Samba do brasileiro doido.

Sally me mandou o link de uma notícia no começo da semana, lamentando-se que pela semana temática de carnaval, não poderia abordar o assunto. O assunto? Daniel Alves mudara sua versão mais uma vez sobre a acusação de estupro que recebeu na Espanha, dizendo agora que na verdade, o abusado tinha sido ele. Foi quando eu percebi que não precisávamos sair do tema para abordar o caso. Isso tem tudo a ver com a mentalidade do brasileiro sobre o Carnaval: a ideia de que todo mundo é burro só porque ele é também.

Vai demorar um pouco para amarrar tudo isso, então vamos estabelecer melhor a notícia, com trechos de notícias sobre o caso:

Preso na Espanha por agressão sexual, o jogador Daniel Alves teria alterado novamente a sua versão sobre o acontecimento. O lateral-direito teria afirmado desta vez que foi vítima de abuso sexual por parte da mulher que denunciou. O ex-jogador do Barcelona disse ainda que escondeu as informações para proteger a mulher.

(…)

De acordo com o jornalista espanhol Cesc Maideu, do jornal Ara, em seu último depoimento, o brasileiro afirmou que a suposta vítima o teria assediado no banheiro da boate.

“Eu não toquei naquela garota. Ela veio para cima de mim”, teria insistido o brasileiro em depoimento, segundo o jornalista. – Fonte

Bom, espero que você lendo o texto não seja do tipo que precise de muito convencimento para achar a versão do jogador brasileiro no mínimo bizarra. Se quiser mais dados sobre o processo, tem um Desfavor da Semana só sobre o caso. Repetindo um pouco do que disse lá: não é um caso só de versões conflitantes, é bem sólido na parte de provas, testemunhas e até mesmo na reação da vítima.

Não vou negar que como homem, eu sempre fico um pouco reticente de acreditar em histórias de estupro sem evidências claras, afinal, a ideia de ser acusado injustamente e ser moído pela sociedade também me assusta. Existem sim mulheres que abusam do sistema para tirar dinheiro ou mesmo sacanear homens que as irritaram por outros motivos. Precisamos sim de mais do que a palavra de uma pessoa contra a da outra: é a única forma de garantir justiça e eliminar fatores emocionais.

Neste caso, Daniel Alves não só tem uma pilha de evidências se juntando contra ele, como as diversas histórias que contou desde que foi preso demonstram como tinha algo muito errado ali. Não ser coerente no que diz não é exatamente um crime, mas é um excelente fator de previsão para se pegar uma mentira. Analisando de forma bem amoral, mentir é parte do jogo. É tão razoável esperar que o criminoso ou pessoas muito ligadas ao criminoso mintam para se defender que nem é considerado um crime extra: é impossível entrar na cabeça delas para saber se a mentira é fruto de cálculo frio ou se é uma reação emocional intensa de negação da realidade.

Todo esse papo para dizer: puta que pariu, isso é coisa que se diga? Que na verdade é a vítima nesse caso? A pessoa não tem vergonha de tentar virar o jogo com uma história maluca dessas depois de tudo o que já apareceu sobre o caso? Não acha forçado dizer que uma mulher aleatória abusou dele (adulto, rico e atleta) num ambiente tão público como uma boate?

É aí que os temas se misturam: não. A pessoa não tem a menor vergonha de falar qualquer tipo de bobagem, presumindo que todo mundo é otário e que de alguma forma vai colar. Daniel Alves fala esse tipo de coisa sem nenhum filtro interno porque está apostando no acordo silencioso entre os brasileiros de não cutucar a mentira do outro se ele pode se beneficiar dela também. O Carnaval é basicamente isso: gente fingindo que não só quer encher a cara e tentar fazer sexo casual, tentando criar uma aura de manifestação cultural importante ao redor.

Se todo mundo fingir ao mesmo tempo, a pessoa não precisa lidar com a ideia de que está agindo de forma bestial. E vejam bem, eu lido relativamente bem com quem bate no peito e assume que só está nessa pela bebida e pela putaria. Até acho meio limitado, especialmente pela parte da bebida, mas vá lá fazer as coisas que gosta e assumir as consequências. É bem mais adulto.

Quando está todo mundo querendo acreditar na mesma bobagem que você, é fácil empurrar qualquer narrativa. Gente com 40 anos nas costas saindo na rua para “brincar” o Carnaval, dizendo que é sua cultura e que é uma linda festa de manifestação popular, quando é uma baixaria e um culto à mediocridade na maioria dos casos. Um monte de fantasias e adereços toscos, suor e urina para tudo quanto é lado…

O que Daniel Alves não deve ter percebido, e digo mais, o que muito brasileiro médio não percebe, é que tem uma diferença fundamental quando as outras pessoas não tem interesse próprio na mentira que você repete. Se todo mundo quisesse acreditar que mulheres abusam de homens em banheiros de boate o tempo todo, seria relativamente fácil empurrar essa versão. Mas o brasileiro médio não precisa dessa ilusão. O espanhol médio então… tenha em vista que a prisão dele foi mantida.

Em fato relacionado, os espanhóis disseram que o caso do Robinho, também acusado e mais ainda, condenado por estupro na Itália, foi decisivo para a manutenção da prisão de Alves. O ex-jogador saiu correndo da Itália e veio se esconder no Brasil, que não faz extradição de seus cidadãos nesses casos. Previam que Daniel Alves faria o mesmo, fugindo da Espanha para gozar de impunidade em seu país tropical abençoado pela bandalheira. A fama do brasileiro não é muito boa nesse sentido, e é baseada em pós-conceitos.

A cara-de-pau com a qual pessoas como Daniel Alves mentem é uma constante por estas bandas. Mentiras absurdas, infantis, desconectadas com qualquer senso de realidade. Eu acho fascinante quando o brasileiro médio é pego na mentira e fica extremamente confuso por não ter funcionado: ele vive fazendo isso com outras mentiras socialmente aceitas e não conecta os pontos sobre esse nefasto acordo social.

A mentira do Carnaval sendo algo a mais do que um feriado usado por muita gente para fazer o que fingem achar errado o resto do ano só reforça essa mentalidade. O país da putaria que uma semana depois é totalmente contra o aborto. O país das prostitutas infantis que se preocupa com escolas mencionando homossexualidade, mesmo que de passagem.

A mentira é pervasiva e de baixíssima qualidade. O cidadão se acha muito esperto, mas na verdade não passou do padrão básico de mentira de uma criança: dizer qualquer coisa que o exima totalmente da culpa ou da hipocrisia. Não tem meio termo, a mentira é sempre um exagero que qualquer pessoa pode perceber. Talvez isso crie a ilusão de que todo mundo é otário, e que qualquer situação possa ser resolvida com fabricações absurdas.

Quando esse cidadão que viveu na mentira tosca lida com uma situação complicada, ele só consegue fazer o mesmo que sempre fez antes: falar a primeira coisa que vier na cabeça e torcer para colar. Funciona quase o tempo todo, afinal, os interesses médios do brasileiro são parecidos. O acordo sobre ignorar hipocrisia, incoerência e até mesmo preguiça reinam nesta terra.

A cultura do Carnaval como “truque” para vencer a culpa cristã disfarçando bebedeira e sacanagem como evento cultural de alta relevância tem conexão sim com o tipo de mentira que pessoas como Daniel Alves contam como se nada. Faz parte não assumir responsabilidade. Faz parte gastar meio neurônio na história mais preguiçosa possível, com a certeza da impunidade pela vontade do próximo de acreditar. Afinal, se tolerar a palhaçada alheia, a chance de tolerarem a sua é maior.

Está na raiz do que é ser brasileiro esse tipo de mentira estúpida. E como eu sempre digo: outros povos fazem coisas ruins também, mas a gente foca no que conhece, e que mesmo em pequena escala, pode influenciar. Eu já passei muito tempo da minha vida revirando os olhos e fingindo que acreditava quando mentiam dessa forma patética na minha frente, hoje em dia eu não chego a brigar, mas demonstro que não estou com saco para papo furado. Não sei o quanto isso pode ajudar, mas acho saudável mostrar para as pessoas que não está colando.

Você escala a situação o quanto quiser, quase sempre não vale a pena passar de um olhar debochado (até porque tem gente brutalizada demais por aí), mas que só fique uma dica para o outro que você não quer brincar daquilo. Eu já acho um bom começo não bater palma para brasileiro médio dançar. Eu realmente acho que no fundo a pessoa tem noção que a mentira é uma porcaria, mas continua fazendo porque funciona.

O problema do estupro com certeza é muito pior do que o da mentira bizarra e da cara-de-pau de contar ela, mas a minha impressão é que existe uma relação profunda entre as duas coisas: a certeza da impunidade de anos e anos contando mentiras óbvias deve influenciar a pessoa a empurrar os limites um pouco mais longe.

E se todo ano um festival de hipocrisia toma conta do país, mesmo que cada vez mais murcho, isso mantém a contaminação no inconsciente coletivo. O tema original deste texto era sobre a falta de propósito do Carnaval numa sociedade como a brasileira moderna, que já leniente o suficiente com promiscuidade alcoolizada, mas o caso em questão me fez pensar sobre como é mais do que baixaria movida à cerveja barata: é um modo de funcionar, fingindo que não está fazendo o que obviamente está fazendo, com mentiras absurdamente transparentes que as pessoas aceitam por fazer parte da cultura popular.

Fica esse clima de que tudo vai colar. Por sorte, os espanhóis não estavam interessados em perpetuar a cultura tupiniquim dessa vez. Poderíamos seguir o exemplo.

Para dizer que eu deveria mudar de país (eu sei), para dizer que ninguém mais liga para Carnaval (o conceito é maior que a festa), ou mesmo para dizer que a mulher que continua anônima só quer aparecer às custas dele: somir@desfavor.com

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Comments (12)

  • Promiscuidade Alcoolizada

    Dou razão ao anônimo que disse que Daniel Alves se estrepou por lá fora as coisas serem diferentes.

    • Sabe o que mais pesou? Que quando Robinho foi condenado por estupro, meteu o pé, foi ao Brasil e agora não podem prender ele. Os gringos perceberam que brazuca, se puder, foge. Não devem soltar o Daniel Alves tão cedo.

  • Aquilo, né: o esperto acha que todo mundo é otário menos ele… Uma hora a conta chega (em um país sério, pelo menos)

    • Concordo. Muito mais tonto é o tonto que acha que todo mundo é tonto também. E todo castigo pra esse tipo de gente é pouco…

  • Pior do que a mentira é constatação de que o brasileiro é incapaz de sustentar seus próprios B.O.s. É uma vontade louca de fazer merda, mas não sabem lidar com as consequências, por isso entram em negação e mentem. Não sei se é exclusivo do brasileiro, do latino ou uma herança ibérica, só sei que preferem fugir das responsabilidades dos próprios atos. Muito cansativo lidar com esse tipo de gente, recomendo o ostracismo, nem que seja só da nossa bolha.
    Obs.: não me misturo.

  • Normalmente não comento os textos do Somir, mas quero deixar umas dicas:

    – Se você acreditou no Bolso-Filho indo para o Catar durante a Copa mostrar pendrive com “denúncias”, não acho que tenha moral para ridicularizar a mentira descarada do Daniel Alves.
    – Se você acreditou que Cloroquina era um medicamento eficiente contra covid mas “a indústria farmacêutica” “não queria que as pessoas saibam”, não acho que tenha moral para ridicularizar a mentira descarada do Daniel Alves.
    – Se você acreditou que vacinas continham grafeno, micro-chip ou qualquer coisa nociva à saúde e poderiam ser usadas como mecanismo de controle social, não acho que tenha moral para ridicularizar a mentira descarada do Daniel Alves.
    – Se você acreditou que Lula é inocente em todos os processos, foi absolvido e só foi processado por perseguição política, não acho que tenha moral para ridicularizar a mentira descarada do Daniel Alves.
    – Se você acreditou que Dilma foi tirada do poder por um “golpe” (com julgamento, legítima defesa e contraditório respeitando a Constituição), não acho que tenha moral para ridicularizar a mentira descarada do Daniel Alves.

    Meu ponto é: é muito fácil apontar para o Daniel Alves e dizer “ai que burro”, mas tem muito burro fazendo isso, burro que acreditou em mentiras do mesmo nível. Pense bem no que você andou acreditando durante a pandemia ou durante as eleições (eu lembro de cada comentário) antes de levantar a voz para tirar onda com uma pessoa burra.

    • Tá explicado. Aqui esses tipos de historinhas são bem aceitas, ele se lascou porque lá fora a coisa é diferente.

    • 1- Não me interessa o que os filhos do Bozo vão fazer nas viagens, nem soube disso.
      2- Não sou médico pra entender de remédio mas pesquisei que Cloroquina é pra verme e não vírus.
      3- A gente tava acostumado a vacina demorar anos, normal ficar receoso com uma tão rápida, mas que bom que evoluímos e agora é rápido. Deixei meus conhecidos se vacinarem primeiro pra ver no que deu e depois eu fui. Minha tia passou mal com a Janssen, a mesma que descobriram que o Bozo tomou e falou que não tomou, então vai da pessoa.
      4 – O Lula é corrupto porque todos são. Quem é honesto nem chega na política, o esquema não deixa entrar.
      5- Dilma foi retirada pelo mesmo motivo acima.

  • Puta que pariu! Até quando se trata de mentir e tentar enganar o brasileiro é incompetente e faz tudo “nas coxas”…

  • Será que não tem nenhum homem pra mandar esse animal calar a boca? Porque quanto mais merda ele fala, mais se afunda. Ele pensa que todo lugar é igual o Brasil, que ia ter impunidade, que as pessoas acreditam que mulher estupra homem. Só nos faz passar vergonha internacional mesmo

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