Criador.

Um dos argumentos mais razoáveis que eu escuto de pessoas religiosas sobre a possível existência de um criador é o baseado nas possibilidades: como é possível que tudo no universo conspire tão bem para a existência de uma forma de vida inteligente como a nossa? Quais eram as chances? Se você se aprofundar no conhecimento científico vigente, começa a perceber que a coisa é ainda mais impressionante do que a maioria das pessoas conhece.

O criacionista raiz vai usar exemplos como o formato da banana ser perfeito para a mão humana (sim, já usaram esse argumento num vídeo americano, mesmo sem perceber que a banana moderna é uma espécie modificada por milênios pelo ser humano até ficar do jeito que é agora); mas não precisamos forçar a barra desse jeito. Até porque o sucesso do ser humano moderno sobre a natureza é um dos últimos galhos dessa grande árvore evolutiva.

Eu quero começar antes. Bem antes. Mais ou menos um segundo depois do Big Bang, as leis da Física como conhecemos foram estabelecidas. E eu não estou falando só sobre gravidade ou movimento, é mais fundamental ainda. Tanto a teoria quanto os experimentos feitos sobre o funcionamento mais básico da matéria/energia do universo sugerem que cada um dos processos essenciais para a existência de qualquer coisa depende de valores muito específicos para funcionar.

Por exemplo: se uma das quatro forças fundamentais (gravidade, eletromagnetismo, força forte e força fraca) fosse um pouquinho mais ou menos poderosa do que o que medimos, os átomos sequer poderiam existir. É como se você aumentasse um pouquinho o brilho da tela do seu celular e ele pegasse fogo. Os valores são muito precisos. Você não sai flutuando do planeta ou começa a cair atravessando o chão por questão por uma questão de casas decimais nas leis da Física.

A nossa sorte é que não tem bolinha pra arrastar numa linha para mudar as regras de funcionamento da realidade. Não se mudam os valores que regem o universo: eles são como são. Por causa desses valores, a sopa fervente de partículas fundamentais foi esfriando com o passar de milhões de anos, formando átomos, moléculas e eventualmente, estrelas, galáxias…

A sequência só aconteceu porque a gravidade conseguiu enfrentar a expansão do universo pelo tempo suficiente para estabilizar alguns “grãos” de matéria. Já passamos dessa fase, a expansão parece estar até acelerando. Se não tivesse equilibrado um pouco alguns bilhões de anos atrás, ou tudo teria se expandido tanto ao ponto de não conseguir sequer juntar meia dúzia de átomos, ou pior: a gravidade teria puxado tudo de volta, como o universo fosse um elástico.

Nos dois casos, não estaríamos aqui para analisar as possibilidades. As leis universais (até segunda ordem) se mantiveram estáveis pelos quase 14 bilhões de anos de existência do nosso universo. Mesmo as partes que ainda não entendemos bem: matéria e energia escuras. Precisamos desses conceitos de matéria que não podemos ver e energia que combate a gravidade (que também não podemos ver) para nossas observações sobre o cosmo fazerem sentido, mas também precisamos que elas venham desde o começo para explicar por que as coisas estão nos lugares que estão.

O que a gente sabe o que é e até o que a gente não sabe o que é precisam estar numa proporção mais ou menos precisa para a formação de estrelas e planetas. Essa história de matéria e energia escuras parece uma falha do processo científico, mas só existem porque olhamos para o universo, pegamos os números e admitimos que tinha mais o que calcular. Tem gente que acha que é uma derrota, eu considero que é a ciência fazendo o que deveria fazer mesmo: quando o experimento diz algo diferente da teoria, corrija a teoria, mesmo que corrigir a teoria signifique admitir que não sabe o que está acontecendo. A realidade observada é o que importa.

Voltando: com esses números exatos nas forças fundamentais, na proporção entre matéria e energia visíveis e invisíveis, podemos adicionar alguns bilhões de anos na equação para chegar à Terra. E a sequência pra acontecer isso também é cheia de especificidades: no começo do universo, era tudo basicamente só hidrogênio e hélio, os dois elementos mais leves de todos. Mas só esses dois elementos não conseguem formar planetas muito diferentes de Saturno, por exemplo. Grande, gasoso e basicamente impossível de gerar qualquer forma de vida.

Durante uma boa parte da história do universo, a chance de formar um planeta rochoso como a Terra foi basicamente nula. Pedras gigantes como a nossa precisam de carbono, oxigênio, metais e tantas outras coisas que já venham de fábricas prontas. Nos primeiros bilhões de anos, estava tudo em falta. Mas as mesmas leis que permitiram a existência das primeiras estrelas garantiram que as coisas fossem mudando com o passar do tempo.

Astrônomos têm o péssimo hábito de usar o termo “metalicidade” para descrever estrelas, o Sol, por exemplo, é uma estrela com alta metalicidade. Metalicidade nada mais é do que a quantidade de matéria de uma estrela que não é hidrogênio ou hélio. Sim, astrônomo chama tudo de metal, pelo visto… estrelas assim só podem ser criadas se a nuvem de gás da qual surgiram já tivessem muitos elementos mais pesados. Estrelas trabalham com hidrogênio e hélio, o resto, salvo alguns momentos antes da sua morte, não são combustíveis muito úteis.

Mas quanto mais o tempo passa, mais estrelas nascem, e mais importante: morrem. A cada explosão de uma estrela (supernova) elas produzem mais e mais elementos pesados, que são jogados para todos os cantos do universo. Se uma nova estrela é formada nas “cinzas” de uma recém-falecida, ela vai se formar com hidrogênio, hélio e tudo mais o que a defunta produziu em abundância. As estrelas vão ficando cada vez mais “metálicas”.

Quando todos esses fatores se juntam, temos uma estrela como Sol nascendo numa nuvem de poeira estelar com tantos elementos extras que permitem a formação de um planeta como a Terra. No começo, uma bola de pedra e metal fervente sendo espancada por asteroides e cometas até se encher de elementos essenciais para a vida como a água. E segundo a teoria melhor aceita atualmente, a Terra ainda tomou um choque quase que frontal com outro planeta do tamanho de Marte e derreteu inteira de novo. A sujeira que foi arremessada para o ar se juntou numa gigantesca lua. Sério, a nossa Lua é um absurdo de grande se comparada com o tamanho do planeta que orbita. As outras luas do Sistema Solar são pedregulhos em comparação com seus planetas.

E a partir de aí, uma sequência incrível de fatores que não poderiam ter acontecido muito diferente do que aconteceram até a primeira forma de vida surgir aqui. Se foi abiogênese (vida surgindo a partir de não-vida) ou se veio de fora, certeza absoluta não temos, mas seja como for, foi mais uma série de fatores que não poderiam ter acontecido de forma muito diferente do que aconteceram para uma das espécies de macaco aprender a fazer fogueiras e a filosofar.

Essa jornada é para te dizer que se você parar para pensar, a chance de estarmos aqui pensando sobre o universo é inacreditavelmente pequena. É muito mais do que olhar para a natureza e achar que as coisas são impressionantes, é a realização de que tudo é perfeitamente condizente com a nossa existência. Quanto mais pequeno ou grande seu ponto de vista, o que se mantém constante é a percepção que não tinha muita variação possível no universo além do que temos agora.

E que essa suposta perfeição é mantida o tempo todo, incontáveis vezes por segundo, em toda e qualquer interação das coisas existem no universo. Eu já escrevi aqui sobre como existe uma chance (por enquanto teórica) de que o universo acabe numa catástrofe de falso vácuo, mas repito o resumo: encontramos uma regra na natureza, a de que as coisas sempre tendem a assumir o estado de menor esforço. Se a energia do universo tem algum lugar para ir de menos esforço que está agora, basta que aconteça em uma partícula que todo o universo eventualmente é destruído. Tipo uma bola rolando para um buraco mais fundo do que o anterior. Se não tiver buraco mais fundo, ela vai ficar parada onde está e podemos continuar vivendo. Se tiver um buraco mais fundo, ela eventualmente vai cair nele.

A própria existência depende de valores muito específicos, não no passado, mas no presente. Não vencemos o jogo quando a humanidade surgiu, estamos jogando até hoje, dependendo de trilhões de variáveis que não podem mudar muito para continuar existindo. Dá até para tirar uma conclusão filosófica cretina disso: tudo o que você faz é a culminação de bilhões de anos de possibilidades cada vez mais remotas.

Se você cutucar o nariz agora, a chance infinitesimal do universo ser como é e evoluir como evoluiu culminaram nesse ato. O objetivo final da existência é você cutucar o nariz! Quer dizer, até você parar e resolver fazer outra coisa. Até segunda ordem, os seus atos e pensamentos são as coisas mais complexas que existem, pelo menos do ponto de vista do ser humano. As estrelas explodiram por você, os buracos negros surgiram e acumularam galáxias ao seu redor para que você pudesse escolher se vai comer pizza hoje.

É meio papo de maconheiro, admito, mas tem um ponto, uma conexão com o primeiro parágrafo: eu disse que acreditar na existência de um criador dada a complexidade incrível e a improbabilidade das coisas terem acontecido como aconteceram é um dos argumentos mais razoáveis dos religiosos. Porque de certa forma, eu acredito em algo parecido. Eu acredito num criador. E mais, tenho certeza que esse criador é um ser consciente.

A diferença é que o meu criador não é um velho barbudo que mora nas nuvens nem mesmo uma entidade mágica da natureza. O criador… sou eu. E eu posso atestar que sou consciente. Eu criei esse universo inteiro e fiz com que todas as probabilidades acontecessem da forma como aconteceram. Da medida extremamente precisa da força da gravidade até mesmo o desenvolvimento da escrita na humanidade. Todas as coisas criadas por mim para chegar até esse texto aleatório num blog.

É óbvio: não fosse eu analisando isso, nada existiria. A realidade é fruto da percepção, e eu, assim como você, estou preso dentro da minha percepção para sempre. Toda a realidade é uma visualização gerada por uma consciência. Eu criei meu universo, você criou o seu. E não fosse essa sequência incrível de acontecimentos e regras universais, não teríamos como pensar nelas. O passado é uma função do presente: olhar para o mundo condensa todas as possibilidades num só resultado.

O problema fundamental da humanidade sempre foi esse: universos paralelos que tentam se comunicar deixando marcas uns nos outros. Milhares, milhões e eventualmente bilhões de deuses criadores. Criadores que culminam a existência do universo para cada pequena ação e pensamento de suas vidas, sem entender muito bem como elas vão se propagar pelo multiverso das consciências. Porque basta olhar para o passado para enxergar a complexidade que nos espera no futuro.

Eu poderia ter usado todo o trabalho de criar um universo para fazer um texto menos drogado? Poderia. Mas não era o meu plano escrever outro texto. Você tem noção de quanta coisa precisei fazer para chegar até aqui? Seria um desperdício de bilhões de anos não escrever.

De nada.

Para dizer que quer uma dose também, para dizer que queria criar um universo onde não tenha lido este texto (não queria não), ou mesmo para dizer que determinista não passarão: somir@desfavor.com

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