, credos e nacionalidades. VERGONHA de vocês, viu? Vocês foram os únicos a promover essa caça às bruxas, a censurar a sociedade inteira dessa forma desmedida. Vê se homossexual se importa com piada sobre sua sexualidade a ponto de processar alguém? Vê se argentino liga para ser chamado de sem caráter filho da puta? Vê se português se ofende mortalmente e para o que está fazendo para te levar a uma delegacia por causa de uma piada pejorativa? Ao menos estudem, para parar de passar vergonha, porque uma mera “piada de preto” NÃO CONFIGURA crime de racismo, apenas (se tanto) injuria.

Ninguém tem mais preconceito contra o negro do que o próprio negro. Sinto muito que os anos de massacre físico e psicológico que vocês sofreram tenham deixado esta seqüela. Sinto muito mesmo. Se eu pudesse apagar esta página vergonhosa da nossa história, com negros sendo vendidos como animais em praças, eu apagaria. Mas não posso, ninguém pode. E cada vez que um negro reage de uma forma histérica a uma “piada de preto” está vestindo a carapuça e deixando transparecer o quanto aquilo doeu, o quanto ele tem medo que aquilo seja verdade, o quanto ele se sente inseguro em relação a aquilo, o quanto ele teme que os outros acreditem naquilo. Existem Negros que tem preconceito consigo mesmo e com outros negros também. Garanto que todo mundo aqui já viu um caso desses.

Estava estudando alguns fatos curiosos sobre o direito nos EUA. Eles também tiveram um boom de histeria com piadas alguns anos atrás, mas não era com “piada de preto”, era com piadas que poderiam ser consideradas ofensivas às mulheres. Se dois homens estivessem conversando e fizessem piadas ou comentários que deixassem alguma mulher ofendida, esta mulher poderia processá-los, em alguns casos até mesmo por assédio. Conclusão: criou-se um pavor social de falar sobre certos assuntos, dentre eles, flertar com as mulheres, principalmente no ambiente de trabalho. Muitos anos depois, vendo a merda que fizeram, as mulheres reclamam que os homens não tomam mais a iniciativa, não se aproximam e não as tratam com a mesma descontração e naturalidade que tratam outros homens e até mesmo de serem excluídas de programas sociais. Claro, vocês passaram VINTE ANOS processando quem o fez!

Eu não gosto de levar cantada no trabalho. Você não gosta. Mas eu não gosto muito mais de viver em um mundo onde as pessoas não passem cantada porque estão proibidas e amedrontadas com processos. Eu não gosto de ser chamada de filha da puta, mas sei que é um preço que se paga por poder falar o que quero; ouvir de volta. Eu não gosto de ouvir piadas onde argentinos são tratados de forma pejorativa, mas sinceramente, me sentiria RIDÍCULA de mobilizar o judiciário por causa de uma bobagem dessas. É um excesso, um paternalismo.

As pessoas tem o sagrado direito de fazer piada da minha nacionalidade, do meu tamanho, da cor do meu cabelo e de tudo mais que quiserem. SE houver um abuso muito grande, prejudicial à sociedade toda, isto eventualmente pode ser avaliado judicialmente. SE. As coisas tem a importância que a gente dá para elas. Uma pena que alguns negros dêem tanta importância para piadas bobas “de preto”. Nós brancos não somos assim tão importantes, caso vocês não tenham percebido. E vocês também não são tão mais vítimas históricas que outras raças que passaram por maus bocados e nem por isso se sentem no direito de proibir que se faça piada delas.

Sei que muita gente vai achar que eu estou passando recibo e que estou me justificando demais, mas mesmo assim eu vou falar. Apesar do argentino ser considerado um povo racista (não é de todo verdade), eu não tenho preconceito algum quanto à cor da pele da pessoa. Tenho outros preconceitos assumidos: evangélicos por exemplo. Tenho pavor, por puro preconceito, sem nem ao menos conhecer. Feio. Sei disso. Mas não tenho preconceito com negros, já tive namorados negros com os quais saia na rua de mãos dadas com muito orgulho, tenho grandes amigos negros e teria filhos com um negro sem problemas se eu não tivesse essa aversão doentia a crianças que me faz não querer ter filhos nem com o Eike Batista (e olha que filho com o Eike resolve a vida de qualquer um). Então, por favor, não tentem fazer parecer que eu escrevi isto movida por preconceito. Muito pelo contrário, se eu fosse preconceituosa jamais viria aqui me expor e dar esporro na raça negra com essa intimidade, ficaria encolhida no meu canto deixando vocês continuarem se queimando.

A sociedade TEM o direito de contar piadas. A sociedade NÃO TEM o direito de recusar a matrícula de uma criança em uma escola por ela ser negra, de proibir que se utilize o elevador social pela cor da pele ou de proibir o ingresso de negros em concursos públicos, mas piadas, FUCKIN´ PIADAS, por favor, isso nós deveríamos podemos contar. Todas as outras “vítimas” destas piadas toleram, ainda que não gostem muito, porque os negros não podem tolerar? Porque em vocês dói tanto? Reflitam.

Se vocês, negros que fazem escarcéu por causa de uma “piada de preto” não pararem com isso, dentro de vinte anos estarão como as mulheres dos EUA: segregados, mas desta vez pelo medo. Excluídos porque as pessoas não se sentem confortáveis de falar sobre determinados assuntos e contar determinadas piadas e fazer determinadas brincadeiras na sua presença por medo de um processo. As pessoas querem se sentir confortáveis para usar expressões como “a coisa tá preta” sem serem ameaçadas ou taxadas de racistas. Sério mesmo, reflitam. Esse terrorismo social, no final das contas, vai se voltar contra vocês.

Tô aqui dando esporro porque me importo, porque não quero ver isso acontecendo. Vai chegar a um ponto (se é que não chegou) que a má utilização da lei e a histeria com as “piadas de preto” terminará minando a credibilidade desse tipo de reclamação em delegacias e em processos judiciais. Uma arma que foi concebida para ser usada em casos extremos, de desrespeito que fira a dignidade de um ser humano, está sendo usada como revanchismo social, como forma de dar o troco, como forma de intimidação e canalização de raiva e revolta. Conclusão: vai perder seu poder. Lembram da fábula do menino que gritava “lobo”? Pois é, em 2020 vai ser a fábula do menino que gritava “racismo”.

E um recadinho para alguns homossexuais: cuidado, vocês estão indo pelo mesmo caminho. Se importem menos com gente que vale pouco.

Obs: De forma alguma quero livrar a cara do Bolsonaro. Acho ele desprezível, incorreto e digno de uma punição exemplar. Ele não faz piadas, faz discurso nazista.

Para dizer que vai levar chocolates para mim quando eu for presa, para dizer que o movimento negro parou de ler na segunda linha e já está enviando notas de repúdio ao Desfavor para os jornais ou ainda para dizer que tem medo de concordar e ser processado também: sally@desfavor.com