Discutindo na internet.

Há uns 15 anos atrás, eu adorava discutir na internet. Claro que alguns temas eram mais queridos, mas a mecânica dessas discussões eram a parte mais divertida: argumentar, contra-argumentar, provocar, criar armadilhas lógicas, encontrar contradições, desvirtuar o discurso do adversário, usar e apontar falácias… eram tantas as possibilidades que parecia que isso nunca ia perder a graça. Mas só parecia.

Antes da internet, as suas opções de longos argumentos eram limitadas: eu posso contar nos dedos as pessoas com as quais eu conseguia desenvolver uma discussão racional por mais que um minuto durante essa fase. Sempre é fácil falar de algo quando duas pessoas concordam, somos programados para formar laços assim, e até mesmo pessoas menos articuladas conseguem manter uma longa conversa quando não existe a pressão da discordância. Mas é só colocar uma diferença considerável entre elas que a frustração começa a escalar as coisas para fora de uma conversa educada.

Por isso, aprendi a valorizar bastante quem conseguia não aumentar o tom de voz, partir para ofensas pessoais ou mesmo fugir para deboche puro numa dessas conversas. Na época da escola, eu fiquei muito amigo de alguns crentes basicamente por esse motivo: era muito divertido discutir religião com eles. Lembrando que era uma tempo onde crentes tinham outro status na sociedade, uma minoria que ainda tinha muita influência do protestantismo americano e não o esculacho mercantilista dos evangélicos brasileiros atuais. Podíamos discutir questões profundas (pelo menos para a minha idade) sobre a existência de deuses e sua influência na realidade. Essas pessoas não ficavam nervosas, não me atacavam, a coisa fluía mesmo na discordância quase que completa sobre as premissas.

E logo no começo da minha experiência com a internet, a minha visão sobre discutir qualquer tema era baseada nesse tipo de experiência da vida real. Você tinha uma certa noção sobre quem era a pessoa antes de começar a ir por esse caminho. Analisava se valia a pena para você e só aí começava. A questão é que em poucos anos, o mundo começa a mudar imensamente. Antes mesmo de dar tempo de se adaptar, começamos a discutir compulsivamente com qualquer um que aparecia no caminho. Mas não exatamente pelo amor à argumentação, e sim porque esse ambiente novo criava a ilusão de estarmos sob ataque constante.

A internet deixa rastros, nossas palavras não desaparecem. De repente, nos vemos no meio de uma mega discussão coletiva da qual não somos necessariamente parte, mas que chega até nós do mesmo jeito. Se alguém diz algo que é um absurdo para você numa conversa que você não está ouvindo, não faz diferença; mas essa mesma pessoa deixa essa opinião escrita num lugar, não tem temporalidade: é como se você acabasse de ouvir isso, mesmo que a outra pessoa tenha escrito isso anos atrás.

E digo mais: na vida fora da internet, se duas pessoas conversam entre elas um tema sobre o qual você tem o que adicionar, a educação presume que você não interfira. Não é a sua conversa. Olhamos com estranheza para um desconhecido invadindo uma discussão alheia. Mas na internet, a coisa é bem menos pessoal. Invadir uma conversa acontecendo num meio público não é visto como falta de noção.

Some-se a isso boa parte da comunicação humana se mudando para a internet e temos uma receita de problema: acabamos todos nos sentindo dentro de milhares de discussões, sem mecanismos claros para evitar a sensação de que somos obrigados a participar delas. A internet cria a ilusão que está todo mundo falando com você. Não fica clara a linha divisória entre o problema dos outros e os seus.

Tudo isso para dizer que quando eu caí de paraquedas na grande rede, essa armadilha me pegou imediatamente. Todo tipo de assunto me pertencia! E aí, começa a surgir outra característica importante do meio digital: todas as ferramentas que você desenvolveu em conversas da vida real começam a falhar em discussões de texto. Você não vê a outra pessoa, e não consegue entender mais sobre ela do que o que escreve.

Não dá para saber o estado emocional do outro lado, se você está discutindo com alguém que está se divertindo com uma troca de ofensas ou se está estragando o dia de alguém. Sem saber isso, um pedacinho seu começa a atrofiar: a empatia. Empatia não é só ser bonzinho para não deixar a outra pessoa se chatear, é uma ferramenta poderosa para avançar qualquer tipo de conversa. Se você consegue perceber o estado emocional do outro e adaptar seu discurso de acordo, não precisa bater tanto em escudos e normalmente seu ponto é muito mais bem aceito.

Vejam como a situação vai se estruturando: vamos entrando num mundo onde toda discussão parece nos envolver e o ambiente não permite que você exerça muita empatia. Não é uma surpresa que tantas pessoas tenham se tornado completos cretinos na internet. A segurança de estar atrás de uma tela e não poder apanhar ajuda, com certeza, mas é sempre mais complexo do que só um fator.

Eu passei anos sendo um pentelho na internet, não necessariamente porque queria fazer mal para os outros, mas porque uma parte considerável da experiência de discutir ainda era possível na grande rede. Aceita-se a limitação da empatia, invade-se conversas que não são necessariamente suas, mas pelo menos toma mais uma dose daquela sensação divertida. Mas, ainda são as mesmas pessoas daquele tempo pré-internet.

Uma maioria que não sabe ou não gosta de discutir. Eu estava lá brigando por qualquer bobagem em fóruns e redes sociais porque gostava do treinamento e derivava prazer do ato. Hoje em dia eu imagino que muitos dos meus adversários não estavam ganhando muito com a experiência. Provavelmente nem queria estar discutindo sobre religião, política, sociedade, tecnologia e todas essas coisas “chatas”. Só se sentiam obrigadas a participar daquilo, afinal, tinham escrito suas opiniões na internet.

Não percebia naquela época, mas hoje é cristalino: quem não gosta do assunto que está discutindo ou não gosta de discutir em geral é muito mais propenso a se enfurecer e começar a fazer ataques pessoais. Eu achava que era prova inegável do poder dos meus argumentos, mas considerando que boa parte dessas “brigas intelectuais” de internet não mudam a opinião das pessoas envolvidas, está na cara que na maior parte das vezes era só gente muito de saco cheio daquilo, mas que não conseguia olhar para dentro por tempo o suficiente para perceber isso.

Tanto que agora eu sei reconhecer os sinais: quando a pessoa começa a fazer muito alarde da própria inteligência e te desmerecer, pode apostar que o assunto não vai para lugar algum. É um mecanismo de proteção e uma espécie de distração da discussão frustrante. Muitas vezes nem quer dizer que a pessoa é burra e está disfarçando, nem mesmo que seus argumentos não tenham mérito, mas ela claramente não está no clima para aquilo. A experiência me ensinou a cortar a discussão assim que percebo esses sinais, senão acabamos num círculo de vicioso de “Ahá! Eu sabia que você diria isso”. Como duas personagens de uma história tentando criar reviravoltas na trama após a outra revelar seu plano.

Já foi divertido um tempo. Hoje em dia eu não consigo mais “desver”. Não consigo mais ignorar que existem dicas claras de quando você está gastando o seu tempo (e o da outra pessoa) com uma discussão inútil. Eu já sei que não vou ganhar nada, então, é masoquismo continuar.

“Somir, você só está ficando velho e sem paciência. Todo mundo é assim.”

Sim… e não. Uma coisa é ter essa percepção na vida real, olho no olho. Nessa muita gente chega sim. Mas a internet faz diferença nesse contexto. Este não é um texto sobre meu amadurecimento em relações da vida real, e sim nas relações de internet. Como eu já estava brigando em sites diversos há décadas, envelheci nesse contexto mais rápido que boa parte da população mundial. O texto passa um bom texto descrevendo as diferenças de discutir na vida real e discutir na internet justamente por isso: as suas relações ao vivo não impactam diretamente no amadurecimento nesse contexto digital. Tem que evoluir separadamente.

O grosso da população mundial está descobrindo esse ambiente agora. Por mais que pareça que estamos emburrecendo, o mundo nunca teve tanta gente minimamente articulada como hoje em dia. E boa parte delas consegue se falar. A pancadaria online continua crescendo, e o número de temas polêmicos parece aumentar na mesma proporção. Tem muita gente discutindo na internet, muita gente que não gosta ou não está preparada para discutir, que não tem prazer na troca de ideias e só se sente forçada a participar porque é o que acha que esperam dela.

E isso vai moldando nosso momento cultural. Eu argumento aqui que a imensa maioria das pessoas nem quer ter tanta coisa para decidir na vida: de repente o cidadão se vê pressionado a ter uma opinião sobre crianças trocando de sexo! Quase certeza que ele não queria lidar com isso, é um tema complicadíssimo, e a pessoa vai tomar pedrada de todos os lados se não se proteger em um grupo maior. E nem precisa ser tão específico: o que o cidadão médio realmente quer discutir sobre comunismo e capitalismo? São centenas de anos de discussão jogadas pra cima dele, e uma ilusão de que ele precisa se posicionar. Se você diz que não sabe o que responder, vai ser colocado num dos grupos à força pelos mais radicais.

Eu sugiro então que comecemos a olhar essa era de discussões como uma espécie de adolescência traumática da humanidade na era da internet. E não importa sua idade, se você chegou no mundo de discussões online recentemente, vai estar perdido por muito tempo, especialmente se ninguém te contar o que eu estou contando agora: é ruim para quase todo mundo, pouca gente se diverte de verdade argumentando. Você raramente está discutindo um assunto, na verdade está só fazendo um teste de resistência à frustração contra outra pessoa. E se você não souber a hora de sair dali, vai ficar se sentindo cada vez pior.

A experiência nesse campo me ensinou a trazer a empatia para o mundo virtual, mesmo com todas suas limitações: está mais fácil perceber quem está sofrendo ao discutir algo com você e mudar o tom. Ou, às vezes, simplesmente cortar a conversa ali mesmo. Antes eu não percebia, mas agora eu percebo. E considero uma ação maligna continuar teimando.

Via de regra, basta observar o grau de agressividade ou de projeção no argumento alheio. Se está te xingando, não é porque te odeia de verdade, é porque odeia a sensação que está tendo naquele momento. Se te chama de imbecil, é porque não aguenta mais a frustração de se forçar a continuar argumentando. É meio que uma confissão: “eu me sinto um imbecil de continuar a fazer isso com você, mas não sei como parar”.

Comece a perceber isso, e você começa a recuperar os poderes da empatia até mesmo numa discussão na internet. Minha diversão continua sendo discutir por aí, mas desde que seja com quem esteja demonstrando prazer genuíno pelo ato. De resto, é só um processo meio… bizarro de sadomasoquismo virtual. Já me sinto sujo fazendo isso.

E eu espero que com o passar das décadas, mais e mais pessoas percebam isso: que nem tudo o que está escrito foi escrito para elas, e que você não muda nada em você ou no mundo quando discute com quem odeia aquela discussão. As brigas não vão desaparecer, afinal, na vida real elas nunca pararam, mas o clima geral tende a acalmar, por mais que pareça o contrário agora.

Eu já decidi parar. Tenho e ainda vou ter recaídas, mas quando você enxerga de verdade o que está fazendo, fica muito mais fácil seguir em frente.

Para dizer que vai cobrar pela sessão de terapia, para dizer que eu só estou arranjando desculpa para ser frouxo, ou mesmo para dizer que esse texto é uma contradição: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • “o mundo nunca teve tanta gente minimamente articulada como hoje em dia.”
    Baseado em que você afirma isso?

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  • Nossa, Somir, texto que me trouxe certo ar de nostalgia do passado. Realmente, os tempos eram outros, discutir na internet era mais interessante e até divertido quando tu queria trolar alguém, hoje… vejo que isso se perdeu! Bons tempos do orkut com suas devidas comunidades que dava pra ter conversas interessantes, aprender com o outro, ou mesmo ter um fight daqueles contra-argumentando daqui e dali. E bem, tu está certo ao dizer que quando não há o que se discutir, e quando a pessoa não tem nada a acrescentar, é o jeito partir pra agressões verbais mesmo.

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  • Isso foi muito útil na minha vida, perdi a timidez e nunca mais perdi uma dinâmica de grupo. As vezes o assunto nem me interessava, mas escolhia um lado só pra praticar. Recomendo! Discutam!

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  • Já está quase no ponto. Só falta aceitar o humor de pavê em sua vida, aí virá a verdadeira iluminação.

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  • Por isso que as pessoas estão utilizando cada vez mais emojis e memes para tentar transmitir linguagem corporal e tom de voz, e olha que também não é 100% certeza que o receptor vai entender. Tem gente que parece que faz questão de intepretar o que você diz da pior forma possível.
    Aliás, sobre a empatia. Vejo que as pessoas costumam pensar em empatia como “ficar triste pelo outro”, mas se você se sente mal pela felicidade alheia, isso também é uma forma de falta de empatia. Como atacar uma pessoa que faz um post feliz sobre o pai porque trigga pessoas sem pai ou atacar uma pessoa que posta fotos do seu progresso na perda de peso.
    E, sinceramente, maior parte das interações da internet não tem valor nenhum fora um pouco de entretenimento, ou estresse dependendo do caso. Depois de fazer o logout e tirar os olhos da tela não sobra nada.

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    • Eu já estava desconfiando desse poder dos emojis, especialmente porque os jovens pegam isso quase que instintivamente. Às vezes um sorriso ou uma careta já resolvem uma troca de ideias. Eu não uso, mas meu preconceito com quem o faz fica menor a cada dia. Pode ser o jeito de muita gente escapar das armadilhas de discussões vazias na internet…

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  • Passar muito tempo discutindo na internet é coisa de quem não tem amigos na vida real e precisa de uma falsa sensação de socialização.

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    • Mas também tem um fator “droga” nisso tudo. Ser escroto na internet pode gerar recompensas na cabeça da pessoa, e ela pode até ficar viciada. Eu temo que muita gente que não era de ficar tretando com os outros na vida real vai começar a importar esse comportamento online para o real. Talvez já esteja acontecendo…

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