Histórias de Vida – Semana Anta

Hoje é uma data sagrada na República Popular do Desfavor: vamos comemorar a Semana Anta com mais uma história de vida divinamente inspirada.

Pastor Arthur Batman de Deus, candidato (derrotado) a deputado federal em Minas Gerais.

Luiz Artur nunca gostou do primeiro nome. Sempre se apresentou como Arthur, o H adicionado pelo conselho de uma amiga versada em numerologia. Segundo ela, a letra extra traria o sucesso que sempre almejara. E como almejara…

Desde pequeno, sonhava com a atenção e a admiração daqueles que o rodeavam. Reunia os coleguinhas ainda no pré-primário para contar histórias fantasiosas sobre suas origens. Rapidamente aprendeu que quanto mais fantásticas suas alegações, mais olhos e ouvidos conseguia prender diante de si. Pais e professores achavam adorável como inventava narrativas complexas sobre vir de um planeta distante para as outras crianças, mas com o passar dos anos e o amadurecimento de seus pares, o que passava por imaginação fértil foi se tornando algo perigosamente próximo de mitomania.

Já no começo da adolescência, as histórias que contava para sua turma na escola não tinham mais o efeito desejado. Era recebido com desconfiança e muitas vezes escárnio da plateia. Como é comum aos mitômanos, mentirosos patológicos, Arthur não tinha nenhum filtro de realismo ativo: dizia aos colegas de 12 anos de idade que tinha passado a noite anterior em Paris com uma modelo internacional, e teimava com sua versão até que se cansassem de apontar inconsistências e começassem a apenas aceitarem calados os absurdos que dizia.

Não à toa, tornou-se especialmente impopular, mantendo algumas amizades aqui e acolá de pessoas muito inocentes ou muito pacientes. A mania de mentir era abrasiva para suas relações em geral, nem mesmo as poucas garotas dispostas a enfrentar a torrente de invenções cansavam-se em poucos meses ou menos semanas de namoro. Prometia mundos e fundos para quem quisesse ouvir, mas não cumpria nada.

Talvez se tivesse nascido algumas décadas mais tarde, seu transtorno seria notado e tivesse acesso a um tratamento, mas na realidade que Arthur cresceu, a mentira incontrolável definiu sua chegada à vida adulta. E lá, mais e mais fracassos: embora a experiência tivesse feito dele um contador de histórias um tanto quanto mais plausíveis, eventualmente suas alegações fantásticas confrontavam a realidade. Conseguira investimentos para os mais diversos negócios, que vendia como infalíveis para tornar todos milionários, mas na hora do vamos ver… nada à vista.

Amargurado pela sua situação, foi numa noite chuvosa de sábado que sua vida mudou: passando diante de uma igreja evangélica recém-inaugurada no bairro, foi se esconder da chuva. Rapidamente um senhor vestindo um terno surrado o acolheu com um grande sorriso e apontou uma das cadeiras de plástico no galpão alugado de uma antiga oficina. Diante de uma plateia de dezenas, um homem contava histórias da Bíblia de forma hipnotizante. Os presentes gritavam e erguiam as mãos fervorosamente a cada uma das deixas do pastor.

Arthur conta para quem quiser ouvir que naquele momento ouviu a voz de Deus dizendo que seu futuro estava ali. Ele se levantou da cadeira, foi até uma fileira vazia entre as cadeiras e começou a chorar copiosamente. Ajoelhou-se gritando palavras desconexas, enquanto a congregação inteira virava-se para ele. O pastor veio até ele, colocou a mão na sua testa e perguntou se ele aceitava Jesus como seu salvador. Arthur aceitou, recebeu uma salva de palmas e vários abraços daqueles estranhos.

No sábado seguinte, estava lá de novo. Dando um depoimento sobre sua vida de abandono parental, miséria extrema, uso de drogas e até mesmo alguns anos de prisão por tráfico. E no sábado seguinte, e no seguinte… toda semana Arthur estava lá, cada vez com um capítulo mais terrível da vida longe de Jesus. Cada história era recebida com reações em coro de espanto, choros, risos e admiração genuína pelos sacrifícios descritos ali.

Em pouco tempo, Arthur era uma figura central na comunidade evangélica, as pessoas esperavam pelos seus testemunhos, o número de fiéis aumentava nos dias que estava por lá. O pastor Reginaldo e sua mulher, Regiane, eram dos mais interessados em sua presença. Ofereceram um emprego de ajudante para contar com sua presença diária. A proximidade com o casal aumentava ao ponto de ser convidado constante para jantares e celebrações em sua casa, um sobrado de dois andares renovado recentemente.

Eventualmente, Arthur começou a frequentar a casa do pastor até mesmo quando ele não estava por lá. Regiane, uma bela morena de trejeitos delicados e longos cabelos encaracolados, fazia questão de sua presença e podia ouvir por horas as histórias cada vez mais incoerentes dele. A proximidade se transformou em intimidade, e a intimidade em infidelidade. Os fiéis mais atentos já desconfiavam, mas a igreja continuava em franca ascensão na região, atraindo gente de bairros próximos na capital mineira.

Pastor Reginaldo saia todo dia para cuidar de seu outro negócio, uma loja de materiais de construção em um bairro distante, tempo suficiente para Arthur e Regiane consumarem seu romance. Com mais tempo de relação, Regiane começou a demonstrar um lado mais ousado no sexo. A mulher exigia de Arthur cada vez mais agressividade, com vários acessórios de couro que tirava de um armário na suíte do casal.

Foi mais de um ano de caso, cada vez mais tema de fofocas entre as velhas que frequentavam a igreja, mas até segunda ordem, fora do radar do Pastor, que continuava tratando Arthur e suas histórias de provações como a galinha dos ovos de ouro da igreja.

Tudo mudou numa dessas tardes de aventura extraconjugal: pastor Reginaldo resolveu passar na igreja para pegar um documento que esquecera lá na noite anterior. Dono de uma das chaves do prédio, entrou sem bater. Numa salinha do fundo, Arthur ouviu seu nome sendo chamado. Regiane, que o acompanhava, entra em pânico. O pastor observa a igreja toda desarrumada, cadeiras jogadas, púlpito derrubado. Presume que era resultado de uma tentativa de invasão e corre para fora, celular em mãos para chamar a polícia.

O casal nos fundos discute em sussurros a melhor alternativa. O medo se serem flagrados vira paralisia, tentam combinar uma história, mas Arthur segue para caminhos tão absurdos na sua incapacidade de dosar a mentira que logo se torna impossível avançar na discussão. Os minutos se passam, e os dois ouvem uma sirene de polícia parar bem na frente do galpão.

Logo, as vozes dos policiais ecoam pelo ambiente. Pedem para quem quer que estivesse lá sair com as mãos para cima. Regiane respira fundo, faz uma cara de esforço e começa a verter lágrimas. Arthur fica confuso até que ela abre a porta e sai com as mãos para cima chorando e dizendo que tinha sido atacada. Ainda sem reação, ele se percebe sozinho ali, e escuta a mulher dizendo que um homem entrou na igreja e tentou abusar dela. Fazia sentido com o visual da mulher: meia-calça rasgada, blusa com os botões estourados e uma marca vermelha no pescoço.

Um policial avança em direção à porta entreaberta e se depara com Arthur. Ele estava vestido dos pés à cabeça com uma roupa de couro preto, incluindo uma máscara que deixava apenas a boca de fora. O policial fica boquiaberto por alguns segundos, o suficiente para a mitomania ser ativada com a história mais bizarra que ele já contara.

Arthur diz para o policial que o bandido saiu correndo, e que ele tentou impedir o estupro, mas foi surpreendido por uma arma. Disse que deu um golpe no revólver, uma rasteira e um soco no queixo do agressor. O policial fica com a mesma expressão de confusão o tempo todo. Outro policial chega e manda Arthur levantar as mãos. Os policiais cochicham um com o outro, e dão uma risada discreta. Um deles algema Arthur e começa a levá-lo para fora rumo à viatura.

Passando pela porta da igreja, uma multidão de curiosos se formou. Todos podem ver Arthur com suas roupas pretas de couro e a máscara, que o policial tenta tirar sem sucesso. Arthur troca um olhar com o pastor Reginaldo, que depois logo olha furioso para a mulher. Arthur então grita para Regiane: “Diz pra eles que eu te salvei!”

Regiane vacila por alguns segundos. Arthur continua, para quem quisesse ouvir: “Eu sabia que tinha um estuprador solto aqui na região, eu estava tentando pegar ele, eu era de uma força especial da polícia…”

A história que ele conta é completamente absurda. Algo envolvendo treinamento com um espião russo, de precisar de um uniforme para ficar nas sombras, de querer defender a comunidade, tudo o que vinha à sua cabeça ele dizia. Os policiais reviravam os olhos, o povo ria. Então, Regiane cochicha algo no ouvido do pastor Reginaldo, que olha de volta para ela e se aproxima do policial.

Reginaldo confirma a história insana de Arthur e diz que não foi ele que viu quando entrou na igreja. Regiane diz o mesmo no depoimento, tirando as acusações de cima de Arthur. Os três são liberados no final do dia, depois de darem um retrato falado do suposto estuprador do bairro.

Até hoje Arthur acha que sua história convenceu o pastor e foi corroborada por Regiane. Na verdade, ela avisara o marido que aquela roupa de couro era a mesma que ela tinha dado de presente para Reginaldo anos antes, e que ainda tinha uma dedicatória com o nome dos dois na parte interna. Se Arthur fosse preso e a roupa coletada como prova, o segredo sadomasoquista do pastor e sua mulher seria revelado para o público.

Tanto achou que era uma história convincente que depois de ser expulso da congregação, encontrou outra para começar a pregar, usando a fama repentina de ser fotografado com aquela roupa preta para dizer que estava pregando a palavra de Deus como um herói da justiça. A comunidade que deixou para trás fingiu que não viu a traição da mulher do pastor, o que o pastor Reginaldo fez também, para manter as aparências.

Do outro lado da cidade, Pastor Arthur Batman de Deus achou uma forma infalível de ganhar a atenção que tanto sonhara em ter: contando histórias fantásticas para uma plateia que jamais o questiona, vestindo-se de Batman às vezes para reforçar a ideia de defensor da justiça, agora numa fantasia realmente próxima da do herói dos quadrinhos.

Infelizmente, a fama local ficou dividida o suficiente para não se converter em votos para o cargo de deputado federal. Mas ele ainda espreita as noites locais, quase sempre num motel com Regiane, que jura estar fazendo curso de pastora.

Para dizer que vai ser ameaça de morte e não processo, para dizer que sua fé foi renovada, ou mesmo para dizer que duvida que isso seja verdade: somir@desfavor.com

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