Desabafo em rede social.

Esta semana vimos vários profissionais pagando um preço alto por “desabafos” postados em redes sociais. Todas as críticas foram merecidas, mas, além de criticar, o que aprendemos com isso?

Não se posta nenhum tipo de desabafo em redes sociais. Nem profissional, nem pessoal, nem de nenhuma espécie. “Mas Sally, você já disse isso antes”. Sim, e vou repetir muitas outras vezes, pois não é uma coisa que se incorpore com apenas um aviso.

Como é algo que a maioria das pessoas faz, o tempo todo, quem está em redes sociais acaba normalizando a conduta e fazendo, muitas vezes, sem perceber – e sem lembrar das consequências. Por isso, eu acho que seria um bom exercício para todos nós relembrar mentalmente, uma vez ao dia: “não se posta desabafo pessoal em rede social”.

Na postagem que ficou mais famosa, uma médica xinga um paciente por ele ter procurado uma emergência de madrugada por causa de uma infecção urinária. No entender da médica, era algo que “poderia esperar”. Podem ter certeza que a coisa não começou assim.

Um dia, essa pessoa postou um “Hoje tá foda, viu?”. No outro dia ela postou um “Tem gente que não se toca” e a coisa foi escalando até virar “Tem que ser muito FILHA DE UMA PUTA para vir 1 da manhã em um pronto socorro por conta de uma infecção urinária”.

Quando normalizamos desabafar em redes sociais, a coisa escala sem a gente perceber. Por isso o exercício: apesar de todo mundo fazer, apesar de ser considerado aceitável (por uma sociedade doente), apesar de não parecer errado na hora, relembre-se diariamente: rede social não é lugar de desabafo. Um dia pode dar merda. Não vale a pena. Mesmo quando não dá merda, é um comportamento carente que atrai coisas ruins, pessoas ruins.

Obviamente a médica que postou isso foi trucidada, em sua maioria, por pessoas que já fizeram igual ou pior. Mas a crítica à médica não é descabida: o paciente não tem condições de saber o que ele tem (o que parece uma infecção urinária pode ser uma apendicite) e, mesmo que tenha, não sabemos da realidade da pessoa, talvez aquele seja o único horário em que ela pode recorrer a um médico.

A moça foi parar até na Globo, foi esculachada por todo o Brasil e ficou sem emprego. Merecido? Merecido. Rede social não é lugar de reclamação. Além disso, se quer reclamar, reclame das condições de trabalho ruins, da jornada longa, mas não do paciente. O paciente não tem culpa de estar doente, o paciente não queria estar doente. Quem se incomoda em atender doenças “menos graves” não pode ser médico.

O curioso foi ver o tanto de gente que criticou a médica, mas faz exatamente o mesmo. Não viralizaram por pura sorte ou irrelevância. O que leva a pessoa a ter tão pouco “observômetro” para achar um absurdo o que a médica faz, mas fazer o mesmo? Talvez reclamar em redes sociais tenha virado um vício, uma rotina, algo que as pessoas fazem no piloto automático. Por isso hoje eu te convido a refletir: você anda reclamando em redes sociais? Se sim, pare.

“Mas Sally, eu não reclamo do meu trabalho”. Ok, é igualmente ruim você reclamar da sua vida pessoal. Primeiro por que é uma falta de ética com as pessoas que te cercam, segundo (e mais dolorido), porque ninguém quer saber. Não interessa a ninguém detalhes sobre sua família, seus parceiros, seus amigos. Sabe a quem interessa isso? A quem quer munição para falar mal de você. A quem é fofoqueiro e quer saber da sua vida. A quem não gosta de você e vibra cada vez que você se ferra. É com essas pessoas que você está falando cada vez que reclama em redes sociais.

“Quer dizer que eu só posso postar coisas alegres?”. Não, Pessoa Quer Dizer. Não quer dizer isso não. Pode postar qualquer coisa que não seja pessoal, íntima, de foro privado. Imagine uma conversa que você teria em uma mesa de reunião, com chefe e clientes. Os assuntos que você levaria até eles são os assuntos que você deve tratar em redes sociais. Não diga nada que você não gostaria que sua família lesse, que seu chefe lesse, que não fosse lido pelo Bonner no Jornal Nacional.

“Ain Sally, que paranoia, até parece que o que eu vou dizer vai parar no Jornal Nacional”. Não vai. Certamente não vai. Estou apenas te dando um balizador para você avaliar o que falar, não por medo de ir parar no Jornal Nacional, mas pelo seu bem. Para não pagar de maluco, histérico, descontrolado, sem ética ou coisa ainda pior. Eduque-se. Ninguém nasceu sabendo limpar a boca em guardanapo, usar talhes ou limpar a bunda, mas somos educados a fazê-lo, para o nosso próprio bem. Eduque-se para não desabafar em redes sociais, não por etiqueta, mas pelo seu próprio bem.

É constrangedor ver pessoas evadindo sua privacidade em redes sociais, tanto pela falta de ética com as pessoas que estão envolvidas no desabafo, quanto pela burrice de se expor assim e deixar registrado para o mundo algo que em um futuro pode ser prejudicial. Dá muita visualização? Pode ser, o vexame alheio sempre faz quem lê se sentir melhor, menos fodido, superior. Mas você está lá, exposto. Uma vez postado, não tem volta. Você apaga, mas o print é eterno.

E a consequência não precisa ser algo de grandes proporções, como ir parar no Jornal Nacional, para doer. Por ser algo sem repercussão, mas que te chateie bastante. Eu já terminei relacionamento por ver que a pessoa reclamou da ex em rede social. Esse tipo de pessoa não me interessa. Repercussão zero, mas custou à pessoa um relacionamento, no qual ela estava bastante interessada.

E aqui podemos aprofundar um pouquinho: por qual motivo a pessoa está desabafando em redes sociais, já que é feio, antiético e pode prejudica-la no futuro? Talvez seja simplesmente por não ter se tocado disso, mas talvez seja um sintoma.

Ser vítima frequentemente gera recompensas sociais: pessoas que vão te acolher, te dar atenção, interagir com você e tentar te fazer sentir melhor, te cobrar menos. Se você precisa disso para se sentir bem, se você precisa da atenção de terceiros e desse tratamento caridoso, você tem um problema. Terapia. Já.

Também existe o componente da ansiedade. Tem muito adultinho que não sabe lidar com os problemas da vida adulta com a calma e serenidade que eles demandam: acontece algo e bate uma ansiedade louca na pessoa, ela não sabe processar as emoções, ela se descontrola e transborda tudo para uma rede social, quase que para “exorcizar” o que está acontecendo. Se você precisa desabafar em público para processar o que acontece com você, você tem um problema. Terapia. Já.

Tem ainda quem seja carente mesmo. Pessoas que não conseguem cultivar relacionamentos (principalmente de amizade) no mundo real e buscam conselhos, consolos e outras funções de amigos na internet. Ao não ter com quem falar ao vivo e a cores, fazem da rede social um amigo. Se você precisa fazer da sua rede social um amigo confidente por não ter um na vida real, você tem um problema. Terapia. Já.

Vocês estão entendendo onde eu quero chega, né? Existem infinitas motivações que levam a pessoa a expor sua vida, seus problemas, suas questões em redes sociais – e todas elas são sintomas de que algo não vai bem na cabeça da pessoa. Não são uma doença em si, são sintoma de algo. Se esse algo não for tratado, a vida da pessoa tende a continuar complicada e os mesmos sintomas vão se repetir eternamente sem que a pessoa entenda o porquê.

Aí a pessoa atribuí isso à inveja, macumba, inferno astral, praga, encosto, mercúrio retrógrado, olho gordo, família disfuncional, namorado abusivo, sete anos de azar por ter quebrado um espelho, karma, uma provação de Deus ou qualquer outra desculpa. A culpa está em tudo, menos em quem realmente tem responsabilidade sobre isso: a própria pessoa. Não que a pessoa tenha culpa do problema, a pessoa tem a responsabilidade de olhar para ele e resolvê-lo, em vez de culpar fora.

Às vezes dá para fazer sozinho, às vezes a pessoa precisa da ajuda de um terapeuta. Mas, em ambos os casos, é um processo interno, de quietude e recolhimento, não de expansão e compartilhamento com o mundo. Você só consegue escutar o que está acontecendo dentro de você se calar a porra da boca, se sair das redes sociais, se parar de se distrair com qualquer coisa externa e focar em se recolher e olhar para dentro.

“Mas Sally, eu não tenho dinheiro para fazer terapia”. Nós já falamos mais de uma vez aqui que não precisa de dinheiro para fazer terapia. Existem muitas instituições que disponibilizam esse tipo de atendimento de forma gratuita ou por preço simbólico. Por exemplo, faculdades de psicologia, até onde eu sei, fazem esse atendimento, para ajudar na formação de novos psicólogos (sempre supervisionados por psicólogos experientes). Se você procurar, você encontra uma forma de fazer terapia sem gastar muito.

A real é que terapia é demorado, demanda uma auto responsabilidade muito grande, te obriga a olhar para dentro, a revirar as merdas da sua vida e, no consultório do terapeuta você não consegue sustentar as máscaras que criou, a persona que inventou em redes sociais. No consultório do terapeuta somos todos reles mortais, pessoas comuns, com medos, inseguranças, problemas e dúvidas. No consultório do terapeuta problemas e questões das quais tentamos nos esquivar no dia a dia são trazidos à luz e jogados na sua cara. No consultório do terapeuta tem alguém que consegue te ver de verdade, treinado para isso, a quem você não consegue enganar.

Muito mais legal ir para a astróloga, taróloga, coach, terapia alternativa, holística, espiritual ou qualquer outra solução mágica, que não vai na causa do que está acontecendo, mas promete uma resposta rápida. “Seus chakras estão desalinhados, vamos alinhar” é muito mais agradável do que ter que admitir seus erros, as mentiras que você contou para si mesmo e fazer mudanças significativas internas.

E esse é o ponto: as pessoas querem que suas vidas melhorem, mas não querem promover nenhuma mudança para isso. “Tem um vazamento no teto da minha casa, mas eu gosto desse teto e dá trabalho para trocar, então, eu quero que o vazamento pare, sem mexer no teto”. Meu anjo, não vai acontecer. Você pode encontrar mil justificativas para se convencer que é possível, mas não é. E eu sinceramente espero que você não tenha que sofrer por anos para perceber isso. Por isso, escrevi este texto.

Se você quer mudanças, você tem que mudar. Não existe uma “cirurgia” comportamental, não dá para extrair com pinça um comportamento, um mecanismo ou um problema. Você é um todo, ou mexe no todo e melhora o todo, ou os problemas vão se repetir. “Mas eu não quero”. Ok, então faça escolhas conscientes. O que você prefere: continuar vendo esse problema repetido sucessivas vezes na sua vida e não se mexer, ou se mexer e não ter mais esse problema?

Se você fizer a escolha consciente da inércia, aceitando que o problema vai fazer parte da sua vida, eu posso respeitar isso. Não acho bom para você, mas respeito. O que eu não respeito é a eterna ilusão de que o problema vai embora sem fazer todas as mudanças que são necessárias.

Quando eu ainda tinha paciência para escrever sobre atividade física aqui, a pergunta que eu mais recebia nos comentários era: “como perder a barriga”. Pessoas se matando de fazer abdominal para “perder a barriga”. O corpo é um todo, ele perde gordura como um todo. Não existe nada nesse mundo (a não ser lipoaspiração) que te faça perder “só barriga”. Tem que reduzir a gordura do corpo todo para que a da barriga reduza junto. E isso se faz com dieta e atividade física.

No entanto, tem um milhão de aparelhos estilo Elysee Belt ou ABShaper no mercado prometendo que você vai “perder a barriga, com apenas cinco minutos por dia, sem dieta”. Funcionam? Não. As pessoas compram? Sim.

Por qual motivo as pessoas compram se não funciona? As pessoas compram uma esperança de melhorar sem esforço, sem mudança. As pessoas compram a paz de espírito de saber que estão fazendo algo. As pessoas compram quem culpar: se eu não perder a barriga, não é por ser uma preguiçosa que não quis se exercitar ou fazer dieta, é pela porcaria do Elysee Belt não funcionar. Eu não sou uma preguiçosa, sou uma vítima do Elysee Belt.

O mesmo vale para a mente: não dá para pretender que um problema se resolva se você não mudar o todo. “Eu quero resolver só isso” é o “eu quero perder barriga” da mente. Não existe “só isso”, você é um todo, está tudo entrelaçado, interligado. Se tem algo na sua vida te incomodando, mudanças serão necessárias para que se resolva. Pessoas que querem resolver problemas com apegos pendentes estão fadadas a viver correndo em círculos.

Se você quer que algo mude, tem que promover mudanças na sua vida, e muitas delas podem não ser fáceis. Mas, sabe o que também não é fácil? Viver cometendo os mesmos erros, viver frustrado por não sair do lugar, viver insatisfeito por não conseguir mudar. O acomodado paga com a alma. Não vale a pena.

Então, amarrando tudo que foi dito num parágrafo só: desabafar em redes sociais não é apenas muito ruim para você, também pode ser um sintoma de que algo não está legal na sua vida. E, se você quiser, vai encontrar mil argumentos para não fazer nada a respeito, para se convencer de que é vítima ou até para se convencer de que está fazendo algo, quando na verdade não está fazendo nada que realmente vá mudar a sua realidade. Pergunte-se de tempos em tempos se esse não é o seu caso. E relembre-se diariamente: rede social não é lugar de desabafo.

Para dizer que desabafa em redes sociais e nunca aconteceu nada (“saí de carro sem cinto de segurança e não morri, portanto, cinto é desnecessário), para dizer que na sua bolha você só está socialmente integrado se desabafar em redes sociais (mude de bolha) ou ainda para dizer que sua avó já dizia que roupa suja se lava em casa: sally@desfavor.com

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Comments (18)

  • Melhor coisa que fiz esse ano. Desativei Instagram e Twitter. Fui esse tipo de gente e me cansei desse tipo de gente.

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  • A intenção dos que criaram as redes sociais era unir as pessoas, mas, na prática, essas redes sociais só as separam. E também servem de palco pra autopromoção e pra “desabafos” horríveis como o dessa médica.

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      • Esse aí é o retrato de mais uma imbecil pregada pra Cristo pelos militudos.
        Vocês sabem como essa turminha adora vilanizar médico como mercenário e fica com paradas como “doula” (parteira gourmet) e trazendo mão de obra “barata” lá de Cuba como alternativa.
        Faz o sinal de arminha parecendo um L de Lula que passa.

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  • Foi a profissão que ela escolheu, no horário que ela concordou e não tava por caridade, foi paga por isso. Então filha da puta é ela por ser tão escrota publicamente. Melhor pensar merda e não falar, se falar pra geral tá abrindo porta pra críticas de geral.

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    • A pessoa se sente incomodada por ser demandada no seu trabalho, no horário de trabalho. É fascinante!

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      • Não sei, fiquei sabendo dessa história por aqui. Mas só olhando o “desabafo” vejo que ela deu elementos suficientes para que a pessoa em questão possa ser identificada, e isso é suficiente aqui para dar tanta merda quanto divulgar o nome.

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  • Por que alguém ainda se dá o trabalho de ter ídolos hoje em dia? As redes sociais há mais de uma década estão desconstruindo essa “genialidade” e “glamour” que supostamente rodeia essa galera. Artistas, influenciadores, atletas, doutores etc. Antigamente eram respeitados e bajulados, tinha a Revista Caras mostrando as fotos das festas e dos trabalhos deles com críticas pomposas, o máximo que se ouvia dessas pessoas vinha de entrevistas ensaiadas. Aí hoje eles podem falar diretamente com o público e todos percebem que são uns faladores de merda como o resto de nós kkkkkkk

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    • Não só os ídolos continuam, como agora qualquer zé cu que poste as mentiras certas pode se tornar um ídolo. Com as redes sociais os ídolos aumentaram.

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      • De 2010 pra cá o conceito de “famoso” mudou pra: pessoa aleatória que viraliza num nicho nos confins de uma rede social e só o pessoal dali conhece

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