Quando vemos estatísticas sobre quantas mulheres já sofreram algum tipo de abuso sexual, não só o estupro propriamente dito, mas qualquer tipo de importunação e coação nesse sentido, os números são assustadores. A maioria delas tem histórias para contar de alguma vez que um homem passou dos limites e as fez se sentirem violadas e/ou inseguras. Isso é um sinal claro de que os homens em geral têm um problema, não?

Como eu acredito que toda boa resposta começa com “depende”: depende. Se estamos falando de uma cultura que ensina o homem a tratar a mulher como um ser sem vontade própria, eu concordo que temos um problema. Se estamos falando de uma cultura que faz com que o homem médio acredite que possa estuprar qualquer mulher, tem algo muito importante para pensar aqui, algo que é muito estranho que não se considere…

Quem disse que cada mulher que sofreu um abuso foi abusada por um homem diferente?

Se um homem entra no metrô todos os dias para passar a mão em mulheres, e faz isso por dez dias seguidos, teremos dez mulheres diferentes dizendo que sofreram abuso e um homem que causou tudo isso. Se você não souber do contexto desse único abusador, o seu cérebro vai fazer as contas de forma proporcional: dez homens abusaram de dez mulheres. E aí, ao invés de pensar num indivíduo criminoso, você começa a pensar numa sociedade criminosa.

Um indivíduo criminoso cabe no nosso senso de justiça, uma sociedade criminosa não. Quando as pessoas acreditam que a regra do mundo no qual vivem é que elas vão ser abusadas, a forma de lidar com o abuso é muito diferente. Eu não duvido que mesmo em sociedades institucionalmente machistas as mulheres se sintam péssimas quando são abusadas, mas seu sofrimento acontece de forma diferente: internalizado, com aquela terrível necessidade de acreditar que “as coisas são assim mesmo” para continuar vivendo.

Um dos grandes avanços sociais das últimas duas décadas foi a “liberdade” que muitas mulheres tiveram para denunciar homens que abusaram delas. É claro que isso é muito mais realista para mulheres de alta renda e visibilidade, mas foi-se enfraquecendo a resistência da mulher média a comunicar o abuso recebido. Quando viram alguns figurões antigamente intocáveis serem punidos pelo que fizeram, começaram a ver uma chance de buscar justiça.

E acho que todo mundo percebeu um padrão: quando uma denuncia, vem uma chuva de outras mulheres dizendo ter sofrido também. Todas estavam quietas até então, com medo de serem ignoradas ou sofrerem represálias, o que eu imagino que deva doer muito também. Se elas percebem que aquele indivíduo está sendo reconhecido como um bandido, o senso de justiça sai do quarto escuro da vergonha e do desânimo.

Porque naquele momento, não é mais sobre lidar com uma sociedade que não se importa com mulheres que são abusadas, é sobre pegar aquele safado que achou que ia escapar impune! É muito difícil imaginar que vai mudar o mundo, mas denunciar um homem é muito mais simples de imaginar e realizar, especialmente quando a mulher percebe que vai ter apoio.

Agora vamos voltar à questão dos números: quando pegam um médico que abusa de pacientes, ele normalmente já abusou de várias antes de ser denunciado pela primeira vez. Se descobrem que um guru estava se aproveitando de suas seguidoras, os números sempre são superlativos! Esse abusador vitimou centenas de mulheres, e isso entra nas estatísticas. Só que quando lemos elas sem esse contexto, um abusador vale por centenas de homens.

O que claramente não é o caso. Se o homem médio tivesse o comportamento desse tipo de estuprador, eu sinto dizer para as mulheres que elas nem teriam o conceito de abuso na mente. Seria algo que toda mulher viveria cinquenta vezes por dia, nem pareceria abuso porque seria o status quo social puro. A ideia de estupro só existe porque temos uma maioria de homens que não fazem isso na maioria das vezes que tem a oportunidade. Senão seria só mais um fato genérico da vida.

Temos uma minoria de homens hiperagressivos sexualmente que respondem pela maioria dos casos de abuso. É a famosa regra do 80/20, 80% das coisas são feitas por 20% das pessoas. Esse número não tem nada a ver com dados sobre estupros, é apenas uma lógica que se repete muito na natureza: os seres com maior propensão de fazer uma coisa fazem essa coisa tantas vezes que bagunçam a lógica da conta geral.

Se tiver um estuprador no meu quarteirão que já abusou de cinquenta mulheres, e outros 49 homens que nunca fizeram isso, eu sou um dos que ganha um estupro cometido na conta média do quarteirão. Muito cuidado com análise de números, Estatística é um curso superior por um motivo: você pode ser enganado facilmente se não souber analisar esse tipo de dado matemático.

Estou escrevendo este texto para dizer que nem todo homem é estuprador e “proteger a minha classe”? Sim, mas é um argumento bem menos egoísta do que parece: tem uma questão de cenário político e social moderno que pode acabar atrapalhando os necessários avanços na proteção das mulheres nesse mundo. Quando eu falo dos perigos da “esquerda identitária”, eu não estou pregando a volta de valores cristãos, eu rezo pelo dia que a religião desapareça.

A questão aqui é sobre separar a humanidade em grupos e reduzir a responsabilidade do indivíduo. Eu SEI que o pensamento que gerou essa ideia de separar a humanidade em grupos baseados em opressores e oprimidos é muito mais complexo do que o espantalho criado pela “direita moderna” (vulgo quem se informa pelo WhatsApp), eu SEI que começou como uma estratégia diluir o preconceito contra grupos minoritários por causa das ações de alguns de seus elementos.

Começou para explicar que o terrorista islâmico não era a representação verdadeira dos seguidores da fé, e que tínhamos que analisar ele pelo escopo da realidade cruel da qual ele vivia, que pessoas sem esse passado traumático não poderiam ser comparadas.

Começou para explicar que os negros não são desproporcionalmente presos por serem todos bandidos, e sim porque novamente, o racismo tinha papel histórico em prender pessoas negras dentro de situações que os empurravam para a criminalidade, para dizer que o racismo também aumentava a probabilidade da pessoa ser tratada como criminosa.

Começou para explicar que ser gay não tinha nenhuma relação obrigatória com promiscuidade, e sim que por estarem num grupo marginalizado eles acabavam isolados em guetos sociais, vivendo nas sombras e sem o mesmo suporte social e liberdade que pessoas heterossexuais.

Sim, eu sei que não é um plano maligno marxista para destruir a sociedade, eu não sou imbecil que nem o lacrador de direita médio. Porém, qualquer movimento bem-intencionado pode ser desvirtuado por uma onda de seguidores estúpidos. Pode até ter uma base ideológica nobre, mas quando isso cai na mão de gente aleatória na internet, é claro que as coisas ficam degeneradas. Lembra quando direita era querer menos impostos? Eu lembro, bons tempos, concordava com muita coisa. Agora é comprar armas e flertar com teocracia.

Da mesma forma que a direita degenerou, a esquerda também. Não sei quem começou, mas um alimentou o outro. E como nossos pais nos diziam quando éramos crianças: não importa quem começou, importa parar de brigar. Enquanto a pancadaria continuar, mais e mais gente incapaz de entender a complexidade argumentativa das ideologias que segue vai se radicalizar, e tornar em paródias as ideias originais.

A ideia de que temos que olhar para os grupos para compreender os indivíduos degenerou para esse fetiche sadomasoquista de encontrar quem é o dominado e quem é o dominador. E nessa, olha a besteira: quando falamos de violência sexual contra a mulher, o indivíduo é ignorado para criar um preconceito generalizado contra o grupo dos homens. Não é exatamente uma inversão da ideia original, é uma perversão dela.

Usar um indivíduo para definir o grupo. A ideia de que todo homem é estuprador é a ideia de que todo negro é bandido, de que todo gay é promíscuo, de que todo judeu é manipulador… e pior: a solução apresentada pela esquerda identitária é mudar todos os homens, tirando deles sua característica inata que causa todos os problemas. Imagina se alguém diz um absurdo desses sobre outro grupo que não homens?

Ignorando completamente o fato de que em todos os grupos que possamos criar na humanidade, sempre vai ter uma minoria agindo de forma compulsiva e desequilibrando a média do grupo. Os avanços que as mulheres conseguiram contra os abusos que sofriam foram baseados em identificar e punir indivíduos, não no grupo masculino como um todo.

E se continuarmos nessa insanidade identitária de culpar o grupo pelo indivíduo, ao invés do caminho original de entender o indivíduo pelo grupo, eu temo um atraso enorme no desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária.

Grupos pressionados por preconceitos externos se unem com mais força: um dos grandes problemas atuais no caso dos abusos das quais as mulheres são vítimas é a tolerância da maioria dos homens. Isso deve ser combatido também, mas isso não funciona se você chamar um homem que não é estuprador de… estuprador. A rejeição à acusação é tão forte que só incentiva vistas grossas.

Não precisa ser homem ou mulher para isso: todo mundo gosta de se sentir um herói pela justiça. E é muito difícil vestir essa capa de heroísmo se você é tratado como vilão. Essa era a porcaria da lógica original dos pensadores que criaram essa ideia de enxergar a humanidade numa dinâmica de grupos interagindo entre si, mas quando isso caiu na mão de gente que não consegue entender esse conceito básico, vira “todo homem é estuprador” com a certeza que não está falando algo aberrante e contraproducente.

E eu adoraria não ser colocado junto com a direita moderna por pensar assim, eles acreditam em cobra falante…

Para dizer que isso não torna sua vida mais segura, para dizer que quem não deve não teme, ou mesmo para dizer que se o Lula ganhar eu vou passar de comunista para extrema direita na hora: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • No dia a dia só para dar um exemplo quando um homem que você nunca viu na vida agarra seu braço em uma festa e você fica com medo ele leva isso como uma ofensa pessoal como seu tivéssemos que saber que “ele só quer conversar”.
    Concordo 100% não podemos julgar o coletivo pela ação de alguns, mas muitas vezes é questão de sobrevivência desconfiar e novamente os grupinhos mais barulhentos estragam uma causa correta.

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  • Muita gente não consegue analisar números, relacionar causas com efeitos e depende sempre de algum agente externo (um pastor, um político de estimação, a mídia, uma rede social) pra julgar alguma coisa como boa ou ruim. Isso sem falar nos muitos preconceitos incutidos como verdades absolutas desde a mais tenra infância e na pouca capacidade dessas pessoas de entender a informação que recebem.

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  • A propósito, eu tenho um artigo que é exatamente sobre isso, mas como é um estudo de cuspe de barbeiros, o impacto foi meio limitado.

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  • Estatística e interpretação de texto serão a salvação da humanidade. Vamos criar a Igreja Média Harmônica.

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  • Quando se totaliza ou generaliza um grupo através de uma ocorrência, pode acontecer duas coisas: as pessoas mencionadas abandonarem a causa (não ajudo nem se eu ver morrendo na rua, que se vire), ou se obcecarem a ponto de perderem bom-senso (desculpe por ser homem, vou usar calcinha).

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    • Concordo com você, Ana. No fim das contas, generalização é um exagero que acaba levando a outros exageros.

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  • Tomara que você esteja certo, porque vendo o comportamento de vários homens por aí dá até medo. E agora com todo esse dilema das mulheres trans/drags, que abriu margem pra homens brancos tentando invadir os espaços que as mulheres lutaram pra conquistar… As lésbicas ameaçadas por trans que o digam. E não são tão diferentes do black face: um deboche, uma caricatura ofensiva e degradante de um grupo historicamente oprimido.

    Enfim, ocidente e oriente, ambos misóginos à sua maneira.

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