O Rei-Filósofo

Platão já falava sobre o mítico rei-filósofo no seu livro A República. Num resumo bem rasteiro, o filósofo grego (corporativista) dizia que as coisas só se resolveriam quando filósofos se tornassem reis, ou quando reis se tornassem filósofos. Argumentava sobre os problemas de alçar alguém sem os conhecimentos específicos do cargo para governar o povo. Como todo bom problema filosófico, persiste até hoje.

Por um lado, a democracia permite que o povo tenha voz, que não importa o seu status social, alguma relevância você tem no processo decisório. Por outro, sabemos muito bem que boa parte das pessoas não está preparada para sequer fazer uma boa escolha de representante, quanto mais de colocar a mão na massa e guiar uma nação.

A solução de Platão era ter um líder extremamente capaz, o que em sua visão, só podia significar um filósofo. Especificidade da época e é claro, uma forma de se valorizar. Mas justiça seja feita: Platão falava sobre algo maior que uma profissão específica, falava sobre o conhecimento necessário para governar. Troque filósofo pelo que quiser, desde que estejamos falando de alguém que entende a máquina pública e seja capaz de atender aos desejos da população.

Usava o exemplo de um navio, onde a tripulação se revoltava contra o timoneiro, querendo definir os rumos da embarcação. Por mais que fossem a maioria, eles sabiam dirigir um navio? Tomar conta de um sistema que você não compreende é uma receita de desastre. Ainda precisamos de especialistas em posições-chave, senão as coisas não funcionam.

Não é sobre seres humanos especiais, é sobre funções especiais. Pode ter qualquer combinação de raça, gênero, religião, estudo ou time de futebol, desde que consiga desempenhar a função de forma decente. Um Estado precisa de gente que entenda o funcionamento das leis, que saiba gerenciar verbas, que saiba priorizar obras e até mesmo quem saiba limpar uma rua direito. A gente precisa de quem tenha conhecimento específico. A não ser que você acredite em medicina alternativa, sempre vai procurar gente que entende de saúde humana quando fica doente, não?

Especialistas são a base da humanidade moderna. Milhares de anos atrás no tempo e no conhecimento acumulado da espécie, a ideia de que qualquer pessoa ia aprender eventualmente até fazia sentido: não estou tirando o valor de polímatas como Leonardo da Vinci ou até mesmo Isaac Newton, mas eles pegaram uma época em que os galhos da árvore do saber ainda estavam mais próximos uns dos outros. Gênios do mesmo jeito, mas gênios dentro da realidade em que viveram.

Atualmente a lógica é diferente, até mesmo por mérito dos gênios do passado. Os galhos cresceram muito, e pular de um para o outro ficou muito mais complicado para os macacos pelados modernos. O grau de conhecimento esperado de um especialista moderno exige se embrenhar cada vez mais longe num desses galhos. E dali costuma não ter volta. Nem é questão de capacidade mental, é questão de tempo mesmo. Uma vida humana média já ficou curta para alguém se tornar especialista em vários temas.

Então, mesmo tentado a começar um argumento sobre como deveríamos aumentar e muito a barreira de entrada para os políticos modernos, a minha impressão é que esse tema já caducou. Platão tinha um ponto muito interessante milhares de anos atrás, mas ele foi ficando pelo caminho com a evolução do conhecimento humano.

O próprio conceito de rei-filósofo já me parece uma relíquia de tempos mais simples. A ideia de que uma pessoa poderia ter em si a capacidade para tomar boas decisões sobre a maioria dos temas que afetam a nossa vida cotidiana não faz mais sentido. E olha que me dói essa realização: uma das minhas fantasias recorrentes é a de ditador mundial, resolvendo os problemas com decisões precisas para melhorar o futuro da espécie, doa a quem doer agora.

Acredito que a maioria de nós tem desses momentos de rei-filósofo: soluções “perfeitas” em nossas cabeças. Se pelo menos tivéssemos o poder de controlar as massas estúpidas… O problema é que nossas soluções não seriam perfeitas. O conceito de perfeição já é discutível quando estamos decidindo algo que só nos afeta, imagina só estender isso para milhões ou bilhões de outros seres humanos? A “fantasia de poder” de Platão era discutível em seu tempo, mas em pleno século XXI, eu já acredito ser impossível mesmo.

Não só toda decisão de um rei-filósofo seria questionada pela massa de especialistas nos diversos temas que ele não é, como seria questionada com excelentes argumentos que pouca gente é capaz de refutar (ou mesmo entender). Uma coisa é ser um ditador iluminado para um povo essencialmente rural, outra é passar a mesma ideia de infalibilidade para gente com curso superior completo.

Mas, como podemos ver claramente nas eleições brasileiras, a ideia do rei-filósofo continua tentadora para o cidadão médio. Alguém para salvar a pátria tomando as decisões precisas para melhorar o futuro da espécie, doa a quem doer agora. Opa, onde é que eu escrevi essa frase antes? Ah, verdade, na minha fantasia de ditador mundial alguns parágrafos atrás. Tem algo a mais que coincidência aí.

Será que como Platão, não tem algo na gente que incentiva esse pensamento de rei-filósofo? A noção que de que existe sim a capacidade de uma pessoa resolver todos os problemas não deixa de ser reconfortante para o indivíduo. Se você acredita que um presidente pode salvar um país, sobra espaço para acreditar que você pode salvar a sua vida. Que não é dependente de uma infinidade de variáveis e desejos alheios à sua vontade.

No tempo dos filósofos gregos, era algo a se pensar: talvez fosse só a questão de achar a pessoa certa para decidir tudo e seríamos felizes. Milhares e milhares de anos depois quebrando a cara com essa expectativa, a humanidade não tem lá muita desculpa para continuar procurando seus reis-filósofos. Isso é, não tem desculpa racional, porque a emocional continua lá: a ilusão de controle.

Para não se sentir à mercê do universo, o ser humano mantém a ideia de que pelo menos em tese poderia controlar tudo o que acontece ao seu redor. Que o problema verdadeiro é que o filósofo não é rei ou que o rei não é filósofo. Que falta só combinar as duas coisas e tudo vai dar certo…

Não vai. O conceito vem de tempos em que o ser humano era menos interdependente, onde algumas pessoas podiam sim concentrar boa parte do conhecimento disponível. Depois de uma expansão absurda da profundidade do entendimento humano sobre o universo, é hora de colocar limites na ideia de que uma pessoa pode ter toda essa capacidade.

Eu argumento inclusive que a própria ideia de ter hierarquias muito verticais (poucos mandando em muitos) já não combina com a Terra do ano 2022, e que se as coisas continuarem no rumo que estão, vai combinar cada vez menos. Um ser humano moderno é limitado demais para o escopo da vida em sociedade que levamos.

Não é mais sobre esperar um rei-filósofo preparado para tomar as decisões certas, é sobre aceitar que ninguém cabe no topo dessa pirâmide. E aí, talvez Platão tenha me dado um drible intelectual, argumentando sobre o rei ser filósofo justamente para que eu o enxergasse se colocando no poder e começasse a pensar sobre as limitações do indivíduo. Não duvido, o cidadão não ficou para a história à toa.

Embora eu continue defendendo que os políticos modernos se preparem melhor, mesmo que isso signifique retirar o acesso de algumas classes econômicas ao poder (por um tempo), eu começo a enxergar mais claramente que isso acontece de baixo para cima, com pessoas mais e mais capacitadas em cargos menores, com cada vez mais autonomia para exercer a sua função. Sem precisarem atender aos desejos de um líder que não tem como entender o que fazem de verdade, e que pelo simples fato de ser líder precisa lutar para manter seu poder.

Talvez o grande problema da Democracia seja a necessidade de finalizar a pirâmide de poder: para quê ter líderes que não sabem fazer o trabalho de seus liderados? Compreendo totalmente que existe a necessidade de gerenciar pessoas e recursos, mas será que esse é o topo da cadeia de valor de uma sociedade?

Essa é a coisa mais importante que um ser humano pode fazer? Gerenciar outros seres humanos? Ou será que isso parece mais importante porque fala muito mais de perto com nossas próprias fantasias de poder e controle? Certeza eu não tenho sobre essas respostas, mas tem um lado meu dizendo que tem algo que não fecha nessa história toda: o lado de colocar generalistas no topo e especialistas no final da cadeia de poder. Não seriam os especialistas mais habilitados para tomar decisões e os generalistas mais eficientes em aplicá-las? O problema do especialista é não enxergar o quadro geral além do seu conhecimento, o problema do generalista é não ter profundidade para tomar decisões sobre temas complexos.

Numa humanidade menos fascinada com a ideia de um rei-filósofo e a fantasia de poder infalível relacionada com ela, é possível que invertamos as prioridades e façamos concursos para os maiores cargos e eleições para os menores. Mais pessoas com muito conhecimento mandando em gente que tem jogo de cintura para fazer acontecer. Eu realmente não sei se resolvi algum problema com essa ideia, estou só jogando ela no mundo para ver se alguém se habilita a pensar junto e achar os pontos fortes e fracos dela.

Porque mesmo que pareça meio estranho agora, com mais e mais máquinas assumindo a produção e as tarefas repetitivas, o ser humano vai precisar adaptar todo o seu sistema de organização social para não ficar com um monte de gente perdida na sociedade, sem ter capacidade de tomar decisões complexas (ponto fraco das máquinas) e sem capacidade de competir com a execução praticamente perfeita (ponto forte delas).

O rei-filósofo, pelo menos como eu vejo, era teórico milhares de anos atrás e é comprovadamente incompatível com a realidade atualmente. Ninguém vai resolver o mundo sozinho, é tudo cada vez mais complicado, e não é mau sinal que seja assim. Isso é, a não ser que a gente não consiga se adaptar a essa realidade.

E por enquanto, me parece que não estamos nos mexendo nesse sentido. O mundo ainda prefere a ilusão do salvador que o trabalho de reaprender como funcionar depois de tantas mudanças tecnológicas e sociais.

Para dizer que você resolveria matando metade das pessoas, para dizer que resolveria mais ainda matando a outra metade, ou mesmo para dizer que só precisa que o rei-filósofo acredite no mesmo amigo imaginário que você: somir@desfavor.com

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Comments (8)

  • Dois errinhos:

    Certeza eu não (tenho) sobre essas respostas
    e não é mal (mau) sinal que seja assim

    Bom texto, dá o que pensar. Mas qual é mesmo a diferença entre um generalista e um especialista em gestão? hehe
    Abs

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    • Corrigidos.

      No fundo, neste texto eu estou começando a duvidar se estamos rezando para um falso deus: o deus da gestão. Decisões ruins chegam para pessoas que não sabem como improvisar… gestão… do quê?

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      • Eu chamaria de O DIABO da gestão. O negócio está claramente hipertrofiado, e tem um monte de gente que se põe a gerir coisas sem ter conhecimento técnico da área aonde está trabalhando. É uma bomba relógio. Como um professor inglês escreveu recentemente num artigo, “A quiet rebellion is needed”.

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  • Se extinguir a função presidente já melhora um pouco esse problema da bajulação. Se presidente é tão inútil e só serve pra representar o país, porque não pegar alguém do MRE que literalmente existe pra essas questões?

    Ainda sonho com o dia em que político só vai poder ter salário mínimo e usar serviços públicos…
    “Ain mas isso é tirar os direitos de liberdade e escolha deles” FODA-SE

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    • Essa coisa de presidente me parece um ranço do tempo dos reis e imperadores… quanto mais eu penso no cargo, menos ele faz sentido mesmo.

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      • É exatamente assim que eu penso.

        E pior, ele nem serve pra levantar uma grana com turismo que nem a família real britânica.

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  • A solução mesmo seria suspender o voto de qualquer pessoa que seja dependente de programa estatal.
    Desculpa a generalização, até porque tem casos de pessoas que voluntariamente se descadastraram do Bolsa Família quando sua situação melhorou, mas tem gente que votaria em assistencialismo e estado inchado eternamente até transformar o país numa Coreia do Norte. E até classe média e alta fazem isso, especialmente jovens dinâmicos com síndrome de white savior.

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    • O problema é que quando essas pessoas são impedidas de votar, o sistema fica viciado no sentido oposto. Por mais que meu coração seja majoritariamente preto e amarelo, ainda tem um pontinho vermelho dizendo que passamos milhares de anos isolando os pobres do sistema e eles nunca saíram da pobreza. Definição da insanidade, sabe?

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