Melhor escrita.

Já perdemos a conta de quantos textos escrevemos desde a inauguração do Desfavor, e esperamos que a experiência tenha tornado nossa escrita melhor com o passar do tempo. Mas quem fez melhor uso desse treinamento até aqui? Os impopulares escolhem quem faz melhor, ou chamam tudo de marmelada.

Tema de hoje: quem escreve melhor, Somir ou Sally?

SOMIR

Eu literalmente pago para a Sally escrever textos pra mim. Isso já deve deixar bem claro o meu ponto de vista. Este texto não é para dizer que eu escrevo mal, muito pelo contrário, eu sei que estou muito acima da média. É que é um fato da vida que sempre tem alguém que faz melhor que você, e no caso da escrita no contexto profissional, a pessoa que fazia melhor estava do meu lado faz tempo. Une o útil ao agradável: posso trocar piadas de péssimo gosto com quem faz bem um trabalho que eu preciso que seja feito.

Sally não foi a primeira pessoa que eu tentei para me substituir na escrita, até porque ela nem estava nessa carreira quando nos conhecemos. Eu experimentei várias pessoas nessa área, e sempre ficava com aquela sensação de que era “tolerável”, mas nada melhor do que eu faria se tivesse o tempo e a dedicação necessárias. Quando a Sally começou a trabalhar comigo, eu finalmente tive paz nesse sentido. Não, eu não faria melhor. Estava usando meu tempo para outras funções importantes e não estava sacrificando qualidade por isso. Na verdade, estava até entregando mais valor para meus clientes.

E por que eu tive essa tranquilidade de delegar os textos para ela? Simples: Sally escreve na profundidade necessária para cada texto. Ela vai até o grau de “tecniquês” que alguns textos exigem, mas se comunica tranquilamente até mesmo com gente que mal sabe ler direito. A forma como ela raciocina tende a ser clara e direta, e isso acaba aparecendo na sua escrita. E num texto, a capacidade de expressar corretamente uma ideia conta demais.

É forma de comunicação. Não existe comunicação se a outra pessoa não entende do que você está falando. É inclusive a crítica que faço à mania de muitas pessoas de não conversar, apenas fazer monólogos intercalados. Se você não se comunica com outro ser humano, está falhando na missão básica da… comunicação. Escrita precisa ser compreendida.

E aqui pode parecer que eu estou dando um golpe, dizendo que ela é simplória fingindo que é elogio. Mas todo mundo que lê o Desfavor sabe que nem faz sentido dizer isso: Sally sempre aborda temas complexos e sempre demonstrou que tem muito vocabulário, referências e capacidade de compreensão, afinal, só sabe explicar quem entende. Tem texto sobre cu e tem texto sobre o experimento da fenda dupla dela…

O que me leva a outro ponto: Sally é verdadeiramente eclética na escrita. Boa parte do argumento que o Desfavor escreve sobre tudo está nos textos dela. Quem suja os pés na lama dos temas mais repulsivos costuma ser ela, eu já sou mais fresco para o tipo de tema que acho “digno”. É outro elogio falso chamando-a de descompensada como se fosse uma vantagem? Não, como eu disse antes, tem um monte de textos de temas bizarros e um monte de textos de temas mais elitizados. Sally vai de um lado ao outro, e o mais interessante, sem perder a personalidade na escrita.

E eu vejo muito mais disso no trabalho que fazemos: muitas vezes eu preciso que ela escreva de forma atraente um tema desinteressante. E é justamente isso que ela faz. Adapta-se à situação e faz o melhor que pode com isso, aprofundando sem perder a acessibilidade.

Inclusive, por ter essa capacidade de adaptar quase qualquer tema ao seu modo de expressão (que acreditem ou não, é basicamente idêntico ao jeito que ela fala, mas com menos gírias de traficante), os temas que ela escolhe abordar vão muito mais longe que os meus. Mesmo com ela ficando com os textos de pandemia nos últimos tempos, ainda sim na média ela cobriu uma quantidade absurdamente maior de temas que eu, que tendo a ruminar sobre os meus assuntos de interesse e ficar aperfeiçoando algumas poucas ideias. Eu escrevo pra mim, Sally escreve para quem lê.

Já os meus textos são tão bons quanto a sua capacidade de entrar no meu processo mental. Como eu não tento te encontrar no meio do caminho, a coisa só funciona mesmo se você estiver com vontade de fazer o esforço por mim naquele dia. No começo eu achava que era escolha da minha parte, mas de alguns anos pra cá que comecei a me esforçar muito mais para ser mais fácil de acompanhar, tentei fazer esse caminho até o leitor.

Os resultados não foram muito impactantes. Como o Desfavor é um projeto de estimação e não trabalho, não é o fim do mundo ter dificuldades para fazer essa ponte, mas eu gostaria se ser mais eficiente em chegar do outro lado. Afinal, ser compreendido é algo que instintivamente agradável para um ser humano.

Sally faz isso naturalmente. Não é à toa que tanta gente tem sentimentos mais intensos com os textos e comentários dela: ela chega até a cabeça da pessoa. Ela cumpre a função fundamental de uma forma de comunicação. É por isso que eu a coloco no topo aqui: faz quase tudo o que eu faço em termos de complexidade e criatividade, e dá um baile em conceitos como acessibilidade e praticidade das ideias expostas.

Como eu disse no começo do texto, não preciso me diminuir nem um pouco para decidir que ela escreve melhor. Eu não escrevo mal, ela escreve melhor, simples assim. Eu ainda acho meus textos mais surpreendentes, até porque eu não costumo saber sobre o que estou escrevendo mesmo depois de vários e vários parágrafos, tem muita improvisação e pouco compromisso com uma linha só de raciocínio. Meu processo mental é diferente, e isso impacta no resultado final. Se eu não achasse meus textos interessantes, já teria parado.

Mas na comparação, é como se eu fosse um excelente batedor de falta no futebol, capaz de colocar a bola em qualquer lugar e surpreender o goleiro vez após vez. Só que no resto do jogo eu sou menos hábil e fico parado “na banheira” esperando o juiz marcar uma falta. Sally é aquele meio campo argentino que joga em todos os cantos do campo, ataca, defende, passa, chuta e dribla de forma consistente, mas que não bate falta tão bem quanto eu.

Num time de futebol profissional, eu não teria lugar, por melhor que batesse falta, porque é só um elemento do jogo. Já ela seria titular na maioria dos times que jogam o campeonato. Não à toa, na hora de trabalhar, eu não quero ninguém mais no meu meio campo. Escrever é uma combinação de vários fatores, e na maioria deles, Sally faz melhor que eu.

Mas vocês já sabem disso, não?

Para dizer que não paga pra ler puxa-saquismo, para dizer que prefere os textos do C.U. porque são curtos, ou mesmo para dizer que os dois escrevem mal e que é masoquista de ler: somir@desfavor.com

SALLY

Quem escreve melhor, Somir ou Sally?

Somir. Eu escrevo mais popular, mais acessível, mais didático, mas isso não significa escrever melhor, isso significa escrever mais fácil de entender.

Somir tem mais criatividade, mais repertório de referências e escreve com mais profundidade. Calhou de ele nascer no Brasil, onde poucos entendem? Sim. Ele escreve bem, se nem todos tem condição de entender, bem, o problema não está nele…

Essa é uma das coisas que eu sempre admirei no Somir: ele não baixa seu controle de qualidade em troca de acessibilidade. Eu baixo. Para ser entendida eu sou capaz de dar explicações vexatórias, exemplos banais, comparações lúdicas. Somir não está preocupado com quem lê, ele está preocupado com o conteúdo, o que, em última instância, é o que importa. Ele não corre com a manada, ele corre na velocidade dele e quem acompanhar que usufrua.

Se estivéssemos falando se escrita profissional, a minha seria melhor. Para o mercado é mais importante ser compreendido do que ter profundidade, referências e criatividade. Se me contratar para produção de conteúdo, eu vou passar o recado que você me pedir para o seu público e ele vai entender.

Mas estamos falando do Desfavor, um lugar sem fins lucrativos, para realização pessoal. Um blog nichadíssimo, de pouquíssimo alcance, que nasceu com a clara intenção de não ser popular. Neste contexto, para esta missão, o Somir escreve muito melhor do que eu, pois explora todo seu potencial sem se preocupar com a mensagem: entende quem consegue entender, o foco dele é produzir com o máximo de qualidade que ele puder.

Não é muito comum ver pessoas nessas condições: produzindo sem precisar se preocupar com o destinatário. Geralmente todo mundo que escreve, e eu me incluo nisso, está preso pelas amarras de conseguir passar a mensagem desejada a quem lê: na forma e no conteúdo. Somir é uma das poucas pessoas que vocês verão na vida de vocês que escreve livremente.

Gente com texto arrumadinho, didático e pensado para compreensão você vê aos montes. Gente que produz pensando na criatividade, na inovação, na profundidade, sem se preocupar ou deixar contaminar com o resultado é raro, muito raro. E com isso não estou lamentando a minha escolha, continuo achando que ela é o melhor caminho, mas tenho consciência que, em matéria de qualidade, nunca vou superar quem não tem amarras e pode fazer o que quiser.

Para provar meu ponto, aqui vai uma comparação bem infantil: pense em dois compositores. Um deles compõe livremente tudo que quer, como quer, foda-se quem vai apreciar ou não. O outro compõe preocupado com o público: está muito longo? Vão ficar cansados? Esse tipo de arranjo é novo, será que vai ser bem aceito? Esse tema não parece agradar, melhor não inserir.

De onde vocês acham que vai sair algo genial, inovador e que revolucione a música: de quem deixa a coisa fluir de acordo com sua vontade, seus instintos, sua verdade ou de quem coloca uma cerquinha de fatores externos limitando sua composição? Se vocês não sabem a resposta, vejam o filme “Amadeus”.

A vida é feita de escolhas, não se pode ter tudo. Há quem renuncie a parte da qualidade, inovação e profundidade em nome do alcance e há quem abra mão do alcance em nome da qualidade, criatividade e profundidade. Ambas são válidas, mas, se falamos em qualidade de texto, prevalece aquele que não transige com ela.

“Ain mas o texto do Somir é ruim, eu não consigo entender nada”. Não. A ordem não é essa. Você é ruim por não conseguir entender o texto do Somir. E isso não é um esculacho, eu mesma não entendo alguns textos do Somir. Me faltam referências, sutileza e até raciocínio para acompanhar. E tá tudo bem. O que não pode é culpar os outros pela sua deficiência. Essa mania que a gente tem de achar que só é bom o que nos atende… Não é o nosso umbigo que faz de uma coisa ser boa ou não.

Eu te garanto que você conhece pelo menos mais um produtor de conteúdo que escreva como eu escrevo. Provavelmente mais de um. Mas eu te desafio a me dizer um produtor de conteúdo que escreva como o Somir. Talvez na parte didática ele não seja o mais indicado (por isso eu fico com todos os textos sobre covid), mas na escrita livre e criativa? Até hoje eu não vi nada em parecido.

Narciso acha feio o que não é espelho. Estamos acostumados, até adestrados a um modelo de escrita e o que destoa disso é imediatamente considerado menos valioso. Pois não é. Se de fato foi produzido com qualidade, é um novo estímulo para seu cérebro, capaz de abrir sua mente, capaz de criar novos caminhos neurais, capaz de aumentar seu repertório e sua criatividade. É gente como o Somir que empurra a linha dos limites mais para frente. Gente como eu faz apenas mais do mesmo, muito bem-feitinho, mas é mais do mesmo.

Eu prefiro ser compreendida, mesmo que para isso precise não aprofundar tanto ou colocar menos conteúdo criativo e inovador em um texto. O Somir prefere que o texto seja mais profundo, com mais conteúdo e mais criativo, mesmo que para isso ele nem sempre seja compreendido. Fica bem claro quem de nós tem mais compromisso com o texto.

Para dizer que nós dois escrevemos mal, para dizer que essa pergunta não faz sentido já que somos a mesma pessoa ou ainda para aproveitar a oportunidade para jogar qualquer ofensa gratuita em um de nós: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • Gosto dos dois, mas, se for pra escolher só um, prefiro a Sally, por ser direta, franca, acessível e eclética.

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    • Concordo com o que você disse a respeito da Sally, que é realmente admirável. Mas eu também aprecio os textos do Somir por nos fazer “pensar fora da caixa” e abordar certas questões por ângulos que vão (bem) além do lugar-comum. Por isso, para mim é impossível ter preferência só por um ou por outro.

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  • Ambos escrevem bem.
    Gosto mais dos textos da Sally, eles me parecem mais humanos e tocam mais fundo em mim.
    Sally é bem pé no chão, enfia a faca sem dó, depois cutuca e ainda joga sal na ferida, eu gosto.
    Somir voa querendo ir mais alto na sua complexidade de explorar o tema e se perde na conclusão que deveria ser a do início do parágrafo, acaba se repetindo na explicação daquilo que já escreveu antes. Somir me lembra muito o muitas vezes cansativo por ser repetitivo Cor te lla que inicia a frase, engole, respira, volta ao início, repete tudo de novo e de novo até concluir a frase que era tão simples e ele complicou me cansando ao máximo. (Saco,eu já entendi, para de se repetir – não que eu tenha pago para ver alguma palestra dele, mas já vi uns caquinhos delas em alguns lugares na net)
    Acho que Sally e Somir as vezes trocam os nomes nos textos
    A palavra “fascinante” mais usada por Sally de forma natural em alguns textos é usada as vezes pelo Somir em um contexto diferente, quando Somir escreve “fascinante” me parece bem gayzado, o que diferencia de quando Sally usa a mesma palavra.
    Concluo que Sally deve ser 1 pessoa só e Somir umas 2 ou 3 pessoas.
    Por que?
    Porque Somir não tem compromisso com o tema proposto por ele, Somir parece uma pipa que cortaram a linha no ar, tipo folha de bananeira, ele balança no texto conforme o vento.
    Sally é como um canhão, firme e forte, que passa e arrasa na proposta do texto.
    Bjos pros 4.
    Sally, Somir 1, Somir 2, Somir 3.

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