A Casa do Dragão

Neste final de semana, eu finalmente fui assistir os primeiros episódios de A Casa do Dragão, uma série derivada de Game of Thrones na HBO. Muito bem-feita? Com certeza. Repete o que fez a original ser um sucesso enorme? Sim, mas não.

Este texto é spoiler puro, tanto de Game of Thrones como dos primeiros capítulos de A Casa do Dragão. Por isso eu vou adiantar a recomendação: se você gostou da última temporada de Game of Thrones, provavelmente vai gostar de A Casa do Dragão. Veja por conta própria se quiser e volte aqui depois.

Agora, se assim como eu, você detestou a forma como a série baseada nos livros de George R. R. Martin terminou, o prospecto dos primeiros episódios é dos piores. Vejam bem, é uma série muito bem-feita, é tudo muito caprichado, as atuações são bem decentes (nem tão boas como as da série original, mas decentes), a história parece ter uma boa dose de intrigas e potencial para muitas reviravoltas, mas…

Estou com a mesma sensação dos últimos episódios da série original: a tensão não existe mais. Desde o começo de Game of Thrones, fomos acostumados com a ideia de que decisões tem consequências naquele mundo. Muitos dos momentos chocantes da série como a morte do protagonista no final da primeira temporada ou o catártico Casamento Vermelho não vinham exatamente da ideia de que personagens queridas poderiam morrer, e sim de que elas tinham contribuído para isso.

Explico: a primeira temporada inteira de Game of Thrones – e é claro, a história do livro original – estabelece que Ned Stark, a personagem central, é um homem focado em dever e lealdade, custe o que custar. Ele se diferenciava claramente dos abutres que rondavam o poder naquele mundo. Durante os capítulos, Stark tem várias oportunidades de entrar no jogo de poder, mas sempre se nega.

Quando chega a histórica cena de decapitar o ator mais famoso da série e personagem central até ali, o choque do espectador não é exatamente sobre o acontecido, e sim sobre a subversão do conceito de “armadura de roteiro” com o qual estávamos acostumados até então nesse tido de superprodução. Game of Thrones deu um tapa na cara de quem achava que as ações das personagens não teriam consequência por motivos alheios à história.

Em Game of Thrones, Ned Stark morreu por algo que fez. Independentemente se concordamos com os atos dele ou não, havia uma lógica interna se apresentando no show: coisas ruins acontecem com todo mundo, especialmente se a pessoa for inconsequente ou confiar em quem não deveria. Enquanto os livros guiavam a história, essa lógica se manteve. Afinal, era a ideia do autor desde o começo: não ficar preso a protagonistas, e sim contar uma história por vários pontos de vista. Ninguém era imortal, porque sempre tem outra pessoa para continuar contando o que acontece.

Quando os livros não serviam mais como inspiração, a lógica tradicional de contar histórias assumiu o controle: o protagonista precisava ser mantido a qualquer custo. Os espectadores tinham seus favoritos, e esses favoritos ganharam a armadura do roteiro. Eles podiam errar à vontade e continuar no capítulo seguinte. Não estou necessariamente reclamando dessa mecânica de contar histórias, afinal, ela não é o padrão à toa. As pessoas gostam de acompanhar seus favoritos. Estou reclamando é de como a série original perdeu uma característica básica do meio pro final.

Game of Thrones tinha torcida honesta pelas personagens queridas: você não tinha segurança nenhuma que elas teriam uma conclusão satisfatória para suas aventuras. Qualquer erro podia significar uma derrota horrível e até mesmo a morte. A tensão de consequências verdadeiras combinava perfeitamente com a trama rocambolesca de alianças e traições vistas por múltiplos pontos de vista.

Mas no final da série, as coisas caíram mais ou menos no lugar comum: protagonistas eram invencíveis para continuarem aparecendo nos próximos episódios. Se alguém fosse morrer, com certeza seria alguma personagem secundária. Mas os escritores tinham um problema: a série tinha sido montada sobre a premissa de reviravoltas chocantes. Como fazer isso sem ameaçar as lucrativas presenças dos protagonistas nos próximos episódios?

Daenerys virando vilã do nada foi a solução deles. Solução porca que virtualmente todo mundo detestou. Queriam algo surpreendente que não quebrasse a lógica tradicional das séries, acabaram com o pior dos dois mundos. Era muito melhor ter terminado com “final feliz” para a estrela do show do que ter forçado essa barra. A integridade intelectual da série já tinha sido jogada pela janela faz tempo…

E eu digo tudo isso porque tenho a mesma sensação sobre A Casa dos Dragões: essa tentativa tosca de misturar os dois mundos. O mundo de Game of Thrones original, onde tudo de ruim pode acontecer e o mundo das séries populares, onde o mundo gira ao redor dos protagonistas e a lógica pode ser desvirtuada a qualquer momento para proteger as cenas dos próximos capítulos.

Game of Thrones começou tão bem porque as cenas serviam à história, e terminou tão mal porque a história servia às cenas. Ao invés de mostrar o que acontece de acordo com o roteiro, o roteiro ficava se adaptando o tempo todo à cena que os autores queriam filmar.

Eu acompanhei os primeiros episódios de a A Casa dos Dragões com uma esperança (fútil) de que eles tentariam ficar mais próximos da fórmula original, e por um tempo eu comecei a acreditar. Não sei vocês, mas eu já vi muito conteúdo com heróis, espadas e dragões nessa vida, a única coisa me segurando ali era a expectativa da volta daquela tensão das primeiras temporadas de Game of Thrones.

E enquanto A Casa dos Dragões estava estabelecendo política e personagens, a esperança se mantinha. Eu estava lendo nas entrelinhas como as coisas poderiam dar muito errado, mas totalmente no barco do roteiro: ainda não tinha nada que obrigasse a série a criar um clima de tensão pesado. Três episódios com muito drama em relações interpessoais e uma adolescente chata (tudo bem, adolescentes são chatos), e apenas a promessa de conflitos sérios de interesse no futuro.

Aí, chega a primeira cena de batalha de verdade e eu vejo a última temporada de Game of Thrones de novo… não vou explicar em detalhes, porque nem é o foco do texto, mas uma personagem central age de forma absolutamente estúpida e entra numa situação com 100% de chance de morte. Eu fico puto, mas continuo assistindo: às vezes as pessoas dão sorte, pode ser interessante.

Mas aí, os roteiristas pegam a cena de multiplicam ela por mil: a chance dessa personagem principal ter escapado daquela decisão incrivelmente estúpida cai de 0% para 100% negativos. E vai piorando e piorando com o avanço da cena. Era para ser a primeira grande cena de batalha épica da série, e essa cena já me provou que estamos no mesmo caminho previsível do final de GoT.

A história desejada guia as cenas: eu tenho certeza que vai ter alguma morte horrível ou reviravolta cruel na história logo logo, mas não acredito mais que vai ser algo “realista” no sentido da gente poder ver o problema acontecendo. O caminho vai ser algo como Daenerys virando vilã em duas cenas e pronto (se tivessem nos dado um arco de história real sobre ela virando a vilã, eu teria adorado, mas foi muito mal estabelecido).

As reviravoltas de A Casa dos Dragões vão ser assim, provavelmente. Coisas meio aleatórias só para honrar o espírito de cenas dramáticas da série original, sem toda a lógica que fazia das cenas terríveis de GoT pesadas como eram. É como alguém tentando te contar uma piada da qual só lembra o final. Sim, as cenas da série original tinham esse fator chocante, mas só tinham graça porque eram montadas pela história por muito tempo antes. Você tinha simpatia pelas personagens ao mesmo tempo que ficava puto da vida com os erros que elas cometiam para se colocar naquela situação.

Se não mataram um protagonista naquela cena de A Casa dos Dragões é porque os roteiristas não conseguem ou não podem repetir o estilo de narrativa de George R. R. Martin. Sem contar a burrice imensa logo nos primeiros episódios: uma guerra que durava vários anos resolvida numa cena? Sério? Toda a grandiosidade sugerida nos episódios anteriores virou apenas uma cena babaca de guerreiro invencível matando dezenas de inimigos numa sequência de golpes que nem pareciam encostar nos adversários?

Tudo bem fazer cena besta assim: quando o Legolas faz no Senhor dos Anéis é divertido, a história toda conduz para isso. Mas é isso que as pessoas querem de uma série baseada em Game of Thrones? Pelo visto sim, porque A Casa dos Dragões está recebendo reviews muito positivos. Talvez seja a série dos Senhor dos Anéis sendo ainda pior em comparação, mas eu realmente estou decepcionado.

Não com os roteiristas de A Casa dos Dragões, porque pelo visto é isso que o pessoal da HBO é capaz mesmo sem ter a base do George R. R. Martin, mas comigo, por achar que alguém ia se preocupar com os gostos de alguém como eu ao invés da gentalha que virou fã de Game of Thrones para lacrar anos atrás. Eles querem essas histórias mal escritas com cenas de ação sem sentido, afinal, a graça é comentar na rede social, não assistir.

Eles são o público, não eu. Vou voltar para minhas séries de ficção científica paradonas mesmo, quer dizer, até alguém decidir que elas são “problemáticas”. Ficar velho é uma merda…

E se a série não virar o lixo estilo temporada 8 de Game of Thrones, me avisa? Espero estar errado, mas acho que depois daquela cena, não tem mais volta.

Para dizer que eu estou velho mesmo, para dizer que só gostava dos peitos e das porradas, ou mesmo para dizer que é tudo culpa da diversidade: somir@desfavor.com

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Comments (4)

  • Somir, eu não sou um grande fã de séries e muito menos do gênero fantasia, mas… Que merda que esse tipo de produto audiovisual atualmente seja voltado a um público que acha que “a graça é comentar na rede social, não assistir”, hein? Sei que não são todas, mas a impressão que tenho – talvez errônea – é que que algumas séries são criadas apenas com esse propósito de causar o tal do “hype”.

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  • Vou esperar lançarem a ultima temporada pra começar a assistir.
    Cansada desse negócio de ter que esperar 1 ano pra cada temporada nova.

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  • Leitura deliciosa, Somir. No aguardo da sua análise do The RANGZ of Power e sua protagonista Galadriel Skywalker.

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