Fila da banheiro vista de cima.Sabe todas as críticas negativas ao Rock in Rio que você viu respingando aqui e ali? São a ponta do iceberg. São aquilo que não foi possível abafar. A verdade é bem pior. A verdade é que saiu tudo cagado. Um evento para apenas cem mil pessoas deu um nó no trânsito, gerou crimes e confusão e não atendeu às necessidades dos participantes.

Para começo de conversa, as atrações foram um desfavor. Mas já falamos sobre isso no Desfavor da Semana, então, não vou ficar me repetindo: pop descartável ou rock decadente. Uma merda. Uma merda vendida como a oitava maravilha do mundo e comprada com facilidade, afinal, carioca tolera qualquer merda em matéria de música (vide micaretas) para ter um pretexto para beber e fazer putaria. Se colocar Somir e eu cantando “atirei o pau no gato” (sendo o Somir vestido de gato gigante e eu batendo nele com um pau de isopor) e tiver álcool e cantinho para beijar na boca, neguinho VAI e periga nem criticar. Este Rock in Rio foi um desastre. Se a imprensa não quer noticiar, EU QUERO.

Vamos falar dos transportes. Foi amplamente divulgado que seriam montados esquemas especiais, com transporte garantido, incentivando as pessoas a não irem de carro. Primeira questão: o evento é organizado NA PUTA QUE PARIU, em um espaço gigantesco, custava fazer um mega-estacionamento no local em vez de botar uma porra de uma roda-gigante? Segunda questão: fecharam uma porrada de ruas e cagaram o trânsito da cidade toda, quer dizer, além de paunocuzar quem vai, paunocuzaram todos os habitantes da cidade. Terceira questão: quem acreditou e confiou se fodeu, pagou TRINTA E CINCO REAIS por uma passagem de ônibus com hora marcada e se fodeu porque a) não conseguiu chegar b) chegou atrasado c) viajou espremido.

Porque teve essa: os ônibus eram especiais, só para o Rock in Rio. A passagem era comprada com antecedência (filas de mais seis horas). Daí vai um cidadão querer ser correto, perde um dia de trabalho para fazer a fila e comprar esse caralho de passagem especial e só toma na tarraqueta. Na hora do embarque colocavam para dentro pessoas que não tinham o comprado porra de passagem nenhuma mas pagavam vinte pratas na mão do motorista, que embolsava o dinheiro. Foda-se quem fez o certo e comprou antes. Nessa, muito malandro tomou a vaga de quem tinha passagem na mão. Muita gente ficou de fora, desistiu ou não conseguiu chegar. Não custa lembrar que não havia nenhum local nas proximidades para estacionar, então a opção era andar quilômetros ou ficar escravo do transporte público

O que esperar de um evento onde a malandragem vem direto da organização? Vocês sabem que eu não tenho medo de processo, vou falar mesmo: uma “atriz” da Record chamada Livia Rossi vendia nos corredores da emissora ingressos para o Rock in Rio (quando estes já estavam esgotados), por um preço bem acima do valor, para faturar mesmo. Feio? Calma que fica mais feio. Esta moça é namorada de Rodolfo Medina. Para quem não sabe, é a família Medina quem organiza o Rock in Rio. Ou seja, centenas de pessoas encararam horas de fila e não conseguiram comprar ingresso enquanto a namorada do dono ganha um monte DE GRAÇA e revende ACIMA DO PREÇO para COLEGAS.

Quem queria ir de carro também sofreu. No primeiro dia de Rock in Rio a Guarda Municipal do Rio de Janeiro amanheceu em greve, com apenas 30% do seu efetivo na rua. Ou seja, caos no trânsito. Sem contar que não havia local para estacionar, não havia placas indicando o caminho, não havia qualquer suporte para quem pretendia ir de carro, muito menos para quem não conhecia o local. Como se tudo não estivesse suficientemente cagado, o trânsito ainda era tumultuado por uns crentes que fechavam as ruas com faixas de protesto escrito “Um mundo melhor? Só Jesus” (com as letras do logotipo do Rock in Rio). Eram muitos deles, em cada esquina tinha um.

Os infelizes que tiveram “sorte” e conseguiram chegar ao evento também se foderam das mais diversas formas. Na entrada, vários cambistas abordavam as pessoas. Ou seja, você, babaca, que ficou horas na fila para comprar o ingresso e voltou para casa sem, saiba que a culpa foi dos organizadores que não criaram mecanismos para coibir a compra em massa por cambistas para revenda. Pior: permitiram que cambistas lucrem com isso, vendendo ingressos a valores extorsivos como R$ 700,00 a fãs desesperados.

Pior do que pagar caro por um ingresso verdadeiro é pagar caro por ingressos falsos de cambistas na porta, coisa que também aconteceu. Que tipo de organizadores permitem que cambistas vendam ingressos na porta de um mega-evento, ainda mais quando tem o apoio do Estado e Município para fiscalizar e coibir esse tipo de coisa? Na fila para entrar pessoas praticavam furtos na cara de pau: puxavam a bolsa e saiam correndo ou metiam a mão e furtavam pertences de dentro da bolsa. Outros pequenos crimes corriam soltos. Na entrada, as pessoas eram informadas que não poderiam levar alimentos. Quer dizer, você é obrigado a chegar com uma antecedência enorme por causa da má organização do evento e ainda é obrigado a pagar um preço extorsivo pela comida do local, isso quando ela não acaba.

Sim, vários pontos ficaram sem alimentos. Os shows menos importantes começam às duas da tarde, então, imagina a demanda. Ainda assim, acabou comida e acabou bebida. Isso porque um copinho de água custava CINCO FUCKIN´ REAIS e um sanduiche R$29,00. Mas isto não foi tudo. Filas enormes obrigavam as pessoas a esperar horas para ter acesso a comida cara e ruim. Quando falo “as pessoas” me refiro às pessoas educadas. Pessoas mal educadas como o diretor global Wolf Maia saiam furando fila do Bob´s e gritando “Dá licença que eu sou o Wolf Maia”. Uma pena que eu não tenha nascido homem para poder cobrir esse cara de porrada (vale a cesta básica) e uma pena que as centenas de homens no local tenham menos testosterona do que eu. Para completar o pacote, em determinado momento os caixas ficaram sem troco e só comprava comida quem tivesse o valor certo, trocado, ou abrisse mão de receber o troco. Muito bem organizado.

Já prevendo a muvuca, os organizadores quiseram pagar de espertos e espalharam uns cervejeiros ambulantes, uma espécie de São Bernardos humanos, que andavam com um barril de chopp a tiracolo vendendo doses de cerveja. Mas quando o povo é corrupto e sem educação, nada dá certo. Surgiram as “máfias do barril”, pessoas que pagavam subornos (em torno de R$ 250,00) para que o cervejeiro privilegiasse seu grupo. Quando outras pessoas pediam por cerveja, o cervejeiro dizia que tinha acabado, minutos depois ele era visto servindo com exclusividade o grupo que o subornou. Nessa brincadeira, só conseguia cerveja quem subornava, e formou fila para subornar! Tem coisa mais carioca que isso? Fila até para subornar! Resultado: muita gente não conseguiu beber, pessoas foram obrigadas a assistir Claudia Leite SÓBRIAS. Isso é tortura e crime contra a humanidade.

Por falar em Claudia Leite, vocês sabem, a gente tem todo um carinho especial por ela. Continua a mesma arrogante escrota sem carisma de sempre. Ela foi responsável por dezenas de feridos graças à sua falta de consideração e arrogância. Explico: uma de suas músicas mais “famosas” chamada “Caranguejo” (na verdade é da sua ex-banda, Babado Novo) tem uma coreografia conhecida. Na hora em que ela canta o refrão “Segura na corda do caranguejo… pra lá e pra cá” as pessoas pulam e se empurram de um lado para o outro. Vejam bem, meu professor de axé parou de passar essa música NA AULA porque pessoas se machucavam. Sempre tem um sem noção que empurra forte demais. Estou falando de uma sala de aula ampla, com vinte, trinta alunos. Parece uma boa idéia cantar esta música para uma muvuca de cem mil pessoas?

Claudinha da perna de saracura achou que seria uma boa idéia. Normal, ela também achou que seria uma boa idéia parar de amamentar o filho para tomar bomba e estar em forma apenas 30 dias depois do parto e quase matou o moleque de meningite porque o bichinho não tinha um anticorpo. Esta pessoa não tem bom senso. Deu merda. Pessoas se machucaram, várias pessoas chegaram a DESMAIAR. A multidão pedia aos berros para que ela pare de cantar. O que ela fez? Mesmo vendo pessoas caídas no chão e pessoas sangrando ela parou a música e disse “Se você não agüenta o curso, então porque se matriculou?” e continuou cantando o refrão. Mais gente machucada. Foi vaiada pela multidão por causa desta atitude e continuou cantando mesmo assim. Também machucou os ouvidos de todos os presentes, porque desafinou absurdamente, principalmente nesta música. Tá se achando, né Claudinha? Esqueceu que sem plástica você é o diabo de alpargatas. Eu não esqueci. Quem quiser conhecer Claudinha antes de ser tunada para virar uma estrela pop dá um look neste vídeo. Mas você era baranga, hein filha? Eu sou 100% natural e sou bem melhor do que isso.

Fato: Claudia Leite desperta o que há de pior nos seres humanos. Foi durante o show dela que teve um FUCKIN´ ARRASTÃO onde os pertences de centenas de pessoas foram roubados. Sim, isso aí que você ouviu, teve um arrastão do lado de dentro do Rock in Rio. Neguinho paga ingresso caro, comida cara, sofre para chegar e ainda tem arrastão. Isto é Rio de Janeiro, bem vindos. Tem como culpar pessoas que estão sendo obrigadas a ouvir Claudia Leite por algo? Se o caso fosse de Júri e eu fosse jurada, eu inocentava. Além de arrastão também ocorreram muitos furtos e outros crimes do lado de dentro. No dia seguinte disseram que iriam “reforçar o policiamento” do lado de dentro como se isso fosse um cala a boca. Meus queridos, vão reforçar seus caralhos, porque deveria estar policiado desde o primeiro dia! INACEITÁVEL que tenha ocorrido. Mania nojenta de carioca de esperar dar merda para depois se mexer. Na Copa do Mundo como vai ser? Vai desabar o Maracanã lotado na final e no dia seguinte vão dizer que vão “reforçar as estruturas do estádio”?

Outra inoperância digna de nota: os “brinquedos” que instalaram ali. Tinha roda gigante, montanha russa… e fila de, no mínimo quatro horas para usufruir. Pior do que isso: os brinquedos chegaram a ser fechados por causa do mau tempo e dos ventos. Colaram com cuspe que não pode funcionar se ventar? Um cidadão que passou exatas quatro horas na fila da roda gigante teve um dia de fúria quando finalmente chegou a sua vez e lhe disseram que fechariam a roda gigante porque estava ventando. Não sei que fim ele levou, mas se estiver vivo, queria parabenizá-lo, o show dele foi o melhor da noite.

E por falar em brinquedos, tinha uma Tirolesa. Para quem não sabe, é uma espécie de bondinho do Pão de Açúcar, só que de gente. Você desliza por um cabo preso a duas extremidades. Parece simples, né? Não precisa de nenhum milagre da engenharia para amarrar um cabo em cada ponta e fazer uma pessoa cruzar usando uma roldana. Mas até a Tirolesa estava toda cagada. Pessoas ficavam presas no meio do caminho, suspensas no ar, esperando pelo resgate. Puta merda, que vergonha.

Além de fazer um evento todo cagado, ainda mentem para o público. Mentem e dizem que fora “pequenos imprevistos” (tipo falta de comida? Falta de bebida? Arrastão?) correu tudo bem. Daí pintam aquele quadro bonito de que o Rio de Janeiro está suuuper preparado para eventos de grande porte. NÃO ESTÁ, acreditem em mim, FOI UM DESASTRE, UMA VERGONHA E UM CAOS.

Curioso que todo ator global entrevistado na área VIP (que ficava na puta que pariu de distância do palco, bem feito!) repetia feito um papagaio, fora de contexto com o que era perguntado, que o Rio está super preparado para sediar grandes eventos. Sabe como é, semana passada a FIFA ameaçou tirar a Copa do Mundo do Brasil e levar para a Alemanha, o cu piscou. Imagina o dinheiro que neguinho perderia se isso se concretizasse! Sabemos que não vai acontecer, mas, puta que me pariu, o simples fato da FIFA anunciar publicamente a possibilidade de tirar a Copa do Mundo do Brasil já é uma MEGA VERGONHA. Não me lembro disso ter acontecido antes.

E por falar em mentir para o público, a mentira não se limitou à organização e segurança do evento, se estendeu a seus artistas também. A “cantora” (sério, muitas aspas aqui se você tem um pingo de bom senso e não teve sua cabeça estuprada pela mídia) Rihanna atrasou bastante o começo do seu show, razão pela qual foi até vaiada (Chris Brown, mandou bem) . Trataram logo de espalhar através da mídia no dia seguinte que ela teve uma dor de garganta e teve que ser atendida às pressas por um médico que mandaram vir de um hospital em outro bairro. Tentativa idiota de salvar a reputação do evento.

Sério, gente. Quando eu digo que as pessoas tem que contratar o Somir como assessor, eu não estou brincando. Porque ele faz melhor do que 90% dos assessores que estão por aí. Se queriam inventar uma emergência médica, tivessem a decência de inventar algo plausível. Ela acordou bem, chegou no camarim bem, mas, curiosamente, uma hora antes do show, ela foi acometida de uma dor de garganta súbita? ALOOOOOOU? Dor de garganta não vem de uma hora para a outra, e depois que ela vem, não existe tratamento imediato que deixe a pessoa com a voz bacana em quinze minutos! Chocada como as pessoas engolem tudo que sai na imprensa.

Rihanna, PROCESSA EU, porque eu vou contar o que realmente aconteceu. Por motivos óbvios vou preservar a minha fonte. Seguinte: o show da Katy Perry, no mesmo dia, algumas horas antes, correu muito bem, tudo dentro do que era esperado. Daí ela montou uma mega-comemoração no seu camarim. Rihanna deu uma passadinha na festinha armada pela Katy Perry e… digamos assim… se excedeu no uso de algumas substâncias. Ficou de-to-na-da, incapaz até de andar com dignidade. Precisou de uma ajudinha médica, de diversos medicamentos e de uma horinha para se recuperar para conseguir subir ao palco. Observem a moça durante seu show, vocês sentirão uma vibe meio Amy, ela não estava purinha não. Uma informação que não pude apurar: será que a Christiante Passarinho Imaginário Torloni também passou no camarim da Katy Perry?

Gentem, to no fim da quinta página, hora de dar tchau. Uma pena, tava uma delícia essa meteção de pau (quem fizer trocadinho com esta frase será considerado infantil). Semana que vem prometo que faço um Desfavor Explica para compensar, sobre algum assunto bem interessante e instrutivo.

Para fechar, acho que o pior desfavor não foram os organizadores. Eles só fazem isso porque sabem que neguinho engole. O que mais me aborrece é ver gente que ESTAVA LÁ achando tudo muito lindo. As pessoas são IDIOTAS, só pode! Fico me perguntando como vai ser na Copa do Mundo, onde cem mil deve ser o número DE JORNALISTAS do evento. Tô falando muito sério, eu quero sair do Rio de Janeiro antes de Copa do Mundo e Olimpíadas. Aceito propostas de emprego em outros estados. É sério.

Para dizer que prefere acreditar na versão colorida e açucarada da mídia, para dizer que está muito feliz por não ter ido ou ainda para dizer que cada dia aumentam as probabilidades de que eu encontre uma bala perdida quando sair na rua: sally@desfavor.com

Você não vai acreditar...Confesso que fui ao teatro arrastada e de má vontade. Eu não queria ver aquela peça por um único motivo: eu não gosto da atuação do ator desta peça na TV. Acho seu programa uma titica e seus personagens um desfavor. Mas fui. Fui esperando o pior, esperando duas horas de piadas sem graça onde todos se divertiriam menos eu.

Não custa lembrar que aqui a gente não se prostitui nem prostitui texto. Nunca ganhei nada de ninguém para escrever sobre assunto nenhum, nem vou. No dia em que eu aceitar um ingresso de teatro considerarei que a minha parcialidade para escrever sobre o assunto estará comprometida. Não conheço o ator e não fui com o objetivo de divulgar, criticar ou fazer propaganda. Sinceramente, fui com a intenção de dormir e nem ao menos sonhei que pudesse escrever sobre a peça.

Não poderia ter me surpreendido mais. Surpresa dupla: com o ator e com a imbecilidade da platéia, que foi muito maior do que eu pudesse mensurar. Contarei com detalhes, mas não muitos, para não estragar a proposta da peça.

Eu já estava esperando que ele entre em cena todo paramentado como um de seus personagens televisivos. Foi um alívio quando o vi de cara lavada e apenas uma calça e uma blusa branca. Foi um alívio quando ouvi sua voz normal, que diga-se de passagem, é bonita e não irritante como aparece na TV. Mas, acima de tudo, vi uma calma e segurança incomum em um rapaz de 22 anos que estava prestes a fazer o que ele ia fazer.

Ele começa a peça conversando com a platéia. Simples, humilde. Na platéia pude sentir uma impaciência coletiva no ar, como se todos estivessem pensando “Tá, tá bom, mas… quando é que a peça vai começar e você vai fazer seus personagens?”. O ator não está nem aí, ele continua falando na maior calma. Mais para frente ele diz com todas as letras que se alguém foi até lá esperando que ele faça o que ele faz na TV, perdeu seu tempo. Eu comecei a bater palmas nessa hora, mas fui contida mediante esporro.

O ator desenvolve a peça de uma forma genial. Ele faz o que ele quer, não o que o mercado demanda. Ele faz o tipo de teatro que ele gosta e de vez em quando prende a atenção da parcela acéfala da platéia (99%) com um palavrão ali, uma escatologia ali. Mas deixa claro o tempo todo seu propósito e a platéia sem perceber o segue, como filhotes de patinho atrás da mãe. Ele mantém a platéia refém, através de um palavrão aqui, uma baixaria ali, fazendo-a assistir ao que ele quer.

As pessoas ao meu lado comentam cochichando “eu não acredito que ele não vai fazer o personagem tal… eu vim só para isso”. Eu rio por dentro. O ator mostrou que é muito mais do que seus personagens burlescos de televisão. Isto o fez subir muito no meu conceito, porque ele sabe ser tudo: personagem medíocre ou bom ator. Gente que só sabe ser cult ou só sabe ser trash é igualmente medíocre. Aqueles que transitam por todos os meios e sabem interagir com todos os públicos sim são os que tem mérito. Mais: ele deixou claro que sabe o que o público quer e teve culhões de não dar.

Assim como a gente do Desfavor, o ator fazia a peça por amor. Ele não recebe um centavo por essa peça. O dinheiro vai para as pessoas que trabalham com ele no teatro. Ele vem de uma família ligada a teatro, tem amor pela causa. Quando você faz as coisas só por amor, sem interesse em uma contraprestação financeira, tudo fica mais sincero. Não que ele seja santo, ele deixou muito claro que sabe dar o medíocre a quem quer o medíocre, como faz uma vez por semana na televisão, me troca de dinheiro.

Daí você deve estar pensando: se as pessoas são babacas a ponto de consumir esse tipo de merda, não resta nada além de lamentar, certo? Errado. Resta outra alternativa escolhida pelo ator: caçoar do próprio público. A peça dele é filosofia 100% Desfavor. Ele se aproveita da idolatria do público massivamente retardado nutre por seus personagens televisivos para mantê-los reféns e fazê-los ouvir o que ele tem a dizer. Genial.

Pude perceber que no correr da peça o grau de deboche com o público que consome seus personagens de TV aumentava progressivamente. Eu estava quase subindo no palco para beijar os pés dele. O mais engraçado é que o público estava perdido, confuso, sem entender absolutamente nada mas tentando desesperadamente encontrar alguma lógica naquilo para fingir que entendeu. Afinal, só os sábios conseguem ver a roupa invisível do rei. As risadas nos momentos inadequados, os comentários cochichados e as caras da platéia me faziam ter certeza de que ninguém ali estava entendendo a real proposta da peça.

O ator prosseguiu com sua proposta, até chegar a um ponto em que burrice e a inadequação da platéia foi tanta, que o fez abrir mão da sutileza e ele disse com todas as letras o que pensava. E ainda assim a platéia não entendeu e riu. Pois é, foi isso mesmo. Ele esculhambou com a platéia, e a platéia não entendeu e riu. Foi desesperador para a meia dúzia de seres humanos pensantes presentes. Ele disse com todas as letras que as pessoas não sabem apreciar uma peça de teatro, que estão idiotizadas pela televisão e que são ignorantes o suficiente para ir ao teatro e esperar uma reprodução do que se vê na TV. Pensa que ficou cheiro de merda no ar? Nada, todo mundo riu achando que era piada.

O ator, com expressão impaciente e desolada, ainda chamou a atenção para o fato da platéia rir sempre que ele fala um palavrão, destacando que isso não é humor. E disse com todas as letras que quem ri de palavrão É BURRO. Quando ele estava se lamentando, na maior educação, que todo mundo riu quando ele falou palavrões ao longo da peça, eu, por instinto, fiz um sinal de “não” com o dedo. Por um segundo ele me olhou e lançou um sorriso maroto.

O auge foi quando ele disse que iria provar como todos os que estavam ali eram burros e ria por pouca merda e começou a imitar seu personagem mais famoso. Antes de começar disse que quem risse daquilo era BURRO. Começou a imitá-lo e todos caíram na gargalhada. Senhoras e Senhores, trollagem no teatro é possível. Meu herói!

Mas a humilhação unilateral não parou por aí. Em determinado momento ele se impacientou, colocou as mãos na cintura e disse “Vamos lá, vocês querem o que vocês viram na TV? O que vocês querem que eu faça?”. A platéia começou a gritar nomes de personagens. A medida que a platéia ia gritando, ele ia fazendo trechos dos personagens e depois dizia coisas como “Tá, e aí?” como quem diz “grandes merda fazer isso”. Passeou por cinco ou seis personagens que ele faz e quando acabou deu uma grande lição na platéia, pena que poucos entenderam o que ele estava dizendo. Adorei a forma como ele tratou com desdém seus personagens da TV.

Não vou falar mais para não estragar a peça e a proposta da peça. Quero falar agora do pós-peça, quando o ator saiu de cena, de forma pouco convencional. A reação da platéia se dividiu em basicamente duas: aqueles que, sem perceber, se assumiram burros e acharam a peça uma merda ou aqueles que ficaram com vergonha de não ter entendido nada e saíram dizendo coisas genéricas como “ele é muito doido, né?” ou então se apegaram aos quinze segundos que ele fez as imitações televisivas (com o claro propósito de avacalhar com a platéia) dizendo “Viu? Viu? Viu que maneiro quando ele fez o personagem tal?”. Só isso que eles assimilaram da peça, os quinze segundos do personagem tal.

Foram programados para ver o personagem tal e diante da mudança proposta pelo ator não souberam reajustar suas expectativas. Não souberam nem ENTENDER que seria necessário fazer esta adequação. Ficaram idiotizados, sem saber lidar com o imprevisto. Porque jogo de cintura para se adaptar e lidar com imprevistos requer um mínimo de inteligência. Infelizmente a cultura e os meios de comunicação estão tão padronizados e previsíveis que quando algo sai do esperado as pessoas não apenas não entendem como muitas vezes nem percebem. É nisso que dá ninguém inovar, as pessoas estão idiotizadas por causa do humor massificado. Desaprenderam a interpretar.

Juro para vocês que eu fiquei deprimida ao final da peça. Como pode tanta gente burra com tão alto poder aquisitivo? As pessoas são incapazes de depreender o conteúdo global (no sentido de conteúdo total) da peça e de conectar idéias. De todas as coisas interessantes que ele fez e disse o que ficou marcado na cabecinha tosca das pessoas foram aqueles quinze segundos de personagem televisivo (para o qual a platéia se programou) ou aquela piadinha escatológica ou com palavrões, contada justamente para provar o ponto do ator: a platéia é burra.

As pessoas não entenderam nada. E, ao não entender, a reação foi dizer que gostou, que achou bacana. Porque? Porque é um ator de televisão com personagens famoso, então, tem que achar bacana, afina, o cara deve ser bom, né? Se todo mundo gosta, se o programa dele tem audiência, melhor achar bom, vai que alguém te acha burro por contrariar a maioria! Gente sem juízo crítico sofre desta mazela: tem sempre que acompanhar a maioria sob pena se ser taxado de imbecil. Porque ao discordar da maioria você tem que apresentar argumentos muito bem fundamentados, caso contrário é execrado. Falo com conhecimento de causa, porque escrevo uma coluna aqui chamada “Flertando com o Desastre” destinada justamente a discordar da maioria nos mais diversos temas.

Durante a peça toda, ele oscila em diferentes tipos de estímulo que joga para a platéia, quase que em uma experiência antropológica, medindo até onde chega o grau de burrice das pessoas hoje em dia. Tal qual traficante, liberando aos poucos droga para o viciado, o ator vai dando seu recado e mantendo a platéia presa em seu relato com eventuais gotas do humor que eles demandam, coisas como “quando eu era pequeno enfiei uma escova de dentes no cu”. Assim, ele manipula as pessoas (para o bem delas, diga-se de passagem) e as faz ouvir o seu recado. Pena que ninguém entende, por mais claro que ele tenha falado. As pessoas estão retardadas, mentalmente bloqueadas e cegas a qualquer coisa que fuja de linguagem simplória de TV ou 140 caracteres de Twitter.

Momento fofoquinha mesquinha de espírito sem luz. Porque se não tivesse um momento fofoca, não seria eu. A Gracyanne Barbosa (porque pobre adora consoante?), aquela moça cuja profissão é se esposa do Belo e madrinha de bateria de escola de samba paga pelo Belo, estava na platéia, perto de mim. Em determinado momento da peça, o ator narra um encontro dele com o demônio, e ao descrever o demônio informa que ele tinha chifres, rabo e a cara do Belo. Gente, eu ri tão alto, mas tão alto… Que merda, hein? Você, mocinha que está cursando o segundo grau: ESTUDE, MINHA FILHA, se não você vai ter que se juntar com alguém com a cara do Belo para te sustentar e comprar tua maconha básica do dia a dia… ops! Falei demais. Vamos voltar para a peça que é melhor.

Confesso que hoje veria o programa de TV do ator com outros olhos, porque sei que ele sabe fazer mais, pode fazer mais e só faz aquilo porque quer. Me identifiquei. Eu me dou ao luxo de escrever sobre cocô porque sou segura o bastante a ponto de saber que posso escrever também sobre política internacional e direito. Bacana, versátil. Agora os personagens do ator na TV não me irritam mais, os encaro como deboche a toda essa massa burra que os assiste, ri e bate palminha, como focas retardadas, em suas poltronas.

Eduardo Sterblitch, suas sinceras desculpas estão aceitas. Sua peça é muito boa. E olha que em três anos de blog não me lembro de ter elogiado aberta e sinceramente quase nada. Você usou como isca seus personagens de TV para reunir pessoas e falar-lhes umas verdades na cara, com muita educação, muito charme e muita sutileza. Você fez a sua parte, se eles não entenderam, problema deles. Você contribuiu para um mundo melhor. E me divertiu por duas horas.

“Minhas sinceras desculpas”, monólogo de Eduardo Sterblitch, humorista do pânico que faz, entre outros personagens, Freddy Mercury Prateado, Ursinho Gente Fina, Cesar Polvilho, Malisa e outros. Desfavor recomenda.

Para dizer que se a gente recomenda deve ser uma bosta, para dizer que você gosta de Pânico na TV e está ofendido com o texto ou ainda para dizer que você está ofendido com Eduardo Sterblitch sem sequer ter visto a peça: sally@desfavor.com