Pagando pra ver.

Uma forma comum de conseguir exposição e experiência no mercado de trabalho é oferecer serviços de graça. Sally e Somir conhecem o conceito, já fizeram algo do tipo algumas vezes, mas discutem a validade do processo. Os impopulares comentam, de graça.

Tema de hoje: é produtivo, como investimento, trabalhar de graça?

SOMIR

Tem coisas que parecem muito lógicas em teoria, mas na prática são bem diferentes. Eu sei muito bem disso, vivo tendo problemas na comparação entre como eu calculo que as coisas vão acontecer e como elas acontecem de verdade. É como se esse mundo não ligasse para lógica… trabalhar de graça dá resultados parecidos com trabalhar cobrando, e você ainda não ganha dinheiro. Não me parece produtivo.

Se você é bom numa coisa, cobre por ela. O ser humano tem essa ideia profundamente internalizada na mente, e todo mundo entende de alguma forma que as coisas que se quer tem custos. Todo mundo mesmo, até as pessoas mais pão-duras e escrotas com o valor do trabalho alheio tem alguma coisa que não fazem cara feia para pagar.

Eu pago caro por uma peça específica do meu computador por ver valor ali, mas sempre escolho a peça mais barata quando estou consertando meu carro. Eu entendo o valor da primeira, mas não da segunda. E isso acontece com a maioria das pessoas: na média estão preocupadas com quanto vão gastar, mas sempre tem alguma coisa que a pessoa enxerga o valor claramente. Pode ser até roupa, comida, bebida, serviços… cada pessoa tem alguma noção clara de valor na vida.

Quando estamos nesse campo de interesse claro, costumamos saber diferenciar o bom do ruim, o desejado do supérfluo. Mas, por pura probabilidade, quase sempre estamos fora desse campo. Ficamos confusos sobre o que vale ou não vale a pena quando saímos da nossa área de interesse. E aí, o capitalismo se prova o estado natural do ser humano.

Se você não tem noção interna sobre o valor de alguma coisa, começa a usar a visão externa para tomar uma decisão. Coisas que custam mais para os outros começam a parecer melhores para nós. Sim, tem muita coisa nesse mundo que parece cara demais para o benefício oferecido, mas é uma lição que quase todo mundo aprende na vida: você recebe o que você paga. Qualidade costuma vir com um preço. E quanto maior o preço, maior a sua expectativa de qualidade.

Eu já tentei trabalhar de graça por exposição, como investimento profissional, mas não adianta tentar reverter o funcionamento da mente humana: as pessoas dão valor para o que custa alguma coisa. Um aparte: trabalhar de graça para amigos, caridade ou mesmo em projetos que te divertem não tem nada a ver com o tema de hoje. Nunca liguei de ajudar pessoas queridas, causas humanitárias ou mesmo me esforçar por algo que me anima (o Desfavor é prova disso), mas estamos falando de trocar trabalho de graça por reconhecimento e avanço na carreira profissional. E nesse sentido, não vejo valor.

Você vai ter que trabalhar para/com alguém. E esse alguém está fadado a não enxergar o valor real do seu trabalho, por uma questão psicológica mesmo. O que vem de graça passa a impressão que não tem o mesmo valor. Se a outra pessoa fez aquilo sem cobrar, é porque deve ter sido muito fácil pra ela, não? Se você pensar meia vez, sabe que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas não se controla a mente alheia.

Infelizmente, se você não cobrar pelo seu trabalho, vai receber a presunção de baixa qualidade ou pouco esforço. Como eu disse antes, salvo o caso em que seu “empregador” entenda muito bem sobre o que você faz para enxergar valor, vai sempre parecer para ele que você nem está fazendo tanta coisa assim.

E isso joga contra seu crescimento profissional. Você tem que impor seu valor no mundo, e além de fazer seu trabalho direito com o máximo de qualidade que puder entregar, tem que fazer os outros sentirem uma dorzinha no bolso quando te contratam. Dinheiro existe literalmente para mediar trocas de valor, é um pedaço de papel ou um número que significa esforço de uma pessoa ou quantidade de recursos.

Se você não cobra, a outra pessoa provavelmente não vai conseguir enxergar esse valor. O dinheiro serve para provar que teve uma troca. Para crescer na sua profissão, você tem que ir provando seu valor. Faça cursos, treine, tenha seus projetos, mas não ofereça seu valioso tempo sem pedir dinheiro de volta, especialmente para quem pode lucrar com seu trabalho.

Se a pessoa que recebe o seu trabalho não pagou nada em troca, ela provavelmente não vai perceber sua qualidade. Quase ninguém sabe o quanto o trabalho dos outros vale, dinheiro existe para explicar isso. Todo mundo pechincha e chora quando ouve um preço, mas quem quer mesmo vai pagar. Passe seu preço e deixa a pessoa espernear. O principal erro de quem está começando num trabalho é achar que é problema seu pagar pelo serviço. O problema é de quem quer te contratar. Nunca negocie seu preço antes do seu cliente potencial tentar negociar. Desconto é vantagem pra ele, não pra você. Quem paga 100 paga 120. Descontos são mais psicológicos do que práticos.

Cobre pelo seu trabalho. A única lógica de trabalhar de graça é se o trabalho é recompensa o suficiente pra você. Se você vai ficar feliz com aquele serviço completado, fique à vontade, o tempo é seu. Mas se você estiver com a mentalidade de “investir” tempo em trabalho para os outros, é melhor cobrar barato do que não cobrar. O ser humano não entende valor, por isso inventou dinheiro.

Use o dinheiro para mostrar para os outros que você vale alguma coisa, e só faça de graça o que você faria por pura satisfação pessoal. Você recebe o que você paga. As pessoas não sabem o quanto vale o seu trabalho, e se você não colocar um número nisso, nunca vão saber. Dinheiro tem função.

Para me chamar de mercenário, para dizer que está com medo da mensalidade do Desfavor aumentar, ou mesmo para dizer que sem exploração a economia colapsa: somir@desfavor.com

SALLY

É produtivo, como investimento, trabalhar de graça?

Sim, é um recurso e, como tal, é preciso saber como usar, quando usar e quanto usar.

Certamente vai ter gente que não soube usar este recurso, quebrou a cara e vem nos comentários contar como se fodeu ao trabalhar de graça. Evidências anedóticas, o grande mal dos comentários do Desfavor. Se não deu certo com você, o problema está em você, não no método. Quando não dá certo, não dá certo com ninguém. E isso dá certo para muitas pessoas.

Como eu disse, é um recurso que deve ser usado na hora certa, com a pessoa certa e pelo tempo certo. Se você não sabe fazer essa escolha, melhor não usar, pois vai desvalorizar seu trabalho. Mas, se usado da forma adequada, faz com que as pessoas certas percebam a qualidade do seu trabalho e te abram portas. Já vi dar certo mais de uma vez, comigo e com pessoas ao meu redor.

Por sinal, dá certo até quando não se tem essa intenção. O próprio Desfavor, que não tem qualquer interesse em nos vender, muito pelo contrário, acreditávamos que acabaria nos queimando, já rendeu boas possibilidades. Você nunca sabe quem está te vendo, o que você joga para o mundo hoje pode dar voltas e acabar chegando nas mãos da pessoa certa, na hora certa.

“Mas se você faz de graça, por qual motivo a pessoa vai te pagar?”. Para você continuar fazendo, ué. Se isso não funcionasse, traficante não dava primeira dose de droga sem cobrar. Quando o ser humano vê algo que lhe agrada e isso lhe é tirado, a reação natural é querer mais.

Vou além: quando você vê algo muito bom e depois vê coisas “menos boas” sua mente fica fixada no muito bom e nada mais te serve. Um exemplo: se você está procurando uma casa para morar, vê um imóvel lindo, é provável que outros menos bonitos, mas que seriam aceitáveis, sejam descartados por você, pois sua mente vai pensar naquele imóvel lindo.

Então, se você apresenta um trabalho bem-feito como “amostra” do que você sabe e pode fazer, isso pode deslumbrar quem vê e essa pessoa pode passar a olhar outros trabalhos com olhos mais críticos, querendo o seu cada vez mais, por motivos de comparação. Mas, é claro, para isso seu trabalho precisa ser muito bom, acima da média, absolutamente imperdível.

Se você faz um trabalho mediano, vai apresentar ele de graça, a pessoa vai pegar e depois vai te descartar para pegar outro trabalho mediano de graça. E certa está ela, a amostra grátis serve para isso: para avaliar se você quer ou não o produto. E se o produto é mediano, a pessoa está mais do que certa em não querer. Mas, se o seu trabalho for único, imperdível, insubstituível, quem o vê vai tentar te agarrar com unhas e dentes.

E não tem nenhuma novidade aqui. Agimos assim com tudo. Se uma moça que vende bolo passa no seu trabalho e te oferece uma fatia de graça, se o bolo for muito, mas muito gostoso, da próxima vez em que ela passar você vai comprar outra fatia. Se for um bolo comum, talvez você não compre, mas se for um bolo que te agrada muito, grandes chances de você querer mais.

Então, o sistema de venda por amostra funciona, tanto que é usado no mundo todo, por produtos, pessoas e empresas. Mas, para que funcione, o que você apresenta de forma gratuita tem que ser de altíssimo nível.

Infelizmente não é o caso da maioria dos profissionais, que apresentam o básico enfeitado, achando que estão fazendo algo muito bom. Aí, quando não dá certo, culpam os “aproveitadores” que pegaram seu trabalho de graça “só para se dar bem”. Não, meu anjo. Você é que não foi bom o bastante para fazerem questão da sua presença.

E eu não estou falando de uma vaguinha em uma empresa. Eu já vi pessoas ficando muito ricas com isso. Profissional que atende uma global de graça e enche seu consultório em seis meses por ser o “médico das estrelas”. Pessoa que coloca um livro online gratuito e, devido a enorme procura, assina um bom contrato com uma editora ou produtora. Acontece. Dá certo. Mas tem que saber fazer.

A verdade é que todo mundo se acha especial, se acha muito bom, se acha merecedor, mas apenas uma ínfima minoria faz um trabalho deslumbrante, único, inovador. E é mais fácil colocar a culpa nos “exploradores” que “tiram proveito” do que perceber que seu trabalho é apenas mediano, medíocre, sem qualquer diferencial ou compromisso com a excelência.

Para chegar ao nível de apresentar um trabalho gratuito, você tem que estar milhões de degraus acima das outras pessoas que fazem o mesmo que você faz, tem que ser notório, gritante, visível, que você pode disponibilizar algo que mais ninguém pode. Caso contrário, vão pegar seu trabalho gratuito e te descartar como uma fralda suja.

E, o mais importante: não é para fazer como investimento de constrangimento. “Vou apresentar isso de graça assim eles se sentem na obrigação de me contratar”. Não vão. Se você está dando de graça, é de graça. Essa imposição de contrapartida está apenas na sua cabeça. E quem baseia sua vida em ilusões da sua cabeça vai viver de sucessivas frustrações.

Então, antes de pensar em oferecer algo gratuito para que “conheçam seu trabalho”, invista em se aprimorar, em ser o melhor no que você faz, em ser inovador e apresentar um diferencial que mais ninguém tenha. Ninguém vai perceber que você é especial se o seu trabalho não transparecer isso. Só sua mãe te acha especial, o mercado de trabalho exige inovação, excelência e resultados.

Quando você estiver certo de que 1) pode fazer o que mais ninguém ou quase ninguém faz; 2) pode fazer diferente e melhor do que o resto e 3) faz com a excelência máxima que pode ser feito, aí você pode apresentar seu trabalho gratuito, que quem receber, certamente vai querer mais.

“Ain, mas se tem essas regrinhas é sinal de não funciona”. Meu anjo, tudo na vida tem um jeito certo de se fazer, se não, não funciona. Ou por acaso você pisa no freio em vez do acelerador e, quando o carro não anda, vai na concessionaria reclamar que ele está com problema?

Façam certinho que vai funcionar. Mas, né, aí demanda esforço, aprimoramento, estudo e tempo. Nem todo mundo está disposto.

Para dizer que se não funcionou com você é sinal de que não funciona, para dizer que para mim é muito fácil pois ___________(inserir motivo) ou ainda para dizer que quem trabalha de graça é relógio: sally@desfavor.com

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