Alienígena.

Bom dia, classe. Vocês devem estar se perguntando por que a aula de hoje está acontecendo aqui nessa nave. A tela atrás de mim na verdade é uma janela. E quando eu desligo a função de monitor dela, vocês podem ver… a Terra. O nosso planeta.

Vocês já estão na idade de começar a fazer perguntas, e eu estou aqui para explicar o que puder sobre isso. A Terra é o nosso planeta, mas nós não estamos mais nela, por quê?

Tudo começou menos de um século atrás. Até o ano 2023, acreditávamos estar sozinhos no universo. Tudo mudou depois da primeira visita. Alguns meses antes, cientistas que moravam ali, na Terra, conseguiram captar uma gigantesca armada de naves espaciais vindo rapidamente em nossa direção. Foram meses bem complicados no planeta, o que vamos estudar com mais calma nas próximas aulas. O que importa hoje é dizer que não havia tecnologia na Terra para lidar com aquilo.

Nossos antepassados tentaram entrar em contato diversas vezes, mas as respostas… elas não faziam sentido. Recebíamos sons que pareciam uma linguagem, mas que ninguém era capaz de traduzir. E pra complicar, uma parte dos sons que eles enviavam nem era numa faixa que o ouvido humano conseguia captar. Fizemos esforços por muito tempo para tentar decifrar a comunicação alienígena, conseguimos fazer algumas fotos e vídeos deles no caminho, mas ninguém tinha noção clara de suas intenções.

Acabamos chamando-os de Plocs. Vários sons que eles emitiam pareciam com isso, foi um apelido que pegou nas redes sociais da época e acabou se tornando a forma oficial de se referir a eles.

Eram muitas naves, e só sinais sonoros incompreensíveis para nos guiar. As maiores potências militares da época se prepararam da melhor forma que poderiam, apenas torcíamos para que esses visitantes fossem pacíficos. Depois de mais de seis meses de muita ansiedade, as primeiras naves entraram em nossa órbita. Estávamos com milhares de mísseis e aviões prontos para interceptá-las. As mensagens de áudio deles continuavam chegando, cada vez mais frequentes.

Com o passar dos dias, as naves foram ocupando os céus das maiores cidades do planeta. Ninguém do planeta queria começar uma guerra que não sabia se seria possível de ganhar, os esforços de comunicação eram globais, mas infrutíferos. Quatro dias após a chegada da primeira nave, sobre uma grande cidade chamada Cidade do México, ali no continente chamado América do Norte. Estão vendo marcado na tela? Pois então, o primeiro raio caiu sobre essa cidade.

Era um enorme raio de luz azulada, que descia lentamente da nave até o chão. Algumas pessoas tentaram atirar de volta, mas os exércitos continuaram esperando. Quando a luz finalmente atingiu uma enorme área da cidade, percebemos que não era algo agressivo. Muito pelo contrário. As primeiras notícias falavam sobre uma sensação maravilhosa de ser banhado pela luz. Prazer, euforia, paz… cada pessoa dizia uma coisa, mas todas pareciam gostar muito do que sentiam.

As luzes foram sendo disparadas por todas as outras naves em rápida sucessão. Não causavam nenhum dano às estruturas, não eram radioativas, sequer geravam calor onde tocavam. Para todos os efeitos, a humanidade entendeu o contato como benevolente. Enquanto as notícias giravam o mundo, fomos percebendo todo aquele nervosismo dos meses anteriores virarem uma imensa festa de recepção.

Claro, o ser humano não é uma coisa só. Muitas pessoas ainda desconfiavam ou agiam de forma hostil às naves e suas luzes, mas a visão das pessoas sobre os visitantes se tornou muito melhor, rapidamente. Governos, cientistas e curiosos de todos os tipos continuavam se debruçando sobre os sons enviados pelos alienígenas, tentando entender alguma coisa. Além de não termos nenhuma forma de transformar os sons em símbolos e além de muitos dos sons só serem compreensíveis para computadores, os sons nem pareciam se repetir o suficiente para formarmos um vocabulário puramente sonoro. É como se eles apresentassem palavras novas a cada minuto, impossibilitando até mesmo que tentássemos imitar os sons para buscar algum contato.

As pessoas começaram a se movimentar do mundo todo para ficar debaixo da luz azul. O diâmetro médio da luz projetada é de 50 quilômetros. Se vocês olharem para essa imagem aproximada da superfície, vão perceber que elas ainda estão por lá. São duas mil, trezentas e dezoito naves estacionadas em órbita do planeta Terra, projetando essas luzes desde 2023 até hoje, em 2104. Quase toda população que ainda vive no planeta está concentrada nessas áreas.

E não, ainda não conseguimos entender a língua deles. O último estudo que temos sugere mais de dezenove quintilhões de sons distintos na suposta linguagem desses alienígenas. Só começamos a perceber um nível maior de repetição de sons há duas décadas, no máximo. Estimamos que tenhamos acesso a quase metade do vocabulário desses seres, mas é impossível até mesmo para nossos melhores computadores fazer senso da forma como eles se comunicam. Por isso, nos concentramos em suas ações.

E desde as luzes azuis, foram várias. Eu percebo que vários de vocês estão se perguntando por que estamos vivendo aqui, fora do planeta, se esses visitantes não estavam tentando nos fazer mal. Pois bem. Os Plocs nunca nos passaram a impressão de ter más intenções, mas isso não significa que nossa convivência tenha sido… tranquila.

Logo após as luzes, começaram relatos de pequenas naves saindo das maiores em órbita e começando a pousar na superfície de Terra. A maioria era pequena, não maior que um satélite, e totalmente esféricas. Elas flutuam com uma tecnologia que ainda não conseguimos entender, e se movimentam rapidamente pela atmosfera terrestre. A chegada delas gerou alguma tensão, mas nenhuma parecia agressiva contra seres humanos.

Muitas apenas flutuavam sobre áreas urbanas ou rurais, como se estivessem analisando o planeta e seus habitantes. Parecia lógico para o povo da época. Talvez tivessem usado a luz azul para mostrar boas intenções e agora estava estudando melhor quem estavam visitando. Esse processo durou algumas semanas, com apenas algumas interações hostis por parte dos habitantes locais, alguns por ignorância, outros por crueldade. Várias dessas naves foram abatidas por civis e militares, mas nada parecia irritar os visitantes. Respiramos aliviados pela compreensão deles.

Mas logo começamos a ficar confusos com as ações seguintes: num espaço de quatro horas, as naves se movimentaram rapidamente para a África e todos os cativeiros de… zebras. Sim, aquele animal que se parecia com um cavalo, mas tinha o corpo coberto de listras brancas e pretas. Os Plocs extinguiram as zebras do planeta com raios laser poderosos. Nesse momento, governos do mundo todo coçavam a cabeça sobre como lidar com a situação. Alguns ambientalistas até tentaram lutar de volta para demonstrar nossa insatisfação, mas as naves não se importaram.

Por que as zebras? Não sabemos. Ainda não sabemos, 81 anos depois. Depois disso, extinguiram várias outras espécies, inclusive de insetos e bactérias, sobre as quais ainda vamos aprender neste semestre. Não há nenhum padrão claro sobre os motivos de eliminarem essas espécies, cientistas sugerem que estavam eliminando organismos incompatíveis com sua genética, mas até hoje não encontramos nenhum elemento genético comum entre as espécies eliminadas violentamente pelos Plocs.

Depois, começaram a instalar os cubos. Os cubos são, como o nome diz, cubos sólidos de uma liga metálica de titânio, platina e algum elemento desconhecido, de quarenta e seis metros e meio de altura e largura. Foram instaladas mais de um milhão delas ao redor do planeta, inclusive algumas no fundo dos oceanos. Esses cubos emitem uma leve radiação, mas nada o suficiente para colocar em risco a saúde humana ou animal. Eles são extremamente resistentes, mas não invulneráveis. Descobrimos que causar qualquer dano a um dos cubos faz com que os Plocs substituam por um novo em questão de horas.

A cada quinze horas e quatro minutos, um dos cubos é aleatoriamente selecionado e começa a emitir uma iluminação esverdeada. Qualquer forma de vida que estiver a menos de dois metros e vinte três centímetros de distância é imediatamente transmutada em chumbo, num formato especial com a menor superfície possível. Esses objetos são coletados pela nave mais próxima e levados para a nave mãe regional. Não temos a menor noção da função desses cubos, até porque os alienígenas nunca tentaram extrair chumbo da nossa superfície.

Menos de um mês depois da chegada, outro fenômeno curioso começou a acontecer: as naves começaram a se aproximar de seres humanos, quase sempre os mais desprovidos, em comunidades carentes e marginalizadas, e entregar cubos de ouro maciço de em média cinco quilos. Embora isso tenha causado muita alegria em boa parte da população mundial, em questão de semanas o valor do ouro desabou. Um desses cubos não vale mais que um parafuso enferrujado hoje em dia.

E para quem estava curioso, é por isso que tantas partes da nossa nave são feitas de ouro. Era um material raro na antiguidade, mas temos suprimento basicamente infinito hoje em dia. Os Plocs parecem não entender o conceito de dinheiro ou escassez, assim que o ouro começou a valer menos, fizeram o mesmo com a platina, com diamantes e até mesmo notas de dinheiro. É impossível manter qualquer sistema financeiro na Terra por causa disso, assim que qualquer grupo volumoso o suficiente se decide por uma forma de armazenar valor, os Plocs inundam o mercado com ela.

Depois de exatamente vinte anos da sua chegada, os Plocs começaram a agir de uma forma ainda mais confusa: alguns sons emitidos passaram a ser punidos com extrema violência física. São combinações específicas mais comuns nas línguas germânicas e orientais do que nas de raiz latina. Alguns de vocês devem ter lido que a língua de nossos antepassados era o inglês e o mandarim, mas que falamos português hoje em dia. Falamos porque a língua mais popular na época com menos sons passíveis de punição física pelos Plocs era a língua portuguesa falada no Brasil, que vocês podem ver marcado na tela.

As punições são terríveis, mas nunca fatais. Os Plocs têm ao seu dispor uma tecnologia médica que consegue recuperar virtualmente qualquer trauma no corpo humano, e a usa logo depois de quebrar ossos e perfurar órgãos de seres humanos que proferiram os sons… errados. Lá no planeta a maioria das pessoas deixou de se comunicar por sons para evitar esse risco, mas os primeiros que vieram para as estações espaciais mantiveram a língua portuguesa viva.

Alguns outros fatores influenciaram nossa fuga do planeta para viver em estações espaciais como esta, como os Autômatos Violadores e a Genitalização Extrema da fauna, mas esses são assuntos que decidimos ficar a cargo de seus pais explicar, se eles quiserem. O que importa é que estamos seguros aqui em cima.

E um dia, vamos entender o que aconteceu e finalmente voltar para casa.

Para dizer que essa ficou confusa, para dizer que entende os Plocs, ou mesmo para dizer que o autômato violador só dói no começo: somir@desfavor.com

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Comments (6)

    • Muito pelo contrário. Eu escolhi escrever esse texto: uma coisa que eu raramente vejo na ficção é a ideia de uma civilização alienígena ser realmente… alienígena. O que a formiga entende sobre os hábitos de uma pessoa?

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  • “Genitalização Extrema da fauna”
    Deus nos livre de um mundo dominado por furries. Amém.
    Se bem que isso meio que já acontece com a flora, há séculos achamos normal presentear nossas amadas com um buquê de genitais de plantas.

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  • Fiquei realmente confuso com esse texto. Deve ter alguma coisa aí que ainda não devo ser capaz de entender…

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  • Então o Brasil é o país do futuro não porque vai se desenvolver, mas porque o resto do mundo vai piorar e cair pro mesmo nível?

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