Barulho social.

O ser humano é capaz de se interessar por muitas coisas diferentes, o que nem sempre é uma boa coisa. Sally e Somir concordam que a sociedade atual gasta energia demais com coisas erradas, mas não entram em consenso sobre o que é mais danoso. Os impopulares tentam se interessar.

Tema de hoje: entre as coisas “erradas” que a sociedade dá importância atualmente, qual a mais nociva?

SOMIR

Política. Aposto que muita gente que passou a vida defendendo que a sociedade humana se tornasse mais politizada ficaria decepcionada com o resultado disso no século XXI. Difícil ficar orgulhoso de uma sociedade que se tornou política sem passar pela etapa da argumentação. Embora eu concorde que futilidades e subcelebridades em geral não sejam positivas para a humanidade em geral, pelo menos esses temas cabem dentro da capacidade cognitiva média do ser humano. Política ainda não.

O tema é extremamente complexo. Tanto que estamos há literalmente milênios tentando resolver os problemas de nos gerenciar em grandes escalas sem um resultado claro. As coisas não dependem apenas do que parece mais correto, mas das complicadas relações entre as políticas sugeridas e o povo que tem que viver com elas. Se você acha que política é achar uma boa solução e fazer todo mundo obedecer, você entendeu tudo errado. Política é sobre navegar entre incontáveis visões conflitantes e tentar alcançar um mínimo de consenso.

E adivinhem só qual é a visão do cidadão médio sobre política? A mesma do torcedor de um time de futebol! “Meu time é melhor que o time do adversário e eu nunca vou abandonar ele!”. Podemos culpar a internet por isso, nunca foi tão simples dar sua opinião nesse mundo, e nunca foi tão fácil encontrar simpatizantes de qualquer visão, seja lá quão bizarra e dissociada da realidade que seja. A mesma realidade que permite os terraplanistas tornarem-se relevantes milhares de anos depois da humanidade provar que o planeta é redondo permite que radicais políticos se reúnam para cuspir suas certezas sobre os rumos da sociedade humana.

A triste realidade é que política é difícil. Muito difícil. Já tentou coordenar duas pessoas para escolher o que jantar? Seres humanos podem ser muito parecidos, mas isso não impede que duas pessoas com as mesmas premissas cheguem em conclusões completamente diferentes. Tem algo quase que aleatório na quantidade de caminhos diferentes nos quais alguém pode seguir se começar a pensar em algo. E isso é muito frustrante. Imagine só: você se depara com um problema, acumula informações, pensa sobre o tema até encontrar uma solução… só para descobrir que outra pessoa quer lidar com isso de uma forma totalmente contrária à sua conclusão! Precisa ter sangue frio para lidar com isso.

E isso considerando que você se esforçou para encontrar seu posicionamento político, normalmente estamos falando de alguém que pegou meia dúzia de certezas mal fundamentadas na cabeça e aplicou sobre uma questão complexa. O mundo moderno permite que política seja feita de ideias “fast food”: produzidas em escala industrial só com as partes mais saborosas. Uma ideia bem desenvolvida e calculada para gerar consenso entre o máximo de pessoas possíveis é muito menos “calórica” do que discursos de ódio e divisão social. O ser humano tende a preferir a retórica do inimigo comum (homem, mulher, branco, negro, etc.) do que a da negociação para encontrar meios termos.

Por isso que o cenário político moderno é esse festival de macacos jogando merda uns nos outros. Não que fôssemos muito mais elevados em tempos passados, mas não estávamos tão expostos uns aos outros. Política era algo um pouco mais distante do cidadão médio, o impacto da sua opinião ficava mais restrito ao seu grupo próximo, pessoas que você conhecia e convivia diariamente. As pessoas não se sentiam obrigadas a formar uma posição política clara pela pressão daqueles que as cercavam, como é de praxe nos dias atuais. Você podia ser menos político ou ignorar o assunto completamente se não se sentisse capacitado para opinar. Hoje em dia, todo mundo acaba provocado a dar sua opinião. E, adivinhem só, não é todo mundo que está preparado para isso.

Você precisa estudar para ter uma boa opinião política. Claro, é simples saber onde o seu calo aperta, mas não é só sobre o que te incomoda quando falamos desse tema. A sociedade humana é um equilíbrio constante de custos e benefícios para todo mundo, nunca vai estar perfeito para todos, afinal, estamos competindo por recursos limitados com graus de ambição, oportunidades e esforços muito diferentes entre nós. Não é só escolher um time ou defender seus amigos e parentes, é entender a quantidade enorme de engrenagens funcionando e defender o funcionamento da vida em sociedade antes de qualquer coisa.

Precisa saber sobre história, sobre economia, psicologia, comunicação… e isso não acontece lendo posts de WhatsApp ou Twitter. Claro que você pode se informar usando a internet, mas é um processo demorado para pessoas realmente interessadas em aprender. Interesse em política sem interesse em aprender como a sociedade humana funciona é gostar de futebol só durante da Copa do Mundo. Não é intrinsicamente ruim, mas te faz um mero turista no assunto. Imagine só uma pessoa dessas argumentando que se trocasse o goleiro por um atacante, o time faria mais gols… é mais ou menos o que quem entende um mínimo de política percebe sobre quem claramente só está nessa pela discussão inflamada, sem o esforço necessário para entender sobre o tema, sua opinião não é nada mais do que uma observação externa curiosa. Pode ser interessante às vezes, mas não deixa de ser mal informada.

O ser humano médio tem condições de lidar com fofocas. É basicamente o que todo mundo aprende a discutir desde a mais tenra infância. Gente limitada tende a falar exclusivamente sobre outras pessoas. Quando a coisa fica mais complexa e temos que lidar com conceitos complexos como a organização política da humanidade, saímos completamente da área de expertise da maioria das pessoas. Uma sociedade politizada é útil até certo ponto, porque sem capacidade de entender o tema, somos apenas palpiteiros. Palpiteiros que colocam Lula e Bolsonaro no segundo turno das eleições para presidente… política é difícil.

Para dizer que bons eram os tempos onde mulher não votava, para dizer que devemos voltar para a monarquia, ou mesmo para dizer que tudo é melhor que subcelebridade: somir@desfavor.com

SALLY

Entre todas as coisas “erradas” às quais a sociedade está dando importância, qual é a mais nociva?

Vida de celebridade e subcelebridade. Além de não acrescentar absolutamente nada para quem assiste, essa fofoquinha ainda distrai e impede de olhar para você mesmo e para tudo que pode evoluir ou melhorar. É tempo perdido e, além de ser tempo perdido, também é informação que joga contra o destinatário, pois cria uma falsa expectativa de realidade que faz a pessoa se odiar, odiar seu corpo, odiar sua vida, ou, ao contrário, achar que tá tudo ótimo, só porque tem alguém bem mais fodido do que ela.

Perder seu tempo com coisas externas a você que não acrescentam absolutamente nada é burrice. Mesmo para se distrair ou ter algum lazer, existem opções mais… nutritivas. Focar na vida pessoal de terceiros deveria ser motivo de vergonha, primeiro pela postura stalker, que alimenta esse inferno de invasão e evasão de privacidade, segundo por se alienar da própria vida, inclusive da própria família, para focar na vida alheia. Tem mãe que não sabe o que o filho anda vendo no Youtube mas sabe tudo do último escândalo de infidelidade entre globais.

Reparem como está a cabeça, como está a mente, como estão as escolhas de vida de quem faz isso. Olha pro profissional, pro pessoal, pro relacionamento. Na maior parte das vezes, não é gente que está levando uma vida saudável. Pode até ser gente que aparente isso, é que as insônias, as crises de pânico, as depressões, os remedinhos que conseguiu com uma amiga… isso ninguém conta.

Sim, viver em função de política é nocivo, é doentio, é um tremendo desfavor. Porém, acredito que um mínimo de relevância política tenha que ter. Política influencia diretamente nas nossas vidas, pois mexe com leis, proibições, economia e uma série de outros fatores que nos afetam. Vida de famoso não, relevância zero, duas linhas já são perda de tempo. Uma foto já é perda de tempo.

Walk the talk: mesmo quando falamos de famosos aqui (o que, convenhamos, não é frequente) não é para noticiar nada. Mesmo quando falamos do Pilha na Fazenda, o auge da futilidade, não é fofoca. Sempre tem um conteúdo, uma opinião, uma discussão abstrata, uma lição a ser tirada (ainda que seja do que não fazer). O problema não é debater atos e fatos de famosos, o problema é manter seu foco na vida do famoso: “Menina, você viu que Fulano traiu a fulana?”. Ahãn. Foda-se, cuida da sua vida.

Foda-se o que outras pessoas estão fazendo, vestindo ou como está o relacionamento delas. FAZ O SEU. OLHA PRA VOCÊ. Tem muito trabalho interno para ser feito, principalmente nesses anos cagados 2019/2020, onde muita coisa vai mudar radicalmente. Parem de se distrair com merda, minha gente. Tirem o foco dos outros, seja para almejar algo, seja para criticar algo.

O brasileiro parece atraído pela vida pessoal alheia tanto quanto parece compelido a evadir sua privacidade. É uma doença que eu nunca consegui entender, só percebo o mecanismo: usam para se distrair do que não gostam em suas vidas, em vez de arregaçar as mangas e resolver. E isso, senhores, é o que há de mais nocivo, pois gera estagnação. Eu prefiro tudo, até briga por político, do que estagnação. Por pior que seja uma pancadaria, sempre pode sair um aprendizado, mas da estagnação não sai nada.

Além de levar à inércia, essa vidinha de se interessar pela vida alheia também emburrece. Quando você coloca para dentro sempre os mesmos tipos de input (e nesse caso, são calorias vazias), você começa a botar para fora sempre os mesmos tipos de output, ou seja, a pessoa fica empobrecida intelectualmente, limitada e desatualizada de tudo que está mudando à sua volta. Hoje, estar desatualizado das mudanças que estão acontecendo na forma de funcionar do mundo é uma nova forma de analfabetismo.

Stalkear vida pessoal (seja de celebridade, seja do seu ex, seja de qualquer pessoa) não gera nenhuma atividade mental. Não se questiona nada, não se debate nada, não se argumenta nada. É informação passiva e sem utilidade que começa a ocupar espaço na sua cabeça. Sério que você quer usar um recurso com capacidade limitada (seu cérebro e sua memória) com isso?

A vida alheia teria que ser irrelevante para a gente, salvo, é claro, das pessoas com as quais nos preocupamos, que são próximas, que podemos ajudar. Ninguém está com tempo sobrando hoje em dia, então, utilizar o tempo que temos com algo irrelevante é, no mínimo, auto sabotagem. E, cá entre nós, observem que isso é mais presente em mulheres do que em homens. Não é machismo, é estatística. Homem foca menos na vida alheia, em termos gerais e, ainda em termos gerais, estão melhor de vida.

Os mesmos que reclamam que ganham pouco, que não são promovidos, que não conseguem fazer isso ou aquilo perdem horas em redes sociais ou na internet consumindo a vida alheia. Poderiam fazer um curso gratuito online, ler algo que acrescente ou simplesmente olhar para dentro e tentar se aprimorar. Mas não, escolhem se anestesiar com a vida alheia. E depois reclamam que o chefe é um fdp que os persegue, que a vida é injusta com eles, etc.

Se interessar demais pela vida pessoal alheia, sobretudo de desconhecidos, é sim um sintoma. Talvez hoje ainda não seja reconhecido como tal, mas é uma questão de tempo. Se você perde seu tempo stalkeando famosos ou conhecidos, você não está em um bom lugar da sua mente e isso com certeza vai se refletir em diversas áreas da sua vida. Descubra de onde vem esse prazer por viver a vida alheia e trabalhe isso dentro de você, sua vida vai melhorar quando você se livrar desse hábito nocivo.

Fuçar a vida alheia é invasivo, infantil e desrespeitoso. Fala mais sobre você sobre as eventuais cagadas que a outra pessoa cometeu. Precisar ficar vendo danação alheia para se sentir melhor é tenebroso e precisar ficar vivenciando o sucesso alheio porque você não conquistou o seu é pior ainda. A vida alheia paralisa, anestesia, deixa o cérebro em modo stand by, atrapalhando o progresso da pessoa que está muito ligada à fofoca.

Um debate político eventual e civilizado é saudável, perder seu tempo com fofoquinha nunca é.

Para dizer que se olhar para sua própria vida você se deprime, para dizer que viver a própria vida dá muito trabalho e você prefere viver a vida alheia, ou ainda para dizer que o pior é jogar Pokemon Go: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Fico com a Sally nessa. Com política dá pra pelo menos, e minimamente, começar a pensar, “ahh eu não concordo contigo, mas e se… e se tu estiver certo?” Já com fofoca de subcelebridade, bem… fútil mesmo, não leva a nada.

  • São duas faces da mesma moeda. Escolhas de gente despreparada: os que querem dar opinião sobre coisas sérias que não compreendem e os que levam bobagens a sério pra poder dar opinião passando menos vergonha (em tese).

    • Gostei muito do seu comentário, Satori Gomi. E, se tem uma coisa que me tira do sério, é gente que, mesmo não sabendo porra nenhuma sobre porra nenhuma, ainda teima em vomitar seus achismos em cima de mim crentes de que estão dizendo sempre as maiores e mais perfeitas verdades universais, incontestáveis e definitivas.

  • Quando eu usava o Facebook eu nem me sentia à vontade pra comentar qualquer coisa sobre política. Também nunca me denominei como sendo de Esquerda ou Direita (apesar de eu estar de acordo com algumas pautas do ultimo e ter profunda ojeriza a essa cagação de regra insuportável dos lacratontos), porque sempre achei que o mínimo de estudo uma pessoa tem que ter antes de sair abraçando qualquer lado político com as pernas (e nem isso eu tenho, reconheço).

    É bom que as pessoas discutam política, mas do jeito tá é um inferno. Um bando de gente obtusa que acredita que suas soluções simples dão conta de resolver os problemas da sociedade e do país (sem contar os infelizes que querem politizar até a própria sombra).

  • Minha opinião meio que une ambos. Se eu tivesse que escolher a maior influência negativa, a coisa mais nociva atualmente, é a mídia como um todo devido à essa engenharia social que fez e que pode nos levar ladeira abaixo. A mídia tornou a vida normal impossível para milhões de pessoas. Quantas carreiras, amizades e famílias não foram arruinadas por esse ambiente frenético e segregador promovido pela mídia? É um dano social que vai demorar muito pra ser consertado, se um dia for.

    As agendas da mídia promovem, além de ideologias imundas disfarçadas de “evolução social”, a segregação, desconfiança mútua, a paranoia e pânico coletivos, por isso tem toda essa geração de aborrecente achando que os pais são fascistas genocidas porque votaram em quem ele não gosta e deixando de lado alguns amigos que pensam diferente porque “não dialogo com fascista”. Já vi pessoas falando que quem anulou o voto “compactuou com a opressão” ou “compactuou com o comunismo”. Esses dias vi um anúncio de um quarto vago num apartamento pra universitários e tinha uma nota “não aceito bolsominions”. Todo mundo é uma Mafalda, que não importa o contexto ou o assunto, consegue soltar alguma indiretinha “politizada” e tenta contaminar os outros com a própria amargura. A mídia transformou o cotidiano nessa sucursal do inferno quase impossível de escapar.

    Não bastasse, ainda censura, persegue e expõe quem a critica. Jornalista virou uma casta superior. “É uma bolha”, talvez você pense. Mas é uma bolha poderosa, tanto que estamos comentando essas coisas com perfis falsos.
    *honk honk*

  • De início eu achei que iria concordar com o Somir – especialmente no que diz respeito à constatação dele de que hoje em dia tem gente demais falando muita merda sobre política por falta do devido estofo intelectual que se leva uma vida inteira para construir – , mas acho que vou ficar mesmo é com a Sally nessa.

    Por mais que se diga muita besteira por aí, que o clima bélico entre facções seja de Fla-Flu e que a BMzada em geral ainda seja incivilizada demais para debater, uma discussão sobre política pelo menos tem a ver com aquilo que realmente afeta as nossas vidas. Há também uma esperança, mesmo que mínima de que, para usar uma expressão da RID, “nasça uma flor no meio estrume”. Por outro lado, essas banalidades e fofocas sobre (sub)celebridades são apenas uma enorme diarréia mental, um lazer vazio que não passa de perda de tempo e que jamais servirão para algo proveitoso.

    E para completar, eu deixo aqui um pensamento que circula há tempos internet afora e que é freqüentemente atribuído a Platão:

    “Pessoas sábias falam sobre ideias;
    Pessoas comuns falam sobre coisas;
    Pessoas medíocres falam sobre pessoas”

  • “principalmente nesses anos cagados 2019/2020, onde muita coisa vai mudar radicalmente”

    Ah, vai. Se duvidar, em 2021, o Gilmar Mendes ainda vai estar de ministro do STF.

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