Vícios naturais.

Por mais que gostemos de pensar que estamos minimamente no controle da nossa vida através da racionalidade, as evidências nos provam uma realidade bem diferente. Pudera: dos bilhões de anos de vida no planeta, apenas alguns milhares tiveram algo parecido com o cérebro humano. Nessa escala de tempo, o processo evolutivo acabou de descobrir o raciocínio lógico complexo e a capacidade de abstração. Quase todos nossos comportamentos pessoais ou sociais têm muito mais dos bilhões de anos de tentativa e erro de nossos ancestrais do que propriamente decisões racionais recentes. E é sob esse foco que eu quero analisar duas questões básicas da vida humana: alimentação e reprodução.

Desde que o ser humano conseguiu dominar a cadeia alimentar e mudar definitivamente a forma como lida com outros seres vivos no planeta, nossa espécie entrou num processo de evolução paralelo, milhares de vezes mais rápido que qualquer outro ser vivo. Mas isso não significa que nossos corpos aceleraram na mesma velocidade. Dois dos nossos instintos mais básicos continuam extremamente ativos, sem quase nenhuma alteração. Alimentar-se e reproduzir-se continuam sendo impulsos poderosos, geração após geração. Mas a forma como lidamos com as duas questões é pra lá de confusa.

Historicamente, o ser humano não precisava de limites internos para o quanto de calorias consumia e para o quanto se interessava por sexo. O mundo ao ser redor resolvia o problema: precisávamos gastar tanta energia para produzir ou comprar alimentos que havia um limite claro de quanto alguém poderia engordar. Passar fome era um risco infinitamente maior do que se tornar obeso. Já na questão sexual, por mais prazeroso que fosse, rapidamente um casal começava a ficar sobrecarregado por filhos, e a vida média do ser humano não deixava muito tempo livre para o lazer do tipo.

A pessoa que tinha muita vontade de comer e fazer sexo tinha que entregar muito valor para o mundo também: precisava juntar muitos recursos, trabalhar que nem um condenado e dar conta de uma grande família. Claro que sempre existiram os privilegiados, mas sempre foram uma minoria. O cidadão médio da maior parte da nossa história estava sempre suando a camisa para ter esses desejos primais saciados. Mas, a tecnologia, como de costume, não deu bola para nosso estágio evolutivo e continuou correndo numa velocidade impressionante.

A vida foi ficando mais fácil. O custo da caloria foi ficando cada vez menor. O prazer sexual cada vez mais disponível. Passamos do limite mínimo de pessoas para sair de um processo de subsistência individual e pudemos nos concentrar mais em trabalho de equipe. E aí, as coisas mudam de figura. O ser humano selecionado para ser louco por comida e sexo por milênios de escassez começava a lidar com um mundo cada vez mais propenso a saciá-lo. E não precisava mais usar cada minuto da sua existência para tornar isso possível.

E aí, o que nunca precisou de repressão começou a ser reprimido. Com muito mais gente no mundo, a questão da alimentação ainda continuou meio lenta pelos próximos milênios, mas a da sexualidade explode imediatamente. Qualquer historiador decente pode te dizer que a “safadeza” do ser humano está em todas as culturas antigas. Para se concentrar em sexo, basta ter pessoas ao seu redor. Até por isso a humanidade continuou crescendo e multiplicando mesmo diante de intermináveis guerras e massacres: a fábrica de bebês produzia sem parar.

Só que o mundo não parava. Fomos produzindo mais e mais pessoas igualmente viciadas em comida e sexo para manter a máquina funcionando. O mundo vai se estabilizando e todas aquelas regras de conduta largamente ignoradas em séculos anteriores começam a ganhar mais força: cristianismo, judaísmo e islamismo não são quase que monotemáticos sobre sexo à toa. Com menos gente morrendo e mais gente nascendo, com mais gente se concentrando em cidades e diversificação das profissões, o vício natural do sexo começa a mostrar seus problemas. O velho testamento das escrituras cristãs é basicamente uma coletânea das baixarias da humanidade e os problemas causados por isso.

Evidentemente, esse povo das religiões tem um problema sério com contexto e moderação, então ao invés de lidar com possíveis problemas, resolvem proibir tudo e matar quem desobedecer. Longe de mim dizer que a repressão sexual das igrejas é uma solução, mas de uma certa forma eles enxergaram o problema: o ser humano nunca precisou se controlar em relação ao sexo, e precisaria aprender a fazer isso de alguma forma. Até pela forma desastrosa como as religiões lidaram com o tema, criando uma barreira externa imaginária para o comportamento, ninguém aprendeu nada.

E assim que o poder das religiões começou a reduzir, voltamos com força para nossos instintos naturais. E o pior: sem entender muito bem por que diabos (ou deuses) aquela repressão toda. Afinal, sexo é uma coisa boa e a humanidade precisa de crianças. Pouca gente realmente percebeu qual era o problema: o desequilíbrio óbvio entre o instinto criado num tempo de extrema escassez e a nova realidade do mundo. Mas aqui eu pauso um pouco a questão sexual para voltar à mesa: porque agora estamos vendo o que o instinto de consumo humano faz quando as barreiras ao seu redor começam a desaparecer.

Vivemos num mundo obeso. Tem muita gente passando fome, mas até os pobres de vários países ocidentais (e cada vez mais os orientais) estão engordando sem parar. O custo da caloria nunca foi tão baixo. Não temos histórico de repressão a esse comportamento e ainda estamos engatinhando em políticas públicas para lidar com o vício humano em comida. Doenças relacionadas com excesso de comida já são as mais mortais do mundo, praticamente todas podem ser traçadas de volta aos hábitos alimentares excessivos do ser humano moderno.

Ninguém tentou controlar esse aspecto do instinto humano, e ele está absolutamente fora de controle. Num estalar de dedos, conseguimos oferecer milhares de calorias extremamente baratas para praticamente todo mundo com alguma renda. E até para quem não tem, porque jogamos fora quase um terço de tudo o que produzimos de comida no mundo. A fome moderna é mais resultado de problemas logísticos e mercados consumidores do que falta de alimentos.

E como é sim um vício natural, as doses precisam ser cada vez maiores e mais potentes: mais sal, mais açúcar, mais gordura. Tudo o que nossos antepassados se matavam para ter, mas que agora está num pacote colorido na prateleira de qualquer supermercado. Não faz nem um século que a humanidade percebeu o problema, e no máximo umas três décadas que está tentando ativamente lidar com isso. Havia uma barreira na extrema pobreza de países como China e Índia, onde a maior parte da população humana se abriga, mas ambos os mercados já estão abertos para isso. A obesidade vai chegar neles como já chegou em quase todo o mundo ocidental. E por enquanto, nossos planos para lidar com o problema não são ideais. Especialmente porque movimentos culturais que permitem o vício correr solto ganham popularidade a cada dia: a “aceitação” pode chegar nesses lugares antes mesmo das medidas mais severas para tentar controlar a epidemia de obesidade.

E aqui, voltamos para a questão do sexo: a dose do sexo também aumentou de forma assustadora. O aumento da população tornou a chance de fazer sexo muito maior para o cidadão médio, e foi necessário um movimento sanguinário de repressão para não deixar as coisas saírem totalmente de controle. Ainda existe uma espécie de barreira invisível ao redor do cidadão médio para evitar que ele se entregue totalmente à compulsão sexual, mas ela enfraquece a cada dia. Como dito anteriormente, culpa do método de repressão, na base do medo e da superstição. Só que a tecnologia, de novo, atropela todos nossos planos: a era da informação conecta o mundo todo e torna o grupo de pessoas ao nosso redor exponencialmente maior.

A mídia global faz com que o vício natural em sexo ganhe milhares de formas novas de ser saciado. O comportamento humano médio torna-se cada vez mais sexual, praticamente sem nada para controlá-lo. A criança da favela ouve músicas sexualmente explícitas, a criança do condomínio tem a história da pornografia humana no seu tablet. Por todos os lados, a oferta de conteúdo sexual explode, e o ser humano tem demanda suficiente para ela. Não é uma questão de moralidade sobre sexo ser algo sujo, apenas uma constatação que o estado natural do ser humano é esse, e que não chegamos nem perto do limite de saturação das pessoas para essa sexualização generalizada.

Será que a solução para essas questões de obesidade e sexualização da humanidade é mesmo esperar para ver até onde a gente consegue ir? Porque o momento cultural presume que esse vá ser o caminho: ou você aceita as pessoas não importa o quão viciadas em comida ou sexo estejam, ou é um nazista. Mesmo eu, que sou defensor de liberdades pessoais muito além do limite do que a maioria das pessoas topa, começo a pensar mais seriamente sobre o caminho que estamos tomando. Ir até onde você quiser com essas questões me parece uma decisão muito adulta para o ser humano médio. Num mundo ideal, eu concordaria com essa parte da ideologia “lacradora” de cada um faz o que quer, mas me parece confiar demais na capacidade do ser humano de se autorregular.

Ou mesmo uma desculpa esfarrapada de viciado. Aquela coisa de “paro quando quiser”. Para mesmo? É um tema complicado de escrever porque parece que estou valorizando conservadorismo e denunciando a “depravação” da sociedade moderna, que nunca foram minhas bandeiras. Mas se você conseguir olhar para a situação através da natureza humana o estado de evolução interno da maioria das pessoas, começa a perceber que estamos vendo toda uma onda cultural baseada em manutenções de zona de conforto. E que se pode olhar para toda a onda progressista pela mesma ótica de ondas de conservadorismo anteriores: pessoas que não querem fazer coisas diferentes do que já fazem.

Gerar mecanismos de proteção internos contra os impulsos que temos nessas duas áreas (e são só exemplos dos instintos humanos, temos muito mais que esses) é tão custoso para as pessoas que elas acabam se dividindo entre as que querem a volta de barreiras externas de repressão (os conservadores) ou as que querem um mundo sem barreiras externas e com validação interna para tudo o que fizerem (os lacradores). Vale tudo para ambos os lados desde que não tenham que olhar para dentro e tomar decisões de adulto.

O mundo não tem mais paciência para controlar a gente. Todo o resto é teimosia. Está mais do que na hora da humanidade sair da infância…

Para dizer que isso é texto de isentão, para dizer que o mundo está perdido (na verdade, sempre esteve), ou mesmo para dizer que levar Nutella para o quarto é o objetivo da humanidade: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Como conciliar este texto com a inferência realizada no artigo sobre o Universo 25, no qual há referência à “redução do impulso sexual” como sintoma bem pouco alvissareiro da sociedade atual?

    • A questão é que a humanidade não se move na mesma velocidade. O Universo 25 era um experimento controlado com animais livres de predadores e comida à vontade. Se você for comparar com os seres humanos em situações parecidas, a redução do impulso sexual aparece sim. Mas no mundo em geral, para cada rato de laboratório, temos centenas de ratos de rua…

      E aí, os ratos de laboratório tentam legislar para os de rua como se fossem de laboratório também.

  • Os que inventaram religião falam que sair trepando é pecado, mas fazem a cagada de dizer que usar camisinha é pecado, que um feto é uma pessoa, assim essa raça não para nunca de procriar.

  • Povo cada vez mais miscigenado e obeso, com pouco estímulo intelectual, que vive de comer porcaria e trepar feito coelhos. Então a humanidade vai ser tipo um Brasilzão? lol Não boto minha mão no fogo por ninguém que nasceu depois dos anos 2000.

    update: aquele plano imundo de ganhar dinheiro no patreon desenhando bonecas hentai deu certo, pouco mais de uma semana de perfil e já tem 10 punhetei… doadores. Estou ‘perplecta’ até agora.

    • Brasil para o resto do mundo: “Eu sou inevitável.”

      E sobre o Patreon, me mata de orgulho! Qual o fetiche mais bizarro que você já desenhou para eles?

  • Vai soar alarmista e moralista, mas gostaria de lembrar que boa parte, se pá a maioria, das pessoas que hoje são consideradas gênios da ciência, das artes etc. e fizeram várias descobertas e invenções não são exatamente famosos por terem tido uma vida sexual superativa, muitos eram até celibatários. O milennial médio sabe de cor 500 gêneros de Tumblr, idolatra celebridade vadia genérica, ostenta como ama dar o cu ou rebolar a bunda, mas não sabe somar 2+2 e acha que estudar não serve pra nada.

    Saindo do alarmismo, de fato existem indícios de que o cérebro humano está encolhendo. Recomendo a leitura (os comentários também): https://meiobit.com/400679/sem-alarde-mas-seu-cerebro-esta-encolhendo/amp/

    • É o que a Sally sempre diz: quando você coloca seu foco numa coisa, essa coisa expande. Quem ficar focado nos instintos primários vai produzir mais instintos primários… por sorte sempre tivemos incels produtivos em todas as gerações humanas.

      Sobre o cérebro, contanto, ainda vale a máxima de que não é o tamanho, é como você usa.

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