Consequências.

Pouco após o presidente Vladimir Putin anunciar que pretende convocar 300 mil russos para a guerra na Ucrânia, as buscas por “как сломать руку” (como quebrar um braço/uma mão, em russo) na Rússia explodiu no Google. LINK


A guerra na Ucrânia já era um desfavor por inúmeras razões, essa só soma o fator “muitos pagando a conta por poucos” no lado russo.Desfavor da Semana.

SALLY

Putin anunciou que está precisando de mais gente para lutar na guerra. O resultado desse anúncio? As buscas por “como quebrar um braço”, vindas da Rússia, explodiram no Google.

A busca prova duas coisas. A primeira é que de fato os russos são Brasileiros da Neve, pois além de não saber como quebrar um braço, também parecem desconhecer que serão mandados para a guerra com uma faquinha na boca mesmo que estejam sem os dois braços e as duas pernas.

A segunda coisa que essa busca massiva por quebrar o próprio braço prova é o tema de hoje: o ridículo de um (ou poucos) homem/homens conseguirem obrigar milhões de pessoas a fazer o que elas não querem. É de um absurdo, de uma incoerência, de uma inaceitabilidade gigantes. Entretanto, todo mundo parece conformado com isso: “é assim que as coisas são”. Só se a gente quiser que elas sejam.

“Ain mas a culpa é dos russos que aceitaram…”. Psiu. Pode parar. Tem certeza de quer ir por esse caminho? Por esse caminho você também acaba mal, no mesmo beco sem saída que eles estão agora.

Não se enganem: é assim em quase o mundo todo, inclusive no Brasil. O que acontece é que, circunstancialmente, neste momento, os poucos que mandam no Brasil obrigam o brasileiro a fazer coisas “menos extremas” do que morte em combate, mas o mecanismo é exatamente o mesmo. Então, se um dia as circunstâncias mudarem (e elas sempre estão mudando), qualquer um de nós pode se encontrar em uma situação similar à dos russos.

Vamos fazer um exercício de imaginação: se estivéssemos nos primórdios, se fôssemos homens/mulheres das cavernas, se fosse na lei da selva, uma coisa dessas não aconteceria. Um (ou poucos) que tentasse obrigar a maioria a fazer algo nocivo a si mesma ia acabar apanhando bastante ou até morto, concordam? Não é, no mínimo, algo para se refletir que, em um aspecto que seja, a lei da selva soe menos bizarra do que a atual dinâmica?

“Tem que fazer a revolução!”. Não. Outro engano. Aí sobe o mais bem intencionado dos homens ao poder e, em algum tempo, começa a oprimir o povo. No começo, bem de leve, quase que imperceptível. Depois, vai piorando. O problema não é esse ou aquele homem, esse ou aquele partido, essa ou aquela ideologia. O problema é o ser humano: no patamar de evolução espiritual, comportamental e de senso de coletividade em que estamos, quem quer que detenha muito poder vai acabar gestando injustiças.

“Mas Sally, você vem aqui falar tudo isso para me dizer que não tem solução? Assim eu tenho que aumentar a minha dose de remédio controlado”. Nada contra, aumenta mesmo que o mundo tá puxado. Mas sim, existe solução, uma solução que ainda não está pronta, mas acho que ao menos o caminho nós podemos sugerir – e é um caminho para a qual ninguém parece conseguir/querer olhar.

Quando você sabe que eventualmente certos problemas vão acontecer não importa o quanto todos tentem estar em seu melhor comportamento, o que fazemos como sociedade? Criamos mecanismos preventivos para que eles não aconteçam. Se estipulam quais são os comportamentos indesejados e também se estipulam consequências ainda mais indesejada, de modo a desencorajar qualquer pessoa a fazer aquilo. As consequências são tão ruins, que a pessoa suprime o impulso de fazer algo que iria satisfazê-la.

Esses mecanismos preventivos podem expressos através de leis (desde que sejam de fato colocados em prática e valham para todos), através da força bruta (como faz o tráfico no Rio de Janeiro), através de reprovação social (como fazem algumas tribos que expulsam do seu convívio quem faz cagada) ou de muitas outras formas. Pois bem, todas as formas que conhecemos até aqui estão obsoletas, não funcionam mais. Precisamos de uma forma nova.

Sempre bom ressaltar que estas formas não são um rol fechado, é sempre bom e saudável que as revisitemos e pensemos em novas formas, pois a sociedade evoluí, se as formas não evoluírem com ela, se tornam obsoletas e acabam sendo ineficazes. Se apegar ao que já existe como única opção é refúgio dos medíocres, sempre podem ser criadas coisas/formas/sistemas novos.

E neste ponto do texto, o público leitor se divide em dois: uma minoria entusiasta que não vê a hora de começar e uma maioria derrotista que só foca no erro, na falta e no medo e começa a jogar milhões de impedimentos sobre o porquê não dá para criar uma forma nova ou sobre o porquê dela não funcionar. Esse é o mal do mundo: gente que já entra derrotada.

E eu acho que é aí que a gente peca: estamos condicionados como orca do Sea World a pensar que “é assim que as coisas são” e que não podem ser diferentes, pois quem criou as regras é muito mais forte do que a gente. Uma orca pode mastigar uma treinadora em um segundo, mas, ainda assim, passa uma vida aceitando ordens dela, pois foi condicionada. Hora de quebrar esse condicionamento. Esse seria o primeiro grande passo.

As coisas podem ser da forma como a maioria estipular que serão, e seria muito bacana que as pessoas comecem a acreditar de fato nisso em vez de ficar debochando nos comentários com frases como “ah, tá bom, você vive no mundo da imaginação” ou “ah, tá bom, você acha que é fácil”.

Não, eu não acho que é fácil, eu acho que é possível. Mas só será possível se todos focarem na solução e não em ficar colocando impedimentos. Impedimentos são um porto seguro, né? Ajudam a dormir bem à noite: “não sou eu que sou covarde, acomodado e medíocre, isso NÃO PODE ser mudado”.

Qualquer coletividade (maior ou menor) pode decidir que as regras atuais não funcionam mais e pensar em regras novas. E mesmo quando se ultrapassa a primeira barreira do “não pode ser mudado”, vem um segunda ainda mais difícil de transpor: que nessa hora, as pessoas cruzam os braços e dizem “tá, o que você sugere?”.

Eu sugiro que você se envolva e seja parte da solução, pois de uma única cabeça não vai sair a solução para esse problema. Eu sugiro que você não seja um encostado, preguiçoso, parasita, acomodado e medíocre filho da puta e venha ser parte da solução, pois mil cabeças pensam melhor do que uma.

Esa postura de esperar que alguém venha te sugerir algo pronto é um câncer social. Você tem capacidade de sugerir algo ou de contribuir de alguma forma. Esperar que venham (novamente) te dizer o que é melhor é continuar sendo a orca do parque aquático, só muda a alegoria.

E eu digo isso por acreditar, de coração, que um homem só não vai conseguir encontrar uma solução para isso. Serão necessários muitos, será necessário um somatório de ideias, será preciso conversar com a mente focada no bem comum, não em interesses próprios.

Eu sei que não vai acontecer agora, mas queria plantar essa semente: uma hora terá que ser feito – e quanto antes, menos vamos sofrer. Comecem a olhar para dentro e tomar consciência que o atual sistema tá bem errado e que precisamos de convergências de vontades, diálogo e prioridade no bem-estar coletivo para começar a sair desse buraco. Se você se permitir admitir que essa possibilidade existe e se convencer a participar desse processo, já teremos um progresso enorme hoje.

É ridículo que, a esta altura da evolução, um ou uns poucos filhos da puta tenham poder de vida e morte, de bem-estar ou mal-estar em uma coletividade. Mastigue este problema. Faça a digestão. Internalize. Não normalize essa aberração. Pense a respeito. Quem sabe soluções ou sugestões não começam a surgir, se você acreditar que é capaz de dá-las? Quem sabe a sua não desperta uma ideia complementar em outra pessoa? E em outra… e em outra…

Tenham autoestima, não é por falta de capacidade ou por impossibilidade que esse problema não se resolve. Ele não se resolve, pois a maioria dos envolvidos ou está olhando para a solução errada (revolução, luta armada, trocar a figura de poder) ou não acredita que tenha poder ou capacidade para resolvê-la.

Não precisa fazer nada agora. Apenas olhe para a direção certa e acredite, permita que essa ideia amadureça em você. Por hora, é o que dá para fazer. Não resolve, mas, sendo bem sincera, é um passo enorme.

Para dizer que achou este texto poético, para dizer que se houvesse um Desfavorowski o “Ei, Você” deste mês seria engraçado ou ainda para dizer que se o Brasil entrasse em guerra o brasileiro ia tentar empurrar atestado falso: sally@desfavor.com

SOMIR

Pode parecer cruel bater nos russos por causa das decisões de Putin, mas não é uma questão que valha apenas para os russos, vale para toda a humanidade. Como decidimos há milhares de anos que hierarquia é o nosso mecanismo de funcionamento social, faz parte do jogo delegar responsabilidades para um pequeno grupo de pessoas e eventualmente pagar o preço pelos erros desse grupo.

Não vou mentir, dado o estado atual do mundo, não foi uma má ideia. A vida humana média é imensamente menos brutal e difícil do que a de nossos antepassados. Abrimos mão de muitas liberdades em troca de estabilidade, e por mais que meu coração libertário bata de forma acelerada com o prospecto de ter menos regras nesse mundo, admito que esse sistema de poder concentrado nos colocou numa posição privilegiada.

Só que se tem uma regra na natureza, é a da mudança constante. O que se passava por poder concentrado 200 anos atrás não é o mesmo que há um século ou nos dias atuais. As coisas mudam, muito por causa de novas tecnologias que mexem com a lógica da vida humana, mudam e exigem adaptações.

Durante toda nossa história, quase ninguém ficava animado com o prospecto de ir lutar numa guerra. Ao contrário do que se vê em filmes e séries, as guerras da antiguidade eram baseadas em batalhas curtas onde os soldados, com toda razão, não tinham vontade nenhuma de morrer no campo de batalha. Era uma disputa pra ver quem fugia primeiro.

Mas no mundo da antiguidade, o soldado normalmente estava lutando para proteger a própria casa, ele era a última linha de defesa antes de pegarem sua família e fazerem todo tipo de barbaridade com ela. Pelo menos um dos lados da guerra costumava ser gente se defendendo diretamente, mesmo com exemplos de exércitos mercenários de grandes “conquistadores” do passado (quase todos filhinhos de papai com dinheiro pra comprar exércitos, prontofalei).

Em 2022, a coisa é muito menos… pessoal. Ainda temos os mercenários fazendo horrores com povos invadidos, mas não é mais o mundo da impunidade absoluta como víamos no passado pré-era da comunicação. As guerras do Século XX já tinham muito desse componente impessoal da guerra: eram pessoas enviadas mundo afora para defender interesses que nem entendiam tão bem, até mesmo os horrores do nazismo demoraram um bom tempo depois da guerra para entrar na cabeça da humanidade.

No Século XXI é muito pior: além da guerra de mídia acontecer ao mesmo tempo, toda informação é derramada sobre o mundo em tempo real, pouca gente tem sequer paciência de acompanhar. Mesmo o russo, preso na sua bolha de desinformação estatal, tem muito acesso à informação que vem de fora. Não existe mais o povo totalmente ignorante do que acontece no campo de batalha, não existe mais a narrativa de heroísmo pela sua nação. Pode colar para uma minoria, mas o ser humano de hoje ainda é aquele que, com toda razão, não tem vontade nenhuma de morrer num campo de batalha.

Adicione a isso os impérios modernos e a coisa fica ainda mais grave: os americanos que iam para o Afeganistão nem saberiam que existia o país não fosse a guerra. Por mais que a máquina de propaganda dissesse que eles eram uma ameaça e tinham ajudado no atendado de 11 de setembro, depois de alguns anos a raiva e o medo passaram. E aí, era só um buraco no meio do deserto onde mandavam gente pra perder braço e perna em bombas improvisadas da guerrilha local.

O russo, mesmo aquele que compra o discurso de Putin, não vai conseguir enxergar o país que até pouco tempo atrás era a mesma coisa com bandeira diferente como um monstro prestes a atacar. Putin coloca os EUA e a União Europeia como grandes vilões por trás da história toda, mas mesmo assim… nem o russo que mora na fronteira com a Ucrânia tem muita preocupação com a guerra.

Se o inimigo não está nas portas do seu vilarejo, é difícil comprar o discurso belicista dos imperialistas modernos. Está cada vez mais complicado empurrar esse patriotismo militar goela abaixo do povo. O americano médio está cagando e andando para o Afeganistão da mesma forma que o russo médio está cagando e andando para a Ucrânia. Se perguntarem podem até ter um discursinho ensaiado, mas não é pessoal como era em tempos ancestrais. Se cidadão estivesse com medo de ser invadido por ucranianos selvagens, não estaria tentando quebrar o braço pra escapar da guerra, afinal, seria alvo ainda mais fácil na hora do perigo.

É nesse ponto da nossa história que eu acredito, talvez de forma inocente, que temos o potencial de começar a rever nossa relação com as guerras e com os líderes que as criam. Mesmo que inconscientemente, os russos tentando escapar de ir para aquela guerra sabem que é uma bobagem, que é um desperdício de vidas e recursos. Eu perdôo o povo antigo que tinha que ir junto com seu líder por não saber o que estava acontecendo de verdade, mas o ser humano do Século XXI é bombardeado com a informação sobre a completa inutilidade dessas guerras baseadas em egos inflados de políticos.

Ele pode até não ter a articulação mental para entender em detalhes porque essas guerras são absurdas, mas ele sente que tem algo errado. Ele sente que não é uma guerra dele, que ele está sendo arrastado sem razão para o abatedouro. O instinto humano de não querer se matar à toa é muito válido, passamos milênios forçando as pessoas a se matar em guerras, e só nas últimas décadas que os exércitos começaram a ter alguma capacidade de reduzir a hesitação do cidadão médio em ir para uma batalha mortal.

E mesmo assim, o segredo foi selecionar e treinar soldados em psicopatia. O que você consegue fazer num ciclo normal de treinamento militar, mas que não tem como resolver no caso dos russos, por exemplo, indo buscar centenas de milhares de pessoas normais para ir lutar na guerra. Essa pesquisa do Google é um sintoma dessa doença de guerras desnecessárias.

Uma que a humanidade pode começar a tratar se mudar sua forma de lidar com líderes. Quando você assiste alguém como o Putin consolidar poder da forma como consolidou, eventualmente você se torna cúmplice de suas decisões. Não adianta confiar em uma pessoa para resolver nossos problemas, não adianta torcer para mais força bruta resolver a situação. É crueldade dizer que o russo tentando descobrir como quebrar o próprio braço é culpado pela situação que se enfiou, mas não é uma mentira completa.

Eles não sabiam como fazer melhor, espero que estejam aprendendo. Espero que esse cleptocrata autoritário que os controla não dure muito tempo, mas… que fique a lição: você se coloca nessas situações quando tolera líderes assim, quando tolera sistemas assim.

Para dizer que pela minha lógica os ucranianos estão certos (pelo menos estão protegendo suas casas), para dizer que a corrupção nos protege (não protegeu os russos), ou mesmo para dizer que o DesfCon tem que subir de novo: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • “Atendado”? Os dois são gêmeos siameses para cometerem o mesmo erro ou são a mesma pessoa?
    Superado o detalhe, interessante notar que parte considerável do efetivo russo é formado por soldados “contratados”, e não conscritos.

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    • Mas podem surgir outras situações onde o desejo de poucos causem a vida de muitos, como foi a condução vergonhosa da pandemia. O brasileiro precisa entender que o povo tem poder.

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      • “O brasileiro precisa entender que o povo tem poder”. E o brasileiro conseguir entender isso é que é justamente o problema…

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  • Lula seria o Putin tupiniquim dando as caras depois de uns anos de ostracismo ou seria o Perón tupiniquim, que depois de anos longe da presidência concorre pra morrer no meio do mandato.
    Texto pra pensar nessa próxima semana.

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  • Mas quem se recusar a ir pra guerra, os ditadores mandam matar. Óbvio que se não fossem morrer, a maioria iria se recusar a ir. Só psicopatas curtem guerra. Eles ficam sentadinhos apreciando, enquanto os soldados morrem. Qual seria o jeito de não ir pra guerra e não ser morto pelo presidente do país?

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    • Por isso a nossa simpatia com o estado atual das coisas, mas a realização difícil de que essas pessoas contribuíram para sua situação tolerando a tomada de poder por um ditador. Tirando países realmente em frangalhos como algumas repúblicas africanas, é um processo lento de troca de liberdades por falso conforto e/ou falsa segurança. Eu realmente acredito que o povo russo é grande o suficiente para virar a mesa mesmo contra um tirano tipo o Putin, mas as pessoas precisam começar a acreditar que podem. Talvez a chamada dos reservistas acelere o processo.

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