Blackfishing

O fenômeno social da apropriação de aspectos da cultura negra por pessoas de pele mais clara com o intuito de tirar proveito pessoal dessa identificação através da projeção da imagem ganhou o nome de blackfishing e vem causando polêmica nas redes sociais. (..) Os críticos alegam que isso seria o aproveitamento indevido e injusto da fama conquistada a duras penas pelos negros na sociedade. LINK


Quando problematizar e vitimizar são verbos mais desejáveis que avançar… Desfavor da semana.

SALLY

Semana passada publicamos uma notícia na coluna A Semana Desfavor onde uma infeliz de etnia branca emulava características negras nas suas fotos, usando maquiagem, permanente no cabelo e outros recursos, para se dizer negra. Pois bem, parece que isto é tendência, novos casos foram surgindo ao longo da semana e a atitude se repetiu tantas vezes que ganhou até nome: “blackfishing”.

O blackfishing consiste em se fazer passar por negro com o objetivo de conseguir seguidores e a simpatia das pessoas em redes sociais. Em bom português: para lacrar, para obter benefícios e paternalismo destinado a minorias. Para variar, os negros estão irritadíssimos: como ousam os brancos emular artificialmente as características de um negro? Só eles podem explorar a culpa e vitimismo!

Eu, no lugar deles, estaria feliz. Isto é sinal de que ser negro é status, é desejável, é belo – ainda que seja pelos benefícios obtidos a partir do coitadismo. Eu estaria honrada, finalmente a coisa se inverteu e os brancos estão querendo parecer negros. Mas aparentemente, quem tem vocação para vítima vê meio copo vazio em qualquer coisa que aconteça.

Emular características físicas de outras raças não é uma novidade. Durante décadas negros tentaram emular características de brancos alisando seu cabelo, afinando seu nariz e fazendo tantas outras intervenções. Não me lembro de nenhum branco indo lá bater no ombro e dizer: “Pode cachear esta porra deste cabelo de volta, cabelo liso é para brancos e você não é branco!”.

Acontece em todas as culturas. Orientais fazem cirurgia para “abrir” os olhos puxados e ficarem mais parecidos com Ocidentais. Não me lembro de ninguém indo dizer “Pode puxar de volta esse olhinho aí, que olho aberto é para quem nasceu no ocidente!”. Até onde eu sei, somos livres para fazer o que quisermos com nossa aparência e para dizer que somos o que quisermos. Ou o discurso empoderado e inclusivo mudou?

Já tivemos, inclusive, casos de negros que se proclamaram brancos, como por exemplo Michael Jackson. O máximo que aconteceu foi acharem o sujeito muito do estranho e, vamos combinar, geralmente por outros motivos que deixavam sua pele e seus traços em segundo plano.

O que quero dizer é que ao ser inserido na sociedade como algo rentável ou objeto de desejo, uma característica fica “copiável”. Acontece com todo mundo, com todas as raças, com todas as cores. Faz parte do pacote. Talvez negros não saibam, pois foram discriminados e rejeitados por muito tempo, mas essas são as regras do jogo.

Bem-vindos ao Planeta Terra. Vai ter muita gente se dizendo negra sim, assim como tem homem se dizendo mulher, mulher se dizendo homem e tantas outras contradições como esta, endossadas pelo mantra inclusivo “você é o que você se sente”. Criaram? Lidem com isso.

Em vez de ficar que nem criança fiscalizando a vida alheia, verificando quem é de que cor naturalmente, quem clareou ou quem escureceu a pele, vão viver as próprias vidas, que tal? Ahhh… mas aí não tem vitimização, não é mesmo? E vitimização, senhores, é um vício. Só eles podem lacrar com a narrativa que cultivaram com tanto carinho, por tantos anos…

Se antes a vitimização era “meu cabelo é considerado feio, meu padrão não é socialmente aceito”, hoje é “copiam meu cabelo, estão tentando imitar a cor da minha pele”. Nunca tá bom, né? Ou são vítimas por serem rejeitados, ou são vítimas por serem copiados. E se não for por isso, será por outro motivo, mas serão sempre vítimas. É um modo de funcionar, um vício, uma barganha constante.

Me espanta a desconexão que estas pessoas têm com a realidade. O mundinho ilusório que criaram para si. Não há a menor compreensão de como funciona o mundo real, a ponto de lutarem por causas simplesmente ridículas, como querer monopólio de um tipo de cabelo ou de uma cor de pele, quando estas mesmas pessoas em algum momento já fizeram uso de referências de outras culturas em sua aparência.

Se alguém pinta o cabelo para ficar parecido comigo, faz plástica para ficar parecido comigo, começa a me imitar e ganha dinheiro com isso, bom para a pessoa. Estou cagando se a pessoa consegue seguidores e dinheiro se pintando de azul, de preto ou de laranja. Meu foco é na minha vida e no que eu posso fazer por mim para melhorar como pessoa. E este deveria ser o foco de todo mundo.

É muito cômodo estar colocando o foco sempre em algo externo. Isso faz com que olhemos para o outro, percebamos os defeitos do outro e continuemos estagnados na nossa evolução pessoal. Podem reparar que as pessoas mais fodidas de cabeça estão sempre com o foco em algo externo, sempre controlando a vida e as escolhas alheias.

Não queriam ser iguais? Taí, a igualdade gera bônus e ônus. Desculpa, mas não dá para querer ter só o bônus. Vai ter quem copie, vai ter quem tente lucrar às custas, vai ter quem emule. E tá tudo bem, afinal, no discurso inclusivo, as pessoas podem ser o que quiserem, o que se sentirem, o que tiverem vontade. Ou por acaso o discurso inclusivo era hipocrisia?

Até onde eu entendi, no discurso inclusivo se um homem se sente uma mulher, ele pode se vestir de mulher e fazer todas as intervenções estéticas que quiser para se parecer com uma mulher. Ninguém vai recriminar, vão chamar de “guerreira”, inclusive, ainda que a “mulher” ganhe dinheiro com isso. Se um grupo de mulheres se aproxima com hostilidade dizendo “Ei! Você não tem vagina, tira esse vestido, essa peruca e essa maquiagem!” serão chamadas de preconceituosas, no mínimo.

Entretanto, esse mesmo grupinho da inclusão, do “você pode ser o que quiser”, faz isso com meninas não-negras que de alguma forma decidem se caracterizar como negras. Vão ter que escolher o discurso que sustentam, se a gente for tacar pedra em quem emula ser o que não é, tem que ser em todo mundo. Se a gente aceitar, também tem que valer para todo mundo.

Sério mesmo, larguem esse vício de vitimização. Larguem esse ciúme da vitimização: se outras pessoas querem emular serem negras para receberem curtidas por pena ou inclusão, deixa as pessoas lacrarem também. Vocês criaram esse monstro de receber atenção pela cor da pele, agora ele se soltou das correntes saiu do controle. Acabou o monopólio, outras pessoas vão usufruir disso também.

Não será que boa parte dessa putez vem do recalque de constatar que brancos estão conseguindo lacrar como negros com mais competência e sucesso que os próprios negros? Que merda, hein? Até em ser negros estão ficando pra trás…

Para me acusar de racismo, para dizer que em 2019 não vai mais haver espaço para esse tipo de palhaçadinha ou ainda para dizer que não vê a hora de poder defender tudo isso em público: sally@desfavor.com

SOMIR

Tem uma piada/reflexão ótima do Louis C.K. (antes da histeria do #MeToo matar a carreira dele) sobre raça: ele diz que se tivesse uma máquina do tempo, poderia voltar em qualquer época da nossa história e tudo estaria bem, afinal, ele é um homem branco. Mas, que se a máquina fosse para o futuro, não entraria nela não. É uma das formas mais realistas de lidar com essa questão, não podemos negar o poder que os brancos exerceram sobre o mundo – muitas vezes baseado no abuso de poder militar e financeiro – e que isso gera consequências. Tanto que no último século a estrutura de poder do homem branco finalmente começou a ser ameaçada, e nem sempre de forma pacífica. Mas, essa conta ia chegar mesmo, não importa o quanto achemos justo.

Começo assim porque acho que não está ficando claro para as pessoas reclamando do “blackfishing” o TAMANHO do que está acontecendo: mesmo que em pequena escala ainda, é a primeira vez na história da humanidade onde pessoas de outras etnias querem ser negras. A atração sempre existiu, afinal, um país miscigenado como o Brasil está de prova que vontade de procriar as raças sempre tiveram, mas dessa vez estamos vendo pessoas buscando vantagens sociais com a presunção de negras.

Então, na mesma lógica de não negar o passado e não se esquivar do que o futuro nos reserva, vale a análise de que as coisas estão mudando sim. O mundo caminha a passos largos rumo a no mínimo uma normalização de tratamento entre as diferentes etnias da humanidade. Até pouquíssimo tempo atrás (na escala da história humana) era impensável buscar qualquer vantagem através de uma aparência mais próxima dos negros. Era algo que na melhor das hipóteses recebia vistas grossas caso a pessoa tivesse alguma habilidade especial. Ser negro nunca foi vantagem por si só.

E cá estamos nós falando da polêmica de mulheres que nasceram brancas fazendo esforços para parecerem negras, viabilizando assim uma “carreira” de influencer digital focada em imagem. Tenta explicar isso para alguém que nasceu no começo do século passado que seja… talvez por estarmos tão inseridos no mundo de hoje, não consigamos perceber a virada incrível que a sociedade teve que dar para tornar esse evento possível. Claro que não resolveu o problema do racismo, mas é uma das primeiras vitórias da causa que não depende de culpa ou restituições por parte dos brancos: é uma vitória cultural pra lá de capitalista. Tornou-se lucrativo parecer negro em alguns contextos. Vitórias baseadas em lucratividade são das mais estáveis num sistema como o nosso.

Mas, assim como muita gente está com a cabeça presa numa mentalidade atrasada de superioridade racial, muita gente também ficou parada no tempo com a vitimização. Por um tempo faz sentido explicar para o mundo como foi injustiçado, mas não dá pra ficar só com isso. Eventualmente você tem que ir para a luta e conquistar suas vitórias. Quem perde seu tempo criticando coisas como “blackfishing” decide não capitalizar em cima da oportunidade e perpetuar a ideia de que grupos como o dos negros só pode crescer se os brancos permitirem. A virada de mentalidade cultural necessária para que a notícia de hoje exista é ponto de partida de algo muito poderoso se bem utilizada.

Ou pode ser mais combustível para reclamação na rede social. Como a Sally bem disse, as pessoas ficam imitando a aparência umas das outras desde que o mundo é mundo, esse chororô sobre brancas apropriando a cultura negra é ignorar uma característica das mais básicas do nosso comportamento: macaco humano vê, macaco humano imita. Ao invés de começar uma luta absolutamente inútil contra algo que as pessoas sempre vão fazer, que tal aproveitar a “moda” para enfiar o pé ainda mais fundo no ambiente cultural global e capitalizar de verdade nisso? Se as pessoas estão curtindo fotos de mulheres negras, todas as mulheres negras podem aproveitar junto com as brancas muito bronzeadas.

Eu ainda acho que os pais de uma modelo de Instagram falharam terrivelmente ao estimular o desenvolvimento intelectual da filha, mas não podemos negar que se bem feito dá dinheiro e sustenta a pessoa, sabe-se lá até quando, mas sustenta. Não está roubando, não está matando, e na maioria das vezes não está nem se prostituindo. Tem coisas piores no mundo pra se fazer, com certeza. E se nessa fauna de bundas profissionais existe a possibilidade de começar uma virada na percepção da cor de pele desejável, vamos agarrar a oportunidade. Quem sabe com o tempo isso não vai facilitando a vida de outras mulheres negras no mercado de trabalho, sabemos muito bem que ser percebida como atraente pode facilitar bastante a colocação profissional. Todo mundo gosta mais de gente bonita, fato. Não problematizar uma cabeça-oca tirando foto no Instagram com a pele muito bronzeada pode muito bem facilitar a vida de uma médica negra lá no futuro.

Mas, se no final das contas o objetivo for só se vitimizar mesmo, que destruam essas modelos “transraciais”: porque tem um efeito colateral nessa mudança de percepção sobre os negros, quanto mais a pele escura parecer desejável, menor o poder do discurso de coitadismo, menor a dose que ativistas profissionais de rede social vão receber. Eu digo isso faz tempo e repito aqui: esse povo que fica problematizando tudo relacionado com raça e gênero ama a opressão mais do que tudo, porque se sentir inferiorizado é o modo de vida dessas pessoas e não sabem fazer mais nada além disso. Vão tentar sabotar qualquer avanço real por não quererem uma solução. Igualdade é terrível para os negócios de quem ganha a vida reclamando de homens brancos na internet. Até quem mostra a bunda no Instagram é mais útil para o mundo!

E nem vamos mencionar a possibilidade das pessoas se sentirem traídas por terem elogiado uma pessoa negra só para dizer que elogiaram uma pessoa negra. Descobrir que a modelo é branca retira o “lacre” da atitude e ainda expõe que as curtidas eram um misto de pena e sinalização de virtude por parte dos que se diziam fãs. Porque isso sugeriria que nada mudou.

Para dizer que brancos não podem falar sobre raça, para dizer que pessoas inteligentes não podem falar sobre lacre, para dizer que é negro(a) e só queria que deixassem de encher seu saco: somir@desfavor.com

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Comentários (13)

  • Isso tem cara de coisa da elite tonta, ou de adolescente tardio – gente que quer um problema para chamar de seu. Na base da pirâmide as mulheres continuam fazendo chapinha, porque é mais fácil cuidar de cabelo liso do que passar horas em empresa de penteado afro, e os homens limpam o rosto, pois deixar a barba por fazer é a imagem do desleixo – sem falar que te dá uma autêntica cara de marginal.

    Não duvidem, é isso mesmo.

    • já percebeu que geralmente quem usa barba são aqueles jovens magrelinhos de faculdade que se alimentam de comidinha vegan e tem voz meio aviadada? deixam a barba crescer por ser o único traço masculino que eles conseguem ter.
      se for um cara gordo a barba é só pra disfarçar a papada mesmo.

  • IGUALDADE É O CACETE. QUEREMOS PROTAGONISMO!

    Vocês não entenderam porra de nada. Nós marcamos em cima pelo poder e pelo protagonismo. Bonito é a raça branca de vocês que saiu trucidando geral pelo mundo e traficando negro pra trabalhar nos engenhos, né? Pois então, chegou a hora da DESFORRA!

    VOCÊS VÃO PAGAR COM SANGUE O SANGUE QUE DERRAMARAM!

  • Teve um caso de um youtuber que fez vaquinha pra comprar computador e “não ficar atrás dos brancos”
    Sendo que o cerumano posta foto em Paris!

  • É simplesmente o capitalismo seguindo seu curso natural de absorver tudo que vê pela frente pra fazer dinheiro. No caso da cultura africana demorou um pouco, mas agora chegou. Nenhum choro de internet vai impedir isso. Quem sabe turbante e aquelas estampas “étnicas” epiléticas não serão a próxima moda?

    A matéria já começa bem: “Até que ponto usar tranças e maquiagem para bronzear o rosto pode ser considerado apropriação cultural?” Se você é um daqueles brancos que se bronzeiam fácil sob o Sol, cuidado pra não ser acusado de racismo!
    “Você pode apreciar uma cultura sem usar os penteados associados a ela ou tentar agir de uma maneira que não é a sua.” Não é esse povo que fala que diversity is our strength? Já não entendo mais nada.

    Só sei que Deus me livre ter filha mulher nos tempos de hoje… educar direito e estimular a inteligência da criatura não garante nada, humanos são seres sociais e a maioria se corrompe em algum nível pra se encaixar no grupo e na cultura mainstream. E a cultura mainstream é isso que nós vemos: exibicionismo, perversão sexual e desprezo a qualquer coisa relacionada ao intelecto e à modéstia. Boa sorte em tentar impedir que sua filha seja influenciada por artista americana vadia genérica.

  • Vai ter muita gente se dizendo negra sim, assim como tem homem se dizendo mulher, mulher se dizendo homem e tantas outras contradições como esta, endossadas pelo mantra inclusivo “você é o que você se sente”. Criaram? Lidem com isso. [2]

    Eu acho engraçado e ao mesmo tempo quero que se foda! Alimentaram tanto esse monstro que agora ele saiu de controle! Lacratonto que engula o choro e seja vítima do que ele criou!

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