Compartimentos.

Outro dia desses eu ouvi a história de um cidadão que trabalha com medições de data em laboratório, aquelas que estimam a idade de fósseis em centenas de milhões de anos. O trabalho da pessoa é interessante, mas as crenças dele que me chamaram atenção: a pessoa é ativa numa divisão do cristianismo que diz que a Terra não tem mais que 6 mil anos de idade. Como é possível?

Não é um texto sobre como é possível acreditarem que a Terra tem só 6 mil anos de idade, até porque eu já devo ter dito antes que isso é um cálculo maluco feito por um americano aleatório no século passado. Não se sabe por que pegou com tanta força entre crentes, mas nem o livro sagrado deles defende essa teoria.

O texto é sobre como tem gente que consegue viver com o cérebro compartimentado em crenças incrivelmente opostas. Acredita numa coisa que prova a falsidade de outra coisa que também acredita? Não dói a cabeça lidar com isso? Não existe um senso de urgência na mente para resolver uma questão dessas?

Seria fácil eu simplesmente chamar as pessoas de burras e lavar as mãos, mas o buraco é mais embaixo. Porque ser incapaz de entender as crenças conflitantes não é obrigatório. Pessoas que usam mais o cérebro tendem a dar de cara com a contradição uma hora ou outra, mas ninguém é imune de verdade.

No final das contas, o pensamento é livre. Você pode pensar tudo o que quiser, e manter mil visões malucas sobre o mundo ao mesmo tempo. Sério, vai fazer o quê? Chamar a polícia? Dentro da mente não existem regras definidas sobre o que pode ou não pode pensar.

Não existe pensamento proibido. Não querer pensar numa coisa fatalmente te faz pensar nela. É que nem achar que para meditar você precisa limpar sua mente: um erro comum (que eu cometi) de querer fazer uma faxina nos pensamentos para chegar num espaço mental vazio. Não existe vácuo na mente, se você tentar tirar uma coisa dela, outras são sugadas para o lugar.

Digo isso porque tem relação com a ideia do texto: a mente tem compartimentos e nenhuma obrigação de conectar ideias. Uma das definições de inteligência que mais me fazem sentido é a que ela é a sua capacidade de manipular e conectar ideias para construir coisas maiores. Na juventude você tem mais velocidade para mexer com esses blocos, mas ao envelhecer você pode compensar e muito conhecendo os atalhos.

Inteligência não é necessariamente estar certo, é apenas uma capacidade de lidar com as informações. E se você quiser de verdade, consegue manter várias opiniões terrivelmente contraditórias ao mesmo tempo. Ninguém erra de forma mais monumental que a pessoa inteligente: ela consegue montar castelos inteiros em cima de fundações arenosas.

Como não é obrigação que suas ideias e crenças sejam consistentes entre si, porque o seu cérebro não trabalha com o conceito de estar certo, e sim de montar blocos que possa utilizar no futuro, é essencial prestar atenção se você está sendo inconsistente a todo momento.

Não tem nenhum processo mágico que te impeça de construir uma visão de mundo inteira em cima de uma informação errada. Inclusive se em outros pontos da sua mente você sabe que ela está errada. Eu gostaria de acreditar que era impossível uma pessoa sair do trabalho onde disse que um fóssil tinha 100 milhões de anos e ir para a igreja pregar que o mundo tem 6 mil, mas não é.

Contradição não dói sozinha. Só incomoda quando pegam a gente, e se você for bom de papo ou agressivo, é possível que até convença ou assuste quem te aponta uma delas antes de ter que lidar com o problema. Parece um texto sobre nada demais, mas é uma das realizações mais assustadoras que eu já tive sobre a mente humana.

A de que tudo pode conviver nela. Que não existe uma “realidade base” que nos force a ficar dentro do mais lógico. Não tem rede de segurança, todas as crenças são possíveis. Tinha um certo conforto em ficar dizendo que não era possível que o fanático religioso acreditasse nisso ou naquilo, que o lacrador não podia estar falando a verdade ao dizer A ou B… mas acreditam e estão falando a verdade (deles).

Aqueles pensamentos absurdos estão na cabeça deles e não tem nada quebrado no Universo por causa disso. Não sei vocês, mas eu sempre usei o escudo da incredulidade quando deparado com esse tipo de pensamento místico/insano. “No fundo a pessoa sabe…”

Porque mesmo que souber, não faz diferença: a opinião ou ação inacreditável está em outro compartimento mental. Ela só conecta os compartimentos se quiser, aí sim pode fazer falta educação e proteína na primeira infância, mas o conceito base de ter ideias incompatíveis vivendo na cabeça ao mesmo tempo é isso: base.

É muito provável que eu tenha compartimentos não conectados, mesmo passando tanto tempo da vida pensando (em bobagens ou não); é muito provável que você tenha. É meio mecânico até: o cérebro vive pegando atalhos para criar nossa consciência porque não dá para processar toda a informação que chega ao mesmo tempo. Não dá para puxar toda sua memória para analisar um fato novo, só vem o que estiver mais conectado, e olhe lá, porque se isso acontecer num dia que você está cansado, por exemplo, a performance é ainda pior.

Deve ser impossível aprender e organizar informações usando todo nosso potencial ao mesmo tempo, por questões de logística cerebral mesmo: a gente tem um monte de memórias que ficam lá no fundo das camadas de pensamento até terem algum motivo para seres analisadas. Um monte de coisas que a gente sabia, mas não lembrou quando precisou. Sabe quando alguém fala a palavra que você estava tentando falar e você fica com aquela sensação que era óbvio? Por algum motivo, o compartimento dela não estava aberto.

Sim, eu sei que é lenda urbana que usamos 10% do cérebro, ele fica praticamente todo aceso quando fazem os testes, mas mesmo uma máquina biológica tão poderosa quanto o cérebro humano tem seus limites: não dá para usar todo seu conhecimento de uma só vez, não tem neurônio para manter tanta informação em destaque o tempo todo.

Os compartimentos devem ser mecanismos de eficiência cerebral, separando a complexidade infinita da realidade em bloquinhos que conseguimos lidar. Não duvido que boa parte dos problemas mentais são resultado do sistema de seleção de prioridades fazendo coisa errada e derrubando blocos demais ou de menos na construção do estado mental.

O que me assustou, e que fique claro que assustou num contexto filosófico, seria ridículo dizer que estou em crise por causa disso, é o grau de vulnerabilidade para pensamentos desconexos que todos temos. Compartimentos mentais que não se conversam e formam mundos inteiros em cima de premissas que outros compartimentos podem provar estarem erradas.

Nunca teve a sensação de “puta que pariu, isso faz muito mais sentido” quando alguém te chama atenção para uma incoerência? Espero que tenha, porque se nunca teve eu tenho más notícias sobre suas companhias e estado mental. Eu até entendo que precisamos olhar para dentro, mas até dentro existem limites e ideias cretinas. Nada impede que você esteja cultivando uma ou mais visões de mundo incrivelmente estúpidas até que você as coloque para fora e algo te force a quebrar o compartimento mental dela.

E não é que o outro vai te dizer o que é certo ou errado, é só um mecanismo útil para quebrar os compartimentos e forçar você a juntar blocos de ideias diferentes até encontrar algo que não encaixa mais. Eu tento não ser um maluco com ideias totalmente opostas, mas eu tenho todo o potencial para isso. É o mecanismo natural: repito que contradição não dói. Você pode ter mil delas dentro da cabeça e nunca vão te incomodar até você dar de cara com alguém ou algo que as confronte.

O que me pegou despreparado nesse exemplo e em todos os milhares de outros que vemos nessa era de radicalização e polarização (“o outro está errado, mas eu faço o mesmo”) é como é fácil fazer isso. Ninguém precisa se esforçar para ser hipócrita, é só viver normalmente que acontece. A mente cria compartimentos para suas ideias e basta que você não as conecte para elas continuarem crescendo e engordando felizes da vida.

Será que tem algum compartimento bizarro na minha cabeça? Será que eu consigo achar ele a tempo? O problema é que o normal é não saber disso. E dependendo do seu entorno, ninguém vai confrontar ou sequer perceber, porque é mais fácil não mexer com isso.

O problema do louco é que ele não sabe que é louco.

Para dizer que esperou até tarde para ler texto de maconheiro (nasci assim), para dizer que está esperando o C.U. me dar um tema bom, ou mesmo para dizer que agora está com a mente infectada pela ideia também: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • É só perguntar pra esse cidadão descrito no primeiro parágrafo como caralhos ele acredita que a Terra só tem 6 mil anos, problema resolvido.

    • O problema levantado no texto é que a resposta é irrelevante. É só criar um terceiro compartimento. E mesmo que você aperte uma pessoa para lidar com isso, ela pode criar uma resposta aleatória e volta a acreditar no que quiser dez segundos depois. Contradição não dói, você pode criar quantas quiser.

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