Valor reconhecido.

Existem muitos métodos diferentes para se definir sucesso profissional, mas quando Sally e Somir pensam no que é mais recompensador num nível mais pessoal, não conseguem fechar o negócio. Os impopulares trabalham suas opiniões.

O que conta mais para você em relação ao reconhecimento profissional: prêmios e fama ou dinheiro?

SOMIR

Prêmios e fama. O que não quer dizer que eu não queira receber pelo meu trabalho, dinheiro é sempre bom, mas esse assunto é muito mais complexo do que uma simples transação financeira. Tentar resumir a mente humana dessa forma é um caminho certeiro… para o erro. Muito embora bons salários e compensações pelo alcance de metas sejam ferramentas testadas e aprovadas para gerar motivação profissional, passam longe de ser uma unanimidade.

Tem gente que ganha pouco, mas gosta de verdade do que faz ao ponto de sentir honestamente que compensa. Tem gente que não sabe mais o que fazer com tanta recompensa financeira, mas não aguenta mais trabalhar. E não podemos esquecer que ninguém é de um jeito ou de outro para sempre: nossas vidas têm fases, e há um grande ambiente ao nosso redor modificando nossas percepções. Uma pessoa pode achar sua função péssima, mas gostar muito das pessoas com as quais trabalha. Às vezes o dinheiro é prioridade, às vezes paz vale muito mais… eu posso passar o resto do texto só escrevendo cenários onde a relação entre compensação financeira e o senso de recompensa de uma pessoa não é tão clara assim.

E antes que eu seja acusado de desvirtuar a discussão para “é complicado” e deixar todo o argumento de pernas para o ar, escrevo isso para dizer que apesar de tantas variáveis influenciarem o que uma pessoa considera sucesso profissional, algumas são mais confiáveis no seu resultado. Não precisei ler sobre, testei na prática mesmo: quando você tem funcionários que se sentem úteis e reconhecidos, eles trabalham mais. Muito por uma questão de personalidade, eu tinha o hábito de lidar com pessoas que trabalhavam para mim valorizando mais o espaço e a independência delas, o que é uma forma prolixa de dizer que sou morto por dentro. E aí, mesmo que aumentasse salários e oferecesse bônus, a motivação não vinha nesses funcionários. Via pouca evolução.

Até que resolvi tentar algo novo: ficar próximo, pedir ajuda (delegar), reconhecer rapidamente bons trabalhos… em poucos meses até estagiários ficavam muito mais confiáveis e motivados a trabalhar um pouco mais. Novamente, morto por dentro: não acho que tenha despertado paixões pela profissão com minhas belas palavras, mas foi nessa mudança de comportamento que eu descobri o óbvio, quem se sente importante no seu trabalho tem uma tendência natural de se entregar mais. Mesmo que você não tenha essa intenção, se passar a mensagem para a pessoa que tanto faz o trabalho dela, tanto faz o trabalho dela!

Eu sei que prêmios estão muito relacionados à política dentro de uma profissão e que fama nem sempre significa que a pessoa é realmente boa no que faz, mas essa análise não precisa desse grau de cinismo: é sobre o que cada um sente em relação à sua vida profissional. O reconhecimento de terceiros conta muito para aquela parte da sua mente que não importa o quanto você tente negar, precisa se sentir parte importante de um grupo. É instinto: uga-buga que não é reconhecido é esquecido. Uga-buga esquecido morre e não passa genes para frente. Mesmo os mais introvertidos entre nós nutrem esse desejo por ser visto, admirado e querido pelos outros.

Não quer dizer que você vai pagar qualquer preço por isso, eu abomino gente que prescinde da ética para alcançar o sucesso. Mas a recompensa está lá do mesmo jeito: quando você sente que faz algo direito e outras pessoas percebem isso, pode apostar que o seu cérebro vai derramar barris de hormônios do bem estar na sua corrente sanguínea. Fomos programados assim por bilhões de anos de evolução. Dinheiro pode fazer isso também? Claro que pode. E você ainda comemora na piscina da sua mansão. Mas isso não quer dizer que dinheiro gera resultados igualmente previsíveis. O que não falta por aí são pessoas que tem muito dinheiro, mas se sentem umas merdas na sua carreira profissional.

É que o dinheiro também tem seus poréns em relação à verdadeira qualidade do trabalho da pessoa. Muitas pessoas acabam recebendo muito dinheiro com seu trabalho mais por sorte de estar no lugar certo na hora certa ou nascer no berço certo. Não é chororô comunista, é uma constatação de que mesmo que a pessoa esteja ganhando muito dinheiro, pode não sentir que sua contribuição é tão grande assim para o resultado. Dinheiro faz muito bem na mão de gente entende o quão relativo ele é para a felicidade, mas pode estragar a vida de quem não sabe se valorizar sem ele. É melhor estar depressivo rico do que depressivo pobre, mas… não ser depressivo ainda ganha.

Entendem como é relativo? Sim, eu ainda prefiro ganhar muito dinheiro, mas isso é porque eu consigo me ressignificar fora da minha profissão e achar outra coisa para fazer. Tenho inclusive o Desfavor que posso transformar em algo muito maior junto com a Sally, mas a maioria das pessoas não tem esse tipo de avenida aberta para o futuro. O dinheiro pode existir fora dessa dimensão de reconhecimento profissional e o valor pessoal derivado dele. Dinheiro é um acessório da vida. Reconhecimento por outras pessoas é parte integrante da experiência.

Talvez eu já esteja amargo demais com política para me achar o máximo com prêmios ou seja reservado demais para desejar algo tão invasivo como a fama, mas é evidente que se for para analisar o que realmente tem o potencial de mexer com aquela parte do cérebro que te faz se sentir útil e importante para o mundo, são esses os fatores que vão pesar. Sim, eu sei que o texto tomou esse caminho bizarro e no final das contas eu pareço argumentar por uma coisa e escolher a outra, mas que fique claro que se eu gostaria de ganhar dinheiro, é por outros motivos que não o reconhecimento profissional. Se for por isso, é claro que prêmios e fama são muito mais eficientes para o que se propõe nesta discussão.

Quando de fala de natureza humana, nunca é sobre a experiência de só uma pessoa.

Para dizer que vai ler o da Sally para entender o que está acontecendo, para comemorar o 7 de Setembro (é crime na RID!), ou mesmo para dizer que quer ser reconhecido por ser rico: somir@desfavor.com

SALLY

O que é melhor, em matéria de reconhecimento profissional: muitos prêmios, fama e visibilidade ou muito dinheiro?

Dinheiro. Deixa eu contar um spoiler para vocês, que estão no começo da vida profissional: se você não tiver um ego inchado (caso tenha, faça terapia), prêmios, fama e visibilidade não significam porra nenhuma.

Dinheiro pode se reverter em bem-estar, pois dá dois pilares do viver bem: conforto e mobilidade. Claro, se a pessoa é uma fodida da cabeça, nada neste mundo assegura seu bem estar (repito: terapia), mas se a pessoa está bem resolvida, dinheiro vale muito mais do que nome.

Esse desejo megalomaníaco de querer deixar sua marca no mundo é uma grande imbecilidade, principalmente nos tempos atuais, onde qualquer um que ganhe holofote recebe junto uma chuva de pedradas e cancelamentos. Paz de espírito, meus queridos, vem com anonimato, com uma postura discreta, com um mínimo de exposição.

Quem precisa de fama, reconhecimento e prêmios é o ego. Geralmente é um pedido de amor, de pessoas que tem algum buraquinho interno e acreditam que pode ser preenchido com isso (mais uma vez: terapia). Você vai morrer um dia e seu nome vai ser esquecido, não importa quão bom você seja. Faça as pazes com a sua finitude que você ganha mais, em vez de brigar contra ela tentando deixar sua assinatura no mundo. Preocupe-se em ser feliz.

E de forma alguma quero dizer que dinheiro traz felicidade. O céu e o inferno são portáteis, estão dentro da sua cabeça e vão com você onde você for. Nada externo traz felicidade: casar, se mudar, comprar apartamento, ter filhos… Nada. A felicidade é uma questão interna que você e apenas você pode acessar.

Então, o tema de hoje não é sobre alcançar a felicidade, pois nenhum dos dois tem potencial para te fazer feliz. É sobre o que é melhor, o que gera mais ganhos, o que é mais vantajoso como reconhecimento profissional. Sem dúvidas, dinheiro. Dinheiro pode ser convertido em experiências incríveis, em recurso para te trazer tranquilidade e permitir trabalhar menos e se dedicar mais ao que gosta e em muitos outros benefícios. Basta saber usar.

Um prêmio? Fama? Tudo isso é inútil. Só alimenta o ego e é muito efêmero. De que serve? Abre portas? Para que? Para mais inutilidades, condecorações, eventos. E quando passa (sempre passa) a pessoa fica muito mal, pois constrói sua identidade em torno de sua profissão. Você é muito mais do que sua profissão. Se quando alguém te pede que você fale sobre você ou se apresente, o primeiro que você fala é sua profissão, cargo ou função, repense sua vida urgentemente. Um dia isso vai passar e vai ficar um grande vazio.

Às vezes passa bem rápido. Quem hoje é aclamado amanhã pode ser cancelado, odiado, processado. Não dá para colocar tanta expectativa em algo volátil, que pode acabar amanhã. E mesmo que não acabe, quando dura, não se reverte em nada bom, pois até mesmo alimentar o ego é algo que eu considero nocivo. Se eu acreditasse que fama e reconhecimento pudessem trazer algo de bom, já tinha aceitado alguma proposta para alavancar o Desfavor, já teria mostrado a cara, já teria entrado para o Guinness Book como blog pessoal com postagens diárias há mais tempo no ar.

Não, obrigada. Não quero. E nem sequer me é dada a outra opção, que é a do dinheiro. Não ganhamos um centavo com isso aqui. Eu simplesmente não quero visibilidade, mesmo quando ela é o único prêmio possível. Me deixa quietinha, escrevendo o que eu tenho vontade. Quem gostar lê, quem não gostar não lê (ou lê e perde tempo da sua vida, novamente: terapia).

Quem tá fodido de cabeça vai ser infeliz com fama ou com dinheiro, ponto. Quem tá bem de cabeça, vai tirar melhor proveito do dinheiro. Dinheiro permite viver de forma muito confortável e ter as experiências que você desejar, além de assegurar o mesmo conforto e experiências para as pessoas que você ama. Tá de bom tamanho. Não queiram mudar o mundo, não queiram deixar meu nome em porra de lugar nenhum. Conforto e mobilidade são ótimas opções (um dia a pandemia vai acabar).

E, vejam bem, não é que eu não faça questão de fama, nome, prêmios, visibilidade. Não. É pior: eu os abomino. Se um dia sair uma foto minha em alguma mídia, mesmo que pelo motivo mais positivo do mundo, saibam que, em algum lugar, eu estarei surtando, muito chateada. O único reconhecimento que eu quero é esse, silencioso, que tenho com meu trabalho: ver que o número de acessos do que eu escrevo cresce todos os dias. Me satisfaz e não interfere na minha paz, na minha vida.

Tudo na vida tem um preço. Ter fama e visibilidade tem um preço que eu não estou disposta a pagar. E você também não deveria. A relação custo/benefício não compensa. Se você sabe que faz um bom trabalho pelo resultado desse trabalho, não precisa que o resto do mundo tenha ciência ou reconheça esse resultado, você não precisa do olhar de terceiros para saber seu valor.

O único reconhecimento que me interessa é o das pessoas que trabalham comigo e o das pessoas para as quais eu trabalho, e esses, felizmente, eu tenho. Não faço a menor questão que o resto do mundo sequer conheça meu trabalho, quanto mais que o reconheça. As pessoas que se matem para serem “as melhores do mundo”, as mais reconhecidas, as mais premiadas. Meu foco para ser feliz é no interno, não no externo. Recomendo.

E dinheiro é um excelente meio para permitir que você foque ainda mais no interno. Dinheiro não compra felicidade, mas compra tempo para se dedicar a você mesmo, compra experiências que podem te aprimorar, compra conhecimento. É só saber usar. É só não ter a cabecinha ferrada, aquela cabecinha merda de gente que está sempre em busca de novidade, adrenalina, euforia.

Essas pessoas são as que se afundam, pois buscam ilusões e cada vez precisam ir mais longe para encontrar uma que seja melhor do que a anterior e a supra. Um carro melhor, uma aventura melhor, um parceiro melhor, um apartamento melhor…E a felicidade nunca vem. Mesmo assim, a pessoa continua tentando, até que se cansa de não ser feliz, e começa a se anestesiar.

Quando você está feliz com o que tem e com o que é, não precisa que ninguém veja, que ninguém saiba, que ninguém avalize e muito menos que ninguém te aplauda. Se entrar muito dinheiro, que ótimo, facilita a vida. Se não entrar uma fortuna, tá tudo bem também. É libertador não colocar a sua felicidade condicionada a nada externo.

Para dizer que quer ambos, para dizer que precisa da confirmação de terceiros de que você é realmente bom, ou ainda para dizer que quem procura felicidade no interior é cirurgião: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Lembro de um caso extremo dessa escolha entre dinheiro X poder/fama: suicídio de um dono de restaurante quando seu restaurante foi rebaixado de três (o máximo) para duas estrelas no Guia Michelin, a publicação pica das galáxias em que todo estabelecimento que se preze gostaria de estar…

    Ou nem todos…muitos restaurantes alegaram perder sua clientela e identidade ao conseguir (manter) uma mísera estrela que fosse do Guia. Assim, alguns publicamente abriram mão das estrelas conquistadas, e outros entregaram os pontos: fecharam as portas e reabriram o estabelecimento até então consagrado com um novo nome. Teve um caso em que o empreendedor trocou o restaurante estrelado por um food truck…

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    Capitão Impressionante

    Eu prefiro a minha parte em dinheiro. Fama e prêmios são muito bons, mas não enchem barriga nem pagam contas.

  • Dinheiro! As pessoas vão viver normalmente suas vidas e esquecer que você existe, não importa o quão bom/famoso você seja. Ninguém é tão importante. E sim, dinheiro traz felicidade porquê você pode se isolar, ter conforto, usufruir das melhores condições de vida etc. Pra mim felicidade se resume em poder ter paz, fazer o que eu gosto e poder ficar sozinha.

  • Poxa, questão complicada, eu diria. Ou será que eu devo fazer terapia? hehe
    Porque dinheiro é bom sim, mas não nego que tem um pouco dessa questão de querer ganhar uns likes, ganhar atenção e ser reconhecido no trabalho pelo excelente serviço prestado, por tu ser um bom profissional e dedicado, que mexe um pouco sim com meu ego.

    Falo por experiência própria, é tão ruim tu ir trabalhar pensando que é apenas um robozinho mecânico quadradinho, que todo dia tu faz sempre a mesma coisa e ninguém liga, ninguém nota, parece que tua existência – e mesmo tua função lá – não tem sequer nenhum valor! É chato ter essa visão desmotivada da vida, essa coisa depressiva e tal. É preciso sim, eu diria, um pouco de motivação, ou pelo menos aquele “gás”, sabe? Que te faça levantar da cama minimamente e sair pra trabalhar.

  • Dinheiro, porque eu nasci num shithole economicamente não-confiável e onde tem uma forte cultura da inveja e da mendigagem. Volta e meia um parente meu entra em contato comigo só pra pedir coisas, na cabeça deles eu sou rico porque moro na capital, e não é por necessidade nem urgência. Gastaram todo o bolsa-corona com bebida e postaram foto no Facebook…

  • Sem dúvida, fico com a Sally nessa. Assim como ela, eu também tenho horror a aparecer, estou cagando para o que acham ou deixam de achar de mim, – isso só não não vale, claro para quem paga meu salário – e acho que o que tem que tem que chamar atenção é o resultado do meu trabalho e não a minha cara. E, ainda concordando com o que a Sally disse, eu prezo, acima de tudo, a minha paz de espírito. Por fim, do mesmo modo que a Sally, eu penso que dinheiro é bom não para “comprar” nossa felicidade, torrando-o com futilidades como casas e carros cada vez maiores e mais luxuosos; mas para nos permitir não ter que esquentar – tanto – a cabeça com as contas e podermos nos dedicar àquilo que realmente nos torna pessoas melhores.

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