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O curioso caso dos verificados no Twitter.

O curioso caso dos verificados no Twitter.

| Sally | | 22 comentários em O curioso caso dos verificados no Twitter.

Hoje vamos falar do curioso caso dos verificados no Twitter. Não é uma história que vá mudar a sua vida, nada grave aconteceu, mas… foi muito engraçado!

Vamos começar do básico: Twitter é uma rede social que foge à regra. Enquanto o padrão é ostentar felicidade e beleza, no Twitter as pessoas vão para falar merda, contar as derrotas e brigar. Tem de tudo, mas o que predomina é aquela turma do fundão da sala de aula de colégio, que só quer bagunça.

Por isso, o Twitter não costuma ser uma rede social de conteúdo montetizável: nenhuma empresa em sã consciência quer anunciar seu produto lá, pois em dez segundos ele será detonado, criticado e terão feito 50 memes desrespeitosos. Twitter é basicamente para falar mal dos outros, rir e fazer, o máximo que você consegue lá é alguma militância.

Como toda rede social, o conteúdo é a La Carte, depende de quem você escolhe seguir. Quem escolhe o conteúdo que recebe é o usuário. Então, se alguém te diz que o conteúdo do Twitter é um lixo, bem, a pessoa escolheu receber aquilo: o que ela recebe está de acordo com quem ela segue, quem ela bloqueia, com quem ela interage.

Contextualizado o cenário, vamos para a segunda parte: durante muito tempo o Twitter dava aos usuários ilustres que cumpriam uma série de requisitos um selinho, que ficava ao lado do seu nome, conhecido como “selo de verificação”, isto é, um selo que atestava que aquela pessoa era de fato quem ela dizia ser: o Papa, o Presidente da República, um ator famoso e etc.

Era uma forma de impedir que outros usuário se façam passar por pessoas famosas e uma forma de dar credibilidade às falas desses perfis: quando o Trump ameaçava alguém, a gente tinha a certeza que de fato era o Trump ameaçando alguém. As pessoas que tinham esse selinho eram chamadas de “verificados”.

Para ganhar esse selinho, o usuário tinha que fazer um procedimento dentro do próprio Twitter, onde se candidatava e explicava a razão pela qual a verificação seria “necessária”. Uma equipe do Twitter estudava a relevância da pessoa e as consequências negativas que uma “não-verificação” poderia causar à comunidade e concedia (ou não) o selinho.

Ainda que a intenção original da rede social fosse proteger a comunidade contra perfis falsos que se faziam passar por pessoas famosas/relevantes, o selinho de verificação acabou ganhando outra conotação com o passar dos anos, principalmente no Brasil: virou status, símbolo de uma espécie de realeza online, uma elite.

Quem possuía o selinho pertencia a uma elite dessa rede social. Não era raro ver pessoas dando “carteirada” com sua verificação, usando-a durante discussões para se declarar superior ou coisas ainda piores. Ser verificado passou a ser sinônimo de importância naquele mundinho.

Explicada a dinâmica da verificação, vamos para a polêmica em si: Elon Musk, como bom maluco que é, ao perceber que o selinho era basicamente um instrumento de status, resolveu que agora quem quiser ser verificado vai ter que pagar uma mensalidade (algo em torno de R$ 40,00 por mês). Em troca, a conta recebe a verificação e alguns privilégios como maior alcance das postagens, entre outras coisas.

Esse anúncio despertou fúria. Apesar de outras redes sociais como Facebook e Instagram cobrarem (com sucesso) para aumentar o alcance das postagens de seus usuários, a ideia não foi bem recebida no Twitter. Na realidade, Elon Musk não foi bem recebido no Twitter, desde que ele chegou os usuários estão reclamando 24h por dia, como se, antes dele, aquilo fosse um lugar decente. O fato é que com a cobrança qualquer um poderia passar a ser verificado, o selinho já não te tornava muito especial.

Quando Elon anunciou que tiraria o verificado de quem não pagasse, inicialmente, as pessoas não levaram fé. Começaram a surgir as ameaças jogadas no ar “O Twitter vai falir se ele fizer isso”, disse Janderson, morador de Pindamonhangaba, cuja conta bancária está no vermelho, mas sabe gerir uma das maiores redes sociais do mundo. O fantástico mundo onde a pessoa odeia o dono da casa e continua na casa.

Na semana passada, após meses de avisos, Tio Elão finalmente removeu o selo de verificação. E é aqui que começa a nossa aventura antropológica, pois a reação de cada verificado escancarou o que tem dentro de si e reagiu de modo a se expor ao mundo, a mostrar exatamente quais são seus medos, inseguranças e vulnerabilidades. Acompanhem o circo.

Teve o grupo do “eu não queria mesmo, eu não me importo”, comandado pelo Felipe Neto, que fez mais de dez postagens dizendo o quanto ele não se importava e não ia pagar pelo selo, quando gasta verdadeiras fortunas em outras redes sociais para ter mais alcance. Este grupo passou dias repetindo o quanto não se importava, uma versão moderna da raposa de Esopo. Pessoas adultas que não tem a consciência de que, quando você realmente não se importa com algo, nem fala a respeito.

Teve os elitistas, dizendo que “agora qualquer um é verificado”, como se eles fossem parte de uma casta sagrada superior. Estavam afrontados, tendo que dividir seu precioso selinho azul com a plebe. Gente que se diz humilde e inclusiva, gente “o amor venceu” se comportando como supremacistas tuiteiros. Coisa linda de se ver.

Teve o grupo das vítimas, como sempre tem: pessoas que pagaram, mas foram a público dizer que “estavam sendo obrigadas” a pagar. Oi? Elão foi na sua casa com uma arma apontada na sua cabeça? Se fosse um instrumento de trabalho eu até entendia, mas ninguém monetiza Twitter (a menos que seja para militância e nesse caso o partido paga tudo). Ninguém te obrigou não, Zé Cu, você pagou por escolha.

Teve o maravilhoso grupo do humor: quem é de piada, fez piada. Um museu de história natural que perdeu seu verificado postou uma imagem de uma baleia azul que tem em exposição com a frase “quem precisa de um selinho azul quando se tem uma baleia azul?”. Piada é uma forma de reduzir a tensão, de não levar a sério, de optar pela leveza. Sempre maravilhoso.

Enfim, entre os muitos grupos, o que mais chamou a atenção foi o dos conspiradores, no qual, adivinha, também estava Felipe Neto. Pessoas que acham que Elon Musk comprou aquela porra, mas não pode fazer algo que os desagrade. Pessoas que não entendem que é uma empresa privada que dita suas próprias diretrizes e os incomodados que se retirem. Pessoas que querem frequentar a casa dos outros sem seguir as regras da casa.

Criou-se um grupinho indignado com a cobrança (repito: recorrente em todas as outras redes sociais) que começou a disseminar a ideia de que quem pagasse pelo selo de verificação era um filho da puta e merecia ser boicotado. Não basta a pessoa não concordar e decidir não fazer, a pessoa se sente no direito de decretar que aquilo é errado e atacar quem discorda. O amor venceu, gente, o amor venceu muito!

Elon Musk pode ter os defeitos que for, eu apoio tudo que queriam falar mal dele, mas tem uma qualidade maravilhosa: é um agente do caos. Nós adoramos agentes do caos. Ele é tipo um Coringa débil mental, um Rafael Pilha dos empresários, um Sauron infantilóide, que tudo vê e reage da forma mais ridícula possível. Ciente de que estava rolando essa conspiração, Elão resolveu brincar com o brinquedo novo que comprou.

Do nada, ele devolveu o selinho azul para todos aqueles que estavam incentivando boicote a quem comprasse o selinho azul. Isso pegou muito mal para essas pessoas, pois ficou parecendo que incentivaram um boicote e depois foram lá e pagaram. Os seguidores dessas pessoas se voltaram contra elas e se criou um rebosteio, um esmerdeio, um delicioso dedo no cu e gritaria.

Os perfis para os quais Elão devolveu o verificado (sem pagar, só para ver o circo pegar fogo) ficaram desesperados se explicando e dizendo “EU NÃO PAGUEI! EU NÃO QUERO ESSE VERIFICADO!” enquanto o Twitter mantinha sua postura de “se está verificado, pagou sim”. Seus supostos aliados, seguidores que se diziam fiéis e tratavam essas pessoas como ídolos, passaram a tratá-los pior do que se trata estuprador em cadeia brasileira, xingando de tudo quanto é nome. Acabou o amor rapidamente. Foram dias intensos.

Aqueles que antes se apegavam ao selo de verificação tal qual Gollum ao anel, agora gritavam de pavor que não queriam aquilo. Aqueles que seguiam os verificados cegamente em uma jornada de boicote, boicotavam os mentores de boicote. Felipe Neto acionando até o Papa para tentar remover seu selinho na marra. Famosos brigando entre si e trocando acusações. O cabaré pegou fogo como faz tempo não acontecia.

Depois que o caos estava instalado e meio mundo tinha brigado entre si, Elão anunciou que decidiu manter o selo de verificação de algumas contas, mesmo sem pagamento. Durante o final de semana, o número de verificados foi crescendo, até celebridades mortas o receberam de volta. Uma coisa do tipo “nada pessoal com vocês, estou devolvendo o verificado para muita gente”.

O curioso é ver a reação dos que antipatizam com Elão: “ele não pode fazer isso!”. Meus queridos… ele pagou 44 bilhões de dólares pelo Twitter, ele comprou a rede social, é dele, ele pode fazer o que ele bem quiser. Tanto é que fez. Quando se está na casa dos outros se segue a regra dos outros. O que vocês acham que Somir e eu faríamos com algum grupo de pessoas que viesse aqui conspirar contra o Desfavor nos comentários?

Quem entra em qualquer rede social assina um contrato (aquele clássico “eu concordo” que todo mundo clica sem ler) onde dá poder aos donos de fazerem o que bem quiserem com a dinâmica dessa rede social. É simplesmente patético ficar mimizando e reclamando da política estabelecida. Não gostou? Quem te obriga a ficar ali? Mas não. A pessoa não quer sair, ela quer que as coisas sejam do jeito que ela deseja.

“Mas Sally, agora não dá mais para confiar no Twitter”. Meu amigo, se você tinha uma relação de confiança com qualquer rede social, isso diz mais sobre você do que qualquer crítica que você tenha sobre o Elão. É óbvio que não se confia em rede social. Nem é essa a proposta. Apenas aproveite, apenas observe, o que aconteceu na semana passada provavelmente vai se repetir, pois se tem uma coisa que Elão gosta e sabe fazer é ser agente do caos.

Curioso como Elon Musk, tido como um imbecil, deu baile nos que se achavam espertos. Space Karen, do alto das suas limitações, botou os “cabeças pensantes” para faniquitar. Ainda deu uma comida de rabo pública em vários, como fez com o Stephen King, que sugeriu que ele estava ganancioso e deveria doar parte do arrecadamento com a cobrança da verificação para Kiev. Elão respondeu: “Eu doei $ 100 milhões para a Ucrânia, quanto você doou?”.

O que nos leva à moral da história deste texto: você pode aplaudir algo que alguém fez mesmo sem gostar da pessoa e, mais importante, você pode aplaudir algo que alguém fez sem sequer concordar com isso, só pelo caos que gerou. Caos pelo caos não é bonito, mas quando o caos vem para desmascarar hipócritas… ahhh, que delícia!

Eu gosto do Elão? Não. Eu seria amiga do Elão? Nem em um milhão de anos. Eu admiro o Elão? Não mais do que admiro um pão mofado. Mas sou capaz de reconhecer e agradecer o entretenimento de qualidade que ele forneceu e pelas gostosas risadas de ver verificado rasgando o cu com unha depois de cair em uma pegadinha infantil.

É inteligente fazer isso? Claro que não. Ridicularizar publicamente seus principais clientes, pessoas com influência mundial, não me parece uma boa estratégia para quem está tentando recuperar uma empresa que está no vermelho. Mas nós estamos preocupados com a saúde financeira de Elon Musk? Óbvio que não, nós queremos rir.

E é para isso que serve o Twitter: uma experiência antropológica onde você entra apenas como observador do descontrole alheio, aprende um pouco mais sobre o ser humano e faz piada com isso. Se você está participando do descontrole, você está usando errado.

Para dizer que nós passamos pano para Elon Musk, para dizer que o Twitter vai falir (quem tá falindo é o Koo) ou ainda para dizer que você se aborrece no Twitter (terapia, meu anjo, muita terapia): sally@desfavor.com


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